sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O processo de identificação

Se a sua educação obrigou você a entubar conceitos odiados, forjaram na sua mente um superego cruel

LÁ ESTAVA eu, em 1973, um jovem de 25 anos querendo saber qual seria o melhor serviço de gastroenterologia para fazer minha formação (antes de ser psicanalista fui gastroenterologista).

Um médico respeitado me disse para procurar o professor Alvariz no Hospital de Bonsucesso, RJ. Não havia nada melhor no país. Com a recomendação do médico, pedi ao professor para fazer um estágio de um ano com ele.

Ele foi me avisando: não podia dar certificado, pois o INSS poderia ser processado por vínculo empregatício. Não me interessava ser empregado, e sim aprender com ele.

Aquele foi o ano da minha libertação da escolaridade: nunca mais teria que estudar coisas indesejáveis. Só estudaria aquilo de que gostava.

Passei a estudar como nunca: por gosto! Primeiro, gastroenterologia e doenças do fígado, parte mais difícil da especialidade e xodó do professor, que era formado pelo doutor Popper, nos EUA, "nec plus ultra" (nada acima).

O que isso tem a ver com o processo de identificação? É que esse processo é capaz de formar nosso "ego" (eu, em latim) e nosso "superego" (acima de mim).

Se, pela sua educação, você foi obrigado a entubar conceitos odiados, posturas autoritárias, críticas ácidas, humor sarcástico, discriminações de superior e inferior com soberba, autocríticas demolidoras, ideias catastróficas, pensamentos paranoicos, olhar amargo sobre a humanidade e amarguras em geral, bem, formaram em você um superego cruel (o superego, na origem, é um programa que nos protege do perigo, nos defende e nos dá vontade de sermos melhores).

Completamente diferente é a formação do ego, um software que roda no nosso cérebro nos dando a sensação de que existimos e que sabemos que existimos, talvez a prerrogativa de nossa espécie - o homem que sabe que sabe ("homo sapiens sapiens").

O ego (eu) é formado por encaixe de nosso desejo com coisas que ele aprecia. Desejo não é igual a vontade, é trama mais complexa. Começa com nossos instintos animais e vai se enriquecendo com aquilo que o atrai. A admiração é uma dessas coisas. Mas tudo começa com a imitação. Como no aprendizado da língua. Imitamos o português que ouvimos: sotaque; sofisticação ou falta dela; riqueza ou pobreza vocabular.

Depois da imitação vem a elaboração. Também um conjunto de imitações que vão compondo uma construção sofisticada, como uma trama de tecido sem costuras, já não se sabe de onde se tirou cada pedaço, de tal maneira que o produto final, o eu, torna-se autor. Não é mais cópia. É algo que tem existência própria.

Freud considerava o ego a base da construção do sujeito (lembra da gramática: sujeito, verbo e predicado? eu= sujeito; escrevi=verbo; este artigo=predicado), do "eu", pois não mais orbita em sua origem, ainda que a reverencie como exemplo, o que faço com o professor Alvariz.

FRANCISCO DAUDT, psicanalista, médico

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