sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Cérebro ideológico

Muito interessante o exercício do Datafolha de mensurar o conservadorismo/liberalismo da população paulistana. O ligeiro excesso de pessoas com ideias mais à direita (34% contra 27%) ajuda a explicar o fenômeno Russomanno, mas isso é só a ponta do "iceberg".

Desde que a ciência começou a investigar a orientação política das pessoas, há cerca de 40 anos, tivemos algumas surpresas. Para começar, o papel do DNA é maior do que se suspeitava. Um estudo de John Hibbing de 2005 que envolveu mais de 8.000 pares de gêmeos nos EUA estimou que genes respondiam por 53% da variação no perfil ideológico.

Cuidado, não se deve imaginar aqui que existe o gene do PT e o do PSDB. O efeito é bem mais indireto.

Fatores hereditários têm peso importante na formação da personalidade, que é razoavelmente estável ao longo da vida e determinante para definir como nos sentimos em relação a uma série de questões como igualdade, justiça, autoridade, pureza -itens que constituem a base da identidade moral de cada indivíduo.

Outro ponto interessante é que já quase dá para ver a coloração política das pessoas em exames de neuroimagem. Um trabalho de 2011 de Ryota Kanai mostrou que conservadores tendiam a ter amígdalas, estruturas cerebrais envolvidas na memória das emoções, maiores e mais ativas. Já liberais exibiam maior quantidade de massa cinzenta no córtex anterior cingulado, que processa informações contraditórias. O conservador seria assim um sujeito mais intuitivo e com baixa tolerância a incertezas. O liberal, por seu turno, seria mais reflexivo. Não liga tanto se o mundo é um lugar meio sem sentido.

O bacana aqui é que, como o voto é o resultado de interações complexas entre indivíduo e sociedade, por mais que avancemos no entendimento do cérebro ideológico e da política partidária, eleições, ainda que encerrem alto grau de previsibilidade, sempre nos reservarão surpresas.

Hélio Schwartsman 

Conservador x liberal

Inclinação conservadora em SP impulsiona Russomanno

Datafolha testa valores do eleitorado para medir grau de conservadorismo
O candidato do PRB tem 35% das intenções de voto na cidade, mas atinge 41% no grupo dos eleitores conservadores

Primeira constatação: em São Paulo, há mais eleitores identificados com valores conservadores do que liberais. Mas não em quantidade suficiente para formar maioria, pois um contingente considerável deve ser enquadrado na categoria mediana, nem conservador, nem liberal.

Segunda constatação: são os conservadores que estão dando impulso ao candidato Celso Russomanno (PRB), líder isolado na disputa pela prefeitura com 35% das intenções de voto.

No segmento dos conservadores, o maior na escala que classifica os eleitores em cinco grupos conforme suas inclinações políticas, Russomanno atinge 41%.

Todos esses dados foram apurados pelo Datafolha, na pesquisa de 18 e 19 de setembro com 1.802 pessoas e margem de erro de dois pontos.

Esta é a primeira vez que o Datafolha posiciona os paulistanos numa escala de conservadorismo e liberalismo.

O trabalho foi feito a partir de um conjunto de questões envolvendo valores sociais, políticos e culturais, como a influência da religião na formação do caráter e o entendimento sobre as causas da criminalidade, por exemplo.

A partir das respostas, o instituto agrupou os eleitores em cinco categorias. Os extremamente conservadores representam 10% do eleitorado. Conservadores são 34%. Medianos, 23%. Liberais somam 27%. E extremamente liberais, 6%.

Entre os eleitores simpáticos ao tucano José Serra (21% das intenções de voto), também há predominância conservadora. O recorde de Serra ocorre entre os extremamente conservadores, 24%.

Já o petista Fernando Haddad (15% das intenções de voto) aparece com destaque no polo oposto. Se a eleição fosse feita apenas entre as pessoas identificadas como extremamente liberais, Haddad seria o líder, com 24%.

PERFIL

Num debate sobre conservadorismo no fim de agosto na USP, o cientista político André Singer citou algumas características que, no seu entendimento, são definidoras do conservadorismo.

Entre elas estão uma tendência forte ao individualismo, a concepção de que os problemas sociais se resolvem por meio da iniciativa privada e a rejeição a qualquer forma de intervenção social pelo Estado. O liberalismo, portanto, seria o oposto disso.

Nos perfis apurados pelo Datafolha, as distinções mais evidentes ocorrem nos extremos, como era de se esperar.

A fatia de extremo-conservadorismo é a única que tem mais homens que mulheres (61% masculina), a de eleitores mais velhos (média de 49 anos) e a com o maior contingente de pessoas com ensino fundamental (42%).

Já os extremamente liberais são os mais ricos (24% têm renda familiar superior a R$ 6.220), os mais jovens (37 anos) e os mais escolarizados (58% têm ensino superior).

Outras pistas estão nas respostas às perguntas usadas para fazer os agrupamentos.

A questão que mais dividiu os paulistanos é a que trata da pena de morte. Para 56%, "não cabe à Justiça matar uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave". Outros 41% acham que a pena de morte "é a melhor punição" nesses casos.

A frase com maior vantagem sobre sua alternativa foi "o uso de drogas deve ser proibido porque toda a sociedade sofre com as consequências", com 81% de aceitação. Ganhou de "Acreditar em Deus torna as pessoas melhores", aprovada por 79%.


Russomanno combina protesto e tradição
Candidato parece a resposta para eleitores que, apesar da inclinação conservadora, desejam mudanças na cidade
Passada a surpresa inicial, a liderança persistente de Celso Russomanno (PRB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo já encontrou diversas tentativas de explicação.

De subproduto do lulismo a patrulheiro da nova classe média, passando pela figura do anti-Kassab, todas as teses encontram fundamento. Mas são poucos os dados utilizados para ilustrá-las. A pesquisa divulgada hoje pela Folha permite que uma dessas teorias seja testada.

O argumento de que certo conservadorismo paulistano sustentaria uma candidatura com as características como a de Russomanno fora ventilado recentemente. Mas quanto, de fato, a população da capital é conservadora?

E seria o candidato do PRB o nome com melhor desempenho nesses estratos do eleitorado? Qual candidatura, então, poderia se destacar nos segmentos mais liberais?

Levantamentos anteriores realizados pelo Datafolha em eleições para prefeito de São Paulo revelaram que o paulistano pende politicamente à direita e que só rompe com a tradição para protestar.
Mas a autoclassificação baseada apenas no espectro político é limitadora para dividir os eleitores segundo o grau de conservadorismo.

A alternativa adotada pelo Datafolha foi inspirada em escalas internacionais de classificação do nível de conservadorismo dos eleitores por meio da opinião em relação a temas polêmicos. Como referência, adaptou se à realidade paulistana a tipologia política usada pelo Pew Research Center para qualificação do voto norte-americano.

Com base nas respostas do eleitor a uma bateria de perguntas sobre assuntos como homossexualismo, posse de armas, pena de morte, imigração, pobreza, drogas, criminalidade, religião e sindicalismo, o Datafolha dividiu a população em cinco grupos. A conclusão é que os eleitores que tendem ao conservadorismo chegam a 44%, sendo que 10% se mostram extremamente conservadores. No lado oposto, demonstram posturas mais liberais 33% dos paulistanos, sendo que 6% se revelam muito liberais. Compõem um grupo intermediário 23% dos entrevistados.

Os que se enquadram no grupo de extremo conservadorismo são mais velhos e menos escolarizados, e residem, acima da média, nos bairros da zona leste mais próximos ao centro. Nesse segmento, 90% concordam, por exemplo, que a maior causa da criminalidade é a maldade das pessoas, e 66% acham que boa parte da pobreza está ligada à preguiça.

É nesse conjunto de eleitores que José Serra (PSDB) obtém seu melhor desempenho na corrida à Prefeitura e onde Fernando Haddad (PT) encontra sua maior rejeição.

No extremo oposto da escala, entre os muito liberais, estão os mais jovens, mais escolarizados e moradores da zona oeste acima da média. Nesse segmento, Haddad alcança a liderança, Soninha Francine (PPS) salta para dois dígitos e Carlos Giannazi (PSOL) chega a 6%. Serra é rejeitado por 51% desse estrato e Russomanno, por 42%.

Mais de 90% dos que integram o grupo concordam que a maior causa da criminalidade, assim como da pobreza, é a falta de oportunidades iguais para todas as pessoas.

Por sua vez, Russomanno lidera em 4 dos 5 grupos de classificação e apresenta bom desempenho também entre os liberais, mas sua taxa de intenção de voto só fica acima da média entre os conservadores.

A cobertura abrangente explica a liderança folgada de uma candidatura que até aqui conseguiu convencer os que demandam mudanças sem negar a inclinação conservadora do paulistano.

Em ambiente dominado pela insatisfação, em busca do anti-Kassab, os eleitores parecem ter encontrado um candidato que lhes assegura a combinação perfeita entre protesto e tradição.

A mulher de Cristo

A divulgação de um suposto papiro copta que menciona a "mulher de Jesus" pôs mais uma vez o mundo a debater se Cristo era ou não casado. Não tenho nada contra essa discussão, mas há uma outra, anterior, que quase nunca é lembrada: Jesus, de fato, existiu?

É certo que, como ideia, ele é real. Em seu nome edificaram não uma, mas centenas de igrejas. Por isso mesmo é interessante saber se à figura mítica corresponde um personagem histórico de carne e osso.

O que salta à vista aqui é a notável ausência de documentação contemporânea aos supostos fatos. Há quase que apenas os Evangelhos, que tinham muito mais o objetivo de propagar a nova religião do que de registrar eventos. Para piorar, o mais antigo dos Evangelhos canônicos, o de Marcos, foi escrito ao menos 40 anos após a alegada crucificação, o que significa que não pode ser considerado uma fonte primária. Os evangelistas escreveram o que ouviram dizer, não o que testemunharam.

Há ainda umas poucas e rápidas menções a Jesus em autores não cristãos, como Flávio Josefo, Plínio, Tácito e Suetônio. Mas eles estão ainda mais longe dos fatos do que os evangelistas, e historiadores acreditam que essas referências podem ter sido introduzidas por copistas.

É claro que ausência de evidências não é evidência de ausência. Um Jesus histórico poderia perfeitamente ter existido mesmo que sua odisseia não tivesse sido capturada pela, em geral eficaz, burocracia romana.
Karen Armstrong, no excelente "Em Defesa de Deus", mostra que, muito mais do que o ateísmo ou o darwinismo, o que incomodou os religiosos do fim do século 19 e início do 20 foi o advento da alta crítica, um ramo da teologia que estudava a Bíblia e a vida de Cristo não como milagres, mas como fenômenos literários e históricos. Para Armstrong, o fundamentalismo cristão surgiu exatamente como uma reação a essa dessacralização das Escrituras.