quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O lado certo

Tanto no Congresso como na mídia está em discussão uma legislação que possa punir os abusos (ou os crimes) praticados na ou pela internet. A nudez da atriz Scarlett Johansson está sendo considerada uma invasão da privacidade a que todos temos direito. E há casos mais escabrosos, como acessos a contas bancárias, pornografia infantil etc. Pergunta: uma lei resolverá o problema?

Tenho minhas dúvidas. Existem leis para tudo e para todos, elas dependem não apenas da fiscalização policial ou judicial, mas da interpretação que damos a elas. Já citei, há tempos, o caso de Gulliver, personagem da obra-prima de Jonathan Swift, e o cito de novo porque o assunto continua atual.

Náufrago, Gulliver caiu numa terra de anões belicosos, os liliputianos, que o tornaram prisioneiro e que mantinham uma guerra de 800 anos com anões de outra região. Devido a seu tamanho, foi obrigado a lutar por um dos lados, e vendo tantas barbaridades, perguntou ao rei a quem era obrigado a servir o motivo de luta tão feroz e selvagem.

O rei explicou que o povo dele, ao tomar o café da manhã, cortava os ovos pela parte de cima, a mais pontiaguda, e os inimigos cortavam os ovos pela parte de baixo, a mais arredondada. Gulliver ouviu, pensou, pensou outra vez e perguntou ao rei se não havia uma lei, um decreto, uma legislação que determinasse a questão, estabelecendo de uma vez para sempre a maneira de todos cortarem os ovos.

O rei ficou espantado e respondeu: "Somos civilizados. Evidente que há uma lei que regulamenta o assunto". Gulliver quis saber o que a tal lei dizia e o rei, em tom solene, majestático, informou: "O primeiro artigo de nossa Constituição diz claramente que os ovos devem ser cortados pelo lado certo".


PALAVRAS, PALAVRAS E PALAVRAS

Houve época em que me espantava com a história da humanidade, cheia de sangue, guerras por causa de um deus ou de uma mulher, como a de Troia.

Estou mais resignado e jogo a culpa de tudo na incapacidade humana de entender justamente aquilo que foi criado para o entendimento, a palavra. Por sinal, o único animal que dispõe desta faculdade é o homem.

Para não ir muito longe, em busca de razões históricas ou científicas, fico em dois exemplos prosaicos, além daquele a que me referi em crônica anterior, o de Gulliver, sobre a guerra de 800 anos entre anões que cortavam os ovos de maneiras diferentes, uns pela parte de cima, outros pela parte de baixo, quando a lei estabelecia que os ovos deviam ser cortados pelo lado certo.

Os livros fundamentais da civilização, a Bíblia e o Alcorão, estão cheios de palavras e conceitos contraditórios que dependem da interpretação circunstancial de quem os lê. No primeiro caso, temos as afirmações categóricas de Cristo, que disse textualmente "Eu vim trazer o fogo", e mais tarde, generosamente, garantiu a todos: "Eu vos dou a minha paz".

No Alcorão, fiquei sabendo por entendidos que o livro ditado por Alá a Maomé condena veementemente o suicídio, mas em outros versículos exalta aqueles que se matam pela causa do mesmo Alá, prometendo o paraíso e o uso de não sei quantas virgens, embora alguns comentaristas discordem: não são virgens, são cachos de uva.

Contam que na Revolução Cubana, tomando o poder, Fidel Castro perguntou a seu Estado-Maior se havia algum economista entre eles. Che Guevara apresentou-se.

Espantado, Fidel comentou: "Eu sabia que você era médico, mas não economista!". Guevara explicou-se: "Desculpe, eu entendi que você precisava de um comunista".


CARLOS HEYTOR CONY

Um comentário:

  1. Quando Cristo disse: "Eu vim trazer o fogo", não há contradição nestas palavras. Ele quis dizer que veio trazer uma "ideia nova" e toda ideia nova encontra oposição e não se firma sem lutas.Ele se referiu ao fogo, fazendo uma analogia à violência da oposição levantada e no grau de persistência da fúria de seus adversários. Biblicamente Jesus veio para proclamar uma doutrina que minava pelas bases os abusos nos quais viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo; assim o fizeram morrer, acreditando que matando o homem matariam a ideia. Seguindo, a sequência Bíblica, Jesus veio para acabar com os sacrifícios e julgamentos, pregou o perdão e a compreensão, mas isso é uma longa história. Não sei se existiu realmente, mas a ideia é essa. Se notar o Velho testamento é violento com um Deus quase que "cruel" onde o mal era pago com mal e os homens de Deus eram testados o tempo todo pelo próprio Deus. Jesus foi enviado por Deus para quem acredita pra fazer a reconciliação do próprio Deus com os homens, pregar a paz, o perdão e o amor ao próximo. Escrevi aqui resumidamente o pouco que entendo, sem colocar em foco a existência ou não de Deus e a passagem de Jesus pela Terra.Pois também tenho minhas dúvidas... Jesus realmente existiu, foi um homem com ideias e foi criado acreditando ser o filho de Deus, mas que nasceu de uma vigem coisa e tal... Isso é uma outra historia. Não estou comentando o texto, é só uma observação do trecho mencionado.

    Aristela.

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