quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Paixões perversas

Nada de grande se faz sem paixão
Hegel


VAMOS COMEÇAR por definir os termos.

Paixão é um estado de insanidade temporária que faz a pessoa objeto de desejo ser lida de forma descolada da realidade, para o bem ou para o mal.

Ou é idealizada a ponto de o apaixonado ser incapaz de ver-lhe defeitos. Ele põe a pessoa em pedestais e se coloca como humilde devoto.

Ou, então, olha-a como se fosse o demo, torna-se obcecado pelo mal que ela representa, deseja devotar a vida à sua destruição, com as mesmas características de descolamento da realidade.

Um adendo: em latim, "passio" só tem uma tradução, que é sofrimento.

O segundo termo é a perversão. Freud a descreve como uma doença, um mecanismo de defesa cuja característica é a dupla negação.

Algo como: "Eu sei que está errado, mas, dane-se, eu vou fazer". A primeira negação é contra todas as ameaças que a civilização nos impõe para que nos comportemos de maneira ética.

Em sua origem está nossa criação, a vingança que queremos contra as crueldades que ela nos impôs e os desejos geneticamente herdados que não encontram lugar nos desconfortos da cultura.

Quando a paixão erótica se encontra com a perversão, elas estão escritas na formação do nosso desejo. Costumam ser de dois tipos: sadomasoquista e fetichista.

Ambos têm em comum o apagamento das pessoas envolvidas. O que vale é uma representação psíquica tão fortemente gravada na cabeça do perverso que o impede de ter curiosidade pelo outro.

Bastam pequenos estímulos e o outro já está classificado e elencado como ator (ou atriz) para o desencadeamento do drama perverso.

Exemplo sadomasoquista: "Ela não me ligou depois do nosso primeiro encontro. Só pode estar se divertindo às minhas custas. Mas agora também ela vai ver o que eu vou fazer com ela..."

O homem em questão já tem certeza de que a outra é sádica e merece vingança. Se ela entrar no jogo, teremos uma paixão perversa.

Exemplo fetichista: o homem precisa despersonalizar a mulher por meio de um artifício ("fétiche", em francês, vem do português feitiço, artifício), como cobri-la com um casaco de pele, para aí transar. A complexidade que ela representa como pessoa ameaça-o ao ponto de inibi-lo para o sexo.

Esses dois homens têm medo e são prisioneiros das mulheres de seus passados. Não conhecem outras mulheres, mulheres-pessoas. O mesmo se pode dizer de suas parceiras, que entram no jogo.


FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico

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