terça-feira, 27 de setembro de 2011

Muita potência no motor

Inventaram um novo "assassinato social":
beber, entrar num carro
e dizimar quem estiver passando


Nos Estados Unidos, o comum é um sujeito se encher de carabinas e rifles, invadir uma escola, atirar no máximo de pessoas que conseguir e terminar se matando também.

Os brasileiros estão inventando um tipo novo de "assassinato social". Consiste em beber bastante, entrar num carro -quanto mais caro e poderoso, melhor- e dizimar quem quer que esteja passando pela calçada.

Claro que uma notícia puxa outra. Não que o cretino tenha sido "influenciado" pelo atropelamento que leu no jornal (embora isso possa acontecer também).

Mas acontece de um caso específico atrair a atenção da população e os imediatamente seguintes acabarem entrando com mais destaque no noticiário, por força da coincidência.

Foi assim há alguns anos, quando se repetiram as cenas de motoristas bêbados guiando na contramão de rodovias como a Imigrantes ou a Fernão Dias.

Aquela moda, ao que tudo indica, passou. Os casos de Ferraris, BMWs, Land Rovers ou sei lá o quê subindo nas calçadas e matando gente se tornaram, entretanto, mais comuns -pelo menos, em regiões da cidade supostamente mais seguras e policiadas, como Pinheiros e Vila Madalena.

São regiões com muito trânsito também, e pelo menos isso poderia inibir o motorista embriagado de pisar tanto no acelerador. Começo a especular um pouco. Talvez os próprios congestionamentos sejam um motivo para esse comportamento assassino.

O feliz proprietário de uma máquina de grande potência, projetada para voar numa autobahn alemã, ou para enfrentar desafios "off-road" no deserto do Colorado, se vê, um belo dia, empacando a cada 15 metros num congestionamento da Rebouças. Sai por uma "via alternativa", como gostam de dizer no rádio, e encara o asfalto péssimo, as valetas, o catador de papel velho que se arrasta com sua carrocinha.

O motor, com toda sua potência acumulada, é um tigre enjaulado. Um mínimo de espaço à frente, eis que avança com ímpeto assassino. A solução não está nas faixas de pedestres, é claro. Desconfio até que a iminência de uma fiscalização mais rigorosa a esse respeito motivou inconscientemente alguns motoristas a um comportamento mais desenfreado do que de costume. Pedestres em liquidação. Aproveite enquanto é tempo.

Um dos últimos episódios de criminalidade automotiva, entretanto, pode jogar outras hipóteses na discussão. Na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, o jovem Pedro Henrique Santos furtou um ônibus e desembestou por 23 quilômetros. Só parou depois de ter batido em 18 carros. Estava bêbado e drogado, provavelmente, mas o que chama a atenção é a roupa que ele estava usando. O rapaz, que era estudante de direito, usava uma roupa de policial do Bope. Tinha saído de uma festa à fantasia; ao ser preso, chegou a dizer que era protegido da presidente Dilma Rousseff.
Fantasia é bem o termo. Com droga ou sem droga, está em jogo uma fantasia de poder. Nos Estados Unidos, o psicopata usa rifles para encenar algum tipo de vingança à moda de Rambo ou do faroeste.

Aqui, onde não é tão fácil comprar armas de grosso calibre, o carrão tipo tanque de guerra ou, na falta dele, um ônibus comum, dão conta do recado. O sujeito já fica sentado a uma altura muito superior à média. Assim como o atirador prefere mirar do alto de uma torre ou de uma colina, o matador motorizado enxerga seus semelhantes de cima para baixo. O mero pedestre talvez não baste. Com o aumento do poder aquisitivo da classe baixa, o carro popular pode se tornar, também, uma vítima apetecível.

Quem sabe, tudo não é fruto da prosperidade econômica? Por volta de 1950, os americanos pisavam fundo no acelerador e a ligação entre carro, bebedeira e morte estava no auge.

O pintor Jackson Pollock morreu disso, em 1956, matando também uma moça que pegava carona com ele. Talvez mais impressionante, anos antes, tenha sido o caso do poeta Robert Lowell, que dirigia bêbado ao lado da escritora Jean Stafford, por quem estava apaixonado. Já tinha ameaçado matá-la e suicidar-se caso ela não consentisse com o casamento.

Ela tentou resistir; ele arremeteu o carro contra um muro. O acidente desfigurou o rosto da moça. Casaram-se depois disso, amargando dez anos de infelicidade mútua, sem sexo. Não é regra geral, claro. Mas dá o que pensar tanta confiança na potência do motor.

Marcelo Coelho

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As crianças fazem as leis

Quando um aluno se torna um problema, ele é levado
a um tribunal
e os alunos tomam a decisão



A MENINA me havia advertido: para entender a sua escola eu teria de me esquecer de tudo o que eu sabia sobre as outras escolas... Lembrei-me da pedagogia de Ricardo Reis: "... tendo as crianças por nossas mestras...". E ali estava eu, um velho, aprendendo de uma criança!

Quis aprender um pouco mais. Perguntei: "Vocês não têm problemas de disciplina? Não há, entre vocês, os valentões que há em todas as escolas, que agridem, ofendem, ameaçam e amedrontam?"

"Ah", ela me respondeu. "Temos sim. Mas para esses casos temos o tribunal..."

"Tribunal?", perguntei curioso. Mais uma coisa que eu nunca vira em escolas! Ela então me explicou: "As leis de nossa escola foram estabelecidas por nós mesmos, alunos. Temos então de zelar para que essas leis sejam cumpridas. A responsabilidade com o cumprimento das leis é nossa e não dos professores e do diretor. Somos nós, e não eles, que temos de tomar as providências para que a vida da escola não seja perturbada. Quando um aluno se torna um problema ele é levado a um tribunal -tribunal mesmo, com juiz, advogado de defesa, advogado de acusação- e é julgado. E a comunidade de alunos toma a decisão cabível".

Voltei à Escola da Ponte um ano depois e fui informado de que o tribunal deixara de existir. A razão? Um aluno terrível fora levado a julgamento. O juiz -não me lembro se menina ou menino- nomeou o advogado de acusação, e o réu nomeou seu próprio advogado. No dia marcado, reunidos os alunos, o advogado de acusação proferiu a sua peça, tudo de mau que aquele menino havia feito. O diretor, que apenas assistia à sessão, relatou-me sua impressão: "O réu estava perdido. A peça acusatória era arrasadora..."

Chegou a vez do advogado da defesa que ficou mudo e não conseguiu falar. A presidência do tribunal nomeou então um advogado "ad hoc", uma menina que teve de improvisar. E essa foi sua linha de argumentação:

"Vocês são todos religiosos, vão ao catecismo e aprendem as coisas da igreja. Vocês aprenderam que quando alguém está em dificuldades é preciso ajudá-lo. Todos vocês sabiam que o nosso colega estava em dificuldades. Precisava ser ajudado. Eu gostaria de saber o que foi que vocês, que aqui estão assentados como júri para proferir a sentença, fizeram para ajudar nosso colega..." Seguiu-se um silêncio profundo. Ninguém disse nada.

A menina continuou: "Então vocês, que nada fizeram para ajudar esse colega, agora comparecem a esse julgamento com pedras na mão, prontos a apedrejá-lo?"

Com essa pergunta, o tribunal se dissolveu porque perceberam que todos, inclusive o juiz e o advogado de acusação, eram culpados. Como é que estão resolvendo agora o problema da indisciplina e da violência?

Criaram um novo sistema, inspirado numa história da escritora Sophia Mello de Breyner Andressen que conta de uma fada -acho que o seu nome era Oriana- que vivia para ajudar crianças em dificuldades. Como funciona? É simples. Quando um aluno começa a apresentar comportamento agressivo forma-se um pequeno grupo de "fadas Orianas" para impedir que a agressão e a violência aconteçam. Pelo que me foi relatado, as fadas Orianas têm tido resultados muito bons. Quem sabe coisa parecida poderia funcionar com os "bullies" que infernizam a vida dos mais fracos nas escolas...

RUBEM ALVES

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Saques, arrastões e "ressentiment"

Na nossa época, futilidades são,
no mínimo, tão relevantes e necessárias
quanto era o pão em 1789


A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome.

A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não ser de primeira necessidade. Ou seja, aparentemente, a violência da turba de 1789 talvez fosse justificada, mas a de 2011 não é.

No domingo passado, na Folha, Eliane Trindade escreveu sobre meninas de rua que praticam arrastões em São Paulo. Elas procuram produtos para alisar o cabelo, celulares cor-de-rosa e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos.

Alguém estranha que elas não prefiram uma comida boa ou uma roupa quente? Como disse uma menina, o que elas querem é ser bonitas (claro, nos moldes da cultura de massa). Será que, como a turba de Londres, elas seriam culpadas por não desejarem bens "de primeira necessidade"?

Não penso assim -e não é por indulgência com assaltos e arrastões. É porque, na nossa época, as "futilidades" são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789. Explico.

Em 1789, as diferenças eram de casta. Salvo filósofos perdidos na turba, as pessoas reunidas no protesto queriam manifestar sua indignação e satisfazer sua fome, mas não pensavam em mudar a ordem social e subir na vida. Na época, aliás, ninguém subia para lugar nenhum, as pessoas ocupavam o lugar que lhes cabia por nascimento.

À força de indignação e raiva, as coisas foram longe, até que ruiu o próprio regime de castas. Desde então, o que confere status não é mais o berço (nobre ou não) no qual a cegonha nos depositou, mas fatores que não dependem só do acaso: trabalho, riqueza, estilo, virtudes morais, cultura etc.

"Quem somos" depende de como conduzimos nossa vida e (indissociavelmente) de como ela é avaliada pelos outros. Para obter o reconhecimento de nossos semelhantes (sem o qual não somos nada), os objetos que nos circundam ajudam mais do que a barriga cheia; eles têm uma função parecida com a dos paramentos das antigas castas: declaram e mostram nosso status -se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados.


Podemos achar cafonas os objetos roubados pelas meninas e pelos saqueadores (o consumo de massa desvaloriza seu consumidor), mas o que importa é que eles roubaram objetos que lhes eram necessários para existir, para ser "alguém" no mundo. Isso não justifica nem saques nem arrastões; mas vale notar que, na nossa época, as futilidades são, no mínimo, tão relevantes e necessárias quanto era o pão para o pessoal de 1789.

Outro aspecto. Houve quem detestou os saqueadores londrinos por eles não estarem interessados em alterar a ordem social: roubaram para ter as mesmas coisas que a gente e, portanto, chegar exatamente ao lugar que nós ocupamos agora. Para usar uma expressão clássica em filosofia, os saqueadores seriam um caso de "ressentiment".

Nietzsche tomou o termo (e parte de seu sentido) de Kierkegaard. Modernizando, a ideia é a seguinte: "Não tive sorte ou, então, sou burro e preguiçoso, acho chato estudar e gosto de dormir. Sou invisível socialmente e invejo o bem-sucedido, que se pavoneia com seus objetos.

Não quero me sentir culpado de minha condição; prefiro, portanto, acusar dela o bem-sucedido. Com isso, viverei minha mediocridade como se fosse o resultado da violência dos privilegiados, que gozam de tudo e não deixam nada para mim".

Enfim, para se consolar, o ressentido inventa uma moral (social ou religiosa) pela qual, no futuro, seu perseguidor será destronado pela revolta ou queimará nas chamas do Inferno.

Nos bares da "facu" de filosofia, nos anos 1970, colegas de direita acusavam a revolução proletária de ser apenas um projeto ressentido. Respondíamos que a revolução não era ressentida, porque ela não queria vingança, não queria substituir a burguesia, apropriando-se de seus brinquedos: seu intuito era inaugurar um mundo diferente, onde todos gozaríamos de novos prazeres.

Desse ponto de vista, os saqueadores de Londres, eles sim, seriam simplesmente uns ressentidos, não é?

Pode ser, mas, antes de responder, recomendo paciência: o que hoje parece apenas "ressentiment" pode ser a faísca de mudanças que nem suspeitamos. Afinal, o pessoal de 1789 só pedia pão, e olhe o que aconteceu...

CONTARDO CALLIGARIS

domingo, 11 de setembro de 2011

Um fetiche não fabricado

Uma mulher nua fica mais sexy
numa camisa masculina folgada
que em qualquer outro traje


Para mim, nada é tão sexy quanto uma mulher que acorda na cama de um homem e veste a camisa social dele como um pijama improvisado.

Diferentemente de uma calcinha comestível sabor morango ou de uma camisola preta e transparente com meias pretas 7/8 e cinta-liga, esse look não é construído para seduzir, não é um fetiche fabricado. É uma apropriação espontânea e lúdica, que revela uma intimidade despojada. A mulher toma posse não apenas de sua camisa, mas do seu estilo e do seu cheiro.

Para mim, uma mulher nua fica mais sexy numa camisa masculina folgada (e de mangas um pouco arregaçadas) que em qualquer outro traje. Se a camisa é comprida e larga, ela cai bem sobre corpos mais cheinhos e pode cobrir o que a mulher quiser esconder ou revelar (pelos botões abertos) o que ela quiser deixar à mostra.

Esse look começou a despertar minha libido na época em que a pílula e a revolução sexual dos anos 1960 e 1970 deixaram mais mulheres jovens livres para, no calor do momento, passarem a noite no apartamento do cara com quem saíam, incluindo o meu. Na manhã seguinte, elas se apropriavam de algo confortável para se cobrir.

O cinema refletiu esse visual. Nos primeiros filmes de James Bond (nos anos 1960), espiãs sedutoras vestiam as camisas brancas e grandonas do agente 007 na manhã, depois de uma noite de paixão.

Com o passar das décadas, as camisas foram ficando um pouco mais coloridas. Em "Um Lugar Chamado Notting Hill", de 1999, uma estrela de Hollywood (Julia Roberts) passa a noite no apartamento de um dono de livraria (Hugh Grant) e, na manhã seguinte, veste sua camisa solta, com listras azuis.

Alguns homens acham mais sensuais camisetas improvisadas. O que pode excitar um flamenguista na manhã seguinte talvez seja ela vestida no uniforme folgado de seu time do coração. Um remador pode se render ao ver a mulher usando uma camiseta regata.

Outros homens têm fetiches mais peculiares em matéria de moda feminina, como botas de couro de cano alto, algo que me intimida. Fabrício Carpinejar revelou o dele na crônica "É adorável uma mulher toda nua, ou quase, de meias brancas". O meu é mesmo uma mulher quase nua de camisa masculina folgada. É uma cinta-liga de quase corpo inteiro.


MICHAEL KEPP