quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Amor, paixão e amizade


O maior problema do casamento é a morte do desejo sexual, já que este se alimenta da falta, da incerteza



Meus pesquisados apontam três ingredientes presentes no casamento: amor, paixão e amizade. O amor aparece como um sentimento amplo e difícil de ser definido. É diferente da paixão, inicial e provisória, que se transforma em amor ou acaba.

Segundo os entrevistados, é impossível manter um estado permanente de paixão, por dois motivos: ela não resiste ao cotidiano e sua irracionalidade é insuportável.

Quando não acaba como fogo de palha, a paixão se transforma em algo mais tranquilo: o amor. Já esse, para durar, deve conter resíduos da paixão inicial ou corre o risco de se transformar em outro sentimento: a amizade.

O casamento deve combinar os três sentimentos: uma grande dose de amor com pitadas de paixão e amizade.

É preciso ter cuidado para não desequilibrar essas porções, já que uma grande dose de amizade poderia destruir o desejo sexual.

O amor se encontra entre a paixão e a amizade. É menos explosivo do que a primeira, mas menos morno do que a segunda. É mais tranquilo do que a paixão, mas menos seguro do que a amizade.

Se a paixão é insuportável por sua imprevisibilidade e sua loucura, o perigo da amizade está na racionalidade e na rotina. Um equilíbrio complicado é necessário para que uma e outra estejam presentes no casamento, mas que não sejam mais fortes do que o sentimento de amor.
A paixão é associada ao excesso de sexo. A amizade é relacionada à falta dele.

O sexo deve ser frequente e agradável, mas mais controlado do que na paixão. O casal deve estar atento para não deixá-lo cair na rotina e na burocracia, fantasma que ameaça os relacionamentos.
A ideia de que é possível administrar esses três sentimentos apareceu entre os pesquisados.

A paixão, mais irracional, deve ser domada, mas não pode ser excluída do casamento. Uma dose controlada de insegurança e de incerteza sobre a posse do outro é considerada necessária para alimentar o desejo sexual.

Essa matemática complicada torna os casais reféns de lógicas contraditórias. Os pesquisados apontam como perigos para o casamento a rotina, a burocratização, a mesmice. Mas falam também da necessidade de fidelidade, segurança, tranquilidade.

O maior problema do casamento, dizem eles, é a morte do desejo sexual, já que este se alimenta da falta, da insegurança, da incerteza.

Como conciliar, então, amor e desejo sexual no casamento? Eis a questão.

MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, 17 de dezembro de 2011

Farelo de nada

Cada um de nós precisa de um espaço para sermos nós mesmos,
para evitar os choques, as trombadas
 
Li não sei onde que as autoridades responsáveis pelo tráfego aéreo decidiram diminuir o espaço entre os aviões em voos de carreira. Antes, a distância entre dois aparelhos devia ser de 15 milhas. Agora será de dez milhas, para facilitar a arrumação lá em cima e ganhar tempo na fila das chegadas. Não sei se estou certo ou se entendi errado. O fato é que o espaço lá em cima precisa de rigor, para efeito de navegação aérea. O céu não é o limite: há faixas congestionadas e atrasos cada vez mais frequentes.

Obrigado a apelar para o avião em várias circunstâncias, sempre me preocupei com esse tipo de problema. Cheguei mesmo a escrever um romance com um título que muita gente até hoje estranha: "Tijolo de Segurança". O próprio Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que era a minha editora de então, não sabia o que era nem para que servia um tijolo de segurança.

Eu tinha lido numa revista técnica, publicada nos Estados Unidos, que os aviões em voo de carreira eram obrigados a manter uma distância de tantas milhas à esquerda e à direita, e outras tantas milhas em cima e embaixo, formando um quadrilátero espacial que garantiria a autonomia do aparelho. Era o "tijolo de segurança".

Transformei esse tijolo em metáfora. Cada um de nós ocupa um espaço irrelevante no universo físico, mas fundamental no espaço interior de nossas frustrações, pânicos, sonhos e esperanças. Podemos nos espremer numa fila, num estádio, dentro de um ônibus ou avião, mas cada um de nós precisa de um espaço para sermos nós mesmos, espaço pelo qual procuramos zelar para evitar tanto quanto possível os choques, as trombadas que podem nos ferir ou derrubar.

Seria o terceiro romance de minha participação no mercado editorial brasileiro; ganhou um prêmio, que era o maior daquele tempo, e teve várias reedições. Acontece que nunca dei muita bola para ele, pois estava obrigado a fazer um romance por ano, não tinha tempo nem vontade de acompanhar o que hoje se chama "fortuna crítica". Evidente que provocou resenhas ferozes e elogios afetuosos, mas eu já estava em outra, preparando o "Informação ao Crucificado", que me deu muito trabalho porque tinha um caráter de autobiografia.

Eis que, na semana passada, minha secretária descobre numa velha estante do meu gabinete o original desse romance, que eu julgava perdido nas mudanças que fiz pela vida afora.
Na última página, tem uma data: 4 de setembro de 1957. Como estou em tratamento que me obriga a ficar muito tempo deitado, espetado por algumas agulhas, um dia desses levei o original e comecei a ler.

Horror e mais horror! Tirante a história em si, que me pareceu boa (sou ruim de histórias, nunca dei bola para os enredos), o texto é lamentável. A começar pela forma de diário, tudo na primeira pessoa. Já publicara dois romances assim e, ao mandar o original para a editora, apelei para a terceira pessoa, o que em parte salvou alguma coisa, mas não o todo.

Fiz divagações imbecis; a maioria delas eu consegui eliminar na versão que foi publicada e que ganhou, como já disse, um prêmio importante na época. Mesmo assim, o primeiro jato saiu abominável. Há uma cena em que, perseguindo uma mulher casada que entrara na cobiça do personagem principal, ele foi parar numa sessão espírita. Fingindo-se possuído por uma entidade sacana, avançou em cima da mulher que estava acompanhada pelo marido. Deu merda total. A colisão não foi no espaço aéreo ou espiritual. Ficou registrada na 13ª Delegacia Policial, em forma de BO, boletim de ocorrência.

Em outra cena, essa inspirada num episódio real, o personagem estava bêbado e deu carona para um certo Tom, que era o próprio Jobim, que também estava acima do bem e do mal. Ali perto da praça Paris, bateram com o carro, um MG daqueles anos, pequenino, sem capota e quase sem freios. Deu merda também.

Mas a grande merda foi o original em si, todo ele. Se tivesse publicado aquela primeira versão, não haveria tijolo de segurança que me salvasse. Tenho uma geringonça que pica papel, reduzindo-o a uma pasta. Infelizmente, ainda não tenho nenhum equipamento que possa reduzir o autor a um farelo de nada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pentimentos

Sonhamos com escolhas passadas alternativas,
que teriam nos levado a um presente diferente 


"Pentimento" é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.
Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.

Outras vezes, os raios-x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.

Pensei nisso assistindo a "Um Dia", de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca), que foi uma das leituras que mais me tocaram neste ano e que já comentei brevemente na coluna de 21 de julho.

O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma e Dexter, que são unidos pelo pentimento: cada um deles é o grande pentimento do outro -ou seja, ao longo dos anos, cada um é, para o outro, a lembrança de que um outro destino teria sido possível.

Reflexões, saindo do cinema: 

1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.
Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança (que é, aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente): ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele, sedento de aprovação, fama e sucesso.

2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter, por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento.

3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros -até porque, às vezes, eles são falsos (esse, obviamente, não é o caso de Emma e Dexter). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado.
No reencontro, um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em (falso) pentimento, ou seja, numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraíso (onde ainda estaríamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho).
Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado meu futuro. É como se me perguntasse "Quem era minha Emma? Para quem eu era o Dexter?", fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram.
Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las -e de vivê-las como pentimentos.
Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.

4) Estreia amanhã "As Canções", de Eduardo Coutinho. Homens e mulheres cantam a música que foi crucial na sua vida (e explicam por que ela foi crucial). Em alguns casos, especialmente tocantes, as músicas são trilhas sonoras de pentimentos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Humm, me engana que eu gosto

Uma de nossas ilusões é o tamanho do livre arbítrio,
ele inaugurou-se na mordida da maçã, à força


"Eu prefiro sonhar a ser triste", disse o portuga da novela para Griselda, seu amor impossível. É, eu vejo novela de vez em quando, já que é a principal fonte de reflexão sobre assuntos nunca pensados pela maioria dos brasileiros.

Raramente vi uma síntese tão bonita do "me engana que eu gosto" quanto esta.

Nossa espécie não gosta muito da verdade, apesar de ser capaz de concebê-la e assimilá-la, às vezes.

É só pensar quantos creem na continuação da vida após a morte, mesmo sabendo que nenhum Windows roda depois que o disco rígido queima, que não há software sem hardware para fazê-lo funcionar, que não há alma que sobreviva a um cérebro morto.

Você já tomou anestesia geral? Uma situação em que o cérebro fica inoperante? Então já experimentou o sentimento do "nada". Não há sensações, nem memórias, não há nada. Você já experimentou a morte.

Quem somos nós? Um programa "Eu" que roda entre as conexões de nossos neurônios e nos dá a ilusão de existirmos. Entre outras ilusões: a de controle (tal coisa não existe, nem para atravessar uma rua: espere o sinal, olhe para os dois lados e você estará aumentando suas chances de chegar vivo ao outro lado); de sermos quem manda em nossas vontades, sem levar em consideração a natureza (pense nas vezes que você transou sem camisinha).

Uma de nossas ilusões é o tamanho do livre arbítrio (ou, escolha nossa, livre de condicionamentos culturais ou genéticos). Meus professores jesuítas diziam que Adão exerceu o livre arbítrio ao comer o fruto da arvore do conhecimento e por isto foi expulso do paraíso. "Mas, padre, se o Criador lhe deu curiosidade, foi seu modelo ideal, pôs a seu alcance o instrumento de torná-lo semelhante a seu Pai, ainda com o poder de divergir da opinião Dele, o que restava a Adão, senão querer aquele fruto?" A ilusão do livre arbítrio inaugurou-se na mordida da maçã, à força.

Esta lenda é um marco histórico da eterna conversa entre a consciência e a autoilusão, que é o que nos permite ir, às vezes mais para um lado (Copérnico, a dizer que não era a Terra o centro do Universo), às vezes para o outro (as várias maneiras de negar a morte, iniciadas há mais de 100 mil anos, com os rituais fúnebres, o que estabelece o começo de nossa espécie: sabemos que vamos morrer, mas "continuaremos vivos").

Você tem visto as propagandas eleitorais na TV. Preciso dizer mais em relação ao "me engana que eu gosto"? Está bem, nos últimos anos mergulhamos num clima de cinismo sem comparação, ministros corruptos são demitidos com lágrimas e elogios, mas mesmo assim...

A saúde mental combina uma confortável associação de busca da verdade e desprezo por verdades muito incômodas. Portanto, a crença na vida eterna não é nenhuma doença, e vivermos sem pensar na morte, pois estamos vivos, é um equilíbrio. Mas a obsessão pela morte a ponto de se explodir em nome de uma causa, para chegar ao paraíso, certamente é uma doença.

Um ditado dá num bom acordo: "A morte é um momento, e não me roubará da vida nada mais do que ela é, seu momento".

FRANCISCO DAUDT