domingo, 29 de maio de 2011

Considerações sobre novos desejos

Causa da depressão pode não ser
perda e frustração,
mas a chegada de novo desejo,
que é silenciado


UM JOVEM não sabe o que ele está a fim de fazer da vida, e os pais pedem que eu descubra qual é o desejo do filho, de modo que ele possa escolher o vestibular e a profissão que ele "realmente" gostaria.

Na mesma semana, encontro um adulto que acha que, de fato, nunca fez nada por desejo.

Embora bem-sucedido, queixa-se de que suas escolhas (profissionais e amorosas) sempre teriam sido circunstanciais, efeitos de oportunidades encontradas ao longo do caminho. Ele pede, antes que seja tarde, que eu o ajude a descobrir qual é "realmente" o seu desejo.

Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo: quem viver segundo seu desejo será, no mínimo, mais alegre. Esta é mesmo uma boa definição da alegria: a sensação de que nosso desejo está engajado no que estamos fazendo, ou seja, de que nossa vida não acontece por inércia e obrigação. Inversa e logicamente, muitos estimam dever sua (grande ou pequena) infelicidade ao fato de terem dirigido a vida por caminhos que - eles declaram - não eram exatamente os que eles queriam.

Pois bem, esse pressuposto e os pedidos que recebi se chocam com esta constatação: o "nosso desejo" nunca é UM desejo definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo, praticar com afinco e satisfação porque estaríamos fazendo aquela coisa ou caçando aquele objeto aos quais éramos, por assim dizer, destinados.

Nada disso: de uma certa forma, todos os objetos e os projetos se valem, e nenhum é "nosso" objeto ou projeto específico. Ou seja, nós desejamos sempre segundo as circunstâncias, os encontros, as oportunidades - segundo as tentações, se você preferir.

Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar é uma atividade inventiva a jato contínuo.

Por consequência, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos.

Claro, podemos aceitar esses desejos novos. Por exemplo, em "As Confissões de Schmidt" (que não é um grande filme), de A. Payne, com Jack Nicholson, o protagonista acorda de noite, olha para sua mulher de sei lá quantos anos e se pergunta estupefato: "Quem é esta mulher que dorme na minha cama?". Logo, ele dá um rumo novo à sua vida, colocando o pé na estrada.

Mas a expressão de seus novos desejos é fortemente facilitada por duas circunstâncias: providencialmente, o protagonista se aposenta e fica viúvo. Nessas condições, escutar novos desejos fica fácil, não é?

Agora, imaginemos alguém que esteja no meio de sua vida profissional e num bom momento de sua vida amorosa. Nesse caso, provavelmente, o novo desejo será silenciado, reprimido, menosprezado ("deixe para lá, é besteira"). Resultado: o indivíduo continuará declarando que está vivendo a vida que ele queria (e, em parte, será verdade); só que, de repente, sem entender por quê, ele perderá sua alegria.

Por que razão nosso indivíduo negligenciaria seus novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.

Infelizmente, essa negligência tem um custo alto. Sempre entendi assim a "Metamorfose", de Kafka: alguém acorda, e o que até então era uma vida normal e legal, de repente, aos seus olhos, é uma vida de barata.

Nota útil para a clínica da depressão. Às vezes, procuramos em vão as causas de uma depressão; será que houve lutos ou perdas? Nada disso; está tudo bem, trabalho, família, filhos e tal, mas o indivíduo entristece, volta a fumar e a beber como se quisesse encurtar a vida, engorda como se estivesse num mar de frustração e precisasse de gratificações alternativas.

Em muitas dessas vezes, a origem da depressão não é uma perda, nem propriamente uma frustração, mas a aparição de um desejo novo que não foi reconhecido. E os novos desejos, sobretudo quando são silenciados, desvalorizam a vida que estamos vivendo.

Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.


Contardo Calligaris

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O sentido da vida

Tentamos dar um significado diferente
à nossa existência do que é ditado
pela natureza humana


Do ponto de vista da mãe natureza, já nascemos com o sentido da vida, embutido em nossos softwares cerebrais, completamente pronto.

Dizem os genes masculinos aos seus portadores: "Procrie com o maior número de mulheres possível, escolhendo as mais belas, dóceis, inteligentes e atenciosas com as crias.
Dê alguma atenção e ajuda a elas para que suas crias não sejam prejudicadas, mas nada que o impeça de partir para a próxima.

De preferência, tenha um harém bem cuidado por eunucos (você não vai querer criar filhos de outros, claro) e vá incorporando novas mulheres pelos mesmos critérios.

Para isso, você precisa se preparar: torne-se belo, forte, alto, inteligente, mas, sobretudo, rico e poderoso. Lidere guerras que possam tomar do inimigo suas posses e mulheres, pois isso o enriquecerá e encherá seu harém (um sultão do século 19 teve 840 filhos, um exemplo de homem comandado por seus genes).

Se a política do país o obrigar à monogamia, drible-a sendo um polígamo seriado: você tem dinheiro para sustentar oito ex-esposas e suas crias e você tem tempo para isso, já que os homens não envelhecem.
Podem seguir acumulando dinheiro e poder e são férteis até a morte".

Dizem os genes femininos às suas portadoras: "Procrie o mais que puder com os homens mais belos, fortes, inteligentes, agressivos, mas, sobretudo, ricos e poderosos. Se possível, case-se com um deles e cuide para que ele a prestigie e dê garantias de provimento para você e suas crias, pelo maior tempo possível.

Se você não conseguir um 'topo de linha', pode se casar com um 'mais ou menos': você pode se oferecer e procriar com o patrão dele, sem que ele saiba, e colher genes poderosos para suas crias, desde que a aparência delas não seja testemunha da sua traição. Prepare-se: comece cedo. Você não tem muito tempo, e juventude é seu maior cacife.

Procure ser bela e parecer recatada: isso aumenta seu preço de compra e ilude o homem com presumida fidelidade. Não conseguindo ser bela, você pode ser oferecida, mas procure parecer bela, usando todos os expedientes ao seu alcance.

O mesmo vale para a juventude (velhas nunca foram símbolos sexuais). Malhação, plástica e pintar cabelos servem para isso. Cuide das crias. São raros os homens que se preocupam com isso".

É, a natureza é cínica e cruel para atingir seus objetivos. A ponto de os biólogos dizerem que a galinha é uma máquina inventada pelo ovo para fazer outros ovos.

Mas nós somos um bicho que pensa, que deseja ética, que filosofa e que, portanto, busca um sentido na vida diferente daquele dos genes.

Isso resultou em inúmeros "sentidos da vida" criados por nós. Mas meu objetivo era falar do que ninguém fala: da natureza humana, essa força poderosa que carregamos sem saber.


FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico,

terça-feira, 10 de maio de 2011

Receita de meditação

Qualquer um pode meditação
provar os benefícios receita de da técnica,
sem discurso religioso
nem pretensão de atingir o nirvana


Para meditar não é preciso seguir uma religião ou filosofia exótica. Nem relaxar e ficar "no vazio".
O ginecologista Roberto Cardoso, autor de "Medicina e Meditação" (Editora MG), acredita que essas concepções são os obstáculos para quem quer aproveitar os benefícios da prática.
Pesquisador e meditador praticante, Cardoso afirma que os seus efeitos não são milagre, mas frutos do treino. Segundo ele, a melhor forma de alcançar resultados é não se preocupar com eles.



É possível definir a meditação fora de um contexto religioso ou filosófico?
Roberto Cardoso - Podemos definir critérios para a prática. Foi o que nosso grupo de estudos fez. Criamos uma definição operacional que é hoje adotada em todas as pesquisas médicas.

O que significa uma definição operacional?
É o "como fazer". Você pode dizer o que é um bolo de chocolate sem explicar como fazê-lo. A definição operacional é dizer: "bata tantos ovos, misture a farinha, coloque em uma forma, leve ao forno por 15 minutos".

Qual é a receita para meditar?
É preciso ter uma técnica específica ensinada por um instrutor. Essa técnica é autoaplicada, tem que ter uma "âncora" e produzir o relaxamento da lógica. Esses dois últimos itens são fundamentais para caracterizar uma técnica como meditativa.

E são os mais difíceis de entender. O que é a âncora?
É um foco para o qual você dirige sua atenção: a própria respiração, um som ou palavra que se repete, o movimento de vai e vem do abdome, uma imagem fixa.
Toda a atividade mental é levada para esse ponto mínimo. Mas não é feito um esforço para não sair dele. Ao contrário, a pratica é voltar a esse foco sempre que a mente produzir uma sequência de pensamentos. Esse ir e vir é a meditação.

E o relaxamento da lógica?
É não se envolver no fluxo incessante de pensamentos.

Como conseguir isso?
A atenção simplesmente volta para a âncora, e a pessoa não tenta analisar, julgar ou ter expectativas, nem mesmo sobre os efeitos que a meditação vai trazer.

Mas é difícil se envolver em uma prática sem esperar obter seus efeitos.
A expectativa é um exercício da lógica, que atrapalha. Mas tem gente que não consegue trabalhar sem objetivos. Então, você traça um objetivo "concreto": meditar todo dia por 15 minutos durante dois meses.

E os efeitos vão acontecer?
Com a prática, você ocupa o córtex pré-frontal [área do cérebro ligada ao raciocínio lógico] com a âncora. É preciso um esforço muito grande para fazer isso, o que desregula e "desliga" o córtex.
E é isso que leva a uma série de sensações diferentes, como a de transcender os limites do corpo, já que as áreas responsáveis por processar informações sensoriais e dar orientação espacial diminuem sua atividade.

Qual a maior dificuldade do meditador iniciante?
Confundir a técnica com o efeito. Se você fala para pessoa: "sente lá, relaxe e se sinta no vazio", você está falando dos efeitos. É como dizer: "sente-se no aparelho de musculação e hipertrofie seus músculos", quando o que ela tem que fazer é repetir alguns movimentos usando uma carga determinada.

Que outros obstáculos ela vai encontrar?
Achar que, para praticar, obrigatoriamente terá que adotar uma religião ou uma filosofia específica. Vencer a preguiça de treinar e enfrentar o preconceito.

Ainda há preconceito contra a meditação?
As pessoas hoje falam muito das descobertas científicas sobre os efeitos da meditação. Mas se você for falar das experiências vivenciadas, quem não conhece vai achar que é conversa de louco. E ainda há muita gente que acredita que, se você medita, é porque entrou para uma seita ou religião exótica.


MUDANDO A CABEÇA
O que acontece com o seu cérebro quando você medita

CÓRTEX PRÉ-FRONTAL
Área responsável por planejamento e tomada de decisões, que é desligada durante a meditação

TÁLAMO
Cria o fluxo de informações sensoriais para o córtex e de volta a outras partes do corpo; a prática meditativa reduz esse fluxo

LOBO PARIETAL
Envolvido na orientação espacial e temporal, processa as informações dos órgãos de sentido. Sua atividade diminui quando a pessoa medita

FORMAÇÃO RETICULAR
Sua principal função é ativar o córtex quando recebe estímulos, acionan- do o sistema de alerta do cérebro. A meditação reverte esse estado