domingo, 10 de outubro de 2010

A mulher inesquecível

Como ser 'especial' nesse mercado
de relações onde a oferta
é muito grande tanto no
plano real quanto no virtual?

O HOMEM brasileiro quer ser o primeiro na vida de uma mulher. Já a mulher deseja ser a única na vida do homem. Duas frases populares na nossa cultura amorosa.

É só abrir uma das revistas femininas e ler os depoimentos de mulheres famosas sobre namorados e maridos. Elas dizem: "Ele me faz sentir que eu sou a mulher mais especial do mundo".

É também o que dizem as "outras", para justificar o papel de amante de homem casado: "Eu sou a única. Ele só está com a esposa por obrigação. A verdadeira outra é ela. Eu sou a número um".

Como ser uma mulher especial em um mercado de relacionamentos onde a oferta é muito grande não só no mundo real, mas no virtual?

Eles dizem que na internet está disponível um enorme cardápio de mulheres de todos os tipos físicos, idades, profissões, nacionalidades etc. É um verdadeiro shopping onde tudo é muito fácil. Basta um clique.

Apesar da oferta excessiva, eles querem encontrar uma mulher especial, aquela que fará com que desistam de conquistar todas as mulheres do mundo.

Há uma característica essencial para ser considerada uma mulher inesquecível: ela deve despertar admiração.

Ela não é necessariamente a mais bonita, jovem ou sensual. Inesquecível, para eles, é: "Minha esposa, ela é a mulher mais marcante de toda a minha vida, ela me ensinou tudo o que eu sei sobre mim mesmo"; "minha namorada, ela me transformou em um homem muito melhor", e "minha ex-mulher, ela foi, é, e será para sempre o meu único e verdadeiro amor. É a pessoa que mais admiro no mundo".

Freud dizia que existe uma grande pergunta que ele não conseguiu responder, apesar de muitas décadas de investigação da alma feminina: o que quer uma mulher?

Muitas brasileiras responderiam facilmente: ser especial, única, inesquecível. Aparentemente, por trás desse desejo está o medo de ser ignorada, invisível, apenas mais uma no meio de tantas outras.

Ser inesquecível poderia protegê-las da invisibilidade social e da falta de reconhecimento do seu valor, poder e importância como mulher.

É cada vez mais difícil se tornar uma mulher inesquecível em uma sociedade que se caracteriza pelo consumo hedonista, onde as relações amorosas são tratadas como mercadorias frágeis, múltiplas e descartáveis. No entanto, prova de que o amor romântico resiste às profundas transformações sociais, homens e mulheres continuam alimentando esse ideal.



MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário