quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Amor, paixão e amizade


O maior problema do casamento é a morte do desejo sexual, já que este se alimenta da falta, da incerteza



Meus pesquisados apontam três ingredientes presentes no casamento: amor, paixão e amizade. O amor aparece como um sentimento amplo e difícil de ser definido. É diferente da paixão, inicial e provisória, que se transforma em amor ou acaba.

Segundo os entrevistados, é impossível manter um estado permanente de paixão, por dois motivos: ela não resiste ao cotidiano e sua irracionalidade é insuportável.

Quando não acaba como fogo de palha, a paixão se transforma em algo mais tranquilo: o amor. Já esse, para durar, deve conter resíduos da paixão inicial ou corre o risco de se transformar em outro sentimento: a amizade.

O casamento deve combinar os três sentimentos: uma grande dose de amor com pitadas de paixão e amizade.

É preciso ter cuidado para não desequilibrar essas porções, já que uma grande dose de amizade poderia destruir o desejo sexual.

O amor se encontra entre a paixão e a amizade. É menos explosivo do que a primeira, mas menos morno do que a segunda. É mais tranquilo do que a paixão, mas menos seguro do que a amizade.

Se a paixão é insuportável por sua imprevisibilidade e sua loucura, o perigo da amizade está na racionalidade e na rotina. Um equilíbrio complicado é necessário para que uma e outra estejam presentes no casamento, mas que não sejam mais fortes do que o sentimento de amor.
A paixão é associada ao excesso de sexo. A amizade é relacionada à falta dele.

O sexo deve ser frequente e agradável, mas mais controlado do que na paixão. O casal deve estar atento para não deixá-lo cair na rotina e na burocracia, fantasma que ameaça os relacionamentos.
A ideia de que é possível administrar esses três sentimentos apareceu entre os pesquisados.

A paixão, mais irracional, deve ser domada, mas não pode ser excluída do casamento. Uma dose controlada de insegurança e de incerteza sobre a posse do outro é considerada necessária para alimentar o desejo sexual.

Essa matemática complicada torna os casais reféns de lógicas contraditórias. Os pesquisados apontam como perigos para o casamento a rotina, a burocratização, a mesmice. Mas falam também da necessidade de fidelidade, segurança, tranquilidade.

O maior problema do casamento, dizem eles, é a morte do desejo sexual, já que este se alimenta da falta, da insegurança, da incerteza.

Como conciliar, então, amor e desejo sexual no casamento? Eis a questão.

MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sábado, 17 de dezembro de 2011

Farelo de nada

Cada um de nós precisa de um espaço para sermos nós mesmos,
para evitar os choques, as trombadas
 
Li não sei onde que as autoridades responsáveis pelo tráfego aéreo decidiram diminuir o espaço entre os aviões em voos de carreira. Antes, a distância entre dois aparelhos devia ser de 15 milhas. Agora será de dez milhas, para facilitar a arrumação lá em cima e ganhar tempo na fila das chegadas. Não sei se estou certo ou se entendi errado. O fato é que o espaço lá em cima precisa de rigor, para efeito de navegação aérea. O céu não é o limite: há faixas congestionadas e atrasos cada vez mais frequentes.

Obrigado a apelar para o avião em várias circunstâncias, sempre me preocupei com esse tipo de problema. Cheguei mesmo a escrever um romance com um título que muita gente até hoje estranha: "Tijolo de Segurança". O próprio Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que era a minha editora de então, não sabia o que era nem para que servia um tijolo de segurança.

Eu tinha lido numa revista técnica, publicada nos Estados Unidos, que os aviões em voo de carreira eram obrigados a manter uma distância de tantas milhas à esquerda e à direita, e outras tantas milhas em cima e embaixo, formando um quadrilátero espacial que garantiria a autonomia do aparelho. Era o "tijolo de segurança".

Transformei esse tijolo em metáfora. Cada um de nós ocupa um espaço irrelevante no universo físico, mas fundamental no espaço interior de nossas frustrações, pânicos, sonhos e esperanças. Podemos nos espremer numa fila, num estádio, dentro de um ônibus ou avião, mas cada um de nós precisa de um espaço para sermos nós mesmos, espaço pelo qual procuramos zelar para evitar tanto quanto possível os choques, as trombadas que podem nos ferir ou derrubar.

Seria o terceiro romance de minha participação no mercado editorial brasileiro; ganhou um prêmio, que era o maior daquele tempo, e teve várias reedições. Acontece que nunca dei muita bola para ele, pois estava obrigado a fazer um romance por ano, não tinha tempo nem vontade de acompanhar o que hoje se chama "fortuna crítica". Evidente que provocou resenhas ferozes e elogios afetuosos, mas eu já estava em outra, preparando o "Informação ao Crucificado", que me deu muito trabalho porque tinha um caráter de autobiografia.

Eis que, na semana passada, minha secretária descobre numa velha estante do meu gabinete o original desse romance, que eu julgava perdido nas mudanças que fiz pela vida afora.
Na última página, tem uma data: 4 de setembro de 1957. Como estou em tratamento que me obriga a ficar muito tempo deitado, espetado por algumas agulhas, um dia desses levei o original e comecei a ler.

Horror e mais horror! Tirante a história em si, que me pareceu boa (sou ruim de histórias, nunca dei bola para os enredos), o texto é lamentável. A começar pela forma de diário, tudo na primeira pessoa. Já publicara dois romances assim e, ao mandar o original para a editora, apelei para a terceira pessoa, o que em parte salvou alguma coisa, mas não o todo.

Fiz divagações imbecis; a maioria delas eu consegui eliminar na versão que foi publicada e que ganhou, como já disse, um prêmio importante na época. Mesmo assim, o primeiro jato saiu abominável. Há uma cena em que, perseguindo uma mulher casada que entrara na cobiça do personagem principal, ele foi parar numa sessão espírita. Fingindo-se possuído por uma entidade sacana, avançou em cima da mulher que estava acompanhada pelo marido. Deu merda total. A colisão não foi no espaço aéreo ou espiritual. Ficou registrada na 13ª Delegacia Policial, em forma de BO, boletim de ocorrência.

Em outra cena, essa inspirada num episódio real, o personagem estava bêbado e deu carona para um certo Tom, que era o próprio Jobim, que também estava acima do bem e do mal. Ali perto da praça Paris, bateram com o carro, um MG daqueles anos, pequenino, sem capota e quase sem freios. Deu merda também.

Mas a grande merda foi o original em si, todo ele. Se tivesse publicado aquela primeira versão, não haveria tijolo de segurança que me salvasse. Tenho uma geringonça que pica papel, reduzindo-o a uma pasta. Infelizmente, ainda não tenho nenhum equipamento que possa reduzir o autor a um farelo de nada.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pentimentos

Sonhamos com escolhas passadas alternativas,
que teriam nos levado a um presente diferente 


"Pentimento" é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.
Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.

Outras vezes, os raios-x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.

Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.

Pensei nisso assistindo a "Um Dia", de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca), que foi uma das leituras que mais me tocaram neste ano e que já comentei brevemente na coluna de 21 de julho.

O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma e Dexter, que são unidos pelo pentimento: cada um deles é o grande pentimento do outro -ou seja, ao longo dos anos, cada um é, para o outro, a lembrança de que um outro destino teria sido possível.

Reflexões, saindo do cinema: 

1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.
Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança (que é, aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente): ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele, sedento de aprovação, fama e sucesso.

2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter, por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento.

3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros -até porque, às vezes, eles são falsos (esse, obviamente, não é o caso de Emma e Dexter). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado.
No reencontro, um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em (falso) pentimento, ou seja, numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraíso (onde ainda estaríamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho).
Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado meu futuro. É como se me perguntasse "Quem era minha Emma? Para quem eu era o Dexter?", fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram.
Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las -e de vivê-las como pentimentos.
Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.

4) Estreia amanhã "As Canções", de Eduardo Coutinho. Homens e mulheres cantam a música que foi crucial na sua vida (e explicam por que ela foi crucial). Em alguns casos, especialmente tocantes, as músicas são trilhas sonoras de pentimentos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Humm, me engana que eu gosto

Uma de nossas ilusões é o tamanho do livre arbítrio,
ele inaugurou-se na mordida da maçã, à força


"Eu prefiro sonhar a ser triste", disse o portuga da novela para Griselda, seu amor impossível. É, eu vejo novela de vez em quando, já que é a principal fonte de reflexão sobre assuntos nunca pensados pela maioria dos brasileiros.

Raramente vi uma síntese tão bonita do "me engana que eu gosto" quanto esta.

Nossa espécie não gosta muito da verdade, apesar de ser capaz de concebê-la e assimilá-la, às vezes.

É só pensar quantos creem na continuação da vida após a morte, mesmo sabendo que nenhum Windows roda depois que o disco rígido queima, que não há software sem hardware para fazê-lo funcionar, que não há alma que sobreviva a um cérebro morto.

Você já tomou anestesia geral? Uma situação em que o cérebro fica inoperante? Então já experimentou o sentimento do "nada". Não há sensações, nem memórias, não há nada. Você já experimentou a morte.

Quem somos nós? Um programa "Eu" que roda entre as conexões de nossos neurônios e nos dá a ilusão de existirmos. Entre outras ilusões: a de controle (tal coisa não existe, nem para atravessar uma rua: espere o sinal, olhe para os dois lados e você estará aumentando suas chances de chegar vivo ao outro lado); de sermos quem manda em nossas vontades, sem levar em consideração a natureza (pense nas vezes que você transou sem camisinha).

Uma de nossas ilusões é o tamanho do livre arbítrio (ou, escolha nossa, livre de condicionamentos culturais ou genéticos). Meus professores jesuítas diziam que Adão exerceu o livre arbítrio ao comer o fruto da arvore do conhecimento e por isto foi expulso do paraíso. "Mas, padre, se o Criador lhe deu curiosidade, foi seu modelo ideal, pôs a seu alcance o instrumento de torná-lo semelhante a seu Pai, ainda com o poder de divergir da opinião Dele, o que restava a Adão, senão querer aquele fruto?" A ilusão do livre arbítrio inaugurou-se na mordida da maçã, à força.

Esta lenda é um marco histórico da eterna conversa entre a consciência e a autoilusão, que é o que nos permite ir, às vezes mais para um lado (Copérnico, a dizer que não era a Terra o centro do Universo), às vezes para o outro (as várias maneiras de negar a morte, iniciadas há mais de 100 mil anos, com os rituais fúnebres, o que estabelece o começo de nossa espécie: sabemos que vamos morrer, mas "continuaremos vivos").

Você tem visto as propagandas eleitorais na TV. Preciso dizer mais em relação ao "me engana que eu gosto"? Está bem, nos últimos anos mergulhamos num clima de cinismo sem comparação, ministros corruptos são demitidos com lágrimas e elogios, mas mesmo assim...

A saúde mental combina uma confortável associação de busca da verdade e desprezo por verdades muito incômodas. Portanto, a crença na vida eterna não é nenhuma doença, e vivermos sem pensar na morte, pois estamos vivos, é um equilíbrio. Mas a obsessão pela morte a ponto de se explodir em nome de uma causa, para chegar ao paraíso, certamente é uma doença.

Um ditado dá num bom acordo: "A morte é um momento, e não me roubará da vida nada mais do que ela é, seu momento".

FRANCISCO DAUDT

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O processo de identificação

Se a sua educação obrigou você a entubar conceitos odiados, forjaram na sua mente um superego cruel

LÁ ESTAVA eu, em 1973, um jovem de 25 anos querendo saber qual seria o melhor serviço de gastroenterologia para fazer minha formação (antes de ser psicanalista fui gastroenterologista).

Um médico respeitado me disse para procurar o professor Alvariz no Hospital de Bonsucesso, RJ. Não havia nada melhor no país. Com a recomendação do médico, pedi ao professor para fazer um estágio de um ano com ele.

Ele foi me avisando: não podia dar certificado, pois o INSS poderia ser processado por vínculo empregatício. Não me interessava ser empregado, e sim aprender com ele.

Aquele foi o ano da minha libertação da escolaridade: nunca mais teria que estudar coisas indesejáveis. Só estudaria aquilo de que gostava.

Passei a estudar como nunca: por gosto! Primeiro, gastroenterologia e doenças do fígado, parte mais difícil da especialidade e xodó do professor, que era formado pelo doutor Popper, nos EUA, "nec plus ultra" (nada acima).

O que isso tem a ver com o processo de identificação? É que esse processo é capaz de formar nosso "ego" (eu, em latim) e nosso "superego" (acima de mim).

Se, pela sua educação, você foi obrigado a entubar conceitos odiados, posturas autoritárias, críticas ácidas, humor sarcástico, discriminações de superior e inferior com soberba, autocríticas demolidoras, ideias catastróficas, pensamentos paranoicos, olhar amargo sobre a humanidade e amarguras em geral, bem, formaram em você um superego cruel (o superego, na origem, é um programa que nos protege do perigo, nos defende e nos dá vontade de sermos melhores).

Completamente diferente é a formação do ego, um software que roda no nosso cérebro nos dando a sensação de que existimos e que sabemos que existimos, talvez a prerrogativa de nossa espécie - o homem que sabe que sabe ("homo sapiens sapiens").

O ego (eu) é formado por encaixe de nosso desejo com coisas que ele aprecia. Desejo não é igual a vontade, é trama mais complexa. Começa com nossos instintos animais e vai se enriquecendo com aquilo que o atrai. A admiração é uma dessas coisas. Mas tudo começa com a imitação. Como no aprendizado da língua. Imitamos o português que ouvimos: sotaque; sofisticação ou falta dela; riqueza ou pobreza vocabular.

Depois da imitação vem a elaboração. Também um conjunto de imitações que vão compondo uma construção sofisticada, como uma trama de tecido sem costuras, já não se sabe de onde se tirou cada pedaço, de tal maneira que o produto final, o eu, torna-se autor. Não é mais cópia. É algo que tem existência própria.

Freud considerava o ego a base da construção do sujeito (lembra da gramática: sujeito, verbo e predicado? eu= sujeito; escrevi=verbo; este artigo=predicado), do "eu", pois não mais orbita em sua origem, ainda que a reverencie como exemplo, o que faço com o professor Alvariz.

FRANCISCO DAUDT, psicanalista, médico

domingo, 20 de novembro de 2011

A fórmula da felicidade


Uma boa vida depende da harmonia entre segurança e liberdade,
mas nao dá para ter as duas ao mesmo tempo


O filósofo polonês Zygmunt Bauman, aos 86 anos, deu uma belíssima entrevista para o projeto Fronteiras do Pensamento, no dia 25 de julho de 2011, em Londres. Nela, esse pensador discute dilemas muito presentes no universo de homens e mulheres que tenho pesquisado nos últimos anos.

Bauman afirma que há dois valores absolutamente indispensáveis para uma vida feliz. Um é a segurança, o outro é a liberdade. Para ele, não é possível ser feliz e ter uma vida digna e satisfatória na ausência de qualquer um dos dois. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é caos.

Entretanto, ninguém, até hoje, encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita entre segurança e liberdade. Cada vez que conseguimos mais segurança, entregamos um pouco da nossa liberdade.

Quando temos mais liberdade, entregamos parte da nossa segurança.
Bauman cita "O Mal-Estar da Civilização", de Freud, para lembrar que a civilização é uma troca: sempre ganhamos e perdemos algo. Para Freud, os indivíduos entregaram liberdade demais em prol de segurança.

Hoje, poderíamos ver o contrário: entregamos demais a nossa segurança em prol da liberdade.
Nunca iremos encontrar a solução perfeita, o equilíbrio do pêndulo que vai ou em direção à liberdade ou em direção à segurança, conclui Bauman. E esse é o nosso grande dilema: nunca iremos parar de procurar essa mina de ouro, pois queremos ter liberdade e segurança ao mesmo tempo.

Muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates como a mais perfeita que se possa imaginar. Bauman pergunta: o que isso significa? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, ele responde. Ele não acredita em uma única maneira de ser feliz. Justamente porque Sócrates considerava que o segredo da sua felicidade estava no fato de ele próprio, por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu.


As pessoas que imitam a forma de vida e o modelo de felicidade de outra pessoa não são como Sócrates. Pelo contrário, elas traem a receita de felicidade dele. Precisamente porque o segredo de Sócrates pode ser traduzido de uma maneira simples: para cada ser humano há um mundo perfeito a ser construído especialmente para ele.

Um mundo perfeito para cada indivíduo a ser inventado por cada um de nós.
Então, o que é mais importante para a sua felicidade? Liberdade ou segurança?

MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Meus pais são bipolares

Hoje, a bipolaridade não é só
um transtorno para alguns
mas um traço da personalidade de todos nós


O termo "bipolar" se tornou corriqueiro na boca dos adolescentes. Não é que eles citem diagnósticos psiquiátricos, no estilo "sabe, minha mãe toma remédio porque os médicos dizem que ela é bipolar".

Nada disso; para eles, o termo é a descrição genérica de um estado de espírito dominado por altos e baixos radicais. Além disso, muitos adolescentes acham que, hoje, ser bipolar é a regra.

Não acho ruim que termos clínicos se vulgarizem e entrem na linguagem comum. Só me preocupa o fato de que, às vezes, psiquiatras e psicólogos adotam essa vulgarização, confundindo a tristeza banal com o transtorno depressivo ou, então, variações do humor banais com o transtorno bipolar.

Com isso, claro, a indústria farmacêutica faz a festa, pois vende antidepressivos a pessoas que estão apenas tristonhas ou morosas e estabilizadores do humor a pessoas que são apenas mais alegres pela manhã do que à noite. Seja como for, talvez os adolescentes tenham razão. Talvez a bipolaridade, além de um transtorno para alguns, seja hoje um traço da personalidade de todos nós. Por quê? Um pequeno desvio para responder.

Existe um grupo de trabalho encarregado de revisar o "Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais", cuja quinta versão ("DSM V") será publicada em 2013. Esse grupo manifesta periodicamente suas decisões e seus pensamentos no site www.dsm5.org. Foi assim que em 2010, se não me engano, soubemos que o "transtorno da personalidade narcisista" sumiria da próxima versão do "Manual".

Tanto mais bizarro que, aos olhos de muitos (assim como aos meus), a personalidade narcisista, longe de estar extinta, é a que melhor resume a subjetividade contemporânea. Antes de defini-la, vamos ver quais foram as reações.

A más línguas observaram que sempre somem os transtornos contra os quais a indústria farmacêutica não tem remédios para vender (não existe pílula para transtorno narcisista, enquanto existem várias para bipolaridade e depressão).

Outros, considerando que o transtorno da personalidade narcisista coincidiria com o espírito de nossa época, acharam normal que ele não fosse mais considerado como uma patologia.

Enfim, muitos psicanalistas (sobretudo alunos de Heinz Kohut e de Otto Kernberg, grandes intérpretes do narcisismo) protestaram, e eis que, numa revisão de 21 de junho passado, o transtorno narcisista reapareceu no "DSM" (http://migre.me/5JNlu).

Em síntese, o narcisista não é, como sugere a vulgata do mito de Narciso, alguém apaixonado por si mesmo ou por sua imagem no espelho. Ao contrário, o problema do narcisista é que ele depende totalmente dos outros para se definir e para decidir seu próprio valor: ele se orienta na vida só pela esperança de encontrar a aprovação do mundo.

Infelizmente, nunca sabemos por certo o que os outros enxergam em nós. Às vezes, o narcisista se exalta com visões grandiosas de si, ideias infladas do amor e da apreciação dos outros por ele; outras vezes, ao contrário, ele despenca no desamparo, convencido de que ninguém o ama ou aprecia.

Ora, a modernidade é isso: um mundo sem castas fixas, onde cada um pode subir ou descer na vida justamente porque seu lugar no mundo depende da consideração (variável e sempre um pouco enigmática) que os outros têm por ele.

Ou seja, a modernidade nos predispõe a um transtorno narcisista permanente e, no coração dessa personalidade narcisista (sina de nosso tempo), há uma oscilação bipolar.

O adolescente tem razão: a bipolaridade talvez seja especialmente manifesta nos pais. Como disse, na sociedade moderna, só somos o que os outros reconhecem que sejamos, e os pais não são uma exceção a essa regra.

Nem lei simbólica, nem legado divino, nem provas genéticas bastam para me transformar em pai ou mãe de meus filhos. Hoje, para eu ser pai ou mãe, é preciso que os filhos me reconheçam como tal, ou seja, sem o amor e o respeito de meus filhos, eu não serei nem pai nem mãe.

Consequência: todo pai moderno é condenado à bipolaridade, entre a felicidade de ser genitor e uma consternadora queda do alto dessa nuvem. Se ele tenta educar, corre o risco de não ser mais amado e, portanto, de não ser mais pai.

Se desiste de educar para ser amado, corre o risco de não ser mais respeitado -ou seja, novamente, de não ser mais pai. É isso: os pais são bipolares.

CONTARDO CALLIGARIS

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Os velhos clichês e a guerra de sexos

Como se fossem de uma espécie superior,
elas se acham únicas
e dizem que os homens são todos iguais



"homem só quer sexo, mulher quer amor." "Todo homem é galinha, machista e infiel." "Homem tem medo de mulher independente."

"Homens ficam inseguros quando o salário da mulher é maior." "Homens são infantis, bobos e imaturos."
"Eles odeiam discutir a relação."
"Homem não sofre por amor." "Eles se separam e logo arranjam outra." "Eles detestam mulher inteligente."

Esses e outros clichês são crenças frequentes entre as mulheres brasileiras.

Elas repetem esses velhos chavões como se só elas, e não eles, tivessem mudado nas últimas décadas.

Não encontro entre os homens os mesmos clichês.

Eles dizem que se sentem atraídos pelas inteligentes e que admiram as fortes, poderosas, independentes.

A maioria quer sexo, sim, mas com a mulher amada. Um economista de 55 anos declarou: "Para as mulheres, todo homem é galinha. Sempre fui fiel à minha mulher. Não quero ter outra. Quero que ela seja também a minha amante. Não quero trair a minha melhor amiga".

Os dados do IBGE mostram crescimento no número de homens que se casam com mulheres mais velhas. Eles desejam uma mulher bonita, é verdade, mas desde que ela seja interessante (inteligente, bem-humorada, independente).

Como me disse um arquiteto de 47 anos: "Essa coisa de homem trocar uma mulher de 40 por duas de 20 é o maior clichê que as mulheres inventaram. Quero uma mulher interessante, uma companheira. E que mulher de 20 anos pode me ensinar alguma coisa? Não quero uma filha para ser dominada ou um troféu para ser exibido. Mas as mulheres insistem em rotular os homens".

Ou ainda, conforme um jornalista de 39 anos: "É até engraçado! As mulheres se consideram únicas, especiais, diferentes. Já nós, os homens, somos todos iguais. É como se elas fossem de uma espécie mais civilizada, superior, e nós os primitivos, seres inferiores".

Elas continuam repetindo ideias que não combinam mais com grande parte dos homens brasileiros.

Acabam, assim, reforçando os estereótipos de gênero, os mesmos que elas dizem querer destruir.

É óbvio que as brasileiras estão mais livres.

Mas parece existir uma cegueira feminina na hora de aceitar as transformações dos comportamentos masculinos e os novos modelos de ser homem.

Para conquistar uma verdadeira igualdade entre os gêneros, não seria a hora de parar de enxergar todos os homens pela mesma lente dos velhos clichês?


MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Doce da saudade

Com "Ho nostalgia di te",
um italiano não diz o mesmo
que um brasileiro que diz
"Tenho saudade de você"?


Há duas semanas, estive em Lavras (MG), a convite da Unilavras, onde proferi uma palestra para professores e alunos. Quando cheguei à cidade, por volta do meio-dia, fui levado a um restaurante. Na hora da sobremesa, uma delicada surpresa: uma das opções era o "doce da saudade". A primeira coisa que fiz foi perguntar à moça do balcão por que "doce da saudade". "É o próprio chefe da cozinha que faz. Ele aprendeu com a mãe, que já faleceu, e aí...".

E aí, "fraco" que sou, senti os olhos marejados. Quase pedi a ela que chamasse o chefe, mas minha fraqueza e minha emotividade me impediram de fazê-lo. Ia ser um chororô só.

O fato é que, além de me deixar emocionado, aquilo me deixou encantado. Como a nomeação de um doce pode, a um só tempo, ser tão singela e tão significativa, profunda?

É claro que uma parte desse encantamento se deve à palavra "saudade", que os brasileiros gostam de considerar caso único no mundo ("Só a nossa língua tem essa palavra", "Só na nossa língua existe uma palavra que pode expressar esse sentimento", ouvimos com frequência). Não é bem assim. Ou será que esse sentimento é mesmo exclusividade dos brasileiros? Será que, quando diz "Ho nostalgia di te", um italiano não quer dizer o mesmo que um brasileiro que diz "Tenho saudade de você"?

A palavra "nostalgia" (que se escreve do mesmo jeito em português, em espanhol e em italiano -em espanhol se lê "nostálgia", com o "g" friccionado; em italiano, lê-se "nostaldgía") vem de dois elementos gregos ("nostós", que significa "regresso", e "algia", que significa "dor").

Originariamente, a nostalgia é a dor do regresso, a "melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal" ("Houaiss"). Por extensão de sentido, a palavra passa a transmitir (nas línguas que citei e em outras) muitas das ideias que se transmitem, em português, com "saudade".

Originária do latim "solitatis" ("soledade", "solidão", "desamparo"), a nossa "saudade" já originou metáforas memoráveis, inesquecíveis. Na antológica canção "Pedaço de Mim", de 1977, o grande Chico Buarque pintou algumas das mais belas e pungentes imagens sobre esse nobilíssimo sentimento. Uma delas é esta: "A saudade dói como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais".

Salvo engano, o professor Sérgio Buarque de Holanda, autor do sempre e ainda fundamental livro "Raízes do Brasil" (de 1936), considerava estes os versos mais belos da música popular brasileira: "A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Nem de longe se pode dizer que o grande intelectual e Professor foi parcial ao citar os versos do filho querido e ilustre. Não é preciso ser pai de Chico Buarque para consagrar esses versos como dos mais fundos e belos que a alma humana já produziu.

Em homenagem ao chefe de cozinha do restaurante de Lavras, junto aos versos de Chico estes, de Drummond (de "Para Sempre"): "Morrer acontece / com o que é breve e passa / sem deixar vestígio. / Mãe, na sua graça, / é eternidade. / Por que Deus se lembra / -mistério profundo- / de tirá-la um dia? / Fosse eu Rei do Mundo, / baixava uma lei: / Mãe não morre nunca, / mãe ficará sempre / junto de seu filho / e ele, velho embora, / será pequenino / feito grão de milho".
Antes que alguém pergunte, comi, sim (e muito), do "doce da saudade". Já me é uma deliciosa saudade e uma saudosa delícia. É isso.

PASQUALE CIPRO NETO

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O lado certo

Tanto no Congresso como na mídia está em discussão uma legislação que possa punir os abusos (ou os crimes) praticados na ou pela internet. A nudez da atriz Scarlett Johansson está sendo considerada uma invasão da privacidade a que todos temos direito. E há casos mais escabrosos, como acessos a contas bancárias, pornografia infantil etc. Pergunta: uma lei resolverá o problema?

Tenho minhas dúvidas. Existem leis para tudo e para todos, elas dependem não apenas da fiscalização policial ou judicial, mas da interpretação que damos a elas. Já citei, há tempos, o caso de Gulliver, personagem da obra-prima de Jonathan Swift, e o cito de novo porque o assunto continua atual.

Náufrago, Gulliver caiu numa terra de anões belicosos, os liliputianos, que o tornaram prisioneiro e que mantinham uma guerra de 800 anos com anões de outra região. Devido a seu tamanho, foi obrigado a lutar por um dos lados, e vendo tantas barbaridades, perguntou ao rei a quem era obrigado a servir o motivo de luta tão feroz e selvagem.

O rei explicou que o povo dele, ao tomar o café da manhã, cortava os ovos pela parte de cima, a mais pontiaguda, e os inimigos cortavam os ovos pela parte de baixo, a mais arredondada. Gulliver ouviu, pensou, pensou outra vez e perguntou ao rei se não havia uma lei, um decreto, uma legislação que determinasse a questão, estabelecendo de uma vez para sempre a maneira de todos cortarem os ovos.

O rei ficou espantado e respondeu: "Somos civilizados. Evidente que há uma lei que regulamenta o assunto". Gulliver quis saber o que a tal lei dizia e o rei, em tom solene, majestático, informou: "O primeiro artigo de nossa Constituição diz claramente que os ovos devem ser cortados pelo lado certo".


PALAVRAS, PALAVRAS E PALAVRAS

Houve época em que me espantava com a história da humanidade, cheia de sangue, guerras por causa de um deus ou de uma mulher, como a de Troia.

Estou mais resignado e jogo a culpa de tudo na incapacidade humana de entender justamente aquilo que foi criado para o entendimento, a palavra. Por sinal, o único animal que dispõe desta faculdade é o homem.

Para não ir muito longe, em busca de razões históricas ou científicas, fico em dois exemplos prosaicos, além daquele a que me referi em crônica anterior, o de Gulliver, sobre a guerra de 800 anos entre anões que cortavam os ovos de maneiras diferentes, uns pela parte de cima, outros pela parte de baixo, quando a lei estabelecia que os ovos deviam ser cortados pelo lado certo.

Os livros fundamentais da civilização, a Bíblia e o Alcorão, estão cheios de palavras e conceitos contraditórios que dependem da interpretação circunstancial de quem os lê. No primeiro caso, temos as afirmações categóricas de Cristo, que disse textualmente "Eu vim trazer o fogo", e mais tarde, generosamente, garantiu a todos: "Eu vos dou a minha paz".

No Alcorão, fiquei sabendo por entendidos que o livro ditado por Alá a Maomé condena veementemente o suicídio, mas em outros versículos exalta aqueles que se matam pela causa do mesmo Alá, prometendo o paraíso e o uso de não sei quantas virgens, embora alguns comentaristas discordem: não são virgens, são cachos de uva.

Contam que na Revolução Cubana, tomando o poder, Fidel Castro perguntou a seu Estado-Maior se havia algum economista entre eles. Che Guevara apresentou-se.

Espantado, Fidel comentou: "Eu sabia que você era médico, mas não economista!". Guevara explicou-se: "Desculpe, eu entendi que você precisava de um comunista".


CARLOS HEYTOR CONY

domingo, 9 de outubro de 2011

Você não daria nada por Jobs

'Ninguém quer morrer.
Mesmo aqueles que estão convencidos
de que vão para o paraíso', disse Jobs



Começa amanhã a funcionar a maior sala de aula de que se tem notícia, na qual estão matriculados centenas de brasileiros, para estudar introdução à inteligência artificial. Até sexta passada, eram cerca de 140 mil alunos -o suficiente para lotar dois estádios do Morumbi.
Ninguém paga nada e, no final, ainda recebe certificado de um professor tido como um dos cientistas mais criativos do mundo. Entre suas invenções, está um carro que se locomove sem necessidade de motorista, repleto de sensores por todos os lados.
O alemão Sebastian Thrun é diretor do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford, na Califórnia, e se imagina capaz de ajudar a reinventar o ensino, como ajudou a reinventar o automóvel. "Ver tanta procura, com gente de tantos lugares, como vocês, brasileiros, é apenas sinal de que tem uma grande demanda por uma educação acessível de qualidade", comenta Sebastian.
Inventores como ele ajudam a explicar por que Steve Jobs se transformou num sucesso, apesar de ter sido um estudante fracassado.


Quando menino, Jobs era punido não apenas pela indisciplina, mas pela rispidez com que tratava os professores.
Jobs não conseguiu ficar na faculdade nem seis meses, onde seu mundo era festa, droga e sexo. Só se interessou por algo que, naquele momento, não lhe parecia ter nenhuma utilidade: aulas de caligrafia. Dormia no chão de um dormitório, vendia latas de garrada e, segundo colegas, nem sempre se lembrava de tomar banho.
Decidiu viajar pela Índia, onde se apaixonou pelo budismo e pelo LSD. "O LSD foi uma das três experiências mais importantes da minha vida", revelou.
Talvez pudesse até se encaixar no perfil de um futuro artista. Mas de um empresário, obrigado a comandar milhares de pessoas?
Admita: se você o encontrasse ali, deitado no chão, com a roupa velha, certamente não daria nada por ele.


Não precisaria explicar aqui que Steve Jobs é um ponto fora da curva, com sua imensa inteligência, intuição e capacidade de aprendizado. Nada disso provavelmente seria suficiente se a vida não o levasse, quando criança, a morar em Palo Alto, onde está Stanford, repleta de tipos inventores e empreendedores como Sebastian Thrun - para quem todo inventor é um ser um pouco infeliz: "Há uma sensação de inquietude enquanto não encontramos soluções, e isso nunca passa. Achamos que o impossível sempre é possível".
Não se tem notícia de nenhuma instituição de ensino superior que tenha gerado tantas empresas. Fala-se em 6.000 empresas. O impacto dessa busca de soluções aparentemente impossíveis era especialmente visível onde morava Jobs, filho de pais com pouca educação. Estava no centro do que depois seria chamado de Vale do Silício.


Jobs poderia não ir bem na escola, mas aproveitava as aulas extracurriculares oferecidas por engenheiros da Hewlett-Packard. Aos 12 anos, viu o primeiro computador numa dessas apresentações e imaginou o que faria de sua vida.
Um dia ele pediu ao próprio criador da empresa, o legendário William Hewlett, peças para completar seu projeto na escola. Ganhou as peças e um estágio nas férias de verão.
Toda a região era como se fosse um campus aberto. Natural que abrisse, na garagem da casa de seu pai, seu laboratório para desenvolver um computador. Antes disso, quando ainda estava no ensino médio, ele já vendia um aparelho ilegal para fazer ligações telefônicas sem pagar nada. Aliás, seu parceiro de contravenção também estava na garagem que criou a Apple.


A pedagogia que se tem aqui é simples: quanto mais experiências se oferecem aos jovens maior a chance de que eles descubram seus talentos e saibam como gerenciá-los. É a provocação permanente da curiosidade.
Aí está o valor da classe mundial lançada pelo professor Sebastian, mostrando que todo e qualquer espaço pode instigar a curiosidade. "A única coisa que me manteve no caminho foi gostar do que eu fazia. Cada um precisa descobrir do que gosta", aconselhou Jobs numa cerimonia de formatura de universitários.
Era a primeira vez que Jobs era convidado a falar numa formatura. Só podia, claro, ser em Stanford, onde não estudou, mas, de certa forma, espiritualmente foi graduado.


PS- Naquele discurso, Jobs disse frases para a gente pendurar na porta da geladeira para sempre. Uma delas: "Ninguém quer morrer. Mesmo aqueles que estão convencidos de que vão para o paraíso".


GILBERTO DIMENSTEIN

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Psicanalise

De onde vem, para onde vai

Entenda as principais ideias que movimentaram a psicanálise desde a origem até agora

GUILHERME GENESTRETI

AS INFLUÊNCIAS

FINAL DO SÉCULO 19


JEAN-MARTIN CHARCOT
(1825-1893)
Neurologista francês, aplicava a hipnose para tratar pacientes histéricas no hospital em Paris em que Freud fez estudos de neuropatologia
Como influenciou a psicanálise: Seu método inspirou Freud a investigar a origem mental dos sintomas físicos da histeria

FINAL DO SÉCULO 19 E COMEÇO DO SÉCULO 20

JOSEF BREUER
(1842-1925)
Médico austríaco que colaborou com Freud em seu primeiro livro, "Estudos sobre a Histeria", de 1895
Como influenciou a psicanálise: Ao tratar uma paciente histérica, percebeu que os sintomas diminuíam quando ela falava sobre eles, inspirando Freud a desenvolver o método da associação livre

O TRONCO

PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20

SIGMUND FREUD
(1856- 1939)
Fundou a psicanálise ao desenvolver uma técnica para sondar conflitos psíquicos
Teoria: O comportamento humano não é regido apenas pela vontade consciente, mas por pulsões e pelas formações do inconsciente, região que armazena memórias, necessidades e desejos reprimidos. A origem do conflito psíquico remonta às fases do desenvolvimento psicossexual da criança (oral, anal, fálica e genital) e ao complexo de Édipo
Técnica: Pela associação livre, o analista propõe ao paciente falar o que lhe vem à mente, seja sobre seus afetos, sonhos ou outros sinais comunicados pelo inconsciente

A PARTIR DOS ANOS 50

JACQUES LACAN
(1901-1981)
Psicanalista francês, fundiu a teoria freudiana com os estudos de linguística e antropologia. Seus métodos, tidos como excêntricos, o levaram a ser expulso da Sociedade Psicanalítica de Paris por imposição da IPA -Associação Psicanalítica Internacional
Teoria: O inconsciente é constituído das próprias regras que estruturam a sociedade, cuja lógica é fornecida pela linguagem. Para entender os conflitos psíquicos, o analista escuta o discurso e observa as relações do paciente com a linguagem
Técnica: A sessão leva em conta o tempo lógico, definido pelo analista, e não o cronológico de 45 ou 50 minutos

OS SEGUIDORES

PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20

SÁNDOR FERENCZI
(1873-1933)
Psicanalista húngaro e seguidor de Freud, incentivou Melanie Klein a estudar o comportamento de crianças
Contribuição à psicanálise: Atuação do terapeuta deve ser mais ativa e menos distante do paciente para permiti-lo trazer à tona suas emoções

KARL ABRAHAM
(1877-1925)
Psicanalista alemão, foi discípulo de Freud e analista de Melanie Klein
Contribuição à psicanálise: O desenvolvimento de doenças como a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva tem origem na fixação em alguma das fases do desenvolvimento psicossexual da criança

A PARTIR DOS ANOS 20

MELANIE KLEIN
(1882-1960)
Quem foi: Nascida na Áustria, influenciou a linhagem inglesa da psicanálise e foi uma das pioneiras em estudar crianças, que até então não eram analisadas. Suas teorias se chocaram com as de Anna, filha de Freud, para quem a abordagem de crianças só tinha um viés pedagógico
Teoria: Crianças manifestam desde cedo fantasias e emoções como a destrutividade, voltada, por exemplo, ao seio materno. O complexo de Édipo aparece nos primeiros meses de vida, sugerindo que os conflitos e desejos começam muito antes do imaginado por Freud
Técnica: O analista deve interpretar brincadeiras e desenhos feitos por crianças como manifestações precoces de expressão de emoções

A PARTIR DOS ANOS 50

WILFRED BION
(1897-1979)
Desenvolveu as ideias de Klein e formulou uma teoria sobre o comportamento de grupos em situações de crise
Teoria: A agressividade dirigida ao mundo externo não é mera patologia, como crê Klein, mas uma forma de comunicação do paciente que deve ser levada em conta pelo analista
Técnica: O terapeuta avalia a si mesmo na relação com o paciente e atribui a não evolução do quadro também à sua postura na análise

A PARTIR DOS ANOS 40

DONALD WINNICOTT
(1896-1971)
Pediatra britânico, seguiu uma terceira linha na tradição inglesa quando surgiu a cisão entre Melanie Klein e Anna Freud
Teoria: O ser humano está destinado a amadurecer psicologicamente, mas precisa de um ambiente confiável para isso. A análise não deve ficar restrita ao universo das fantasias infantis, mas incluir a relação da criança com os pais e com o mundo
Técnica: O analista recria o ambiente de segurança para possibilitar o amadurecimento do paciente

OS DISSIDENTES

PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20

WILHELM REICH
(1897-1957)
Psiquiatra nascido na atual Ucrânia, teve contato com as ideias de Freud, mas rompeu com a psicanálise tradicional por defender um engajamento político com o marxismo
Teoria: As neuroses se originam a partir de uma falha em dissipar a energia do corpo através do orgasmo
Técnica: Valoriza psicoterapias corporais para romper com a 'couraça' física e liberar a carga de energia. Inspirou técnicas como a bioenergética, a biodinâmica e a somaterapia

PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20

CARL JUNG
(1875-1961)
Discípulo favorito de Freud, rompeu com o mestre e fundou a psicologia analítica
Teoria: Nem todas as neuroses têm base sexual. Além de um inconsciente individual há também um inconsciente coletivo, compartilhado por todas as pessoas e de onde decorrem sonhos e fantasias
Técnica: O analista leva em conta o aspecto simbólico dos relatos do paciente e a sua relação com os arquétipos -padrões psíquicos universais, expressados pelo inconsciente


MITOS E VERDADES

'Sempre é preciso contar o sonho'

MENTIRA
A psicanálise sempre deu grande importância aos sonhos. Freud considerava os sonhos, ao lado dos sintomas e dos atos falhos, uma das principais vias de acesso ao inconsciente. Outra vantagem do sonho para o tratamento analítico seria a de levar o sujeito a investigar melhor o seu próprio discurso, mesmo quando parece não ter lá muito sentido.
Ainda que a análise dos sonhos seja importante, o paciente não é obrigado a nada. Deve seguir apenas uma regra: falar tudo o que lhe passa pela cabeça, sem restrições.


Palavras cruzadas

A invenção de Freud está entranhada na cultura, mas nem por isso sabemos o básico sobre ela

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

As palavras são associadas, interpretadas, esmiuçadas. Na psicanálise, a cura se dá por meio delas. Atenção às palavras: tudo bem usar "recalque", "projeção" e outros termos saídos desse campo e já incorporados. Mas confundir os "psis", o que é comum, não.
Psicanalista é uma coisa, psiquiatra, outra. Psiquiatra é médico: estuda transtornos mentais e os trata prescrevendo remédios. O psicólogo também estuda saúde mental, mas não receita. Ele estuda o "software que roda no cérebro", como diz Francisco Daudt, colunista da Folha. Há muitas linhas de psicologia, muitos jeitos de estudar comportamento. Terapeuta é quem cuida. Psicoterapeuta, então, é quem cuida do funcionamento mental das pessoas usando alguma técnica como psicodrama ou as das terapias cognitivo-comportamentais.
Já o psicanalista estuda o tal 'software' segundo o modelo de Freud, isto é, partindo da premissa que o inconsciente governa muitas das ações humanas.
O psicanalista pode ser um teórico ou um psicoterapeuta que cuida de pessoas usando a ferramenta psicanálise. Parte fundamental dessa ferramenta é o método da associação livre, criado por Freud para sondar o inconsciente. Nele, o paciente é levado a falar sobre seus pensamentos de forma a revelar a origem de seus conflitos.
No centro dos conflitos estaria o complexo de Édipo, conjunto de impulsos amorosos e hostis dirigidos pela criança aos pais. O conceito fazia mais sentido quando a única forma de família tinha figuras de pai e mãe bem definidas. E hoje? Édipo não precisa ser entendido como antes, ao pé da letra, diz Isabel Gomes, professora de psicologia da USP. "Se duas mães fazem as funções materna e paterna, a triangulação se mantém."

NINGUÉM É PURO
Psicanalistas freudianos puros são raros, diz o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima. "Analistas experientes transitam com a tradição de Freud e a dos sucessores." A primeira grande mudança na psicanálise veio com a austríaca Melanie Klein (1882-1960). Ela mostrou que crianças já podem ser analisadas desde cedo.
"Alguém que atende crianças não pode ignorar as contribuições de Klein", diz Luís Claudio Figueiredo, que estuda a autora. Klein substituiu a associação livre pela interpretação de desenhos, brincadeiras e jogos, nos quais a criança já expressa suas fantasias.
Segundo o psicanalista Daniel Delouya, é uma linha eficaz para tratar psicoses infantis. Nessa terapia, a criança cria uma realidade própria com suas fantasias. "Klein trabalha bem esse mundo interno da criança." Nem tudo é mundo interno para os seguidores de Donald Winnicott (1896-1971). O pediatra inglês pôs o ambiente na equação psicanalítica, defendendo que o desenvolvimento da criança depende de segurança, dada principalmente pela mãe.
Essa linha "acolhe mais" o paciente, diz Elsa Dias, da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana. Segundo ela, essa corrente serve sobretudo para transtornos alimentares e síndrome do pânico, que teriam raiz em um encontro não muito acolhedor da criança com o mundo.
Nessa visão, a anorexia se relaciona a problemas no aleitamento; o pânico, a um bebê interrompido a toda hora pela mãe intrusiva. Sucessor de Klein, Wilfred Bion (1897-1979) contribuiu para a análise repensando a relação analista-paciente. "O analista não é só a figura sobre a qual o paciente projeta ou transfere: ele se observa nessa relação", diz Adriana Nagalli, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Além de se observar, ele devolve ao paciente as próprias experiências.
Segundo Nagalli, esse vínculo ajuda o paciente a tolerar frustrações. "Ao compreender que seu analista também falha, você suporta melhor suas limitações."
O francês Jacques Lacan (1901-1981) temperou a psicanálise com a linguística. O inconsciente, para ele, só é acessível pelo verbo, já que é a linguagem que organiza e traduz as experiências.

TEMPO TERAPÊUTICO
Lacan reformulou a duração da sessão, propondo o "tempo lógico". Em vez dos clássicos 50 minutos, o analista define o término conforme a situação.
"Na linha freudiana, o analista é uma folha em branco sobre a qual o paciente projeta sua vivência. Quando Lacan introduz o tempo lógico, o analista passa a existir", diz Anna Veronica Mautner.
Segundo Jorge Forbes, do Instituto de Psicanálise Lacaniana, o tempo é fator terapêutico. "Prefiro a arbitrariedade de quem dirige a terapia do que a do relógio", diz.
Lacan mostrou que Édipo não dava conta de explicar novos sintomas do mundo moderno, com menos regras definidas e mais necessidade de tomar decisões, explica Forbes. "O analista põe as cartas na mesa e faz o paciente a se responsabilizar pelas suas decisões."


MITOS E VERDADES

'É uma teoria velha e desatualizada'

MENTIRA
"É um argumento engraçado", observa o psicanalista Richard Simanke. "A gente continua estudando a física de Newton na escola e ninguém se importa que date do século 17."
Acusado de velho, o livro "A Interpretação dos Sonhos", que marca o início da psicanálise, foi publicado no último ano do século 19. "A teoria darwiniana da evolução é muito mais velha e nem por isso está desatualizada", afirma o também psicanalista Christian Dunker. "Ela sofreu adendos, relativizações e modificações, exatamente como aconteceu com a psicanálise e com quase todos os campos do saber."
Simanke, contudo, admite que alguns colegas se apegam tanto aos primeiros passos da teoria de Freud que passam a ignorar estudos posteriores, resultando em uma prática datada. "Freud disse que não há problema em se especular quando uma ciência é jovem, desde que não se confundam os andaimes com o edifício", explica. Mas alguns psicanalistas acabam gostando tanto dos andaimes que esquecem de construir o prédio.


Nem tudo é Édipo

Para críticos, teoria freudiana é limitada ao mundo familiar

DARIO DE NEGREIROS


A psicanálise é como a Revolução Russa, diziam os pensadores franceses Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992). Começou bem, acabou mal e ninguém sabe explicar por quê.
Juntos, eles escreveram "O Anti-Édipo" (Editora 34, 560 págs., R$59), uma das mais célebres críticas da teoria freudiana. No entanto, quando se encontraram pela primeira vez, Deleuze era um estudioso da psicanálise e Guattari era, ele próprio, um psicanalista.
"Jamais o encontro com Guattari teria sido fecundo se Deleuze não tivesse se sentido encurralado em relação à utilização da psicanálise", conta David Lapoujade, professor da Sorbonne, ex-aluno de Deleuze e ele próprio um crítico da teoria freudiana. Segundo essa visão, a psicanálise não seria capaz de perceber as influências sociais e políticas no comportamento das pessoas, interpretando tudo a partir do velho e limitado esquema triangular do Édipo: as relações entre o filho, o pai e a mãe.
"Por que os psicanalistas querem que o inconsciente signifique toda vez a mesma coisa: Édipo?", questiona Lapoujade. A crítica de Deleuze e Guattari vai além. Eles chegam a caracterizar os psicanalistas como "os novos padres". Enquanto para o cristianismo nasceríamos todos culpados pelo pecado original, para a psicanálise, o complexo de Édipo faria com que fôssemos culpados por desejar o que não podemos ter: o incesto.
"Eles querem impor uma concepção moral do desejo." Para o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle, a mensagem da psicanálise é outra: nós não podemos ter tudo o que desejamos. E conhecer os limites do próprio desejo seria mais sabedoria do que moralismo.
"Qualquer pessoa pode encontrar isso em sua vida: há situações em que há várias coisas que você quer muito. E você só sabe que vai ter que perder alguma", diz Safatle. "É mais sábio saber lidar com isso do que criar a fantasia de que o desejo pode tudo." O filósofo discorda, ainda, de que a psicanálise isolaria a pessoa das questões sociais e políticas ao privilegiar suas relações familiares.

PORTA DE ENTRADA
Para ele, é o contrário: Freud vê a família como a porta de entrada na sociedade. Por ser nosso primeiro núcleo de socialização, ela se torna uma referência para relações sociais posteriores.
"A maneira como eu descubro o que é autoridade dentro do núcleo familiar, com a autoridade paterna, por exemplo, vai servir de referência para os meus comportamentos futuros."
Mas Safatle admite que alguns psicanalistas podem errar a mão ao tentar interpretar todos os fenômenos sociais a partir do esquema familiar e do Édipo. Ainda assim, a crítica deleuzeana seria muito radical. "Não é possível reduzir tudo à família, mas também não é possível ignorá-la."


MITOS E VERDADES

'É muito caro ir a um analista'

VERDADE
A psicanálise é cara porque exige um tratamento longo e individual. Há opções mais acessíveis no sistema público de saúde e em clínicas ligadas a universidades e a outras instituições de formação. É uma ilusão achar que um analista é melhor por cobrar mais ou ter um consultório mais confortável. "Pode-se cobrar R$ 300 de um e R$ 20 do outro, na medida do que cada um pode pagar", explica Maria Rita Kehl. O pagamento tem um valor simbólico: "A análise não deve ser gratuita para evitar que o paciente se instale em uma dívida impagável".


Como escolher um psicanalista


Meu assunto é como escolher um psicanalista, alguém que vai cuidar de você com o instrumental que Freud inventou. Você o contrata e consome um serviço de saúde.
"Que barbaridade, pensar no cliente como consumidor!" Sinto muito se feri suscetibilidades, mas acompanhe.
Clínica: do latim, "inclinar-se", para observar e entender. Pratico clínica psicanalítica há 35 anos. Fui consumidor do serviço por oito, com dois psicanalistas diferentes. É prestação de serviço mesmo: eu pagava (caro) e recebia 50 minutos de suposta atenção. Assim como quando fui pai tentei me lembrar do que, quando criança, funcionava ou não no jeito de meus pais, quando me tornei analist prestei atenção no que me fez bem e mal como cliente. Aprendi com erros e acertos de meus psicanalistas.

Gosto de clareza, transparência, do que é lógico, razoável. Se você gosta de obscuridades e esoterismos pule este artigo. Não é tua praia.

Afinal, psicanálise veio para explicar ou confundir? A coisa é simples: quantos psicanalistas são necessários para trocar uma lâmpada? Um só, mas é preciso que a lâmpada queira muito ser trocada.
Procurei a psicanálise porque me sentia mal comigo mesmo e queria me sentir bem. A pergunta seguinte era: o profissional teria o mesmo objetivo? Queria me fazer sentir melhor com o seu instrumento terapêutico? Parece uma pergunta besta? Não é! Há vários psicanalistas não comprometidos com a melhora dos seus pacientes (que dirá com a cura dos seus sintomas).
Eles têm como meta "a reflexão sobre os enigmas do seu funcionamento psíquico" ou, pior, "a sua aceitação da castração" (calma, explico, é assim: "O mundo é duro mesmo e você deve aceitá-lo como é, sem esperar colinho de mãe, que é o mesmo que querer roubá-la de seu pai, representante do mundo cruel. Tenha horror do incesto, o complexo de Édipo"). Escolher um psicanalista não é mesmo fácil. Aqui vão algumas sugestões, se você ainda não largou a leitura deste blasfemo insolente, desta pessoa desprezível pela sua linguagem chã que qualquer um pode compreender.

INDICAÇÃO
Pode vir de um amigo que tem se sentido melhor com seu tratamento. Pode vir de artigos que você leu e te deram alívio e compreensão, assinados pelo cara. Ou de livros que ele escreveu, entrevistas que ele deu etc.

PRIMEIRO CONTATO
Em geral, é pelo telefone. Impressionante o que se pode aprender sobre o outro num telefonema: se é acolhedor; se é pomposo ou simples; se você se sente bem ou constrangido; se vai te atender logo ou "talvez, se abrir uma vaga nos próximos meses". Só vá à entrevista se você se sentir bem com ele ao telefone. De desconforto basta a tua vida, você não precisa pagar (caro) por ele!

PERPLEXIDADE
Se o doutor Fulano te disser algo que você não entenda, se falar complicado a ponto de você achar que é burro, desista: não serve para você.

MUDEZ
Se doutor Fulano ficar te olhando quando você quiser saber algo na entrevista, as chances são de que ele ficará mudo durante a terapia. Por que você há de pagar (caro) para quem não diz nada? É teu trabalho se entender? Então fale para o espelho. É mais barato.

CONTRATO
Sinta-se confortável com um contrato claro sobre tempo de sessão e custos. Pergunte sobre férias (suas e dele). Pergunte sobre pontualidade (há poucas coisas mais constrangedoras do que encarar colegas numa sala de espera). Você tem mais o que fazer na vida, e é uma falta de respeito fazer cliente esperar tendo hora marcada.

AO FIM DA SESSÃO
Não deixe ninguém te convencer que sair aos prantos e arrasado significa que a sessão foi "funda e produtiva". Só significa que o terapeuta colocou mais dor naquilo de que você já se acusava. Ele quer que você se arrependa. É mais barato procurar o confessionário da igreja católica.

SENSO DE HUMOR
Se sentir falta de humor na sua terapia, significa que seu analista gosta de drama, e o drama é parte integrante e agravante dos seus sintomas. Vá embora! Parte da cura é não se levar tão a sério, não se achar (e a ninguém) tão importante. Dentro de cem anos, lembre-se, estaremos todos mortos. E faz parte do meu imaginário aparelho humildificador: amanhã este artigo será papel de embrulhar peixe...

FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?"



MITOS E VERDADES

'Tudo é culpa da mãe'

MENTIRA
A psicanálise atribui grande importância às relações da criança com os pais. Essas relações desempenham papel estruturante para a vida mental, explica o psicanalista Richard Simanke. Mas não devemos jogar a culpa pelo que somos em nossos pais. "Culpa é uma palavra que favorece o analisante a se colocar como vítima passiva dos erros dos pais, o que institui uma perspectiva fatalista, pois não se muda o passado", afirma a psicanalista Maria Rita Kehl. A tarefa do analista é retirar o paciente da posição de acusador e fazê-lo assumir a responsabilidade pelos seus problemas, mesmo que tenham origem na família.
Para o psicanalista Christian Dunker, "quando as coisas não dão certo, nossa tendência é ir reclamar com a 'gerência'. A psicanálise existe para nos curar disso, não para estimular esse comportamento passivo".


Das neuroses de ontem ao narcisismo de hoje

Os psicanalistas saíram do seu período de recolhimento e a terapia pela palavra está em pleno desenvolvimento por aqui, na visão do diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

O maior desafio da psicanálise hoje são as fobias, a síndrome do pânico e outros "estados narcísicos", como diz Plinio Luiz Kouznetz Montagna, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Neste mês de reflexão -já que a entidade celebra 60 anos de filiação à IPA (International Psychoanalytical Association)-, o psicanalista diz que esse campo está em plena fase de desenvolvimento. Ele conta como um método demorado, profundo e caro sobrevive neste mundo imediatista, em que remédios se colocam como alternativa à conversa terapêutica.

Como o senhor define a psicanálise hoje?
Plinio Luiz Kouznetz Montagna -
Ela atua em vertentes interligadas: é tratamento clínico; método de pesquisa sobre o ser humano e teoria do funcionamento da mente que permite generalizações. Ocorre que pensar a clínica permite pensar a cultura e essa conexão com artes e filosofia se mantém. É um campo de saber em desenvolvimento, não está fechada, progride com fluxos e refluxos. Na IPA convivem 12 mil psicanalistas do mundo, de tendências diferentes.

E muitas divergências, não?
Quando Freud era vivo, era ele quem dizia: isto é e isto não é psicanálise. Depois que morreu, ficou mais difícil. Enquanto os grandes mestres do século 20 (Winnicott, Klein, Lacan) estavam vivos, as pessoas seguiam uma linha. Hoje, a tendência é depurar as contribuições de cada autor e articular uma conversa entre eles. Não para integrar, pois as diferenças existem mesmo. Na década de 1980, tantas correntes nos fizeram questionar o que há de comum na psicanálise. Concordamos sobre três pontos: nosso objeto é o inconsciente; a importância da transferência e da contratransferência e a noção de que o passado deve ficar no passado.

Como isso se traduz no consultório?
O que diferencia a psicanálise de outras psicoterapias é o jogo transferencial. Para produzir uma mudança, o que adianta é fazer o problema emergir aqui e agora, na relação com o analista, de modo que seja possível trabalhar com ele. O analista é como uma tela em que o paciente projeta imagens. O complicador é que o analista não é uma tela em branco. Levamos em conta a contratransferência, a relação do profissional com seu paciente: inclui as dificuldades dele, pontos cegos que o impedem de escutar. O trabalho não se restringe a ouvir o relato, o analista escuta inconsciente.

O método nasceu como uma cura pela fala. Essa conversa pode ficar muito racional?
A racionalização não é análise e sim a tentativa de evitá-la. Essa defesa pode surgir tanto do paciente quanto do analista, porque o contato emocional gera turbulência. As resistências fazem parte, porém, o cerne da psicanálise é o encontro, e ele só ocorre quando se vai além das defesas. Por isso temos de saber manejá-las.

E quanto ao passado? Muita gente acha que psicanálise é ficar falando de traumas da infância.
Psicanálise não é "falar sobre". A transferência é uma espécie de atualização do passado com o objetivo de permitir que o presente se instale. A análise permite que o passado fique no passado e a pessoa viva no presente. Essa é a libertação.

Aqui no Brasil, a psicanálise avança ou recua?
Nos anos 50 e 60 houve implantação e expansão, depois teve um momento em que as terapias corporais e o psicodrama estavam em destaque. Por um período, os analistas se recolheram nos consultórios. A clínica continua sendo fundamental, mas hoje vivemos um florescimento para além dela, um momento de grande inserção social.
Na Sociedade, há grupos ocupados com atendimento à comunidade, psicanalistas que dão suporte a uma ONG que trabalha com meninos de rua, sem falar na atuação em hospitais. Os analistas também atuam cada vez mais no setor jurídico, trabalhando como mediadores e peritos em questões de família, divórcio, guarda de filhos. E podem contribuir muito graças à visão global que têm de situações complexas como interdição, brigas, drogadição, violência doméstica etc.

Como a técnica responde às patologias contemporâneas?
Esse é o grande desafio atual: lidar com fobias, pânico, transtorno bipolar, borderline, os chamados estados narcísicos. Todas essas patologias têm em comum o fato de serem estruturas arcaicas [criadas no início da vida, antes da linguagem e do amadurecimento da psique], ou seja: se instalam antes do mecanismo de repressão. Na neurose, a repressão já está instalada, existem os conflitos psíquicos e, nessa etapa, é possível simbolizar o sofrimento. No caso do pânico, por exemplo, não existe nem esse conflito. Imagine o medo tentando entrar na mente. Sem a parede da censura para barrá-lo, ele a invade. E, como na estrutura arcaica não há possibilidade de simbolização, o que costuma ocorrer são dores e outras manifestações corporais. Os psicanalistas hoje se debruçam sobre esses fenômenos. A Sociedade tem equipes de estudos de fibromialgia, dores crônicas, psicossomática. Há membros da Sociedade pesquisando conexões entre dor física e psíquica.

O senhor é psicanalista e psiquiatra, e há um embate entre essas áreas. O que acha da oferta de remédios que prometem alívio rápido?
O avanço da psicofarmacologia permitiu medicações mais eficientes e com menos efeitos colaterais. Por outro lado, é avassaladora a quantidade de dinheiro investido na indústria de remédios, não só no desenvolvimento científico, e sim na propaganda. A promessa de "felicidade química" surgiu na década de 80, com o Prozac. Foi questão de tempo para todos descobrirem que não existe pílula de felicidade.
Aliás, a psicanálise também não traz felicidade. Nem promete. A psiquiatria clássica perdeu o contato com o ser humano, tenta encaixá-lo numa lista de sintomas pré-estabelecidos. O resultado é que muitos psiquiatras diagnosticam a tristeza como depressão. Isso é um desvio, não é o caso de se medicalizar tudo.

É possível medir os resultados de uma análise?
A psicanálise promove transformações significativas. Existe um grupo em Boston que está pesquisando mudanças psíquicas. Esse grupo estudou pessoas que consideravam que suas análises tinham sido bem-sucedidas. Elas destacaram a vivência de uma comunicação profunda com seus analistas e "insights" que alteraram a percepção de si e das situações. Comparo os "insights" da análise ao sistema olfativo: sentir um aroma novo não significa só adicioná-lo ao repertório conhecido, e sim alterar o circuito de tal modo que, a partir daí, o próximo odor será recebido de forma diferente, porque toda a estrutura do arquivo foi modificada.

Por que a profissão não é reconhecida pelo Ministério da Educação?
Na década de 50, foi oferecido à SBPSP a possibilidade de se oficializar a profissão e a formação, mas esse caminho não foi adotado. Na minha opinião, por um erro de cálculo, mas nem todos concordam comigo. Muitos acham que não é o Estado que tem que reconhecer nossa profissão, e sim as próprias instituições psicanalíticas.


'Tudo tem interpretação sexual'

VERDADE
A psicanálise dá muita importância à sexualidade, mas porque amplia o seu sentido. "Se a criança suga o polegar, isso é sexualidade para Freud", diz o psicanalista Richard Simanke.
Nada a ver com "psicanalistas amadores que veem um símbolo fálico em um frasco de xampu", ironiza o professor David Lapoujade. "Vi um filme em que o analista sugeria que o cliente mafioso teria desejo pela mãe. O cara ficava indignado: 'O senhor já viu a cara da minha mãe?'. Não é só desse sexual que tratamos", explica Maria Rita Kehl.



Primeiro núcleo de analistas brasileiros foi formado em 1927


Na São Paulo do início do século 20, a Semana de Arte Moderna criou um clima propício à difusão da psicanálise. Artistas da vanguarda logo captaram o alcance da teoria sobre o inconsciente.
Poeta e membro da elite intelectual, o psiquiatra Durval Marcondes foi o primeiro psicanalista do país. Junto com notáveis da antiga Faculdade de Medicina, ele fundou um núcleo de estudos sobre o tema, que, em 1927, resultaria na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
No ano seguinte, Marcondes lançou a "Revista Brasileira de Psicanálise", enviou um exemplar a Freud e comunicou sua intenções de trazer o método ao Brasil.
Freud mandou resposta estimulante: havia até comprado um dicionário de português com o intuito de ler a revista nas férias. A publicação não foi longe, só voltou a ser editada nos anos 1960.
O reconhecimento da Sociedade pela IPA (International Psychoanalytical Association) só veio em setembro de 1951. Demorou décadas porque, para se formarem como analistas e praticarem a clínica, os pioneiros precisavam ser eles mesmos analisados.
Para essa missão, a IPA enviou ao Brasil a psicanalista Adelheid Koch, que emigrou de Berlim com família e gramofone. Depois de um tempo de adaptação, iniciou a análise e a formação dos pioneiros: Marcondes, Flavio Dias, Darcy Mendonça Uchoa, Frank Philips e Virginia Leone Bicudo, socióloga negra de origem proletária, primeira psicanalista não médica na América Latina.
Além de abrir o campo para analistas de outras áreas, Virginia Bicudo também se destacou pela divulgação das teorias freudianas. Em 1950, criou um programa no rádio, "Nosso mundo mental", e, em 1954, estreou coluna na Folha da Manhã. Arrojada, tinha ideias sobre a função social do analista e dava concorridas palestras no auditório do jornal.


MITOS E VERDADES

'O psicanalista entra na sessão mudo e sai calado'

MENTIRA
O silêncio tem duas funções, explica a psicanalista Maria Rita Kehl: "Possibilitar que o sujeito escute a si mesmo e dar peso à intervenção do analista". O analista de fato passa longos períodos calado, forçando o paciente a prestar atenção no que ele diz. Para o professor Christian Dunker, "as principais mudanças não acontecem quando escutamos o outro, mas quando nos tornamos capazes de nos escutar".
Mas o analista deve saber o momento de falar. "Hoje, ele fala muito mais nas sessões do que antes", diz Dunker.



Uma gramática dos afetos

Preferimos nos dopar a ter de encarar o exercício lento e inseguro de pensar de outra forma

VLADIMIR SAFATLE

Desde que a psicanálise apareceu anuncia-se seu fim. Esse fim nunca chegou, embora algo como uma "cultura psicanalítica" presente nas sociedades ocidentais tenha tido momentos de declínio.
Uma das maiores peculiaridades da psicanálise está no seu jeito de constituir um novo modo de compreensão de nossos afetos e conflitos.
Uma nova gramática dos afetos nasceu com ela, que moldou, de maneira decisiva, a autopercepção do sujeito contemporâneo. Nossa visão de família, sexualidade, moralidade e corpo são incompreensíveis sem a referência à psicanálise.
Os anúncios insistentes do seu declínio podem ser vistos não só como uma querela a respeito da eficácia de dispositivos clínicos. Trata-se de fornecer às nossas sociedades ocidentais outra gramática dos afetos.
Alguns podem achar estranha a afirmação segundo a qual o destino de uma prática clínica não estaria, necessariamente, associado à reflexão sobre sua eficácia.
A psicanálise nunca foi um conjunto estático de procedimentos e conceitos. Um leitor atento de Freud sabe que ele age a todo momento como alguém testando e abandonando hipóteses.
Além do que, o debate psicanalítico modificou-se graças a Jacques Lacan, Donald Winnicott, Bion, Otto Kernberg, entre tantos outros.
O que não mudou e, por isso, define a perspectiva psicanalítica de maneira decisiva, é a crença de que o sofrimento psíquico não é dissociável da compreensão que o paciente tem de sua doença. O sofrimento coloca em questão a vida do sujeito, seus ideais de autorrealização, seus valores morais, sua ideia de si mesmo.
É uma maneira de lembrar que não é só o corpo que nos faz sofrer. Podemos sofrer por nossas ideias e valores. Podemos até fazer com que o corpo seja veículo da dor causada por ideias e valores.
Nesse sentido, uma das grandes contribuições da psicanálise foi a compreensão de que a constituição de ideias e valores que orientam nossa vida é sempre conflitual e contingente. Tais conflitos voltam em vários momentos, nos obrigando a produzir novos acordos, a pensar de outra forma.
E nada mais aterrador do que se ver na necessidade de pensar de outra forma. Preferimos nos dopar a encarar o exercício lento e inseguro de pensar de outra forma.
Essa é, talvez, a essência da especificidade da psicanálise. Sua gramática dos afetos nos traz uma maneira de nos descrevermos em que noções como conflito, contradição, contingência e insegurança são fundamentais. Sua clínica visa permitir ao sujeito desenvolver habilidades para conjugar tal gramática.
Nenhum psicanalista responsável negaria hoje o uso de medicamentos em situações de quebra subjetiva. A questão é a crença de que o tratamento deva ser reduzido ao setor da farmacologia. Tal redução é feita em nome da implantação de outra gramática dos afetos, no interior da qual nossa vida poderia ser otimizada, calculada a partir de equações que nos garantiriam boa performance no trabalho, na vida sexual, no casamento.
Uma vida em que a linha separando a normalidade da patologia é feita em traços não problemáticos. Tudo rápido, mesmo que precisemos tomar antidepressivos anos a fio. Por isso, por trás de querelas sobre modelos de tratamento psiquiátrico, sempre encontraremos uma questão maior, a saber: que tipo de pessoa queremos ser.



MITOS E VERDADES

'Psicanálise não cura'

MENTIRA
Cientistas da Universidade de Hamburg-Eppendorf, Alemanha, analisaram em 2008 estudos envolvendo mais de mil pacientes submetidos a terapias de longa duração. Conclusão: essas chegam a ser até 96% mais eficientes do que outras. Para o psicanalista argentino Juan-David Nasio, as pessoas têm uma visão equivocada da análise como apenas uma experiência intelectual interessante. "A psicanálise, acima de tudo, é um tratamento da dor."


"A psicanálise tem a falha de ser imune ao presente"


HÉLIO SCHWARTSMAN


A psicanálise sobrevive com vigor na Argentina, no Brasil e na França. No resto do mundo, seu estado varia de decadente a agonizante. E, mesmo no primeiro grupo, ela vem sofrendo ataques, como atesta a publicação, em 2005, na França, de "O Livro Negro da Psicanálise", obra coletiva que reúne 40 artigos contra Freud, alguns deles bastante virulentos.
Em 2010, foi a vez do polêmico filósofo Michel Onfray desancar Freud, em 624 páginas do seu livro "O Crepúsculo de um Ídolo". Onfray diz que psicanálise não passa de religião, não tem mais efeito do que placebos e acusa Freud de não medir esforços para obter dinheiro e glória.
"O Livro Negro" e "Crepúsculo" traduzem para o francês humores antipsicanalíticos que emanam do mundo acadêmico americano, onde a visão preponderante é a de que Freud foi um charlatão. De minha parte, acho difícil sustentar que a psicanálise seja uma ciência. Parece-me, entretanto, historicamente falso, além de injusto, negar a Freud um lugar no panteão dos pioneiros.
Afinal, ele popularizou a noção de inconsciente e ressaltou sua importância nos processos mentais humanos. O ocaso de Freud nos EUA teve início nos anos 50, com os primeiros fármacos psicoativos. A constatação de que drogas provocavam alterações no psiquismo abriu uma nova avenida para pesquisas.
Ressonâncias magnéticas funcionais e tomografias por PET completaram o arsenal da neurociência para esquadrinhar o cérebro. Paixões e pensamentos deixam de ser abstrações para se tornar manifestações físicas nos neurônios. Paradoxalmente, o próprio Freud, que jamais renunciou à pretensão de fazer ciência, teria aplaudido o avanço da psicofarmacologia.
No inacabado "Esboço de Psicanálise", de 1938, escreveu: "O futuro provavelmente vai nos ensinar a influenciar diretamente as quantidades (psíquicas) de energia e sua distribuição no aparelho psíquico por meio de matérias químicas especiais. Talvez surjam ainda outras possibilidades ainda desconhecidas de terapia; por enquanto nós ainda não temos nada melhor que a técnica psicanalítica à nossa disposição".
Aparentemente, esse futuro chegou -em que pese a forma ainda grosseira com que atuam os psicofármacos. Como foi formulada, a psicanálise não é ciência. Faltam-lhe metodologia, resultados mensuráveis e conteúdo empírico para reclamar estatuto epistemológico.
Pelo menos para mim é especialmente chocante a ideia de que o principal que havia a ser dito sobre psiquismo humano foi dito por Freud há mais de 70 anos e, de lá para cá, nada de muito relevante surgiu.
Se é verdade que as ciências padecem do defeito de olhar pouco para seu passado, a psicanálise tem a falha de ser imune ao presente. A verdade já foi revelada pelo profeta vienense, não havendo mais nada (ou quase nada) a acrescentar. E essa é uma característica que, creio, dá razão a Onfray quando afirma que a psicanálise se estruturou de forma semelhante às religiões.
Para prová-lo, basta conferir o alto número de defecções, rompimentos e excomunhões entre seus membros. Só que nem a precariedade epistemológica da psicanálise nem as picuinhas levantadas por Onfray, como as supostas infidelidades conjugais de Freud ou suas simpatias pelo fascismo, são suficientes para tirar do vienense o mérito de ter posto o inconsciente na ordem do dia.
Avanços da neurociência mostram que esse conceito é mais importante do que suspeitava o pai da psicanálise. Experimentos nesse campo já colocam em dúvida até a existência do livre-arbítrio. Ter percebido isso num mundo vitoriano é uma façanha.
Só isso basta para colocar Freud no mesmo patamar de outros grandes pensadores que, munidos só da especulação, contribuíram para que a humanidade lançasse um novo olhar sobre si mesma.


MITOS E VERDADES

'O tratamento é longo demais'

VERDADE
Se o objetivo for só se livrar de um sintoma, a análise não é um caminho vantajoso, diz Richard Simanke. Se há uma vontade de se conhecer sem pressa, OK.
Na série "Two and a Half Men", o personagem de Charlie Sheen quer achar uma solução para problemas de ereção. Uma psicóloga lhe dá duas opções: fazer análise ou ser hipnotizado. Ele escolhe a segunda, e ela pergunta: "Sua saúde mental não é mais importante do que alguns orgasmos?". Charlie responde: "Não é mais importante nem mesmo do que um". Se ele procurasse o francês Lacan, talvez ouvisse sua frase famosa: "Você não é obrigado a gozar".




LINGUAGEM

NARCISISMO
Este conceito é trabalhado em diferentes contextos dentro da pscicanálise, mas significa, basicamente, amar a si mesmo. O termo narcisismo denomina uma fase da infância em que as crianças buscam o próprio corpo como fonte de prazer, mas também pode identificar o distúrbio que faz a pessoa egoísta se interessar apenas por ela mesma. A expressão foi usada por Freud pela primeira vez para explicar o homossexualismo, isto é, quando um indivíduo busca um parceiro sexual parecido com ele.

INCONSCIENTE
Estrutura psíquica constituída por conteúdos recalcados que não chegam à consciência. Conceito mais fundamental da teoria freudiana, pressupõe que a maior parte da vida psíquica de uma pessoa permaneça em um nível que não obedece à racionalidade. Segundo Freud, é no inconsciente que ficam guardados os desejos reprimidos. Grande parte do comportamento e das decisões de uma pessoa seriam fruto do trabalho do inconsciente.

ASSOCIAÇÃO LIVRE
Método de investigação do inconsciente em que o paciente é estimulado a falar tudo que lhe vier à cabeça, sem se preocupar se faz ou não sentido. O objetivo da técnica é descobrir as cadeias associativas que formam o pensamento mais primitivo de cada pessoa, para entender como ela raciocina antes que as ideias passem pelo filtro da autocensura.

COMPLEXO DE ÉDIPO
Ponto central da teoria freudiana. É o conjunto de sentimentos afetivos e hostis que a criança tem em relação aos pais. O caso clássico é o do menino que sente atração pela mãe e ódio pelo pai, visto como rival. Esse complexo seria universal e atingiria meninas (para isso, Jung criou o termo "complexo de Electra") e crianças vindas de organizações familiares diferentes.

INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
Para Freud, os sonhos são projeções do inconsciente. No sono, haveria uma indulgência da censura que permitiria o acesso a desejos recalcados na vigília. Ao ouvir o relato de um sonho, o analista poderia interpretá-lo de maneira semelhante à interpretação de uma associação livre. Por isso a psicanálise clássica dá tanta importância aos sonhos: eles seriam a associação livre praticada todos os dias, por todo mundo.

INVEJA DO PÊNIS
A fase da infância em que a menina percebe que os meninos têm pênis e ela, não, é o elemento essencial da sexualidade feminina, para Freud. A partir desse momento, as mulheres experimentariam um complexo de castração e um sentimento de inveja e desejo em torno do pênis. Na idade adulta, essa inveja evoluiria para uma vontade de possuir um pênis dentro de si por meio do sexo ou da gestação de um filho. Quando mal resolvida, a inveja poderia gerar sintomas neuróticos ou complexo de masculinidade.

EGO, ID E SUPEREGO
Para explicar o funcionamento da mente, Freud concebeu uma estrutura com três níveis interligados. O ego é o primeiro andar dessa estrutura e simboliza a parte organizada do sistema, aquela que atua na realidade externa e tenta se adaptar a ela. O id é a fonte das memória reprimidas e dos impulsos instintivos, dominados pelo princípio do prazer e do desejo imediato e inconsequente. O superego, por fim, é uma espécie de juiz e vigilante do comportamento. Funciona como a autoconsciência moral da personalidade.

BISSEXUALISMO
Na psicanálise, o termo bissexualidade nem sempre se refere a uma pessoa que tem interesse sexual pelos dois gêneros. Para Freud, todo ser humano traz dentro de si características femininas e masculinas, assim como desejo pelos dois sexos. Ao longo da formação, o mais comum é que uma dessas características se sobressaia, enquanto a outra é dominada, gerando um recalque no inconsciente com o qual é preciso lidar.

PULSÕES
É um estado de tensão ou de excitação análogo aos impulsos instintivos que orienta o comportamento em direção à satisfação de um desejo primário que a pessoa nem sempre consegue identificar. Inicialmente, Freud postulou duas pulsões: a sexual e a de autoconservação. Depois, agrupou essas duas na categoria de pulsões sexuais, contrapondo-as à pulsão de morte.


Neuropsicanálise existe?

Mark Solms bem que tentou, ao fundar, em 2000, a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, promover um trabalho interdisciplinar entre a psicanálise e a neurociência: ele gostaria de usar a neurociência para "comprovar" as teorias de Freud e usá-las como arcabouço intelectual para a neurociência.
Na prática, a fusão não funciona, e eu diria que por uma razão bem simples: uma nunca precisou da outra. Freud propôs o que era cabível à sua experiência profissional, aos seus valores e aos seus conhecimentos limitados à neurologia da época, no contexto de uma Europa vitoriana pós-Darwin onde era tão problemático quanto importante lembrar que o ser humano tem impulsos como os outros animais.
Então, como hoje, a psicanálise não dependia de respaldo neurocientífico: ela é um sistema fechado de crenças sobre o comportamento humano, de grande utilidade em casos de necessidade de insight e autoconhecimento -e zero utilidade em distúrbios como dependência química, transtornos obsessivos-compulsivos e esquizofrenia.
Sim, há um enorme interesse em comum: compreender a mente humana. Mas foi justamente livre da psicanálise que a neurociência andou tanto. Hoje reconhecemos que o carinho materno na infância é fundamental ao desenvolvimento emocional; que os impulsos, sexuais e outros, são tão importantes para o comportamento que são orquestrados por um sistema dedicado (o de recompensa); e que tudo opera sob o controle de um sistema executivo que autoriza e torna conscientes só alguns dos processos.
Mas doenças mentais não resultam de repressão falha, neuroses não são distúrbios de função sexual originados na infância e sonhos são só acontecimentos recentes ou passados revisitados pelo cérebro. Se Freud pensava assim ou não, pouco importa para a neurociência. E, para os psicanalistas, pouco importa onde ficam o id ou o ego, se é que ficam em algum lugar. Ainda que alguns, mais chegados à neurociência, tenham apreço pela liberdade de pensar para além dos ditames de Freud e gostem de saber no que a sua teoria erra ou acerta.
Mas se não há "psicanálise" se a teoria psicanalítica não for seguida à risca, só o próprio Freud poderia rever seus conceitos à luz da neurociência e, então, propor uma neuropsicanálise. Enquanto isso não acontecer, a tal da "neuropsicanálise" continua não existindo...

SUZANA HERCULANO-HOUZEL



'Você não deve saber nada sobre seu analista'

EM TERMOS
É fácil confundir o analista com um amigo ou confidente. Para que os papeis não se misturem, é necessário demarcar limites. Mas o psicanalista que exagera no anonimato pode se tornar tão misterioso que acaba idealizado pelo paciente, o que também não é bom. Para Maria Rita Kehl, o ideal do anonimato é tão impossível hoje, nos tempos do Google, quanto era no círculo burguês de Freud: "Não saber nada sobre o analista é um ideal puritano, mas não é bobagem exigir que o analista não fale de si ao paciente. Um certo mistério é fundamental para sustentar a transferência e as fantasias que ele convoca", explica.


TERAPIA POPULAR

Nem sempre sai caro

Sociedades de psicanalistas e instituições de ensino dão atendimento a preços baixos

JULIANA VINES


Muitas sociedades e institutos de formação oferecem serviços de atendimento em psicanálise com preços reduzidos. Poucos são gratuitos.
"Cobrar um valor, mesmo que seja R$ 0,50, é importante para o envolvimento do paciente com o tratamento", diz Luís Henrique Novais, psicanalista e coordenador do Núcleo Távola, em Ribeirão Preto, interior de SP.
Em geral, esses atendimentos são individuais, feitos nos próprios consultórios dos analistas. Mas também há terapias em grupo, como no Instituto Sedes Sapientiae (veja ao lado). "A terapia em grupo pode potencializar os resultados do tratamento", diz Maria de Fátima Vicente, psicanalista e diretora da clínica da instituição.
Segundo a Federação Brasileira de Psicanálise, há 2.198 psicanalistas no país, divididos em sociedades, grupos de estudo e núcleos.

SEDES SAPIENTIAE
Atende, em média, 600 pacientes por mês Tipo de terapia: individual ou em grupos
Quanto: há vagas gratuitas para até seis meses (sujeitas à disponibilidade). Se não houver vagas, o paciente diz quanto quer pagar, de acordo com a sua condição financeira. Em média, varia de R$ 15 a R$ 89 a sessão
Como participar: inscrição por telefone e participação em três reuniões de terapias em grupo, para encaminhamento
Informações: (11) 3866-2730; www.sedes.org.br
CLÍNICA PSICOLÓGICA DA USP
Atende até 150 pessoas por ano
Tipo de terapia: individual, crianças e adultos; a maioria dos atendimentos é em psicanálise
Quanto: 95% das sessões são gratuitas, o resto é cobrado de acordo com a possibilidade
Como participar: ligar a partir da 2ã semana de janeiro para marcar entrevista; pode haver espera e o atendimento dura no máximo dois anos
Informações: (11) 3091-8248 e 3091-8223; clinica@usp.br

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE SP
Cerca de cem psicanalistas atendem em seus consultórios
Terapia: individual, crianças e adolescentes, pais e bebês, terapia de casal e familiar
Quanto: conforme a renda familiar; 4 sessões por semana custam cerca de R$ 500/mês
Como participar: agendar uma entrevista por telefone; não há fila de espera; é cobrada uma taxa de R$ 25
Informações: (11) 3661-9822

PUC-SP
Atende cerca de 1.200 pacientes por mês
Tipos de terapia: de casal e família, crianças e pré-adolescentes, atendimento psicanalítico para adultos e outros tipos de psicoterapias
Quanto: de acordo com a renda do paciente (pode ser gratuito)
Como participar: se inscrever por telefone; não há fila de espera, mas é preciso haver vagas para se inscrever
Informações: (11) 3670-8040; www.pucsp.br/clinica

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DO RJ
Especialistas atendem em seus consultórios. Neste ano já foram atendidas cem pessoas Tipos de terapia: adulto e clínica de pais e bebês
Quanto: é acertado entre o paciente e o analista
Como participar: inscrições na sede; o paciente é encaminhado a um analista em até 15 dias
Informações: (21) 2537-1333



MITOS E VERDADES

'Todo mundo precisa fazer análise'

MENTIRA
A relevância de uma análise varia de acordo com o momento da vida e os objetivos de cada um. "Nem sempre a análise poderá contribuir muito para as circunstâncias efetivas de uma vida", afirma o psicanalista Christian Dunker. Há situações em que ela pode ser fundamental. "Há momentos nos quais a análise será decisiva para remover um sintoma ou mitigar o sofrimento." De forma geral, deve buscar a análise quem sente dores, tristeza ou ansiedade crônicas sem motivo aparente, passa por momentos de grande pressão mental ou está buscando se conhecer melhor, sem pressa.



ROSELY SAYÃO

Brincando de terapeuta

A criançada está com a saúde mental comprometida, apresentando muitos sintomas, doente. Essa é a conclusão a que chegamos quando tomamos conhecimento da quantidade de crianças e jovens que têm indicação para fazer ou já fazem ludoterapia, psicanálise para criança ou adolescentes e outros tratamentos derivados.
Uma criança de três anos, por exemplo, que apresentou um comportamento considerado diferente ou de difícil trato, o que colocou pais e professores em apuros, já mereceu a indicação para um atendimento psicanalítico.
Outra, um garoto de dez anos, já tem em seu currículo de vida a passagem por três -três!- tratamentos psicanalíticos. O motivo? É uma criança que passou a apresentar dificuldades escolares.
E a menina de oito anos que apresentou o que seus pais chamaram de "erotismo precoce". Já está em atendimento há mais de um ano. Será que é para tanto?
Recentemente, conversei com uma psicanalista a respeito dessa epidemia de indicação e de tratamentos psicanalíticos (ou chamados de) para crianças. Ela me deu ideias bem interessantes a respeito do assunto. Primeiramente, disse que muitos tratamentos chamados psicanalíticos não o são de fato, porque nem sempre estão fundamentados no aparato teórico psicanalítico, por sinal bem complexo.
Ainda mais hoje, com tantas mudanças já ocorridas no mundo após a publicação dos principais textos que inauguraram a psicanálise. Vamos reconhecer esse fato como verdadeiro. Agora, há até curso de psicanálise pela internet e qualquer pessoa pode se denominar "psicanalista de criança".
Isso na melhor das hipóteses, porque você, leitor, já deve ter visto pela cidade placas em consultórios indicando "psicanálise infantil". O que será isso?!
Bem, mas a melhor consideração que ela fez, em minha opinião, foi a de que hoje, mais do que nunca, os adultos responsáveis pela formação dos mais novos -em geral os pais- usam as crianças para satisfazer seus próprios desejos. Ou seja: os adultos projetam sobre as crianças que estão sob sua responsabilidade sua busca infantil de prazer imediato.
Um exemplo? Basta observar com atenção pais e seus filhos nos shoppings das cidades se dedicando à compra de brinquedos. Quem sente mais prazer com a compra desses objetos? As crianças -que, na sua imaturidade característica, se submetem sem saber aos apelos do consumismo- ou os pais, que dedicam uma parte polpuda de seu salário para essas aquisições?
Você terá surpresas interessantes, caro leitor, se observar a expressão facial deles nesses momentos. Em resumo: quem deveria, de fato, marcar presença semanal nos consultórios de psicanálise são os adultos. A maioria das crianças que frequentam duas, três ou mais vezes semanais o consultório está lá indevidamente.
Algumas delas precisam desse tratamento? Certamente. Muitas não terão nenhum benefício com isso? De fato, não sabemos. Mas sabemos que um tratamento psicanalítico não deveria ser banalizado dessa maneira.
E sabemos também que muitas das crianças que são tratadas pela psicanálise -ou terapias ditas psicanalíticas- apenas pagam o preço de nossos desvios, de nossa infantilidade, de nossa imaturidade.
Ora, deveríamos, então, honrar as nossas próprias contas.