quarta-feira, 15 de junho de 2011

O lugar da coragem

Corajoso não é quem não sente medo
diante do perigo,
e sim quem consegue superá-lo
e agir apesar dele


SENTIR MEDO é fundamental. É ele que nos protege dos perigos mais variados, de perder dinheiro ou falar besteira em público ao maior de todos os riscos: perder a vida.

Justamente por nos manter a uma distância considerada segura, o medo pode ser paralisante -o que nem sempre é bom. Que policial enfrentaria um assassino em ação se fosse dominado pelo medo?

A capacidade de vencer o medo é o que chamamos de coragem. Corajoso não é quem não sente medo diante do perigo, e sim quem consegue superar seu medo e agir apesar dele.

Como a coragem acontece no cérebro? Um estudo da equipe do neurocientista Yadin Dudai, do Instituto Weizmann, mostrou que ela envolve a capacidade de o cérebro conseguir, por meio da ativação de uma estrutura específica, separar a sensação subjetiva de medo da sua expressão objetiva no corpo.

Dudai e sua equipe convidaram voluntários saudáveis a fazer o possível para superar um medo comum entre humanos: o de cobras.

Deitados em um aparelho de ressonância magnética, os voluntários escolhiam, em poucos segundos, afastar ou aproximar cada vez mais de sua cabeça uma cobra de um metro e meio, viva (não peçonhenta, claro), pousada sobre uma esteira rolante.

Exceto em voluntários habituados a manusear cobras, a aproximação do réptil aumentava tanto a sensação subjetiva de medo quanto a produção de suor, uma medida da expressão corporal do medo -e aumentava também o esforço necessário para decidir aproximar a cobra mais uma vez.

E aqui surgia a diferença entre os que sucumbiam ao medo e os que o superavam: a atividade no córtex subgenual, envolvido no controle cognitivo das emoções, que se tornava cada vez mais forte durante o período de decisão nos que logo escolhiam avançar assim mesmo, mas não se sustentava nos que acabavam recuando a seguir.

Mesmo com a sensação de medo cada vez maior, o córtex subgenual é capaz de controlar sua expressão no corpo, deixando-o mais calmo -o que deve contribuir para a decisão corajosa.

Corajoso, portanto, é quem consegue encontrar uma razão interna forte o suficiente para sustentar a ativação do córtex subgenual e superar seu medo, suprimindo a tendência automática a recuar.

Sendo assim, fica uma dica para quem deseja ficar mais corajoso: praticar meditação, que deixa seu córtex subgenual mais ativo...


SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista

Nenhum comentário:

Postar um comentário