sexta-feira, 30 de março de 2012

Nunca é tarde

Mulheres mais velhas aprendem que a verdadeira realização é poder investir nos próprios desejos 


No Brasil, o corpo é um capital. A crença de que o corpo jovem, magro e perfeito é uma riqueza produz uma cultura de enorme investimento na forma física e, também, de profunda insatisfação com a própria aparência.

Quase 100% das brasileiras se sentem infelizes com o próprio corpo.

Ter uma família também é importantíssimo. Casar e ter filhos é um desejo ainda muito presente em todas as gerações e classes sociais. Muitas brasileiras, no entanto, se sentem frustradas por não serem reconhecidas ou valorizadas por maridos e filhos.

Uma professora de 41 anos disse: "Passei a vida inteira cuidando da casa, do marido e dos filhos. Meu marido me traiu com uma garota de 22 anos. Meus filhos nem respondem aos meus telefonemas. Deles, só recebo patadas. Minha única alegria são meus gatos e cachorros".

Ao pesquisar mulheres mais velhas, descobri outra realidade. Muito mais importante do que a aparência e o marido é a liberdade que adquiriram com a maturidade.

Uma médica de 63 anos disse: "Descobri que a verdadeira realização não está no corpo perfeito, na família perfeita, no trabalho perfeito, na vida perfeita, mas na possibilidade de exercer meus desejos, explorando caminhos novos e tendo a coragem de ser diferente. Descobri que não devo me comparar a outras mulheres, pois posso ser única e especial".

Mais velhas, elas passam a exibir seus corpos sem medo do olhar dos outros, sem vergonha das imperfeições e sem procurar a aprovação masculina.

Aprendem que a felicidade pode estar em coisas simples, como dar risadas com as amigas, ter uma alimentação saudável, caminhar na praia. Passam a investir nos próprios prazeres, como fazer pilates, estudar, viajar etc.

Elas passam a cuidar de si mesmas com o mesmo carinho que dedicaram aos filhos, marido, familiares. Não se sacrificam mais e não se esforçam tanto para provar o próprio valor. O centro do cuidado deixa de ser para o outro e passa a ser para si.

Uma professora aposentada de 75 anos disse: "Não tenho marido e sou feliz. Invisto meu tempo, energia e dinheiro em mim. Não me preocupo mais com a opinião dos outros. Não tenho mais medo de dizer o que penso e quero. Tudo ficou muito melhor com a idade. Fiquei mais segura, confiante e autêntica. Pena que descobri a liberdade de ser eu mesma tão tarde. Espero que minhas netas descubram o valor da liberdade muito mais cedo".


MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga

terça-feira, 27 de março de 2012

Sexo e vergonha

Os que consideramos maníacos sexuais 
são apenas os que praticam mais sexo do que a gente 



IMAGINE ALGUÉM que acaba sua noite com um sexo rápido e intenso, em pé, embaixo de uma ponte, e eis que, uma vez em casa, ele entra na internet e transa virtualmente com uma stripper de site on-line.

Não há gozo que lhe baste: sempre sobra a vontade de mais uma vez, mesmo que seja se masturbando com esforço. Outra noite, depois de ter brincado pesado com uma moça num bar, ele se pega com um cara no labirinto de uma boate gay: na procura por mais sexo, vale tudo.

Mas cada rosa tem seus espinhos. O disco rígido do nosso jovem está repleto de pornografia, até no computador do escritório -o que é arriscado. E, sobretudo, ele está aflito: a vergonha o leva a jogar fora (periodicamente) os apetrechos de sua sexualidade fantasiosa, e ele sente culpa de não conseguir ser o irmão, o amigo -e, quem sabe, o namorado- que ele talvez gostasse de ser.

Se esse alguém pedir ajuda a um terapeuta, alguns colegas tirarão da manga o "diagnóstico" de sexo-dependência ("sexual addiction") e proporão o programa em 12 passos (ensinado nas especializações em sexo-dependência), para que o indivíduo aprenda a se controlar e a renunciar, ao menos em parte, ao sexo, que teria se tornado, para ele, uma espécie de droga.

Mesmo sem acreditar nos 12 passos, outros colegas concordarão com o diagnóstico e simpatizarão com o "óbvio" sofrimento do "sexo-dependente" -afinal, eles imaginarão, essa prática endemoniada do sexo "deve", no mínimo, aviltar o indivíduo aos seus próprios olhos.

Outros colegas ainda (e eu com eles), ao receber o pedido de ajuda de um suposto sexo-dependente, reagiriam de maneira diferente: não se preocupariam nem com as fantasias, nem com as práticas sexuais do paciente, mas com a culpa e a vergonha que as acompanham.

Eu também anunciaria ao paciente que não sei (ninguém sabe) disciplinar o desejo sexual; só posso, se ele quiser, tentar disciplinar a culpa e a vergonha que azucrinam sua vida e estragam seus prazeres.

Quem viu "Shame" (vergonha), de Steve McQueen, percebeu que nosso paciente hipotético se parece com o protagonista do filme.

Em cartaz desde sexta passada, "Shame" é, ao mesmo tempo, ousado e careta. Ousado, pelo retrato da procura sexual do protagonista (muitos, sem dúvida, se reconhecerão), e careta, porque essa procura parece ser necessariamente doentia, culpada e vergonhosa.

Concordo com Cássio Starling ("Ilustrada" de 16/3): o filme é ótimo, mas discordo do destaque do artigo, segundo o qual "McQueen foge do moralismo ao abordar a compulsão por sexo". Quem enxerga o desejo sexual do outro como uma patologia é sempre moralista. Em matéria de sexo, patologizar é o jeito moderno de estigmatizar e policiar (conselho: fuja de parceiros que acham você "doente").

McQueen (na mesma "Ilustrada") declarou que o negócio dele é desafiar as pessoas. Ora, apresentar um obcecado por sexo como um doente que sofre de vergonha e culpa, isso não é desafio algum -ao contrário, é a confirmação de um lugar-comum.

Um lugar-comum confirmado por psiquiatria e psicologia? Nem isso.

Certo, desde o século retrasado, a psiquiatria e a psicologia são regularmente chamadas a substituir a religião, que (digamos assim) cansou de ser a grande ordenadora e controladora do comportamento humano. No caso, a ideia da "sexo-dependência" surgiu nos anos 1970 -provavelmente, como reação contra o interesse "excessivo" pelo sexo durante a dita liberação sexual dos anos 1960.

Mas, sentindo talvez o bafo do moralismo, muitos psiquiatras e a psicólogos receberam essa categoria diagnóstica com desconfiança. Quem a adotou e promoveu foram a imprensa e o grande público (e isso bastou para que surgisse uma pequena indústria de clínicas, programas universitários etc.). Mas por quê, então, esse sucesso popular da "sexo-dependência", na qual McQueen parece acreditar?

Apenas uma constatação: a associação de sexo com vergonha e culpa é um bordão cultural muito antigo, no qual somos convidados a acreditar por todo tipo de poder. A exigência de domesticar o desejo sexual parece ser, aos olhos de todos, um pré-requisito básico de qualquer ordem social.

Além disso, há a eterna inveja dos reprimidos: como dizia Alfred Kinsey, em regra, os que consideramos doentes e maníacos sexuais são apenas os que praticam mais sexo do que a gente.


CONTARDO CALLIGARIS

sexta-feira, 23 de março de 2012

Inveja dos finlandeses

Estamos sempre tropeçando nos cadarços desamarrados de nossa cordialidade; só um tchauzinho é quase um insulto 


Entro no bar, a vejo, vejo que ela me vê -e, durante o longo segundo que dura o resvalar de nossas pupilas, vivo aquele microdilema da vida social: vou até lá e dou oi ou abaixo a vista e finjo que não a reconheci?

Não lembro seu nome. Marcela? Margarida? Maristela, talvez. Faz uns dez anos, namorou um conhecido meu. Naquela época, dividimos a mesa duas ou três vezes, trocamos algumas frases -nunca os telefones-, mas ela sabe quem eu sou, eu sei quem ela é, e isso é razão suficiente para que eu tenha que dar oi. Ou não?

Ah, ser brasileiro dá um trabalho! Aposto que um finlandês de seis anos já sabe exatamente quem precisa cumprimentar, diante de quem pode passar reto, qual o grau de proximidade que permite apenas um tchauzinho, de longe.

Aqui, contudo, estamos sempre tropeçando nos cadarços desamarrados de nossa cordialidade. Um tchauzinho de longe é quase um insulto. Um oi deve necessariamente ser seguido por uma conversinha sobre o tempo, lamentos sobre o longo intervalo desde o último encontro, uma breve entrevista acerca dos parentes, cônjuges, amantes, amigos, inimigos, o cachorro e o papagaio, promessas de nos vermos mais, um convite para o almoço semana que vem, quem sabe restabelecer aquele futebol das terças, fundar uma revista literária ou voltar pra Caraiva; ah, 1997, aquilo sim é que foi Réveillon!

A brasilidade não admite meios tons: ou se é ou não se é, e com todo o peso de nossa desfraldada sociabilidade sobre minhas cansadas retinas, decido não ser; as volto para o chão, dou uma coçada na barriga, simulo grande interesse no piso, passo reto e sento no fundo do bar.

A culpa, contudo, é como uma espinha na bunda: espeta assim que botamos as nádegas na cadeira, e como o neurótico é um péssimo economista, que prefere pagar dez de juros aos cinco da dívida, tenho a ideia de jerico de ir até a garota -não apenas para dar oi, mas pedir desculpas e explicar que passei reto pois não a reconheci.

Mal termino de cumprimentá-la, vejo em seus olhos o brilho opaco do horror. Claro, ela tampouco pretendia me dar oi -e se um olá de passagem já seria trabalhoso, o que dizer dessa missão diplomática de Brancaleone?

O que se segue é uma cena de cartoon, os dois fugindo do silêncio como personagens subindo uma escada a desmilinguir-se: falamos sobre o tempo -"O dia mais quente em março, desde 1943!"-, sobre "o pessoal" -"A Ju? Agora, assim, não tô lembrando..."-, ela me diz que vai para o interior, na Páscoa- "Nossa, Páscoa, já? O ano voa!"- e que sua filha, Gabriela, vai ficar com a mãe. Empenhados em alimentar o papo, apressado e chocho como uma fogueira de jornais, não deixamos pausa para uma retirada. Estamos num labirinto, afundando na areia movediça da afabilidade e é ao me ouvir elogiando a qualidade das estradas paulistas que me dou conta: é tarde demais, jamais conseguirei romper aquele laço, estou condenado a continuar a conversa para sempre, adotar a tal Gabriela, aceitar a nova sogra, ir pro interior na Páscoa, conhecer a Ju -e torcer para que, até lá, eu lembre o nome daquela mulher. Marcela? Margarida? Maristela, talvez.

Às vezes, tenho inveja dos finlandeses.

ANTONIO PRATA

domingo, 4 de março de 2012

A espantosa boca-livre da banca

No total mundial, as injeções de recursos públicos chegaram ao equivalente a dois Brasis


O Banco Central Europeu promoveu ontem mais uma fenomenal boca-livre, doando a cerca de 800 bancos € 529,5 bilhões (US$ 712,8 bilhões, R$ 1,2 trilhão). Em dezembro, apenas três meses antes, portanto, outra colossal boca livre havia oferecido € 489 bilhões aos bancos (523 naquela ocasião).

Quando digo "doação", não estou exagerando: os juros cobrados pelo BCE (1%) não existem nem em operações de pai para filho nos tempos modernos. Em contrapartida, os bancos podem comprar, por exemplo, títulos da dívida de países encalacrados, que lhes rendem cinco, seis, sete, oito vezes mais -uma remuneração que muito dificilmente se encontra em qualquer outro negócio lícito.

As cifras do BCE já seriam, isoladamente, espantosas. Mas empalidecem diante dos dados apresentados anteontem ao Senado pelo presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini.
No mundo rico em conjunto, o que Tombini chamou de "programas de expansão de política monetária não convencionais" promoveu um derrame de US$ 4,6 trilhões entre a quebra do Lehman Brothers, em 2008, e o ano passado.

US$ 4,6 trilhões (R$ 7,8 trilhões) é um desses números que ninguém consegue entender realmente, tal a sua sideral dimensão. Em todo caso, vale dizer que, se você quer ter uma ideia aproximada, basta imaginar tudo o que o Brasil produz por ano de bens e serviços, multiplicar por dois e, pronto, você estará perto do tamanho da boca-livre mundial ou da, digamos, Bolsa-Banca.

Um escândalo que, no entanto, passa em silêncio. Faz-se um baita escândalo, inclusive na mídia, em torno do pacote europeu para a Grécia, o mais recente deles de € 130 bilhões.

Os líderes europeus passaram meses e meses discutindo o programa, impondo condições, derrubando um governo legitimamente eleito. Já o BCE, em uma única penada, de um único dia, doa à banca quatro vezes mais -e não pede nada em troca, nadica de nada.

Na Grécia, como em outros países socorridos pela União Europeia/Fundo Monetário Internacional, cortam-se até gastos com saúde pública, conforme aliás pacote aprovado na véspera da nova boca-livre do BCE. A banca, no entanto, mesmo quando recebe doações tão suculentas, nem sequer se dá ao pudor de reduzir as remunerações de seus dirigentes.

Nesse cenário, é difícil discordar de Michel Rocard, ex-primeiro-ministro francês (socialista), e do economista Pierre Larrouturou, que, em artigo recente, afirmaram: "Estamos vivendo uma crise do capitalismo desregulado que pode ser suicida para nossa civilização".

Ou de Timothy Garton Ash, acadêmico da moda na Europa, quando escreve: "Não estou dizendo que necessitamos de uma alternativa ao capitalismo. O que necessitamos é um capitalismo alternativo, com mais Escandinávia e menos cassinos de baixa qualidade".

Alguma surpresa, ante tais análises de homens do establishment nada radicais, que surjam grupos como os "indignados" ou os vários "Ocupe Wall Street" (ou a Wall Street de cada capital financeira)? A única surpresa é a passividade dos demais.

 Clóvis Rossi