quarta-feira, 30 de junho de 2010

Como eles e elas explicam a traição


Há um paradoxo: as pessoas traem,
mas consideram a fidelidade o principal valor do casamento


A CULPA DA TRAIÇÃO é sempre do homem? É indiscutível que, nas últimas décadas, houve uma transformação profunda nas relações conjugais e no comportamento sexual da sociedade brasileira.

No entanto, na questão da infidelidade, ainda existe um privilégio masculino. O homem é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição.

A mulher, até mesmo quando trai, assume a posição de vítima. Entre indivíduos das classes médias do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem traído seus parceiros.

Apesar de estarem quase empatados, eles e elas apresentam motivos bem diferentes para trair. Homens dizem que amam e desejam as esposas, mas não resistem ao instinto, à aventura, atração, vontade, oportunidade, vocação.

Mulheres dizem que traíram por insatisfação com o parceiro, autoestima baixa, vingança ao ter sido traída, por não se sentir mais desejada pelo marido ou por falta de atenção, conversa, carinho, romance, intimidade.

Homens se justificam por meio de uma suposta natureza propensa à infidelidade. Mulheres dizem que seus parceiros, com suas inúmeras faltas, são os verdadeiros responsáveis por suas traições.

Portanto, a culpa é sempre do homem, seja por sua natureza incontrolável que o impele a ser infiel, seja por seus defeitos que causam a infidelidade feminina. Há um paradoxo nesse universo da traição: as pessoas traem, mas consideram a fidelidade o principal valor para um casamento feliz, como mostram os resultados das últimas pesquisas.

As relações conjugais e os comportamentos sexuais podem ter mudado, tendendo a uma maior igualdade, mas o discurso sobre a fidelidade ainda resiste às mudanças.

Homens e mulheres constroem diferenças de gênero, até mesmo quando seus comportamentos, cada vez mais semelhantes, parecem recusar essas diferenças.

A linguagem não só reforça a desigualdade entre homens e mulheres, como amplia significativamente algumas diferenças que não são tão grandes assim.

O discurso de vítima de muitas mulheres, não se assumindo como responsáveis pelos próprios desejos, reforça a lógica da dominação masculina em nossa cultura.


MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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