quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A passagem do ano


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasta renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Liberalismo e religião

A quem pode interessar o conservadorismo
senão à plutocracia americana,
às corporações e bilionários?


NO INTERESSANTE artigo "Patologias do indivíduo" , Vladimir Safatle afirma que "a vida contemporânea demonstrou que individualismo e religiosidade, liberalismo e restrições religiosas dogmáticas, longe de serem antagônicos, transformaram-se nos dois polos complementares e paradoxais do mesmo movimento pendular".

Trata-se, para ele, do movimento pendular do pensamento conservador.

Num primeiro momento, a vitória do Partido Republicano nas recentes eleições americanas -que provavelmente até ocasionou o seu artigo- parece dar-lhe razão. Ocorre porém que, justamente nos Estados Unidos, o "pensamento conservador" se define em oposição ao "pensamento liberal", de modo que a vitória dos republicanos sobre os democratas foi tomada por todos como uma vitória dos conservadores CONTRA os liberais.

O que diferencia o conservadorismo americano do europeu é que os Estados Unidos não tiveram uma aristocracia. Principalmente depois da Revolução Francesa, o conservadorismo europeu, nostálgico do "ancien régime", definia-se contra a Ilustração, a secularização, o liberalismo e o individualismo, que considerava alienantes, e exaltava os valores da comunidade, da autoridade, da hierarquia e do sagrado.

Os Estados Unidos, porém, já surgiram com a afirmação tanto da separação entre o Estado e a religião quanto das liberdades individuais. A divergência entre conservadores e liberais americanos se dá principalmente no sentido e no alcance que cada um deles atribui a cada um desses pontos. O primeiro é um ponto fundamental para os liberais.

Quanto aos conservadores, basta lembrar a recente demonstração de ignorância da candidata republicana ao Senado pelo Estado de Delaware, Cristine O'Donnell, que reconheceu publicamente desconhecer que a separação entre o Estado e a religião se encontra estabelecida na famosíssima primeira emenda da Constituição dos EUA.

Quanto às liberdades individuais, os liberais tendem, cada vez mais, a entendê-las no sentido mais amplo e universal possível, considerando que compete à sociedade, por meio do aparelho de Estado, garantir que, em princípio, todos os cidadãos tenham a oportunidade de exercê-las plenamente, oferecendo-lhes, para tanto, as condições necessárias de saúde pública, educação, renda mínima etc.

Como o famoso economista liberal Paul Krugman recentemente declarou, o termo "liberal" nos Estados Unidos significa mais ou menos o mesmo que "social-democrata" significa na Europa.

Já os conservadores americanos, opondo-se à interpretação ampla das liberdades individuais, tentam reduzi-las basicamente à garantia do "laissez-faire", isto é, da ausência ou da minimização da intervenção do Estado na sociedade e na economia. Para eles, qualquer interpretação mais ampla das liberdades individuais é suspeita, e "social-democracia" é sinônimo de "comunismo".

A quem pode interessar diretamente tal conservadorismo, senão à plutocracia americana, aos grandes bancos, corporações e bilionários? Pode-se facilmente entender como é que, contra qualquer mudança, esses conservadores deem graças a Deus pela sobrevivência e expansão da religião e de pretensos "valores genuinamente americanos".

O estranho é que os republicanos tenham sido capazes de seduzir para esse conservadorismo grande parte da população interiorana e branca norte-americana, composta, em grande parte, de subempregados, desempregados e ameaçados de desemprego, exatamente em consequência da política republicana de "laissez-faire" para os grandes monopólios também na agricultura.

No entanto, os membros do Tea Party preferem explicar de outra maneira os seus problemas.
Dado que foi a partir dos anos 1960 que tiveram início não somente as mais importantes ampliações dos direitos -das liberdades- dos negros, das minorias em geral, das mulheres etc., mas também o declínio econômico dessa população, consideram que este declínio foi causado pela ampliação daqueles direitos.

Assim, tendo os anos 1950 como uma época áurea, culpam o liberalismo cosmopolita por tê-la destruído, ao minar os seus "valores genuinamente americanos".

De todo modo, é preciso reconhecer que a relação entre o liberalismo e a religião é um tanto mais complexa do que a que Safatle esboçou.


ANTONIO CICERO

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Basta tirar os sapatos

Ficar descalço chama a atenção
para furos nas nossas meias.
Mas a vulnerabilidade nos humaniza


"GENTE INTERESSANTE" não é um clube exclusivo.
Qualquer um pode entrar, porque todos são interessantes para alguém. O grau de interesse depende do que a pessoa revela de si, e não do quanto ela mostra. Não precisa fazer um striptease. Basta tirar os sapatos e esperar os resultados.

Sim, tirar os sapatos traz riscos: chama a atenção para os buracos nas nossas meias.
Mas ser vulnerável humaniza e pode convencer o outro a também tirar os sapatos. A maioria precisa de um empurrãozinho para fazer isso.

Nas festas, uso álcool. Nas minhas crônicas, tiro bem mais do que os sapatos, porque o público está distante e normalmente é simpático.

Por isso, aos leitores já revelei minha transa com uma prostituta, a vez que botei no jornal um classificado amoroso, minhas dificuldades de lidar com a adolescência dos meus enteados, meu derrame e alguns dos meus defeitos (mas não os piores). Eu já escrevi até sobre meu pelo corporal. Mas, mesmo assim, eu nunca tiro tudo.

Todas essas confissões têm o propósito de provocar alguma reação: risos, lágrimas, raiva ou reflexão. Enfim, comover aqueles que conseguem se identificar comigo e se sentir menos alienados, menos solitários. Às vezes, essa cumplicidade se confirma em um e-mail que diz: "Sua crônica expressou algo que sempre senti e queria dizer, mas nunca consegui"."

Há pouco tempo, eu contei a um amigo que, durante uma viagem recente à minha cidade natal, visitei, pela primeira vez, o túmulo da minha mãe, que morreu quando eu tinha dez anos. E quando vi a lápide me emocionei tanto que a abracei como se fosse seu corpo. Daí ele me contou que há dois anos, no Peru, ele visitou a montanha onde ocorreu o acidente aéreo que matou seus pais quando ele tinha 13 anos.

Quando viu uma cruz enorme fincada no lugar do desastre, ele se debruçou no solo diante dela e abriu os braços para dar nos seus pais o mesmo abraço simbólico que dei em minha mãe. Foi uma das raras vezes que ele se abriu comigo.

Ele tirou os sapatos porque eu tirei também. E quando duas pessoas começam a se expor, ambas ficam mais interessantes.

Uma pessoa pode ser interessante antes de abrir a boca. Pode ser também que ela nunca tire os sapatos e só revele que prefere se esconder.

Mas quem não corre o risco de se expor também paga um preço. Afinal, uma pérola só tem valor fora da ostra.


MICHAEL KEPP,

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Falta sexo

A escola deve tratar
o tema do sexo para garantir aos jovens
um desenvolvimento sexual saudável


A MÃE de um adolescente me contou que o maior interesse dele atualmente é tudo o que envolve a sexualidade.

Ele só pensa naquilo, brincou ela. Por isso, essa mãe tem uma pergunta: ela quer saber por que razão a escola não trabalha esse tema de maneira séria com os alunos dessa idade?

E ela ainda disse mais: até o dia em que falou comigo, próximo ao 1º de dezembro, quando se celebra o Dia Mundial da Luta contra a Aids, ninguém na escola havia dito nada a esse respeito, segundo lhe informou o filho. E o garoto frequenta o primeiro ano do ensino médio de uma escola particular muito bem conceituada na cidade de São Paulo.

Essa sempre é uma boa conversa já que, de fato, a escola não tem mesmo tratado o tema da sexualidade, embora ele esteja previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais como um tema transversal que a escola deve e precisa trabalhar de modo planejado.

Sabemos que as doenças sexualmente transmissíveis e a Aids estão presentes na vida dos jovens de maneira bem perigosa.

No Estado de São Paulo, por exemplo, 36,1 % dos casos notificados de DST concentram-se na faixa de idade de 13 a 24 anos.

Estudos realizados em diversos países apontam que a maioria dos portadores jovens do vírus HIV contraiu a infecção na adolescência.

É necessário um trabalho sistemático e sério de educação sexual, para garantir aos jovens o direito que eles têm de um desenvolvimento sexual saudável. Com tantas informações que apontam essa necessidade, a pergunta que fica é: por que a escola não tem cumprido sua parte?

Temos algumas pistas e a primeira delas é, certamente, a falta de formação da parte dos educadores formais.

Muitos deles, inclusive, preocupam-se com o tema e até o abordam com seus alunos.

O problema é que, quando fazem isso, estão sozinhos e por isso cometem atos desastrosos -como por exemplo passar seus valores pessoais e religiosos aos alunos, dar conselhos, julgar e até incentivar diretamente o que consideram atos preventivos, como a abstenção sexual ou uso de preservativo.

Ora, se as escolas dessem formação a seus docentes isso não ocorreria. Muitas delas formam seus professores para assuntos do conhecimento dos mais diversos tipos, oferecem capacitação para novas metodologias e teorias etc. Mas o tema da sexualidade, poucas priorizam nessa formação.

O segundo ponto que atrapalha a escola é a interferência dos pais. Algumas até mesmo afirmam que não têm um programa de educação sexual para os seus alunos porque os pais deles não aceitam isso.

Não cabe aos pais essa interferência na escola, e esta não deveria se submeter a tal tipo de intromissão, já que os mais novos têm direitos que precisam ser assegurados, independentemente de o que os pais deles pensam.

Cabe aos pais, isso sim, avaliar se o trabalho realizado é condizente com a idade dos alunos e se há fundamentação consistente para ele.

Os jovens, hoje, carecem de liberdade, notadamente em relação à sexualidade.
Eles são levados a acreditar que praticar o sexo é ser livre e que fazem isso por escolha própria. Não fazem: são praticamente levados a isso pela hiperestimulação erótica de nossa sociedade.
Pois seria na escola que eles teriam a oportunidade de construir um pensamento crítico a esse respeito de modo a poder, de verdade, ter escolha.

Por fim: qual a diferença entre sexo e sexualidade?
A escola, principalmente, deveria saber fazer essa diferença para então, com profissionalismo, planejar um trabalho de educação sexual com seus alunos e, dessa maneira, contribuir com o desenvolvimento pessoal e social dos mesmos.


ROSELY SAYÃO

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUEM QUER BRINCAR DE ESCOLHINHA?

Brincadeira deixou de ser popular
porque a escola tem exercido ema função hoje desnecessária



DURANTE MUITO tempo as crianças, principalmente as pequenas, gostavam muito de brincar de escolinha. Você mesmo, caro leitor, deve se lembrar de ter participado desse tipo de brincadeira.

O interessante era observar a imagem social que a escola tinha e que se manifestava no ato lúdico das crianças: em geral, o papel de professora -sim, a educação formal é do gênero feminino- era ocupado de modo bem firme, exigente e até severo.

A criança nesse papel impunha a seus pares que ocupavam o papel de aluno uma disciplina rigorosa, um esforço enorme para fazer a lição corretamente e até aplicava castigos. O mais curioso dessa situação é que a maior parte dessas crianças nunca havia frequentado escola anteriormente.

Isso significa que, mesmo que não correspondesse à realidade, essa era a ideia que as crianças faziam de escola. E por que essa brincadeira era tão popular? Porque as crianças tinham vontade de ir para a escola.

As crianças de hoje não brincam mais de escolinha.

Recentemente, testemunhei uma situação que comprova isso de modo peculiar. Um grupo de crianças com mais ou menos quatro anos estava em busca de uma brincadeira quando um adulto propôs a escolinha. Uma garota respondeu de imediato que isso seria muito chato.

Quais as brincadeiras preferidas pelas crianças pequenas hoje? Elas gostam de brincar de escritório, de banco, de shopping!

Um pensamento apressado pode ser o de que a escola não é divertida, por isso tem sido recusada pelas crianças.

Pensando melhor, pode ser porque a escola tem exercido, de modo geral, uma função hoje desnecessária.

Onde se pode aprender hoje conteúdos que só na escola se aprendia antes? Em qualquer lugar, não precisa mais ser na escola, não é verdade?

Aprende-se, por exemplo, em revistas, na internet, em jornais, na televisão etc.
Talvez por isso a escola seja considerada chata pelas crianças: porque ela não encontrou ainda sua nova função na atualidade.

Nesta época do ano, muitos pais estão em busca de uma boa escola para seus filhos. Alguns se orientam pelos rankings escolares, outros pelo espaço físico disponível, outros ainda pelas atividades oferecidas.

São poucos os pais que perguntam se a escola ensina a criança a ocupar o papel de aluno, principalmente nos primeiros anos do ensino fundamental.

É nesse período que a criança precisa aprender na escola a se esforçar para aprender, a repetir suas lições até dar o melhor de si, a saber ter postura física que facilite seu aprendizado, a ter disciplina para o trabalho.

Era exatamente isso o que as antigas brincadeiras de escola evidenciavam: exigência, rigor, disciplina.

Mas vale lembrar que a escola não pode apenas esperar que seus alunos cheguem lá já sabendo como fazer ou simplesmente cobrar ou reclamar. Não: como não há mais uma imagem social comum de escola, é a própria que precisa ensinar isso.

Conheço pais que reclamam na escola quando seus filhos dizem que a professora exige demais ou é brava. Quando essa é a imagem da professora mas a criança aprende, está tudo bem.

A função do professor não é ser legal, bonzinho ou camarada: é ensinar. E professores rabugentos também ensinam muito bem. Aliás, aprender a se relacionar com vários tipos de adultos é uma grande lição de vida para as crianças, que não precisam nem devem ser poupadas de situações difíceis.

Se conseguirmos reconstruir a imagem social da escola atualizando sua função, quem sabe as crianças poderão voltar a ter vontade de brincar de escolinha, não é mesmo?


ROSELY SAYÃO é psicóloga

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Nem marido, nem namorado

Apesar de tantas mudanças,
ainda faltam bons nomes
para definir os novos formatos
de relacionamento amoroso


MUITAS mulheres dizem que não sabem como definir o homem com quem estão tendo uma relação afetiva e sexual.

Algumas moram junto, mas não são casadas legalmente. Outras moram sozinhas, mas têm um compromisso estável. Outras ainda moram no mesmo apartamento, mas cada um tem seu quarto, banheiro, computador, telefone, televisão etc.

Elas dizem que não gostam de chamá-los de "marido", porque indicaria um nível de compromisso que não assumiram. Acham a palavra "namorado" pior ainda, consideram esquisito dizer que estão namorando depois de certa idade. "Namorido" (mistura de namorado e marido) dizem, é ridículo, apesar de o termo estar na moda em alguns meios.

Uma psicóloga de 47 anos diz: "Estou com uma pessoa há mais de dez anos. Eu acho estranho dizer que é meu "marido", porque não moramos juntos. "Namorado" é coisa para adolescente. "Companheiro" parece que sou do Partido Comunista. "Parceiro" parece que ele é meu sócio num negócio. Ele diz para todo mundo: esta é a minha mulher. Adoraria fazer como ele e dizer, apenas, 'este é o meu homem'".

Apesar de décadas de mudanças nas relações de gênero, nas famílias e nos casamentos, não foi inventado um bom nome para definir os homens e as mulheres que vivem novas conjugalidades.

O fato de não existir um nome indica que essas relações não são plenamente reconhecidas socialmente. Daí a necessidade de homens e mulheres usarem velhas definições, talvez como forma de tornar os novos arranjos conjugais mais legítimos, reconhecidos ou seguros.

Trata-se de um problema de classificação. Não conseguimos nomear adequadamente novas formas de compromisso amoroso sem recorrer a categorias anacrônicas, que estão muito longe de serem adequadas.

Uma antropóloga de 50 anos diz que o Facebook está mais antenado com os relacionamentos atuais. "Lá tem como opções: solteira, em um relacionamento sério, em um noivado, casada, em um relacionamento enrolado, amizade colorida, viúva, separada, divorciada. Eu me classifico como tendo um relacionamento sério. Mas na vida real como posso apresentá-lo aos meus amigos? Este é fulano, o meu relacionamento sério?"

Caros leitores e leitoras, alguma sugestão? Enviem suas ideias para o meu e-mail e, quem sabe, conseguimos descobrir uma definição mais satisfatória para as novas formas de conjugalidade. Mas, por favor, nada de namorido!



MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga