quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Ataques e justificativas

As relações estão coisificadas. Não é qualquer um que é visto como ser humano


FOMOS INFORMADOS de que cinco jovens de classe média, com comportamento violento, atacaram outros três na avenida Paulista, em São Paulo.

O fato logo foi seguido por comentários e explicações por parte de pessoas próximas às envolvidas: justificativas que tentavam amenizar a situação.

O acontecimento foi associado à homofobia, e essa relação está sob investigação. Mas, vejamos as declarações de pais de alguns dos agressores.

Um afirmou a um jornal que tudo não passou de "uma grande confusão" e foi além: disse que não se tratava de um ato homofóbico, e sim de uma briga comum.

Ah, bom! Se não há homofobia no meio, tudo fica menos sério, não é? Outro pai chamou os jovens agredidos de "supostas vítimas" e não aceita o fato de a versão deles ter sido apresentada à polícia sem a presença dos advogados dos que praticaram a agressão.

Outro reconhece que o filho tem "pavio curto" e afirma que, por isso, o jovem teria reagido com briga a uma "cantada" um pouco agressiva da parte dos jovens que foram atacados. Ah, bom, se foi reação, não foi tão grave assim.

A mãe de um deles afirmou que os encontrou chorando (eles estão, no momento em que escrevo este texto, recolhidos) e os chamou de "crianças". Ela disse também que não sente vergonha, mas que está sensibilizada com o fato de os outros jovens estarem machucados.

Um pai declarou a mesma coisa: que os garotos "estavam chorando" quando os viu. Ah, bom, se os agressores estão sofrendo, devemos nos preocupar com eles.

Já temos o suficiente para refletir a respeito desse fato que nos remete a outros semelhantes já noticiados.

O que a educação que praticamos em casa e nas escolas tem a ver com isso? Como o comportamento no mundo adulto estimula acontecimentos desse tipo?

Educar tem sido cada vez mais difícil. Você deve ter considerado, caro leitor, como muitas pessoas e eu, que o avanço do conhecimento e das tecnologias facilitariam o processo educativo.

Engano nosso: a cada dia, novos dispositivos, ideias e valores são incorporados à vida dos mais novos -e isso exige novas atitudes educativas de nossa parte.

Educar na atualidade exige um conhecimento crítico e uma compreensão do mundo e da realidade para que os atos educativos possam conter, pelo menos em sua intenção, possibilidades de mudanças para os mais novos.

O ocorrido aponta, entre outras coisas, que as relações com os outros estão "coisificadas", desumanizadas. Não é qualquer outro que é visto como ser humano.

Os que não são reconhecidos como parte do grupo ao qual a pessoa pertence, em geral bem pequeno, são vistos como estorvo, fonte de problemas e geradores de insegurança e, logo, de desconfiança. Isso impede a solidariedade, a colaboração e estimula a xenofobia. Índios, empregadas domésticas, prostitutas e homossexuais já foram tratados por jovens como "coisas" e não como seres humanos, em um passado recente.

Enquanto as escolas se preocuparem com a competição nos diversos "rankings" publicados, enquanto as famílias se preocuparem apenas com o futuro pessoal de seus filhos, e enquanto ambas as instituições não apostarem na recuperação da vida coletiva e social, nossos filhos terão poucas chances de uma existência digna.

Em tempo: mesmo que seu filho frequente uma escola privada renomada e conceituada, você não tem motivos para ficar tranquilo. Lá dentro também ocorrem exclusões, humilhações, enfrentamentos, furtos e abusos.



ROSELY SAYÃO

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