sábado, 28 de agosto de 2010

O colapso do PSDB

"Além de enfrentarem o sucesso popular do governo Lula, Serra e a oposição pagam a conta de oito anos de inércia política e intelectual, de inanidade programática e de descaso com bases partidárias e sociais, para não dizer mesmo demofobia,
ojeriza ao povo.
"

VINICIUS TORRES FREIRE


HÁ ALGO de melancólico na trajetória do PSDB. Talvez aqueles que, como eu, votaram no partido em seu início, lembrem do momento em que a então deputada conservadora Sandra Cavalcanti teve seu pedido de filiação negado. Motivo: divergência ideológica.

De fato, o PSDB nasceu, entre outras coisas, de uma tentativa de clarificação ideológica de uma parcela de históricos do MDB mais afeitos às temáticas da socialdemocracia européia.

Basta lembrarmos dos votos e discussões de um de seus líderes, Mario Covas, na constituinte. Boa parte deles iam na direção do fortalecimento dos sindicatos e da capacidade gerencial do Estado. Uma perspectiva contra a qual seu próprio partido voltou-se anos depois.

A história do PSDB parece ser a história do paulatino distanciamento desse impulso inicial.

Ao chegarem ao poder federal, os partidos socialdemocratas que lhe serviram de modelo (como os trabalhistas ingleses e o SPD alemão) haviam começado um processo irreversível de desmonte das conquistas sociais que eles mesmos realizaram décadas atrás.

Um desmonte que foi acompanhado pela absorção de suas agendas políticas por temáticas vindas da direita, como a segurança, a imigração, a diminuição da capacidade de intervenção do estado, entre outros.

Este movimento foi reproduzido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Assim, víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o "desmonte do estado getulista", "a quebra da sanha corporativa dos sindicatos", ou "a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST".

O resultado não foi muito diferente do que ocorreu com os partidos socialdemocratas europeus. Fracassos eleitorais se avolumaram, resultantes, principalmente, de uma esquizofrenia que os faziam ir cada vez mais à direita e, vez por outra, sentir nostalgia de traços ainda não totalmente extirpados de discursos classicamente socialdemocratas. No caso alemão, o SPD acabou prensado entre uma direita clara (CDU, FDP) e uma esquerda renovada (Die Linke).

No caso brasileiro, esta eleição demonstra tal lógica elevada ao paroxismo. Assistimos agora ao candidato do PSDB ensaiar, cada vez mais, um figurino de Carlos Lacerda bandeirante; com seu discurso pautado pela denúncia do aumento galopante da insegurança, do narcotráfico, do angelismo do governo com o terrorismo internacional das Farcs e, agora, o risco surreal de "chavismo" contra nossa democracia.

Um figurino que não deixa de dar lugar, vez por outra, a uma defesa de que é de esquerda, de que recebeu palavras carinhosas de Leonel Brizola, de que vê em Lula alguém "acima do bem e do mal" etc.

Nesse sentido, o caráter errático de sua campanha não é apenas um traço de seu caráter ou um problema de cálculo de marketing.

Trata-se do capítulo final da dissolução ideológica de uma sigla que só teria alguma chance se tivesse ensaiado algo que o PS francês tenta hoje: reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda e (algo que nunca um tucano terá a coragem de fazer) autocrítica em relação a erros do passado.



VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP

terça-feira, 24 de agosto de 2010

As pessoas são aquilo que elas amam


Muitas pessoas levam seus cães para passear; eu levo meus olhos para passear, eles se encantam com tudo



Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso.

Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas.

O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui.

Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...

RUBEM ALVES

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

É preciso saber a tabuada?!

Estudos em neurociência sugerem
que é preciso saber a tabuada;
debate hoje é se ela deve ou não ser decorada




Crianças precisam ou não saber a tabuada de multiplicação? A resposta curta, de acordo com a melhor ciência disponível, é "sim", mas isso não significa que a enorme controvérsia em torno do tema tenha sido resolvida.

Essa é mais uma daquelas polêmicas fundadoras, que divide educadores em linhas pedagógicas com nítidos contornos ideológicos.

De um lado estão os defensores de um ensino mais tradicional, para os quais a tabuada precisa ser conhecida "de cor e salteado"

"Sim, a tabuada deve ser ensinada, e as crianças devem conhecê-la de cor", afirma o professor de psicologia da USP Fernando Capovilla.

"Se o automatismo na memória de recitação falhar, entra o raciocínio. Se não falhar, os recursos centrais de atenção e memória podem se dedicar exclusivamente à resolução do problema em pauta", acrescenta.

Do outro, vêm os proponentes da educação progressista -no Brasil, mais conhecidos como construtivistas-, que, inspirados nos trabalhos de autores como Jean-Jacques Rousseau, John Dewey e Jean Piaget, advogam por um sistema que respeite o desenvolvimento cognitivo da criança.

"Seguindo os princípios construtivistas, temos que inverter o modo como se ensina tabuada", diz a professora de pedagogia da USP Silvia Colello.

"Explicando melhor, na escola tradicional, as crianças primeiro aprendiam a tabuada e depois aplicavam em problemas estritamente escolares que nem sempre faziam sentido para ela. Em uma perspectiva mais atual, entendo que as crianças devam compreender o princípio da multiplicação a partir de atividades lúdicas ou que sejam integradas aos contextos/necessidades da vida cotidiana", completa.


MUNDO REAL


Nos anos 80 e 90, os construtivistas pareciam estar vencendo a guerra. Nos EUA, por exemplo, o poderoso Conselho Nacional de Professores de Matemática (NCTM) lançou várias recomendações para que as escolas tirassem a ênfase da competência para efetuar cálculos e a colocassem na compreensão dos conceitos e na capacidade de resolver problemas do "mundo real".

A ideia era que, com a crescente popularização de calculadoras e computadores, fazer contas se tornara uma tarefa puramente mecânica sem maior interesse.

A reação não tardou. Professores universitários se uniram a "pais preocupados" para queixar-se do baixo nível de conhecimento com que os alunos saíam do ensino médio e defender a volta a um ensino mais tradicional. As batalhas entre os dois lados ficaram conhecidas como "math wars" (guerras matemáticas).

Para tentar resolver a celeuma, em 2006, o então presidente George W. Bush convocou uma comissão de notáveis e os incumbiu de reunir a melhor ciência disponível e fazer recomendações.

Em 2008, o comitê saiu-se com uma conclusão temperada pela política na qual afirmava que "a compreensão dos conceitos, a fluência computacional e a capacidade de resolver problemas são igualmente importantes e reforçam uns aos outros" e pedia o fim da guerra.

Hoje, com os ânimos serenados e a ciência mais bem digerida, é possível avançar um pouco mais. Como explica o psicólogo e educador João Batista Oliveira, outro defensor da tabuada decorada, "o problema é que a memória humana é limitada".

A memória de trabalho de um adulto, isto é, aquela que ele utiliza na resolução de problemas complexos (não a que armazena para manter por períodos mais longos), comporta em média apenas uns sete elementos. No caso de crianças, essa capacidade é ainda menor. Se ela é onerada com sub-rotinas para fazer contas simples, perde-se eficiência cognitiva.


VERBOS DE AÇÃO


Numa linha um pouco diferente e que não insiste na decoreba vai a consultora educacional e pesquisadora em neurociência Elvira Souza Lima. Para ela, os elementos da matemática, incluindo a tabuada, devem ser aprendidos com suporte linguístico, especialmente de verbos de ação, que resultam numa organização mais sólida dos conceitos.

A ideia é que a criança seja exposta a frases como "peguei 4 vezes 9 unidades de banana e fiquei com um total de 36 bananas" ou "andei 9 vezes a distância de 4 metros da porta da casa ao portão do jardim. Assim andei 36 metros no total".

"Num primeiro momento, esses raciocínios mobilizam a memória de trabalho, mas, depois de muita repetição, eles [os elementos] acabam se fixando e podem ser utilizados prontamente".

A vantagem, segundo Lima, é que o aluno, além de acabar aprendendo a tabuada, também se assenhora do princípio multiplicativo e de suas propriedades, que são básicos para a matemática.

"Em resumo, a criança que aprende o princípio multiplicativo terá mais recursos, principalmente para aprendizagens posteriores, do que a que só decora a tabuada", diz a pesquisadora.


HÉLIO SCHWARTSMAN

domingo, 15 de agosto de 2010

A epidemia de crack


A dependência química não é mero hábito de pessoas
sem força de vontade para livrar-se dela




A DISSEMINAÇÃO vertiginosa da epidemia de crack deixa a sociedade perplexa. Tememos por nossos filhos, pela violência que caminha no rastro da droga, lamentamos o destino dos farrapos humanos que perambulam pela cidade, mas nos sentimos impotentes para lidar com problema social de tamanha complexidade.

Diante desse desafio, a única saída que fomos capazes de encontrar é a de reprimir. Partimos do princípio que se prendermos todos os traficantes, as drogas ilícitas desaparecerão ou chegarão aos centros urbanos a preços proibitivos.

Alguém já disse que todo problema complexo admite uma solução simples; sempre errada. Pretender acabar com o crack por meio da repressão é ingenuidade. Gastamos fortunas para conseguir o quê? Cadeias lotadas, polícia corrompida, violência urbana, judiciário sobrecarregado, traficantes poderosos, mortes de adolescentes e droga barata. Barata como nunca.
Tratar o uso de crack como simples caso de polícia é política pública destinada ao fracasso. É enxugar gelo, como disse um delegado.

Os jornalistas Mario Cesar Carvalho e Laura Capriglione publicaram neste jornal (caderno Ilustríssima de 23/6/10) uma das análises mais brilhantes que já li sobre a epidemia de crack no Brasil. Para eles, é impossível compreender como uma droga com tal poder destrutivo se espalhou pelo país sem analisar os dados econômicos envolvidos em seu comércio. Estão certíssimos.

Citando dados da Polícia Federal enviados à ONU, os autores fazem a seguinte análise: "um grama de cocaína vale R$ 6 no atacado e R$ 25 no varejo, gerando um lucro de 300%. O lucro do crack é menor, de 200% -o traficante graúdo pega o grama por R$ 4 e o revende por R$ 12. O que faz toda a diferença do crack é o tamanho da clientela em potencial. As classes C, D e E correspondem a 84% da população do país (162 milhões de pessoas)..."

Segundo os dois jornalistas, as propriedades farmacológicas da cocaína fumada sob a forma de crack, causadoras da sensação imediata de prazer intenso que leva ao uso compulsivo, e a liquidez espantosa que o crack encontra nas ruas completam o quadro.

Há mais um detalhe a considerar. No comércio de qualquer mercadoria, os custos para transportá-la do centro de produção ao de consumo são cruciais para o sucesso das vendas. No caso das drogas ilícitas, esse gasto é irrelevante.

Se um traficante pagar 2 mil dólares por quilo de cocaína pura na Bolívia, e um piloto cobrar a quantia absurda de 500 mil dólares para transportar 500 quilos para os Estados Unidos num voo clandestino, que diferença fará? O preço final aumentará apenas 1.000 dólares por quilo, que será vendido por 30 mil dólares em Nova York.

É impossível eliminar do mercado um produto com essas características, comercializado por capitalistas selvagens que não recolhem impostos nem reconhecem direitos trabalhistas, com poder suficiente para corromper a sociedade e condenar à morte os que lhes prejudiquem os negócios.

Veja os americanos, leitor. Investiram na guerra contra as drogas mais do que a soma gasta por todos os países reunidos, e qual foi o resultado? São os maiores consumidores do mundo.
O que fazer, então? Cruzar os braços?

A forma mais sensata de enfrentá-lo é reduzir o número de usuários. Dependência química não é mero hábito de pessoas sem força de vontade para livrar-se dela, é uma doença grave que modifica o funcionamento do cérebro. Nós, médicos, devemos confessar nossa ignorância: não sabemos tratá-la porque nos falta experiência clínica e conhecimento teórico. Só recentemente a comunidade científica começa a se interessar pelo tema.

É preciso oferecer ao craqueiro uma alternativa de vida para tirá-lo das ruas. Além disso, criar novos centros de recuperação formados por equipes multidisciplinares de profissionais bem pagos, dispostos a aprender a lidar com os dependentes, a conduzir pesquisas e a definir estratégias baseadas em evidências capazes de ajudar os inúmeros usuários dispostos a escapar do inferno em que vivem.

O dependente de crack deve receber apoio social e deve ser tratado com critérios semelhantes aos que usamos no caso dos hipertensos, dos diabéticos, dos portadores de câncer, Aids e de outras doenças crônicas.

DRAUZIO VARELLA

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A descriminalização das drogas


QUEM EXERCERÁ O CONTROLE? SERÁ CRIADA UMA AGÊNCIA NACIONAL? O BRASIL NÃO PRODUZ DROGAS, SERÁ ENTÃO ESTIMULADO A FAZÊ-LO PARA TER MAIOR CONTROLE?

O debate no Brasil não é recente. Desde meados dos anos 70 assistimos ao crescimento do crime violento, em especial homicídios cujas vítimas preferenciais são adolescentes e jovens adultos do sexo masculino.

Esse crescimento está relacionado à chegada do crime organizado, sobretudo o comércio ilegal de drogas que se alastrou por bairros populares e centros das cidades.Na sua esteira, cresceram roubo, assalto a banco, extorsão mediante sequestro.

A repressão violenta tem resultado em inúmeras prisões temporárias, que favorecem a construção de carreiras no crime. Além disso, há envolvimento de agentes policiais em negócios escusos.

Recentemente, reunião de ex-governantes da América Latina retirou o debate -até então restrito a especialistas- de seu confinamento.

A atual política de drogas, tradicionalmente influenciada pela política americana, tem fracassado no propósito de conter o tráfico e o consumo. Ao contrário, tem produzido efeitos bem conhecidos.

A par das disputas fatais pelo controle de pontos de venda, o narcotráfico tem representado séria ameaça para a estabilidade das democracias, notadamente nos países recém-saídos de ditaduras. O narcotráfico funciona à custa da aquiescência daqueles incumbidos de zelar pela aplicação das leis.

A despeito dos argumentos favoráveis, uma política de descriminalização de drogas não pode ignorar problemas. Há consensos quanto aos riscos para a saúde.

É provável que haja picos de consumo abusivo. Nesses casos, jovens de classes superiores terão à disposição clínicas particulares. Mas aqueles das classes de baixa renda dependerão dos serviços do SUS, já sobrecarregado e incapaz de atender às necessidades básicas de saúde no país.

Questões não menos relevantes: quem exercerá o controle sobre produção e distribuição? Será criada uma agência nacional? O Brasil não produz drogas, será então estimulado a fazê-lo para ter maior controle?

Sabemos também, dada a história política desta sociedade, que controles estatais sem lastro na opinião pública dificilmente terão êxito.

Do mesmo modo, campanhas para alertar quanto aos riscos tenderão ao fracasso caso não convençam os potenciais consumidores.

Por fim, uma política nacional não acompanhada pelos países de fronteira, em particular os produtores, poderá tornar o Brasil um território livre para consumo de drogas, com todas as consequências indesejáveis.

Por isso, seria importante melhor conhecer a experiência acumulada em países que relaxaram os controles, como é o caso da Holanda.

O debate, necessário e oportuno, requer pesar todos esses aspectos e evitar tanto as defesas apaixonadas quanto a prisão do moralismo conservador.



Sérgio Adorno, professor titular, é coordenador do NEV-USP, do INCT-CNPq Violência, Democracia e Segurança Cidadã e da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O direito de buscar a felicidade


Não posso exigir que, para eu ser feliz,
todos procurem a mesma felicidade
que eu busco




O ARTIGO SEXTO da Constituição Federal declara que "são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

O Movimento Mais Feliz (www.maisfeliz.org) promove uma emenda constitucional pela qual o artigo seria modificado da seguinte forma: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde etc." (segue inalterado até o fim).

É claro que, se eu dispuser de casa, emprego, assistência médica, segurança, terei mais tempo e energia para buscar minha felicidade. No entanto o respeito a esses direitos sociais básicos não garante a felicidade de ninguém; como se diz, ter comida e roupa lavada é bom e ajuda, mas não é condição suficiente nem absolutamente necessária para a busca da felicidade.

Em suma, implico um pouco com o adjetivo "essencial" no texto da emenda, mas, fora isso, gosto da iniciativa porque, como a Declaração de Independência dos EUA, ela situa a busca da felicidade como um direito do indivíduo, anterior a todos os direitos sociais.

Por que a busca da felicidade não seria apenas mais um direito social na lista? Simples.
A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.

Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto.

Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.

Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: minha busca não pode impedir os outros de procurar a felicidade que eles bem entendem. Por isso, obviamente, por mais que eu pense que isto me faria muito feliz, não posso dirigir bêbado, assaltar bancos ou escutar música alta depois da meia-noite. Por isso também não posso exigir que, para eu ser feliz, todos busquem a mesma felicidade que eu busco.

Por exemplo, você procura ser feliz num casamento indissolúvel diante de Deus e dos homens. A sociedade deve permitir que você se case, na sua igreja, e nunca se divorcie. Mas, se, para ser feliz, você exigir que todos os casamentos sejam indissolúveis, você não será fundamentalmente diferente de quem, para ser feliz, quer estuprar, assaltar ou dirigir bêbado.

Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.

Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto -por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.

Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?

Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?

Enfim, introduzir na Constituição Federal a busca da felicidade como direito do indivíduo, aquém e acima de todos os direitos sociais, é um gesto de liberdade, quase um ato de resistência.

CONTARDO CALLIGARIS

domingo, 1 de agosto de 2010

Ana Rica S.A.

Ana Hickmann e o marido, Alê, trabalham dia e noite para transformar a apresentadora na " Oprah Winfrey do Brasil , loira e de olhos azuis num país de gente parda"



A vida como negócio

"Para que tanta perna, meu Deus?" -perguntaria Carlos Drummond de Andrade. Mas não existe espaço para poesia na vida de Ana Hickmann.

"Sempre me considerei um produto. Parece cruel, mas é verdade", diz a apresentadora, empresária, modelo, seja o que for. "É um produto que a gente criou junto e que administra junto: o produto Ana Hickmann", reforça Alexandre Corrêa, o Alê, dublê de empresário e marido, que conheceu seu "produto" quando ela tinha 15 anos.

No perfil que Mônica Bergamo publicou anteontem na Folha, a atuação do casal é bastante explícita e agressiva. "Se não odiar o concorrente, você é um frouxo", filosofa Alê a respeito da disputa entre a mulher e Eliana, do SBT. "O Alê me chama de general. Fala que sou truculenta pra caramba. E sou mesmo. Nunca me deram a chance de errar", justifica-se a bela e a fera.

De Penélope Charmosa, ela tem só o carro -um Mini Cooper.

Nas imagens da reportagem (veja em www.folha.com/po743577), o olhar -severo, ameaçador- que o segurança da modelo dirige à fotógrafa Marlene Bergamo numa das fotos é idêntico ao que a própria Hickmann dirige ao marido na foto ao lado. Ele, por sua vez, faz cara de desespero com as mãos na cabeça. Na foto principal, ela repete a mesma expressão -tensa e alarmada.

Tudo somado, somos introduzidos a uma espécie de reality show da vida como negócio. "A gente vai entregar para o mercado uma Ana Hickmann diferente, sem esses problemas", diz o marido, justificando as sessões de fonoaudiologia.

Não há tempo a perder nem ilusões românticas em jogo. Tudo aqui é dinheiro e aflição. A "ambição descontrolada" do casal pela fama é uma caricatura involuntariamente cômica da época atual.

"A Ana vai ser a Oprah Winfrey do Brasil, loira e de olhos azuis num país de gente parda", diz seu marido, que não é racista. Estamos num novelão mexicano? Ou são evidências da nossa "americanalhação"?

FERNANDO DE BARROS E SILVA




Ana Hickmann corre sobre a esteira de uma academia em Perdizes. O celular toca. É o marido dela, Alexandre Corrêa, o Alê, que liga pela sétima vez no período de 50 minutos em que a apresentadora vence o equivalente a 7,5 quilômetros. "Amor, é aquilo que eu te falei. Fechado. Lógico. Certo." Ana desliga. Sem dizer tchau. Nem mandar beijo.

Os dois se falam "milhares de vezes por dia", mas sempre e só sobre trabalho.
"A Ana tem que performar!", diz Alê. "Tem dias em que eu trabalho 17 horas. São 35 pessoas que dependem de mim, entre empregados e familiares." Alê interrompe: "Não! Com a família, são 42".

Ana, diz o marido, "é movida por uma ambição descontrolada. "É tudo meu, eu faço, eu mando!". É a psicose dela. Já joguei a toalha".

Alê diz que era "um convicto derrotado antes de conhecer a Ana. Fui modelo frustrado até 1992. Fui para o mercado financeiro e nunca arrumei emprego decente. Fiz faculdade de economia e não consegui me formar".

Tudo começou a mudar quando, promotor de um clube noturno em SP, Alê conheceu a modelo. Ela tinha 15 anos. Ele, 24. Dois anos depois, aos 17, Ana foi emancipada. Os dois se casaram e foram para Paris. De lá, para Nova York, onde dividiram um quarto e sala na rua 36, entre a Park Avenue e a Madison. Enquanto a mulher bombava nas passarelas, Alê, desempregado, "limpava a casa, fazia as compras, cozinhava, lavava a louça, as roupas... lavei calcinha dessa garota até [não poder mais]!"

Hoje, os 14 produtos com a marca "Ana Hickmann" (óculos, bolsas, jeans, esmaltes, desodorantes, biquínis, lingeries, toalhas etc.) faturam R$ 290 milhões no varejo e no atacado.
Ela fica com 10% disso, menos os impostos. Como apresentadora da TV Record, recebe R$ 300 mil por mês, entre salário e merchandising. E não sai de casa por menos de R$ 40 mil, seu cachê de presença para ficar duas horas numa festa.

"Começamos sem nada.
O Alê vendeu um equipamento de som e discos de vinil, que eram o xodó dele, pra gente poder viajar [até Paris].
A gente batalhou junto, sofreu junto e agora estamos na bonança juntos." Tudo o que é dela é dele. "Eu sou a figura ali na frente, mas o trabalho é igual para os dois."

"Sempre me considerei um produto. Parece cruel, mas é verdade", diz Ana. "E o produto precisa ir à academia para manter a aparência e a saúde. Se ficar doente, não consegue gravar na TV, fazer fotos, trabalhar. Ele cuida do resto." Resumindo: "É um produto que a gente criou junto e que administra junto: o produto Ana Hickmann".

O "produto" acorda às 6h30. Depois de cinco anos sem fazer ginástica direito e de chegar a 72 kg, distribuídos em 1m85, Ana decidiu, em janeiro, entrar em forma a qualquer custo. Passou a treinar seis dias por semana, inicialmente por quase cinco horas, e agora por quase três horas. Já perdeu 5 kg.

Depois da ginástica, Ana passa em casa para se arrumar. Engole um copo de Isopure, um soro de proteínas de gosto esquisito -e esse é o seu almoço.

Às 15 horas, à bordo de seu Mini Cooper, da BMW, que não custa menos de R$ 90 mil (e no qual acomoda as pernas de 94 cm), ela vai para a fonoaudióloga. "Ela fala rápido, engole palavras", diz Alê. "A gente vai entregar para o mercado uma Ana Hickmann diferente, sem esses problemas. A Record já gastou muito e ela tem a obrigação de dar certo.
É isso, ou o castelo de cartas cai. Acabam royalties, mansão, carro caro. Não que isso nos faça menos gente. Mas é mais difícil depois que você sentiu o sabor da coisa."

"A palavra "perder" não está no nosso dicionário", diz ele. O Ibope do programa de Ana aos domingos, das 12h às 16h, concorrendo com Eliana, do SBT, virou obsessão. "A Ana Hickmann tem que ir para o domingo para matar ou morrer. Tem que acordar todos os dias com sangue nos olhos. Se não odiar o concorrente, você é um frouxo. Com mão mole, não machuca ninguém. Fere, mas não tira a pessoa de combate."

Às 17 horas, a apresentadora atravessa a cidade para visitar, na Mooca, a fábrica de roupas com sua grife. Ao volante, diz que, aos 29 anos, tem vontade de ser mãe.
"Quando fizer 30, vou soltar as rédeas." Alê é contra. "Somos loucos pra ter bebê. Mas você imagina: a Ana foi obesa na infância. Uma mulher de 1m80... temos que esperar a hora certa."

Na fábrica, ela fiscaliza cada uma das roupas desenhadas pelos estilistas. Só sai de lá às 22h. "Nisso eu não me meto. Ela escolhe todos os produtos", diz Alê. "E tem um departamento em que ela não enfia o nariz. É quando eu digo: "Ana, não gaste mais neste mês!" Ela reluta, simula lágrimas nos olhos. Eu digo: "Chega. Dá um tempo. Você tem a vida inteira. Não precisa gastar tudo em dois dias". Pego um papel e mostro que, se ela gastar isso todo mês, pode faltar lá na frente."

"E o bicho é ambicioso. Gosta de coisa cara e quer vencer." Alê aponta para oito caixas de objetos de cristal Baccarat que ela comprou para o casarão do Pacambu que estão reformando e para onde se mudam em 2011.
"Todos me têm como um carrasco. "O Alexandre força, força". Mas eu não induzo a Ana a gostar de coisas caras.
Nem a acordar cedo para vencer." "O Alê me chama de general. Fala que sou truculenta pra caramba. E sou mesmo. Exigente, como sempre foram comigo. Nunca me deram a chance de errar."

O romantismo foi deixado de lado "por um tempo pra gente investir e enxergar nosso crescimento sem deslumbramento. Porque com romantismo vêm férias em Paris, esquiar em Aspen, fazer compras em Nova York. E o trabalho e as obrigações ficam para trás", diz o empresário. "Se ficar com "mela mela", todo problema profissional vira sentimental. O circo pegando fogo e você "amorzinho", abraçando o outro para se lamentar? Ah, por favor!"

"Não vamos nos enganar: a Ana entrou na TV 100% por causa da beleza dela. Hoje, ela se mantém lá 70% pela beleza e 30% pela capacidade de entreter. Em cinco anos, a gente quer que essa relação seja de 60% a 40%." O tempo vai passar.
Até lá, o casal espera que a marca da apresentadora se fortaleça de tal forma que "ande de maneira independente e gere receita pra aí então a gente aproveitar a vida". "É como a [estilista] Carolina Herrera", que, aos 71 anos, dá nome a roupas e perfumes. Entre outras coisas, Ana, que largou a escola no 2º colegial, pretende voltar a estudar. Quer fazer faculdade. Talvez, jornalismo.

O patrão Edir Macedo é o maior ícone dela. "O ser humano pode muita coisa. Basta querer", disse ele numa palestra a que Ana assistiu.
"Foi uma coisa muito forte pra mim." Em segundo lugar, ela coloca a família Marinho, das Organizações Globo, "pelo império e a tecnologia que conseguiram construir". Admira Hebe Camargo "que venceu barreiras na TV e também na vida".

Mas é a apresentadora americana Oprah Winfrey, 56, que coloca "no Olimpo".
"É uma mulher que veio lá de baixo e construiu seu próprio império, seu canal de TV, sua revista, sua marca. Ao mesmo tempo, se dedica à família e é feliz." Essa é a meta? Sim, diz Alê. "A Ana vai ser a Oprah Winfrey do Brasil, loira e de olhos azuis num país de gente parda."

ALEXANDRE DISSE
"A Ana é movida por uma ambição descontrolada. Gosta de coisas cara e quer vencer"

"Lavei calcinha dessa garota até [não poder mais]!"
ALEXANDRE CORRÊA
marido e empresário de Ana Hickmann