terça-feira, 26 de abril de 2011

Lazer pós-moderno

No mundo virtual a pessoa
não se define pelo que ela é,
mas pelo que deseja ser


A REALIDADE costumava ser sólida e confiável. Era pão, pão, queijo, queijo. Hoje, está travestida de imagens e de conceitos fabricados. Já não temos acesso a sua nudez.

Por isso, não acreditamos mais no que vemos, e dá trabalho discriminar o que é do que parece.

Mas também dá para se divertir com isso. Nas formas pós-modernas de lazer -reality show e jogo virtual- , o novo brinquedo é a própria realidade, nua ou travestida.

No show, o barato é ficar caçando indícios das emoções reais dos jogadores em sua comunicação corporal.

No Second Life, ao contrário, o jogador se esbalda numa realidade fabricada. A começar pela versão digital do ser humano, o avatar. Eles interagem on-line, têm um trabalho criativo, ganham dinheiro de verdade, gastam.

Conhecem pessoas, cantam e se casam. A graça do mundo virtual é que lá tudo é perfeito.

Um amigo conheceu no jogo uma linda avatar que gerencia casas de show. Descobriu, depois, ser uma chinesa que sofre de esclerose múltipla. No jogo, ela conhece artistas e conversa com gente que curte música. Antes, ficava em casa vendo TV sozinha.

Outro avatar se apresenta com uma biografia ilustre.

Construiu uma casa faraônica. Na vida real ele seria considerado estranho. Os avatares frequentam sua mansão numa boa, não contestam seu modo de vida.

Há insatisfeitos com o casamento que não arriscam um caso, mas querem viver uma aventura. E há também lindas histórias de amor.

A mais incrível é a do casamento -de véu e grinalda- entre um americano e uma australiana. Os dois nunca se encontraram na vida real, nem pretendem. No jogo, ambos são lindos e jovens, conversam todos os dias, vão a shows, viajam, fazem sexo. Ele disse que não pode imaginar a vida sem sua mulher.

Nossa identidade cotidiana é limitada pela realidade. Somos homem ou mulher, jovem ou velho, burocrata ou artista. No mundo virtual, a pessoa não se define pelo que é, mas pelo que quer ser. É a realidade psíquica que manda. E nessa, cada um é plural.

No jogo, nossos vários eus ganham voz e cidadania. O limite é o desejo de cada um.

Experiências virtuais são reais, mas não são palpáveis. Como não há matéria, ninguém perde para seu corpo. Se, no reality show, o corpo dá bandeira, o do avatar não trai o que o jogador está sentindo. É uma vida sem os aborrecimentos do corpo, mas também sem as alegrias da carne. A relação custo-benefício pode compensar. Ou não.


MARION MINERBO , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Neurose e Não-Neurose" (Casa do Psicólogo)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Casais de duas culturas

Marido e mulher passam
seu tempo de lazer juntos
não porque prefiram,
mas porque é a praxe


Em 1983, quando me mudei dos arredores de San Francisco, a cidade mais progressista dos EUA, para o Rio de Janeiro, sua contraparte brasileira mais tradicional, o feminismo já havia tornado as mulheres mais autônomas socialmente.

Lá, mulheres casadas podiam passar finais de semanas com as amigas em spas campestres, trocando confidências em poços de águas termais, sem que seus maridos se queixassem. Os casais de San Francisco continuam a passar parte considerável do seu tempo de lazer separados, porque precisam de "espaço" - gíria para independência social.

Um amigo meu em San Francisco faz viagens anuais de uma semana com um amigo, para criar "espaço" entre ele e a mulher, ainda que os dois tirem férias juntos.

Tente imaginar uma carioca que dê esse tipo de "espaço" ao marido.

No Rio, o machismo retardou os avanços feministas. Por isso, os casais passam a maior parte de seu tempo de lazer juntos, não porque prefiram, mas porque é a praxe.
Um grupo de cariocas casadas pode sair para uma pizza numa noite de quinta-feira. Mas como seus maridos reagiriam se elas decidissem passar o final de semana numa spa do interior?

Aqui, um amigo carioca se queixa à mulher de que as viagens de negócios de um mês de duração que ela realiza lhe causam sensação de abandono. Nos EUA, não apenas San Francisco, uma cultura workaholic, alguns casais passam muito mais tempo separados do que juntos, devido às demandas de suas respectivas profissões.

Na San Francisco dos anos 80, ser gay, lésbica ou uma mulher casada que optasse por não ter filhos eram inclinações mais aceitas do que no Rio. Lá, se um membro de um casal começasse a almoçar com um desconhecido/a para iniciar uma amizade, seus companheiros/as mais confiantes não teriam ciúme, desde que pudessem encontrar o desconhecido/a "para dar uma olhada nele/a". É uma independência que continua a existir.

No Rio, então como agora, esses almoços causariam ciúme a qualquer companheiro. Um motivo: aqui, a competição sexual, especialmente entre as mulheres, é feroz. A única amiga com quem almoço, eu já conhecia antes de casar. Encontro outras amigas sob a estrutura de dois casais, amigos entre si, que saem juntos. Às vezes, essas limitações sociais me dão saudade da cidade liberal e libertadora que deixei.

MICHAEL KEPP

domingo, 10 de abril de 2011

"Fazer" uma doença

A desventura pode até ser terrível,
mas console-se: se você for vítima ou culpado,
você vai aparecer na foto


Por que a culpa é um de nossos jeitos preferidos para dar sentido ao mundo? Como é possível que, diante de uma desgraça, o fato de sentirmo-nos culpados constitua, para nós, uma espécie de conforto?

Todos conhecemos as expressões usuais pelas quais, por exemplo, Fulano ou Fulana podem eles mesmos admitir que "fizeram um câncer" -e não foi porque fumaram dois maços de cigarros por dia durante a vida inteira, nem porque, verão após verão, deitaram no sol para bronzear a pele, sem protetor algum. Nada disso: a expressão "fazer uma doença", em geral, indica outro tipo de responsabilidade. Mas vamos devagar.

Não é raro que a primeira reação de quem recebe um diagnóstico maligno consista em procurar uma intenção escusa da qual ele poderia ser a vítima. Envenenaram a água da cidade; o ar é repleto de resíduos daquela fábrica cuja chaminé solta fumaça a cada noite; há um dentista que tem consultório acima do meu, ninguém sabe quantos raios-x ele faz por dia, será que ele isolou sua sala do jeito certo ou será que a radiação chega até aqui?

Na mesma linha, Deus ou o diabo podem ser os mandantes de minha desgraça. Deus, porque ele quer colocar à prova minha fé, como ele já fez com Jó. O diabo, porque ele é príncipe aqui na terra e todo o mal vem dele.

Essas reações parecem ter o mesmo propósito dos delírios paranoicos: elas acusam um agente externo (Deus, o diabo ou os vizinhos) para que o mundo ganhe sentido, ou seja, no caso, para que o mal que se abate sobre a gente tenha uma explicação. "Adoeci porque alguém me quis mal": graças a essa crença, não sofro por acidente nem por acaso, mas sou vítima de uma vontade que me castiga ou me testa. O que se ganha com isso? Antes de responder, mais uma observação.

Em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros. Portanto, não seria de todo estranho que a gente acusasse Deus e todo mundo por males que nós mesmos causamos.

Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. Algo assim: até que, enfim, o cara se tocou, não foi Deus, não foi o demônio, nem a usina química no morro atrás da casa, foi ele mesmo que "fabricou" sua doença.

Geralmente, a explicação deste "fabricar sua doença" passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente).

Tanto faz: o que me importa dizer é que entre acusar a Deus e todo mundo e acusar a nós mesmos não há progresso algum.

A posição de vítima (Deus, o diabo e os vizinhos me querem mal) e a posição de culpado (eu fabriquei minha doença porque meu inconsciente é meu verdadeiro inimigo), ambas são chamadas a "explicar" o mal que nos assola, porque, aparentemente, preferimos sofrer de um mal explicado a sofrer de um mal aleatório. Por que isso? Simples: tanto se eu for a vítima escolhida por Deus e pelo mundo quanto se eu for a vítima de mim mesmo, apesar de doente, eu me manterei nas luzes da ribalta.

Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação?

Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume.

De fato, qualquer sofrimento seria um fardo mais leve se ele pudesse aparecer como quase sempre é: um mal sem sentido, que não faz parte de nenhum plano e não é fruto de nenhuma vontade escusa, nem da nossa.

Teste de boa saúde: estamos bem quando podemos ser atropelados sem ter que considerar que alguém tentou nos matar ou que nós mesmos nos jogamos nas rodas do caminhão, empurrados por impulsos inconfessáveis.

Um amigo querido morreu de um câncer que ele não fabricou e que não lhe foi imposto nem por Deus nem pelo diabo nem pelos vizinhos. Ele dizia: os males reais são suficientemente graves para que a gente não se esforce para lhes acrescentar mil sentidos imaginários.


CONTARDO CALLIGARIS