terça-feira, 22 de junho de 2010

Futebol S/A


Fantasia e miséria na Copa

O momento mais emocionante do jogo entre Brasil e Coreia do Norte, ontem, aconteceu antes que a bola rolasse. Foi durante a execução do hino do país adversário, quando as câmeras flagraram o atacante Jong Tae-se se debulhando em lágrimas. A expressão de choro permaneceu em seu rosto durante a partida. Se ele jogasse como chora, estaríamos fritos.


Medíocre, sem brilho, apático, previsível. O Brasil fez uma estreia sofrível na Copa do Mundo. Tostão e Paulo Vinícius Coelho saberão explicar mais e melhor as deficiências dessa seleção de gladiadores. Mas mesmo aí, nessa identidade de "guerreiros da pátria" que foi forjada, com a mão de Dunga, para fins de mercado, há um abismo entre o que a propaganda vende e a mercadoria que foi entregue em campo.


A culpa, claro, não é dos atletas que lá estão. Vários deles, meninos assustados, visivelmente no limite das suas capacidades.


A seleção de Dunga é inimiga da fantasia. Isso torna mais flagrante, como ficou claro mais uma vez, o divórcio entre o que acontece dentro de campo e a parafernália de expectativas e entretenimento que se cria em torno dele. O business da Copa pede algo que o jogo não dá. Mas que é preciso arrancar dele ainda assim, nem que seja no gogó.


E ninguém exprime melhor essa necessidade do que Galvão Bueno, dublê de locutor esportivo e animador do país. Mal termina o jogo e a Globo nos oferece uma sequência de imagens tediosamente iguais da massa espremida em praça pública e se acabando ao som de alguma música ruim país afora.


Os clichês da brasilidade então inundam a tela: é o bundalelê do cantor Latino em São Paulo, é "essa coisa gostosa nas areias de Copacabana que contagia o país inteiro", é "a chuva que não esfria o coração pernambucano".


Tudo somado, é muita fantasia na TV para um espetáculo tão miserável. Ou muita miséria na TV para tão pouca fantasia em campo. Confundir tudo é a alma do negócio.


A bola no exílio


Numa Copa até agora nivelada tecnicamente por baixo e na qual há um único jogador que trafega na pista da genialidade -o argentino Lionel Messi-, o dunguismo avança firme e forte, desafiando seus críticos, entre os quais este escriba intrometido.


Que soem todas as vuvuzelas para Luís Fabiano, o fabuloso, pois um gol assim é coisa muito rara de se ver. Dois chapéus desconcertantes, um longo e outro curto, mais duas matadas no braço, uma embaixo e outra em cima, duas vezes genial e duplamente ilegal, este gol deveria também valer por dois.


O erro do juiz, que deu a impressão de ter feito vista grossa no lance, foi uma homenagem (involuntária?) ao futebol, o mais injusto de todos os jogos.


Descontado isso, os marfinenses, desleais em vários momentos da partida, acabaram sendo beneficiados pela complacência do juiz. A expulsão de Kaká, mesmo que imerecida, ou pelo menos controversa, não deixa de ser um sintoma da dunguização da seleção. O suposto cérebro do time convertido em brigão é um sinal dos tempos.


Outro sinal da época atual foi a confraternização calorosa entre os atletas das duas seleções ao final da partida, como se as cenas de guerra que protagonizavam minutos antes não passassem de teatro. Foi como se as identidades nacionais se dissolvessem com o apito do juiz, depois do qual todos recobraram instantaneamente a condição de astros globais e velhos conhecidos dos palcos do futebol europeu.


A Copa, ao mesmo tempo em que galvaniza -como nunca antes neste planeta- todas as atenções, convertendo-se de fato em festa global, tornou-se um evento um tanto anacrônico. A disputa entre países, o jogo por amor à pátria hoje se trava entre atletas precocemente desterrados. Vestir a camisa amarela, cantar o hino, sentir o Brasil no peito tem um certo sabor de "Canção do Exílio". Embora, na vida real, as coisas estejam muito mais para a "Iracema" de Chico Buarque.


FERNANDO DE BARROS E SILVA



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