segunda-feira, 28 de maio de 2012

A ereção e seus percalços

Quando a idade avança, é o desejo quem manda; mas, então, o que anima nossas partes? 



DIFERENTEMENTE DAS mulheres, um homem não pode ser forçado ao congresso carnal com uma jovem que lhe encoste um revólver nas têmporas. Seu genital, ao invés de se animar, encolherá. Um verdadeiro banho de água fria. Assim a seleção natural nos preparou para a luta ou para a fuga (prefiro a última), diante de uma ameaça.

Mas, então, o que anima nossas partes? "Esse obscuro objeto do desejo", como chamou Buñuel. Não estou falando de um adolescente em quem o simples balanço de um ônibus é capaz de produzir embaraços.

Mas quando a idade avança, é o desejo quem manda. Qualquer homem que tentou comandar sua ereção, fê-lo debalde, pois o membro teima em desobedecer-lhe, animando-se quando não devia, desanimando-se quando ele mais precisava.

O desejo. Não confundir com a vontade. Ele é obscuro porque se trata de um iceberg imenso, com 10% visíveis (a vontade) e 90% imersos no oceano do inconsciente. São esses que comandam, com sua extrema complexidade, o resultado final.

Considere o exibicionista da capa de chuva. Ele goza com sua nudez mostrada? Não. O objeto de seu desejo é o horror pudico demonstrado pela vítima. Atualmente correria o risco de ser alvo de chacota -"Tudo isso para mostrar essa coisinha?"- e sua ereção desabaria. Não à toa ele saiu de moda.

Mas há nele um denominador comum com o desejo masculino: se a manobra der certo, ele estará no comando, portanto, não se sentindo ameaçado. "As deusas são sempre malcomidas, porque nos ameaçam", é uma crença masculina generalizada. Quando jovens, nossa musa romântica nunca era parte de devaneios masturbatórios, mas sim as degradadas, que não ameaçavam e podiam ser tão sacanas quanto nós. As outras, coitadas, ficavam prisioneiras de sua santidade. Por isso, o bom cafajeste é aquele que permite à mulher ser sexuada, não considera nenhuma como santa, eis o segredo de seu sucesso.

A ameaça que impede a ereção se parece com a inibição de urinar, que muitos homens sofrem quando estão no banheiro do cinema, aquela fila impaciente atrás a lhes cobrar que se despachem. Imagine a profissional dizendo "Como é, meu filho, vamos logo..."

O fetiche (que vem de "feitiço") é o truque de despersonalizar a mulher, para tirar a possível ameaça de ter que levá-la em conta. "Se veste de enfermeira para mim?" equivale a "Deixe de ser você, para eu não ter medo". "Quando ela espirrou, eu brochei" (a pessoa apareceu, quebrou-se o feitiço).

Afora o Ziraldo, que proclama nunca ter sofrido esta desdita, todos nós outros brochamos, em algum momento. O sucesso do Viagra vem da ilusão de mandar na ereção. "Mas, então, não há homens que transem com mulheres sem precisar de truques?" Claro que os há, tanto que os encontros, quando o casal ganha mais intimidade, são muito melhores do que os primeiros.

Mesmo assim, os orgasmos são comumente frutos de passeios mentais (serve para ambos os gêneros), que somente em alguns momentos envolvem a pessoa com quem se está. O passeio na complexidade de nosso desejo.

Enfim, cobrar sexo de um homem é um tiro no pé.


FRANCISCO DAUDT

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