segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cinderela criteriosa procura

O que não seduz uma mulher: homem que recita seu currículo, traduz cardápios ou descreve a sua BMW


ANOS ATRÁS, uma colunista do "NY Times" disse que as mulheres queriam "vaqueiros viris que não distingam entre Flaubert e "flambé'".

Antes desse tapa na cara do feminismo, li que algumas queriam homens para compartilhar a cozinha e as trocas de fraldas, e outras buscavam tipos tradicionais e segurança financeira. Mas, para mim, o que as mulheres querem se resume em duas palavras: uma narrativa.

Essa história, porém, tem de diferenciar esse homem dos outros. De que outro modo a mulher pode determinar suas chances de construir (ou conduzir) um relacionamento com ele -o objetivo dela?

No início, contei às cariocas por que troquei os EUA pelo Rio, como meus tropeços em português levavam a mal-entendidos, e até como eu descobri que era daltônico.

Elas, intrigadas com essas histórias, queriam saber se eu era receptivo aos seus sonhos, que esperavam encaixar nos meus. Essa sintonia, tipo "a gente se completa", é a raiz da ficção romântica, de Cinderela a "Orgulho e Preconceito", e molda as expectativas amorosas femininas.

No conto de fadas, a sintonia é simbólica: um sapato cabe no pé da heroína; no romance, é psicológica: os protagonistas se apaixonam, um ajuda o outro a ver seu próprio orgulho e preconceito.

O que também seduz uma mulher é ela sentir-se fruto de uma grande história de amor.

O que não seduz uma mulher são homens recitando o currículo, traduzindo cardápios em francês ou descrevendo a sua BMW, porque essas são listas, não histórias.

Mulheres são criteriosas. A plumagem de um macho pode levar a um caso, mas raramente a um casamento.

Narrativas são afrodisíacas para ambos. É a premissa do filme de 2004, "Antes do Pôr do Sol", versão moderna da Cinderela em que herói e heroína se contam histórias e se tornam protagonistas da história um do outro.

Anos depois de um breve e mágico encontro entre o americano Jesse e a francesa Celine, ela se apaixona pelo livro que ele escreveu sobre o momento (e sobre ela) e vai à livraria em Paris onde ele o está autografando.

Na "cidade do amor", eles se rendem a uma orgia verbal, troca intensa de experiências e ideias, expressa em anedotas, que revive a magia. Celine canta para Jesse uma música narrando como aquele encontro mexeu com ela.

Nesse "pas de deux" de palavras, não há beijos nem toques, só duas pessoas seduzindo uma à outra com histórias que se entrelaçam, como dois filamentos de DNA, girando em volta um do outro para construir nova história.

A premissa é tão cativante que não condena Jesse, infeliz no casamento, pelo adultério que está prestes a cometer. Por quê? Traição é episódio menor no que promete ser uma longa e rica narrativa.


MICHAEL KEPP

Nenhum comentário:

Postar um comentário