segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As mulheres e as guerras


Sociedades em que as minorias são discriminadas têm maior probabilidade de envolver-se em guerras

A condição social das mulheres guarda relação direta com as guerras. Esse é o tema de uma revisão científica publicada pela revista "Science".

Desde os primórdios da humanidade, os homens se matam nas batalhas. Esqueletos desenterrados de cavernas pré-históricas exibem mais fraturas na cabeça quando pertencem ao sexo masculino. No entanto, identificar e separar fatores biológicos daqueles culturais envolvidos na gênese da violência, é tarefa intelectual de alta complexidade.

Até a década de 1990, os estudos ressaltavam que o subdesenvolvimento, a falta de democracia, a existência de um grande número de jovens desempregados e o nacionalismo estavam por trás dos conflitos armados.

Em 2000, Mary Caprioli, da Universidade de Minnesota (EUA), surpreendeu os especialistas ao publicar um trabalho no qual relacionava a posição subalterna da mulher na sociedade com as revoluções e as guerras entre os países.

A afirmação enfrentou reações acaloradas porque contrariava o conceito clássico de que o sexo feminino estaria associado à maternidade e à vida em paz por razões evolutivas e por imposições biológicas, como a baixa produção de testosterona.

Um dos principais críticos, Erik Melander, da Universidade de Uppsala, decidiu testar essa hipótese a partir de uma avaliação do status feminino em diversas sociedades, que levava em conta o sexo da maior liderança do país, a proporção de mulheres no Legislativo e o número delas com acesso ao ensino superior.

Para sua surpresa, os resultados não foram diferentes. Estados em que as mulheres viviam oprimidas apresentavam índices mais altos de prisioneiros políticos, assassinatos, desaparecimentos e maior risco de envolvimento em guerras civis e internacionais.

O problema metodológico com esses estudos é que não comprovam a relação de causa e efeito. A desigualdade entre os sexos poderia ser simples consequência de outros fatores ligados ao comportamento violento: pobreza, baixo nível educacional, fanatismo religioso e atraso cultural.

No livro "War and Gender" (guerra e gênero), o professor americano Joshua Goldstein abordou o seguinte aspecto: embora existam diferenças biológicas que mantêm a mulher afastada dos campos de batalha -como os cuidados com a prole-, elas sempre interagem com os valores culturais.

Segundo ele, os níveis de testosterona que aumentam quando um homem ganha dinheiro, é promovido no trabalho ou ganha um jogo, não explicam as diferenças bélicas entre suecos e paquistaneses, nem entre os suecos de hoje e seus antepassados vikings. Em seus estudos, a visão que mulheres e homens têm da guerra são muito mais semelhantes do que se imagina.

Diante da pergunta: "O conflito árabe-israelense deve ser resolvido pela via militar ou diplomática?", as escolhas de mulheres e homens israelenses, egípcios, palestinos e kuwaitianos foram praticamente iguais.

Quando os mesmos participantes responderam se era mais importante mandar para a escola um menino ou uma menina, as preferências machistas estavam tão associadas à beligerância, que o autor concluiu: "É possível prever quando uma pessoa optará pela guerra ou pela paz entre árabes e judeus, com base apenas no que pensa sobre igualdade sexual".

Conclusões similares foram tiradas nas pesquisas sobre preconceitos étnicos: sociedades em que as minorias são discriminadas têm maior probabilidade de envolver-se em guerras externas e internas.

Mesmo quando elas eclodem, países mais igualitários tendem a fazer as pazes com mais facilidade.

Avaliando a expectativa de vida das mulheres em relação à dos homens e a proporção de matrículas na escola secundária entre os dois sexos, existentes em 124 países em guerra civil, no período de 1945 a 2000, Ismene Gizelis, da Universidade Essex, no Reino Unido, demonstrou que as iniciativas de pacificação das Nações Unidas obtiveram mais sucesso nos Estados em que existia maior igualdade entre os sexos, antes do começo da guerra.

Baseado nesses estudos, ao falar sobre a necessidade de medidas para promover ascensão social das mulheres, o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, declarou em 2005: "Eu diria que nenhuma política é mais importante na prevenção das guerras ou para impor a paz quando um conflito chega ao fim".

DRAUZIO VARELLA

A voz das provas



Relator Joaquim Barbosa se expandiu em imputações compostas só de palavras; tem sido um comportamento reiterado

Foi uma das coincidências de tipo raro, por sua oportunidade milimétrica e preciosa. Várias peculiaridades do julgamento no STF, ontem, foram antecedidos pela manchete ao pé da página A6 da Folha de domingo, título de uma entrevista com o eminente jurista alemão Claus Roxin: "Participação no comando de esquema tem de ser provada".

O subtítulo realçava tratar-se de "um dos responsáveis por teoria citada no julgamento do STF", o "domínio do fato". A expressão refere-se ao conhecimento de uma ocorrência, em princípio criminosa, por alguém com posição de realce nas circunstâncias do ocorrido. É um fator fundamental na condenação de José Dirceu, por ocupar o Gabinete Civil na época do esquema Valério/PT.

As jornalistas Cristina Grillo e Denise Menchen perguntaram ao jurista alemão se "o dever de conhecer os atos de um subordinado não implica corresponsabilidade". Claus Roxin: "A posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta". E citou, como exemplo, a condenação do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, na qual a teoria do "domínio do fato" foi aplicada com a exigência de provas (existentes) do seu comprometimento nos crimes. A teoria de Roxin foi adotada, entre outros, pelo Tribunal Penal Internacional.

Tanto na exposição em que pediu a condenação de José Dirceu como agora no caótico arranjo de fixação das penas, o relator Joaquim Barbosa se expandiu em imputações compostas só de palavras, sem provas. E, em muitos casos, sem sequer a possibilidade de se serem encontradas. Tem sido o comportamento reiterado em relação à quase totalidade dos réus.

Em um dos muitos exemplos que fundamentaram a definição de pena, foi José Dirceu quem "negociou com os bancos os empréstimos". Se assim foi, é preciso reconsiderar a peça de acusação e dispensar Marcos Valério de boa parte dos 40 anos a que está condenado. A alternativa é impossível: seria apresentar alguma comprovação de que os empréstimos bancários tiveram outro negociador -o que não existiu segundo a própria denúncia.

Outro exemplo: a repetida acusação de que José Dirceu pôs "em risco o regime democrático". O regime não sofreu risco algum, em tempo algum desde que o então presidente José Sarney conseguiu neutralizar os saudosos infiltrados no Ministério da Defesa, no Gabinete Militar e no SNI do seu governo. A atribuição de tanto poder a José Dirceu seria até risível, pelo descontrole da deformação, não servisse para encaminhar os votos dos seguidores de Joaquim Barbosa.

Mais um exemplo, só como atestado do método geral. Sobre Simone Vasconcelos foi onerada com a acusação de que "atuou intensamente", fórmula, aliás, repetida de réu em réu. Era uma funcionária da agência de Marcos Valério, por ele mandada levar pacotes com dinheiro a vários dos também processados. Não há prova de que soubesse o motivo real das entregas, mesmo admitindo desde a CPI, com seus depoimentos de sinceridade incomum no caso, suspeitar de motivo imoral. Passou de portadora eventual a membro de quadrilha e condenada nessa condição.

Ignoro se alguém imaginou absolvições de acusados de mensalão. Não faltam otimistas, nem mal informados. Mas até entre os mais entusiastas de condenações crescem o reconhecimento crítico do descritério dominante, na decisão das condenações, e o mal-estar com o destempero do relator Joaquim Barbosa. Nada disso "tonifica" o Supremo, como disse ontem seu presidente Ayres Britto. Decepciona e deprecia-o -o que é péssimo para dentro e para fora do país.

Tirania amiga

Uma das grandes razões pelas quais "democracia" é uma palavra que significa muito pouco no Oriente Médio foi dada na semana passada.

Gostamos de ver países ocidentais como EUA, França e Inglaterra como atores globais responsáveis que usam sua força para pressionar reformas democráticas em países totalitários. No entanto eles mostram, na periferia do mundo, como sua noção de "democracia" é, digamos, singular.

Semana passada, o Pentágono notificou o Congresso norte-americano sobre o projeto de venda de US$ 6,7 milhões em equipamento militar para a Arábia Saudita. Em 2010, os EUA fecharam uma venda recorde de US$ 60 milhões em equipamentos, muitos deles utilizados para ocupar militarmente o Bahrein a fim de esmagar revoltas que pediam padrões mínimos de democracia.

O fato aberrante aqui é que a Arábia Saudita concorre cabeça a cabeça com a Coreia do Norte para ser o país mais totalitário do mundo.

Monarquia absoluta teocrática sem partidos, sem Constituição, sem Parlamento e sem nem sequer um simulacro de eleição, a Arábia é o país no Oriente Médio que mais brutalmente trata as mulheres, não reconhecendo a elas sequer o estatuto jurídico de pessoa autônoma. Seu sistema legal é tão arcaico que adultério pode ser condenado com pena de morte.

Pode-se dizer que, contrariamente a países como a própria Coreia do Norte e o Irã, uma Arábia Saudita forte-mente armada não representa ameaça a seus vizinhos. Entretanto isso é falso.

Grupos salafistas que atuam na Tunísia e no Egito procurando impor um Estado teocrático, usando métodos cada vez mais violentos, são generosamente financiados pelos sauditas e pelo Qatar.

Por outro lado, desde a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein, nenhum outro país árabe havia mandado suas tropas para outro país árabe, como fizeram os sauditas para defender a monarquia absoluta do Bahrein. Ou seja, a Arábia é um polo de desestabilização de todo esforço democrático na região.

Este é, juntamente com Israel, o mais fiel aliado do Ocidente na região. Fato que demonstra a vacuidade do discurso dos direitos humanos quando proferidos por antigas potências coloniais.

Em uma situação normal, o ato de armar os sauditas seria objeto de revolta contra a ausência de limites da "realpolitik" da diplomacia internacional. Ele seria a prova de que o tempo dos discursos vazios sobre direitos humanos não passou. Pois ainda parece valer a lógica bem descrita na suposta declaração de Franklin Roosevelt a respeito do ditador nicaraguense Anastasio Somoza: "Ele pode ser um [palavrão impublicável], mas é nosso [o palavrão de novo]".

VLADIMIR SAFATLE

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Humanos graças à cozinha



O que nos torna humanos, seres com capacidade cognitiva superior à dos outros animais? "Nosso enorme número de neurônios" é a resposta que damos em meu laboratório.

Mesmo com um cérebro menor do que o de elefantes e baleias, somos provavelmente os seres com o maior número de neurônios no cérebro, cerca de 86 bilhões.

Como conseguimos tantos neurônios em um cérebro só? Por que um gorila chega a ser três vezes maior do que nós, mas tem o cérebro três vezes menor do que o nosso, com três vezes menos neurônios?

Um novo trabalho de nosso laboratório, publicado na PNAS ("Proceedings of the National Academy of Sciences") em outubro e que ganhou os jornais do mundo, ofereceu pela primeira vez resposta às duas questões: a energia fornecida pela dieta limita o tamanho de corpo e de cérebro que os primatas conseguem sustentar --e estamos aqui porque conseguimos burlar essa limitação.

Com sua dieta crua, manter o corpo e o cérebro que têm já custa aos gorilas quase oito horas diárias de alimentação; quando a estação não ajuda, eles perdem peso.
Fazendo as contas, mostramos que, para um gorila, sustentar além do corpo enorme um cérebro maior ainda não seria energeticamente viável.

Pelas mesmas contas, dado nosso cérebro com três vezes mais neurônios que o dos gorilas... também não deveríamos estar aqui. Com a mesma dieta dos outros primatas, oHomo sapiens não é energeticamente viável: deveríamos passar mais de nove horas por dia comendo para conseguir sustentar o corpo e o cérebro que temos.

Mas estamos aqui e não precisamos passar nove horas por dia comendo. Por quê? Fazemos coro com o primatólogo Richard Wrangham: o que possibilitou o aparecimento de nossa espécie, com seu cérebro cheio de neurônios, foi uma invenção sensacional de algum antepassado nosso, possivelmente Homo erectus: a cozinha.

Cozinhar é uma forma de pré-digestão que não só mais que dobra o rendimento energético dos alimentos como reduz drasticamente o tempo necessário para ingeri-los.

Quando fica fácil conseguir em pouco tempo todas as calorias necessárias para passar o dia, ter um cérebro grande deixa de ser um risco e passa a ser uma vantagem --e propomos que foi essa mudança que impulsionou o aumento enorme e rápido do tamanho do cérebro de nossos antepassados.

Excelente. O problema, contudo, é que nossas invenções seguintes, como a agricultura, a geladeira e o supermercado, tornaram fácil demais... comer demais.


Suzana Herculano-Houzel