sábado, 2 de outubro de 2010

Urubu na Bienal


"Há sempre um copo de mar/ Para um homem navegar". São versos do canto primeiro da "Invenção de Orfeu", o longo poema que Jorge de Lima publicou em 1952, um ano antes de morrer.

A 29ª Bienal, que abre hoje no Pavilhão do Ibirapuera para convidados e sábado para o público, está organizada em torno das relações entre "arte e política". E fez dos versos do poeta alagoano o seu título.

Entre o confinamento do "copo" e o infinito do "mar" existe uma tensão, na qual podemos (ou estamos condenados a) "navegar". Ou o colunista "navega" demais?

Nota-se, já a partir dessa escolha pouco óbvia (e da beleza complexa que os versos exprimem), o compromisso dos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos com o sentido de relevância da cultura.

Depois da "Bienal do Vazio", quando mimetizou seu ocaso, a mostra parece se reerguer, aliando inquietação e esforço reflexivo.

Mas nada disso pertence ao universo do presidente da OAB de São Paulo, Luiz Flávio Borges D'Urso. Ele anda ouriçado com os "excessos" da Bienal. Em nota, solicitou que os trabalhos de Gil Vicente sejam banidos da exposição, sob ameaça de acionar a Justiça. D'Urso viu incitação ao crime na série de desenhos "Inimigos", em que o artista pernambucano retrata a si mesmo atentando contra a vida de figuras públicas -Lula, FHC etc.

Pode-se ou não gostar dos trabalhos, mas "crime" seria censurá-los. Nos anos 1970, Raymundo Faoro colocou a OAB na linha de frente da luta pela democracia. D'Urso transforma a seção paulista da entidade em sucursal do obscurantismo. Sua atitude é oportunista e sua compreensão da arte é rudimentar.

Lembre-se que D'Urso foi líder do "Cansei", em 2007, quando o acidente da TAM serviu de pretexto para que uma fração da direita civil se organizasse em torno do que Cláudio Lembo chamou de "movimento de dondocas". O sr. Cansei está de volta. Mas por favor: urubus na Bienal, só os de Nuno Ramos...



Pedido da OAB-SP é ato assustador de censura

Nota autoritária fere integridade da curadoria e subestima o público


Tem notícia que assusta. A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil pedir por nota pública a exclusão de obras da próxima Bienal de São Paulo é uma delas.

O ato é assustador por várias razões. Primeiro, pelo caráter autoritário que revela.
Segundo, pelo entendimento equivocado que o motiva.

Por fim, porque, supostamente, é cometido em nome da defesa do Estado de Direito e das instituições democráticas. O presidente da seccional de São Paulo, Luiz Flávio Borges D'Urso, que assina a nota, perdeu uma boa oportunidade de omitir-se.

As obras que a OAB-SP sugere ocultar fazem parte da série "Inimigos", de Gil Vicente. São desenhos grandes (2 m por 1,5 m) feitos com carvão, nos quais o artista se retrata assassinando autoridades e figuras públicas. Entre as "vítimas", estão o presidente Lula, dois governadores de Pernambuco, a rainha da Inglaterra e o papa.

Segundo a OAB-SP, as obras demonstram "desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência".

D'Urso argumenta que "uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade do seu autor, deve ter determinados limites para sua exposição pública. Um deles é não fazer apologia ao crime, como estabelece a vedação inscrita no Código Penal Brasileiro".

Pela lógica de seu argumento, o presidente da OAB-SP considera que representar artisticamente um crime equivale a recomendar sua execução. No entanto, retratar um assassinato não significa fazer apologia ao crime.

É o espectador quem dará significado aos desenhos de Vicente. A obra de arte é apenas uma representação que adquire valor subjetivo para quem a observa.



DIREITO DE DESPREZAR


A despeito do que critica a nota, é legítimo e legal que uma obra de arte represente o desprezo do autor pelo poder instituído. Em um Estado democrático, todos têm o direito de sentir desprezo por qualquer pessoa ou instituição. Desprezar não é crime e, mais importante, todos temos o direito de expressar o desprezo artisticamente.

A prevalecer a linha de raciocínio da nota, talvez se devesse proximamente proibir a exibição de artistas como Hélio Oiticica, que recomendava ao público: "Seja marginal, seja herói".

Mais valioso para o Estado de Direito do que uma cláusula do Código Penal -no meu entender, mal interpretada pelo presidente da OAB-SP- é o espírito da Constituição Federal. Mais importantes são as liberdades e os direitos individuais, que servem de base e fundamento para o Estado de Direito e as instituições democráticas que a OAB-SP pretende defender. A tentativa de controle social por meio da supressão de obras artísticas chama censura. Simples assim.

Caso os organizadores não desistam de exibir os trabalhos, a OAB-SP promete recorrer ao Ministério Público Estadual para pedir a retirada das obras e o indiciamento dos responsáveis por apologia ao crime. A pena prevista é de três a seis meses de detenção ou o pagamento de multa.

É ao que se arriscarão os curadores e o presidente da Bienal se quiserem resguardar a integridade do trabalho de concepção e organização da mostra. A nota é autoritária e condescendente. Subestima a capacidade de discernimento do brasileiro. É legítimo perguntar até que ponto representa o entendimento jurídico e a sensibilidade política dos advogados paulistas.

Em qualquer hipótese, até o momento, o que parece atentar contra o Estado de Direito e as instituições democráticas não é a exibição das obras de Gil Vicente na Bienal, mas, sim, o teor da nota pública assinada por D'Urso. A OAB-SP errou e precisa admitir seu equívoco.



ALEXANDRE VIDAL PORTO, mestre em Direito pela Universidade de Harvard, é diplomata e escritor.

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