terça-feira, 22 de março de 2011

A grande pergunta

Já aconteceu diversas vezes. Convidam-me para uma palestra, oferecem-me um tema, providenciam hotel e passagens, os auditórios, uns pelos outros, ficam cheios de gente querendo saber coisas. Mal informada, acha que sei alguma coisa.

Semana passada o convite foi espantoso: falar sobre o fim do mundo.

Preparei-me tecnicamente, pesquisei na internet, ouvi especialistas, consultei enciclopédias, li uns cinco livros de ficção científica sobre o assunto.

Fiquei sabendo de coisas pasmosas. Uma galáxia está sugando a Via Láctea, da qual a Terra faz parte como planeta do Sistema Solar. A velocidade sideral é espantosa. Milhões de quilômetros por segundo e seremos tragados pela pérfida boca de um buraco negro que além de nos tragar, mais tarde se tragará a si mesma.

Fui ao quadro-negro, mostrei distâncias calculadas em anos-luz, citei Ptolomeu, Copérnico, Newton, Einstein e até Inri Cristo, aquele ex-bancário de Curitiba que se diz a encarnação de Jesus Cristo e nos ameaça com o fim dos tempos.

Falei na teoria dos quanta e no Apocalipse de São João. Evidente que descarreguei a culpa de tudo na camada de ozônio mutilada pelos detritos industriais da nossa civilização assassina.

Bateram palmas a tanta e tão vasta sabedoria. O mediador elogiou minha atuação com palavras emocionadas e declarou aberto o debate. Alguém desejava me questionar?

Lá de trás, a mão de um sujeito magro e barbado se ergueu. Tremi nas bases. Eu esgotara toda a minha sabedoria, um minuto a mais de palestra e revelaria a total ignorância sobre aquele e sobre todos os demais assuntos.

O rapaz foi estimulado pela plateia a expressar a dúvida que o inquietava.

Preparei-me para o pior e ouvi a pergunta feita em tom ligeiramente irritado: "O quê Barack Obama vem fazer no Brasil?".


CARLOS HEITOR CONY

quinta-feira, 17 de março de 2011

Jovens

Não estamos de acordo,
somos contra jovens rindo
e trocando soquinhos na fila do supermercado


CHEGO AO caixa do supermercado, onde estão a mulher de unhas cor-de-rosa e o senhor de Rider, e nos olhamos de esguelha -nossas pupilas nem se cruzam, trata-se apenas daquela checada rápida, com o canto do olho, herança das savanas, talvez, quando tínhamos que avaliar, num átimo, se havia algum leão à espreita.

Não há: nenhum de nós é skin- head, bêbado ou aparenta levar uma machadinha escondida embaixo do casaco, de modo que a paz logo se instaura no microcosmo do nosso caixa; a mulher diz que sim, quer Nota Fiscal Paulista, não, não tem o cartão do supermercado e, após breve hesitação, decide pagar no crédito; o senhor começa a colocar sobre a esteirinha rolante suas compras de homem solitário, uma pizza congelada, dois limões, três latas de cerveja; eu batuco, despreocupado, na grade do carrinho.

É aí que ouvimos as risadas.

Várias, estridentes. Os mesmos genes responsáveis pela esguelha preventiva nos acionam o alerta laranja: "atenção, barulho, perigo!" e fazem com que viremos na direção da algazarra. São três meninos e duas meninas, entre 16 e 18 anos. Empurram um carrinho com cervejas, uma vodca e um pacote de Doritos. "Ai, cala a boca, Amanda!", diz um deles, bem alto, e logo recebe, da menina, um soco no braço. Riem muito.

Nós, a turma dos veteranos da fila, damos as costas aos garotos e, pela primeira vez, nos olhamos nos olhos. É um pacto silencioso, que diz: a paz foi perturbada, não estamos de acordo com este comportamento, somos contra jovens que chegam rindo, dizendo "Ai, cala a boca, Amanda" e trocando soquinhos, no supermercado.

Eles param atrás da gente, com uma extroversão que é diretamente proporcional ao nosso incômodo. A mulher de unhas rosa espera a máquina emitir seu recibo, tensa, o senhor limpa a garganta, mandando para dentro o pigarro e para fora seu sinal de desaprovação, eu pego uma barra de cereais e finjo a mim mesmo um grande interesse pela tabela nutricional -e é entre kcals e fibras alimentares que a razão do meu desconforto vai se revelando.

Faz muito pouco tempo, eu estava ali atrás, falando alto, desdenhando dos adultos, com plena consciência de que o mundo é um palco e todos os papéis são cômicos. Agora, estou do lado do Rider, das unhas cor-de-rosa, do "cada coisa em seu lugar" e "a liberdade de um vai até onde começa a...".

Não, não tenho a menor saudade da adolescência. Sete anos sem saber se punha as mãos nos bolsos ou pra fora das calças, a obrigação de estudar química às sete e quinze da manhã, a certeza absoluta de que iria morrer virgem, puro e besta - cruz-credo.

O lado de cá é bem mais confortável, e é justamente esse conforto que os garotos ameaçam, de maneira tão ingênua e eficaz, inserindo risadas, extroversão e agressividade onde deveria haver apenas "boa noite", "Nota Fiscal Paulista?", "débito ou crédito?".

Enquanto entrega o cartão à moça do caixa, posso ouvir o senhor ruminando: "absurdo! Se cada um fizesse o que tem vontade, na hora que tem vontade, o que seria do mundo?"

O que seria do mundo? E de nossas vidas? Eis as perguntas que não ousamos nos fazer, e que os moleques nos esfregam na fuça, com suas risadas.


ANTONIO PRATA

quinta-feira, 10 de março de 2011

Rivotril

Não sei se o homem das cavernas
tinha mais ou menos ansiedade
que um sedentário de meia-idade


NUNCA FUI corajosa. Depois do nascimento dos meus filhos, o instinto de preservação quintuplicou minha covardia latente. Lutei contra a natureza por quase 20 anos, mas a maternidade me venceu por completo.

Li com inveja e espanto a notícia de uma mulher que desconhece o medo. A síndrome de Urbach-Wiethe destruiu sua amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro, e desarmou seus alertas internos de proteção e perigo.

Seria isso uma benção ou uma danação?

O fim do ano de 2010 foi especialmente difícil para mim e os meus. Mortes na família, doenças graves, decisões urgentes e infecções sorrateiras culminaram no funil esperançoso de Natal e Ano-Novo. O resultado foi um temor angustiado que virou o ano de mãos dadas comigo e se recusou a voltar a um nível tolerável depois de passadas as festas.

O processo ansioso, cego e insistente, o choro que alimenta o choro, levou muitos amigos a me aconselharem uma visita a um psiquiatra. O nome que mais ouvi, antes mesmo do telefone de um especialista, foi o do milagroso Rivotril. A panaceia me foi descrita como um unguento milagroso, capaz de cortar a sinistrose pela raiz.

Em "O Erro de Descartes" (Companhia das Letras, 336 pág., R$ 63), Antônio R. Damásio faz uma advertência contundente a respeito do uso indiscriminado de antidepressivos. Segundo o neurologista português, abrir mão da tristeza é dar adeus a uma das poderosas armas evolutivas responsáveis por manter a raça humana em estado de atenção. Anular a dor seria uma solução tão estranha quanto desligar o radar para não sofrer com a antecipação da tempestade.

Eu não sei se o homem das cavernas, correndo diariamente o risco de ser devorado por uma besta-fera, tinha mais ou menos ansiedade do que um sedentário de meia-idade que assiste às infindáveis hecatombes cotidianas pela TV. Talvez a luz elétrica e o computador tenham nos trazido mais frustrações do que amparo, talvez as paúras de uma vida tão afastada da feroz mãe natureza só se aplaquem mesmo mediante o uso de medicamentos, não sei.

Eu sempre desconfiei das bulas reguladoras do humor; do humor, do sono e do apetite. E foi com tal desconfiança que me dirigi à psiquiatra, uma mulher inteligente de quem ouvi uma explicação bastante convincente para os efeitos benéficos que um antidepressivo, ou um ansiolítico, poderiam me trazer.

O cérebro é um órgão dotado de uma impressionante capacidade de se remodelar. Graças à essa plasticidade, nos recuperamos de derrames graves, aprendemos a tocar instrumentos e agimos com rapidez diante de situações-limite. Os neurônios acionam novas sinapses, criam vias alternativas, ligam e religam circuitos conforme a necessidade.

Mas a persistência de um estado melancólico, por exemplo, potencializa determinadas correntes neurais, fortalecendo uma rede funesta que impede o surgimento de novas saídas para o espírito. Como um rio sobrecarregado em uma enchente, a força das águas foge ao controle da própria vontade e deságua na chamada depressão.

O remédio interditaria o pessimismo vicioso e daria chance ao cérebro de se rearticular. Convencida a derrubar a fundação do muro das lamentações, experimentei o famoso Rivotril pela primeira vez, adiando a investida no antidepressivo.

Passei três dias sonolenta e algo abobalhada, evitei dirigir. No terceiro dia, desestimulada e apática, achei que estava pior que antes. Decidi não recorrer ao medicamento na quarta noite e tive dificuldade para dormir. Quando cogitei tomar uma gota do elixir para ir ao encontro de Morfeu, os sinos de emergência badalaram soltos sob a pele.

Nunca tive problema de sono. Qualquer droga, lícita ou ilícita, que mexa com esse metabolismo me arrepia os cabelos. Fritei no lençol até cinco da matina. Passei o dia seguinte imprestável e, no outro, depois de uma noite bem dormida e sem sedativos, acordei refeita.

O Rivotril me ajudou. Ele agiu como um elefante branco que a gente põe na sala e, no dia que tira, sente um alívio inaudito; mas não resolveu. Sem o auxílio da farmacêutica, recorri a um amigo que insiste em estar vivo há mais de 74 anos.

"Finja! Crie um personagem e finja ser ele", me disse Domingos Oliveira. "Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível."

Não foi bem pela arte. Meu escapismo atendeu pelo nome de Fernando de Noronha. O mar, os bichos marinhos, o sol e a natureza agreste reverteram violentamente os fluídos da minha psique.

Bem que a psiquiatra avisou que uma ação desse tipo também poderia dar certo.


FERNANDA TORRES

sexta-feira, 4 de março de 2011

Os genes do vício

É um comportamento mais forte que você, que vai contra seus interresses mais prezados, mas que dá um prazer imediatista


ELA CHEGOU ao escritório do advogado dizendo que queria se separar. "Quantos anos a senhora tem?" Tinha 75 , estava casada há 52. O advogado, pasmo, quis saber o porquê.
"O pai do meu marido era alcoólatra. Por isso, ele jurou que nunca ia pôr uma gota de bebida na boca. Cumpriu até três anos atrás, quando se aposentou. Os amigos cervejeiros disseram que agora ele podia, e ele passou a beber.

Agora, chega de porre e me bate. Quero me separar!" A história, verídica, é assustadora. O filho intuiu que tinha uma herança maldita, fez de tudo para que ela não o atingisse, mas deu mole aos 47 do 2º tempo... e tomou gol! Ouvi dizer, há tempos, que havia um gene para o alcoolismo. Não acreditei. Depois de conhecer essa história, fiquei embatucado. Anos de clínica mais tarde, entendi que hereditário não era o alcoolismo, mas o vício.

Pois fui tomando contato com uma multiplicidade de vícios insuspeitados: tabagismo; consumismo; sado-masoquismo; jogos a dinheiro (cavalos lerdos; mulheres ligeiras; roleta; pife-pafe; bingo); drogas lícitas ou não; "donjuanismo" (o vício da conquista); "winner-loser" (em tradução livre, o vício do jogo "fodão-merda", em que alguém precisa se afirmar como melhor humilhando o outro, por insegurança) etc.

O que é vício? É um comportamento compulsivo (mais forte que você), repetitivo, que vai contra seus interesses mais prezados, que te autodestrói, que te humilha aos seus próprios olhos, mas que dá um prazer imediatista, uma ilusão de grandeza, uma sedução de que os problemas do mundo se foram.

Ele pode ser tão genético quanto a depressão o é. A depressão é um mecanismo de defesa contra os horrores do mundo: se o estresse é grande, o sistema entra em pane e ficar debaixo das cobertas pode ser necessário.

Aí pode entrar o vício como uma espécie de remédio. De fato, o alcoolismo é o remédio mais comum contra a depressão. É meio tragicômico, mas vários pacientes recusam antidepressivos (porque podem viciar) enquanto aceitam o álcool e a cocaína como remédios "naturais" com que aliviam suas dores.

Não os recrimino. Eles viram seus pais caretas tomando Valium e não querem virar pessoas iguais a eles.

É um tanto trabalhoso convencê-los de que o antidepressivo é uma ferramenta para que mudem suas vidas.

Porque os antidepressivos são não naturais, são "químicos" diferentes. Naturais mesmo (atenção, naturebas) são a depressão e os vícios, uma dobradinha milenar.

Estou me lembrando de um amigo clínico que, perguntado por uma cliente com infecção se ele não tinha algo mais natural que o antibiótico para tratá-la, respondeu: -Não há nada menos natural do que um antibiótico, cuja tradução é contra a vida. Mas é contra a vida do germe, e a favor da sua. Se a senhora tem peninha dos germes, procurou o médico errado, mas arque com as consequências de fazer bem a eles.


FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros