quarta-feira, 30 de junho de 2010

Como eles e elas explicam a traição


Há um paradoxo: as pessoas traem,
mas consideram a fidelidade o principal valor do casamento


A CULPA DA TRAIÇÃO é sempre do homem? É indiscutível que, nas últimas décadas, houve uma transformação profunda nas relações conjugais e no comportamento sexual da sociedade brasileira.

No entanto, na questão da infidelidade, ainda existe um privilégio masculino. O homem é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição.

A mulher, até mesmo quando trai, assume a posição de vítima. Entre indivíduos das classes médias do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem traído seus parceiros.

Apesar de estarem quase empatados, eles e elas apresentam motivos bem diferentes para trair. Homens dizem que amam e desejam as esposas, mas não resistem ao instinto, à aventura, atração, vontade, oportunidade, vocação.

Mulheres dizem que traíram por insatisfação com o parceiro, autoestima baixa, vingança ao ter sido traída, por não se sentir mais desejada pelo marido ou por falta de atenção, conversa, carinho, romance, intimidade.

Homens se justificam por meio de uma suposta natureza propensa à infidelidade. Mulheres dizem que seus parceiros, com suas inúmeras faltas, são os verdadeiros responsáveis por suas traições.

Portanto, a culpa é sempre do homem, seja por sua natureza incontrolável que o impele a ser infiel, seja por seus defeitos que causam a infidelidade feminina. Há um paradoxo nesse universo da traição: as pessoas traem, mas consideram a fidelidade o principal valor para um casamento feliz, como mostram os resultados das últimas pesquisas.

As relações conjugais e os comportamentos sexuais podem ter mudado, tendendo a uma maior igualdade, mas o discurso sobre a fidelidade ainda resiste às mudanças.

Homens e mulheres constroem diferenças de gênero, até mesmo quando seus comportamentos, cada vez mais semelhantes, parecem recusar essas diferenças.

A linguagem não só reforça a desigualdade entre homens e mulheres, como amplia significativamente algumas diferenças que não são tão grandes assim.

O discurso de vítima de muitas mulheres, não se assumindo como responsáveis pelos próprios desejos, reforça a lógica da dominação masculina em nossa cultura.


MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A economia do futebol chato


Livre mercado de atletas e racionalização do negócio esportivo uniformizaram e "europeizaram" o esporte


"NÃO HÁ mais time bobo." "As seleções jogam de modo cada vez mais parecido." "O futebol da Copa é cada vez mais chato." Cada um desses clichês têm muita verdade; todos refletem uma tendência inevitável e fenômenos conhecidos:

1) O futebol é um negócio europeu e um produto montado finalmente na Europa, com recursos naturais importados do resto do mundo;

2) Os "softwares" (técnicas e táticas) de treinamento são tão acessíveis como planilhas de cálculo;

3) Como qualquer negócio, o futebol é orientado pela maximização de resultado, do campo de jogo à contabilidade, e pelos interesses do corpo burocrático que o dirige;

4) Em termos esportivos, a Copa é prejudicada pelos interesses do negócio europeu do futebol.


A Copa é jogada no final da temporada europeia. Nos clubes, os atletas atuam no limite da capacidade humana, o máximo de tempo possível e exigido por clubes, patrocinadores e TVs. Ao fim da temporada, estão esgotados ou machucados. O interesse dos clubes limita cada vez mais o treinamento das seleções a raras semanas ou a um dia antes de jogos de torneios preparatórios. As seleções, pois, mal existem como equipes entrosadas.

Os principais jogadores do mundo atuam em times europeus. As transferências de atletas são tão antigas como a primeira Copa. Mas começaram a se tornar rotina nos anos 1980. Passaram ao estágio de livre comércio em 1995. O negócio agora em parte regride a algo parecido ao estabelecimento de feitorias coloniais. Em vez de pagar caro por jogadores prontos e famosos, clubes europeus adquirem atletas juvenis e infantis. Ou criam centros de recrutamento e treino de crianças em países das Américas e da África.

A seleção brasileira de 1982 foi a primeira a contar com jogadores "estrangeiros", que jogavam no exterior: 3 de 22. A de 1990 inaugurou a maioria de "estrangeiros": 12 de 22, como a de 1994. Nas de 2006, 20 de 23 eram estrangeiros. Como o time desta Copa de 2010.

Desde 2002, o Brasil "vende" em média cerca de 800 jogadores por ano. Quase 60% da exportação destina-se à Europa. Na Inglaterra, 59% dos jogadores são estrangeiros. Em Portugal, 54%. Na Alemanha, 52%. Itália, 40%. Espanha, 37% (dados de 2008, do Professional Football Players Observatory).

A internacionalização dos times europeus foi impulsionada por uma decisão da Corte de Justiça Europeia, de 1995, liberando os times de cotas para jogadores estrangeiros e dando cabo de contratos que contrariavam a lei europeia de livre fluxo de trabalhadores. Pelo mundo, seguiram-se medidas que abririam o mercado de atletas e os libertariam da propriedade dos clubes.

A mundialização deveu-se ainda ao crescimento do negócio europeu do futebol, favorecido em especial pela alta da renda publicitária. Oligopólios transnacionais pagam cada vez mais para aparecer em transmissões planetárias.

Cada vez mais cedo, atletas submetem-se a rotinas de treinamento e práticas de otimização de resultados muito similares. Fazem-no em campos europeus, segundo técnicas e tradições esportivas do continente, ou lá adaptadas. Antes da "mundialização", os atletas diferenciavam sua maneira de jogar graças à heterogeneidade cultural no modo de encarar o jogo.


VINICIUS TORRES FREIRE

terça-feira, 22 de junho de 2010

Futebol S/A


Fantasia e miséria na Copa

O momento mais emocionante do jogo entre Brasil e Coreia do Norte, ontem, aconteceu antes que a bola rolasse. Foi durante a execução do hino do país adversário, quando as câmeras flagraram o atacante Jong Tae-se se debulhando em lágrimas. A expressão de choro permaneceu em seu rosto durante a partida. Se ele jogasse como chora, estaríamos fritos.


Medíocre, sem brilho, apático, previsível. O Brasil fez uma estreia sofrível na Copa do Mundo. Tostão e Paulo Vinícius Coelho saberão explicar mais e melhor as deficiências dessa seleção de gladiadores. Mas mesmo aí, nessa identidade de "guerreiros da pátria" que foi forjada, com a mão de Dunga, para fins de mercado, há um abismo entre o que a propaganda vende e a mercadoria que foi entregue em campo.


A culpa, claro, não é dos atletas que lá estão. Vários deles, meninos assustados, visivelmente no limite das suas capacidades.


A seleção de Dunga é inimiga da fantasia. Isso torna mais flagrante, como ficou claro mais uma vez, o divórcio entre o que acontece dentro de campo e a parafernália de expectativas e entretenimento que se cria em torno dele. O business da Copa pede algo que o jogo não dá. Mas que é preciso arrancar dele ainda assim, nem que seja no gogó.


E ninguém exprime melhor essa necessidade do que Galvão Bueno, dublê de locutor esportivo e animador do país. Mal termina o jogo e a Globo nos oferece uma sequência de imagens tediosamente iguais da massa espremida em praça pública e se acabando ao som de alguma música ruim país afora.


Os clichês da brasilidade então inundam a tela: é o bundalelê do cantor Latino em São Paulo, é "essa coisa gostosa nas areias de Copacabana que contagia o país inteiro", é "a chuva que não esfria o coração pernambucano".


Tudo somado, é muita fantasia na TV para um espetáculo tão miserável. Ou muita miséria na TV para tão pouca fantasia em campo. Confundir tudo é a alma do negócio.


A bola no exílio


Numa Copa até agora nivelada tecnicamente por baixo e na qual há um único jogador que trafega na pista da genialidade -o argentino Lionel Messi-, o dunguismo avança firme e forte, desafiando seus críticos, entre os quais este escriba intrometido.


Que soem todas as vuvuzelas para Luís Fabiano, o fabuloso, pois um gol assim é coisa muito rara de se ver. Dois chapéus desconcertantes, um longo e outro curto, mais duas matadas no braço, uma embaixo e outra em cima, duas vezes genial e duplamente ilegal, este gol deveria também valer por dois.


O erro do juiz, que deu a impressão de ter feito vista grossa no lance, foi uma homenagem (involuntária?) ao futebol, o mais injusto de todos os jogos.


Descontado isso, os marfinenses, desleais em vários momentos da partida, acabaram sendo beneficiados pela complacência do juiz. A expulsão de Kaká, mesmo que imerecida, ou pelo menos controversa, não deixa de ser um sintoma da dunguização da seleção. O suposto cérebro do time convertido em brigão é um sinal dos tempos.


Outro sinal da época atual foi a confraternização calorosa entre os atletas das duas seleções ao final da partida, como se as cenas de guerra que protagonizavam minutos antes não passassem de teatro. Foi como se as identidades nacionais se dissolvessem com o apito do juiz, depois do qual todos recobraram instantaneamente a condição de astros globais e velhos conhecidos dos palcos do futebol europeu.


A Copa, ao mesmo tempo em que galvaniza -como nunca antes neste planeta- todas as atenções, convertendo-se de fato em festa global, tornou-se um evento um tanto anacrônico. A disputa entre países, o jogo por amor à pátria hoje se trava entre atletas precocemente desterrados. Vestir a camisa amarela, cantar o hino, sentir o Brasil no peito tem um certo sabor de "Canção do Exílio". Embora, na vida real, as coisas estejam muito mais para a "Iracema" de Chico Buarque.


FERNANDO DE BARROS E SILVA



sábado, 19 de junho de 2010

História romântica

"Há sempre alguma loucura no amor,
mas há sempre um pouco de razão na loucura."

Nietzsche




Assisti a "500 dias com ela", filme simpático e "indie" sobre história de amor convencional.

Digo convencional no sentido preciso do termo: eles encontram-se e apaixonam-se; com o tempo, desencontram-se e afastam-se.

E é ele, Tom (Joseph Gordon-Levitt), escritor de frases-clichê para cartões festivos, quem relembra a história de amor que teve com Summer (Zooey Deschanel). O dia em que se conheceram. As ansiedades próprias dos primeiros tempos. As descobertas. As rotinas. As pequenas dissonâncias que começaram a minar a relação. As discussões. As reconciliações. As discussões sem reconciliações. O adeus.

Sorri de compaixão. Por Tom, o herói romântico. A compaixão primeira deve-se à identificação primeira. Acompanhar a história de Tom é relembrar as histórias pessoais que foram cumprindo o mesmo cardápio: da euforia ao impasse; do impasse à angústia; da angústia à despedida.

O filme de Marc Webb é um espelho de memória onde nós, homens, vamos revivendo a nossa simiesca conduta. "Simiesca"? Não foi lapso: sobre as mulheres, é impossível generalizar. Cada mulher que encontramos apaga todas as certezas sobre a anterior. Mas os homens são o que são: macacos românticos, dispostos a tudo para impressionar e conquistar a dama.

Há vários anos penso escrever um livro sobre o assunto. Uma espécie de "História Romântica da Humanidade". Só para mostrar como Marx estava errado. Não é a luta de classes que faz avançar o mundo. É a luta dos sexos. Ou, adaptando a linguagem marxista, o "motor da história" são os homens; e a forma como eles se entregam a loucuras várias em nome das mulheres que cobiçam e amam.

Não é por acaso que o cânone da literatura ocidental começa com a "Ilíada". É possível analisar a obra homérica com "paradigmas" de intocável beleza filosófica. Perda de tempo. A "Ilíada" é a história de como os homens estão dispostos a tudo, até à guerra, por causa de uma mulher.

E se assim é com a "Ilíada", a comédia da espécie continua com a "Odisseia". Sim, é possível persistir em modelos de respeitável profundidade teórica. Nova perda de tempo. A "Odisseia" é a história de como os homens estão dispostos a tudo, até à errância mais penosa, para regressarem a casa. Para regressarem aos braços da mulher que amam.

Por isso estranho as lamentações femininas. Os homens são estranhos ao romantismo, dizem elas. Só as mulheres percebem do assunto com certo grau de intimidade, acrescentam.

Mitos. Que, como todo mito, não sobrevivem à evidência empírica. Meus amigos dão pena. Eu dou pena. Damos todos, como o herói do filme, pela forma idealizada como olhamos para as mulheres.

René Girard, filósofo pouco lido mas já editado no Brasil, chamou "mentira romântica" à necessidade de absolutizarmos sempre algo, ou alguém, como forma de mitigar nossa incompleta condição.

Os homens são especialistas nessa "mentira". Por causa dela, fizeram guerras, subjugaram povos, lançaram-se em viagens lunáticas. Mas também deixaram páginas gloriosas de poesia. Pintaram frescos ou telas. E compuseram quantidades obscenas de música. Tudo por um beijo. Por uma alcova. Por um pouco de romance. Cada macaco tem seu amendoim.

"500 dias com ela" é uma história sobre o amor. Sobre o seu princípio e o seu fim. Mas é também um filme sobre os homens e para os homens, mostrando na perfeição como eles nunca aprendem. Felizmente. E como depois das ilusões e das desilusões, eles estão sempre prontos para mais. Mesmo que se recusem a mais. Porque os dias passam, anônimos e vulgares. Mas surge um momento, uma tarde, uma cósmica coincidência, que recoloca o calendário no princípio.

O filme termina com Tom, desolado e só, depois dos 500 dias com Summer. Mas o filme também termina com um começo: o primeiro dia de um novo encontro. De uma nova história. De uma nova mulher. O primeiro dia dos 50 seguintes. Ou dos 500. Ou dos 5.000. Quem sabe? Ninguém. Em matéria de amor, avançamos entre a ilusão e a ignorância. Nem poderia ser de outra forma.


João Pereira Coutinho


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nietzsche e o niilismo

A negação dos valores supremos
constitui a segunda etapa do niilismo;
a primeira é a depreciação da vida real




NIETZSCHE, em "A Vontade de Poder", pergunta: "Que significa o niilismo?". Responde: "Que os valores supremos estão perdendo valor".

Em "A Gaia Ciência", ele descreve o niilismo como "a desconfiança de que há uma oposição entre o mundo em que até há pouco estávamos em casa com nossas venerações [...] e outro mundo em que somos nós mesmos: desconfiança inexorável, radical, profundíssima [...] que poderia colocar a próxima geração ante a terrível alternativa: ou vocês abolem as suas venerações ou -a si próprios! A segunda opção seria o niilismo -mas não seria a primeira também niilismo?".

Na verdade, o niilismo nesse sentido, isto é, a desconfiança e a negação dos valores supremos, constitui a segunda etapa do niilismo. A primeira consiste na depreciação da vida real em nome da postulação e da valorização de um mundo suprassensível superior a ela.

É o que faz a metafísica platônica, por exemplo. Platão, como se sabe, defende que o mundo que nos é dado pelos sentidos e no qual agimos não passa de um simulacro do mundo verdadeiramente real, que é o mundo das ideias eternas, universais e imutáveis e, em primeiro lugar, da ideia do bem: do bem em si.

"O pior, mais persistente e perigoso dos erros até hoje", diz Nietzsche, "foi um erro de dogmático: a invenção platônica do puro espírito do bem em si". Por quê? Porque desvaloriza o mundo real. O mundo sublunar em que vivemos é tanto menos dotado de realidade e valor quanto mais se afaste do ideal.

Segundo Nietzsche, o cristianismo é um platonismo vulgar, um "platonismo para o povo". Trata-se, portanto, de niilismo para o povo. "O nada divinizado", diz. Que maior degradação do mundo real pode ser concebida? Tal é a primeira etapa do niilismo na Europa.
E como se chega à segunda etapa, isto é, ao niilismo que já se considera como tal? Em "A Vontade do Poder", Nietzsche especula que a moralidade cristã acaba por se voltar contra o próprio Deus cristão.

A valorização da veracidade alimenta uma vontade da verdade que se revolta contra a falsidade das interpretações cristãs. Descobre-se que não se tem o direito de pressupor um ser transcendente ou um em si das coisas que fosse ou divino ou a encarnação da moralidade. A reação contra a ficção de que "Deus é a verdade" é: "Tudo é falso".

A partir disso, negam-se todos os valores supremos. É a morte de Deus. O domínio do transcendente se torna nulo e vazio. O niilista nega Deus, o bem, a verdade, a beleza.

Se antes a vida real era desvalorizada em nome dos valores supremos, agora os próprios valores supremos são desvalorizados, sem que se tenha reabilitado a vida real. Desmente-se o mundo metafísico, sem se crer no mundo físico. Nega-se qualquer finalidade ou unidade ao mundo. Nada vale a pena.

Mas, além desse modo passivo, há o que Nietzsche chama de "niilismo ativo". Representa o aumento do poder do espírito. Nietzsche diz que "seu máximo de força relativa, o [espírito] alcança como força violenta de destruição: como niilismo ativo". E classifica a si próprio como o primeiro niilista europeu perfeito, isto é, "o primeiro niilista europeu que já viveu em si o niilismo até o fim, já o deixou atrás de si e o superou".

Tal niilismo não pode consistir, evidentemente, na destruição física das coisas ou dos seres humanos. Trata-se antes da abertura do caminho para a "transvaloração de todos os valores" através do reconhecimento do caráter meramente relativo, particular e contingente de todas as crenças e valores dados.

Ora, não é exatamente a esse reconhecimento que o ceticismo metódico da filosofia moderna deveria ter conduzido, se tivesse realmente sido levado às últimas consequências? Não teria ele então consistido em niilismo ativo? Nesse sentido, Heidegger tem razão ao pensar que Descartes está menos distante de Nietzsche do que este imagina...

ANTONIO CICERO

sábado, 12 de junho de 2010

Música para se ouvir...

Não te darei flores não te darei

elas murcham, elas morrem
Não te darei presentes não te darei

pois envelhecem e se desbotam
Não te darei bombons não te darei

eles acabam, eles derretem
Não te darei festas não te darei

elas terminam, elas choram, elas se vão

Dar-te-ei finalmente os beijos meus
Deixarei que esses lábios sejam meus, sejam teus.
Esses embalam...esses secam...mas esses ficam.

Dar-te-ei

(Marcelo Jeneci/ Helder Lopes/ Veronica Pessoa/ José Miguel Wisnik)



Parceiro de Arnaldo Antunes (na balada Longe) e de Zélia Duncan (em Todos os Verbos), entre outros nomes, Marcelo Jeneci vai lançar seu primeiro disco em 2010.
Para quem ainda não liga o nome de Jeneci -à sua música, ele é co-autor de Amado, a balada composta com Vanessa da Mata para o CD Sim (2007) que virou hit em 2008.
Intitulado Feito para Acabar, nome de uma das inéditas que figuram no repertório, o álbum de Jeneci está em fase inicial de produção. Jardim do Éden e Tempestade em Copo d'Água são prováveis músicas do disco de estreia do ascendente compositor paulista.


Filho de pernambucano com mãe paulista, o primeiro contato de Marcelo Jeneci com a música veio da idolatria de sua família pelo Rei. “Desde pequeno, aprendi que caminhar, beber água e ouvir Roberto Carlos eram coisas naturais da vida”, conta.

Nascido e criado na Cohab Juscelino, em Guaianases, Zona Leste, Jeneci sempre escutou os sons populares, que mais tarde lhe dariam base musical. Hoje, com 27 anos, sua história se divide entre a bem-sucedida carreira de dez anos como instrumentista – que acompanhou gente como Chico César e Arnaldo Antunes – e a descoberta da sua veia de compositor.

O maior incentivo vem do pai, Manoel Jeneci, um autodidata com espírito de inventor, que sempre ganhou a vida consertando aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos e instrumentos musicais.

Aos 17 anos, Jeneci foi indicado por um amigo da família para tocar na banda de Chico César, que precisava de um músico que dominasse teclado e sanfona. Com uma sanfona emprestada do músico Dominguinhos (cliente do pai), o garoto foi aceito no grupo e um mês depois saiu em turnê pelos Estados Unidos, Canadá e Europa.
experiência na banda de Chico César levou Jeneci a trabalhar com outros nomes da música brasileira, como Elza Soares, Luiz Tatit, Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes. Em 2007, já sentia que fazia intervenções autorais dentro das músicas dos outros pela sua maneira de tocar. Nascia aí um compositor.
A voz só começou a sair pela garganta, e com letra, quando Marcelo Jeneci resolveu comprar algo que não sabia tocar: um violão. “Piano e sanfona eram os meus instrumentos, eu me sentia à vontade. Mas as músicas não vinham. Parece que a habilidade atrapalha na horade compor, de criar alguma coisa que você quer que seja simples.”

Começou a fazer música e a procurar os amigos quando não conseguia terminar. O amigo e compositor José Miguel Wisnik conta que as primeiras músicas de Jeneci eram típicas de instrumentistas e que chegou a pensar que a elas não cabiam letras. “De repente, ele se tornou um cancionista, começou a compor canções e encontrou um caminho para criar”, diz.



Entre os palcos e o divã


Aos 19 anos, Laura Lavieri, é um dos destaques dos shows de Marcelo Jeneci. Os dois se conheceram em razão da amizade do pai dela, o músico Rodrigo Rodrigues (integrante do grupo Música Ligeira), com o jovem cantor.

Após a morte de Rodrigues, em 2005, Laura e Jeneci se tornaram parceiros musicais. “Eu a vi cantando pela primeira vez em homenagem ao pai. Me comovi muito. Era o nascimento de uma cantora e, por coincidência, eu estava me descobrindo compositor”, diz Jeneci. Laura cursa o segundo ano da faculdade de psicologia, estuda canto e violoncelo.

Ela começa a compor suas primeiras canções e se inspira na cantora norte-americana Fiona Apple. “É tão bom trabalhar com música que parece até um hobby”, brinca, e afirma que já decidiu seguir carreira no meio.



video

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Carpe diem, aproveite o momento


Quem vive plenamente não terá medo de morrer.
Mas o que é viver plenamente?



ESTREIA AMANHÃ , Brasil afora, "Quincas Berro d'Água", de Sérgio Machado, inspirado num dos romances mais bonitos (e mais lidos) de Jorge Amado, "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água".

O filme é uma daquelas raríssimas obras que nos fazem rir e sorrir da vida, do mundo e de nós mesmos, enquanto, justamente, pensamos seriamente na vida, no mundo e em nós mesmos.

Esse milagre deve ser efeito do roteiro (do próprio Machado) e da atuação de um conjunto de atores que todos mereceriam ser mencionados, a começar por Paulo José, que é Quincas, vivo e morto (e não pense que encarnar um morto seja tarefa fácil).

Agora, nesse grupo extraordinário, quem rouba a cena é Mariana Ximenes, no papel de Vanda, a filha que Quincas abandonou quando deixou sua vida de funcionário "respeitável" e caiu na farra.

Quase sem palavras, com delicadas e progressivas mudanças de seu olhar, Ximenes nos conta, de maneira inesquecível, o despertar nela dos genes paternos.

Enfim, meu jeito de agradecer à equipe que nos oferece esse filme foi anotar algumas reflexões que ele suscitou em mim.

1) Quase sempre, quando sonhamos em mudar de vida radicalmente, enxergamos esse ato como a conquista de uma alforria: seremos livres -dos pais ou, então, da mulher ou do marido que nos aprisionam. De fato, às vezes, os outros nos controlam e nos impedem de viver, mas não é frequente.

Em geral, nós os acusamos pela mesmice de nossa vida ("se nos livrássemos desses tiranos, poderíamos viver plenamente"), mas a tirania que nos oprime é a de nossa inércia e de nossa covardia.

2) Às vezes, num casal, as exigências triviais do parceiro são intoleráveis por parecerem absolutamente insignificantes: tire os pés da mesa, não espalhe o jornal pelo chão da sala nem a roupa pelo chão do quarto. Indignação: a morte nos espreita, e eis que alguém se preocupa com as migalhas que podem cair no sofá.

Como teria dito Sêneca, nós nascemos para coisas grandes demais para continuarmos escravos dessas picuinhas, não é?

Problema: uma vez chutado o pau da barraca, quem garante que a "grandeza" para a qual nascemos não se resuma em comer livremente amendoins na cama?

3) Quincas tem razão: só teme a morte quem não se permitiu viver, ou seja, quem viveu plenamente não tem medo de morrer.

Mas o que é uma vida plena? Será que é a vida de Quincas? A bebida e os amores? A fuga das responsabilidades domésticas?

Talvez o valor da farra de Quincas esteja, sobretudo, na liberdade de viver sem se importar com o julgamento dos outros, com a boa reputação. Para aproveitar a vida, antes de mais nada, não se preocupe com o olhar reprovador dos demais.

4) Reli a ode 1.11 de Horácio, onde está o famoso "carpe diem" (colha o dia). Horácio sugere que não apostemos nossas fichas no futuro, mas nos preocupemos com o agora, com o hoje.

Tudo bem, mas será que viver como se não houvesse amanhã significa necessariamente perder-se (ou encontrar-se) nos prazeres imediatos da carne? Não é nada óbvio. Um cristão poderia concordar com Horácio, entendendo o "carpe diem" assim: é preciso estar em paz com Deus hoje, agora, não amanhã.

5) Então, o que é viver plenamente: gozar, rezar, meditar, cultivar-se?

Talvez seja possível responder sem tomar partido.

Eis uma anedota da qual Quincas teria gostado. O rei da Itália, Vittorio Emanuele 2º, passeava a cavalo pelo campo de seu Piemonte nativo.
Chegou à fazendola de um camponês, que fez grande festa e o convidou à mesa.
Vittorio Emanuele elogiou o vinho do camponês, o qual comentou: "Isto não é nada. Sua Majestade deveria experimentar o de três anos atrás". O rei replicou: "E esse vinho de três anos atrás acabou?". "Não acabou, Majestade", respondeu o homem, "mas a gente guarda o que sobrou para as grandes ocasiões".

Pois é, quando Mefisto comprou a alma de Faust, ele impôs a seguinte condição: Faust viveria até o dia em que, diante da beleza do que ele estaria vivenciando, fosse levado a pedir que o átimo parasse. Quando isso acontecesse, ele morreria, seu tempo acabaria.

Há várias interpretações dessa passagem do "Faust", de Goethe (1, 699-706); uma delas é que Faust só poderia morrer uma vez que ele descobrisse o segredo da vida. E esse segredo é que, para viver plenamente, é preciso reconhecer que, com ou sem o rei sentado à mesa, com farra ou sem farra, na alegria ou na tristeza, cada momento presente é sempre uma grande ocasião.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O homem que vivia nas nuvens


RYAN BINGHAM tem uma filosofia.
Imaginem uma sacola. Vazia. Agora comecem a enchê-la. Com tudo aquilo que faz parte da vida. Primeiro, os objetos. Dos mais pequenos aos maiores, dos mais leves aos mais pesados. Depois, pessoas. Amigos, família.Namoradas, mulheres. E filhos, não se esqueçam dos filhos.

Com a sacola às costas, tentem agora caminhar. É nesse momento que o auditório da palestra ri com a metáfora do palestrante. Ryan Bingham ri com o auditório e termina com a definição sacramental: "Nós não somos cisnes. Somos tubarões".

Que o mesmo é dizer: os seres humanos não foram feitos para parar. Não foram feitos para manterem ligações essenciais com coisas, pessoas, lugares. Os seres humanos foram feitos para avançar. Sempre e sempre e sempre.

E, no caso de Ryan, para voar: de cidade em cidade, milha após milha, com o propósito de demitir empregados que as próprias empresas já não têm coragem para mandar embora, olhos nos olhos. Ryan cumpre esse trabalho sujo e até dá um toque humano ao momento, como os matadores de arena na presença da sua presa.

Ryan Bingham é o personagem de George Clooney em "Up in the Air", terceiro filme de Jason Reitman e inacreditavelmente traduzido no Brasil por "Amor sem Escalas". Digo inacreditavelmente porque o título do filme é a chave para entender metade dele.

"Up in the Air", "lá em cima", "nas nuvens", não é apenas o espaço existencial onde Ryan Bingham gosta de estar: sempre em movimento, com o objetivo infantil de acumular dez milhões de milhas e ter direito a cartão e tratamento aéreo preferencial.

"Nas nuvens" é a condição existencial de Ryan: acima do mundo, acima das preocupações do mundo, acima dos terráqueos que o habitam. E com a sacola vazia.

Pelo menos, assim será até o dia em que a sacola começa a ficar mais pesada. No bar de um hotel,

Ryan encontra o seu clone. "Pense em mim como alguém igual a você, mas com uma vagina", diz-lhe Alex, um tubarão como ele. É o arranjo perfeito: uma bela mulher sem ilusões românticas de belas mulheres? Sem exigir presença ou compromisso?

É o arranjo perfeito, disse eu, ou diria ainda, se o amor, esse demônio ladino, não se introduzisse pelo meio, disposto a transformar o tubarão Ryan no cisne Bingham. Disposto a obrigar o homem das nuvens a descer à terra. E ele desce. Mas, pergunta fatal, pode alguém que vive de ilusões reconhecer ainda uma?

"Up in the Air" foi descrito nos textos promocionais como um filme sobre a crise econômica atual e o desemprego inevitável que, só nos Estados Unidos, ultrapassou a barreira impensável dos 10%. É uma forma de ver as coisas.

Outra é dizer que, na Hollywood infantil dos últimos anos, o filme de Jason Reitman é um produto estranho e assaz amargo.

Estranho, porque capaz de lidar com o tema mais complexo, e mais onipresente, e talvez por isso mais ignorado da nossa condição contemporânea: a solidão que a habita; ou, se preferirem, a solidão que habita as ilusões dos homens modernos: "homens sem qualidades" que mascaram o vazio abissal dos seus dias com a vertigem da impermanência.

Mas o filme é amargo ao mostrar, sem sentimentalismos ou redenções de qualquer espécie, como é doloroso o fim dessas ilusões. Verdade que nada disso seria possível sem a composição magistral de George Clooney. Já assisti a demasiado cinema e a demasiado teatro para me deixar impressionar pelos macaquinhos do "Método". A composição de Clooney, capaz de oscilar entre o ritmo da "screwball comedy" e o silêncio sutil do fracasso, é tão perfeita que a confundimos facilmente com a "leveza" ilusória das nuvens onde ele vive.

E, no final do filme, é a elas que regressamos. Um longo plano sobre um tapete branco e a voz de Ryan Bingham pairando sobre ele. E sobre nós. "Hoje à noite, quando olharem para as estrelas", diz-nos Ryan, "haverá uma luz ainda mais brilhante que estará por cima delas." É a luz do seu voo rumo a parte nenhuma, como se uma tal proclamação fosse motivo para triunfos.

Não é. Ele sabe disso. Nós sabemos disso. E, em dissonância perfeita com as palavras falsamente triunfais de Ryan, temos a evidência das nuvens à nossa frente. Só então percebemos, talvez pela primeira vez, como eram certos os versos de W. H. Auden sobre a lua. Sim, a lua é bela. Tal como as nuvens. Mas a lua e as nuvens são desertos.


JOÃO PEREIRA COUTINHO


video

terça-feira, 1 de junho de 2010

Não existe almoço grátis


Acreditaram que seria possível
não produzir como os alemães,
mas consumir como eles



VIVER EM PORTUGAL é habitar um conto de Charles Dickens: olhamos para o presente e percebemos nele o Fantasma do Natal Futuro.

O presente é tranquilo: a crise que varre a Europa não afetou ainda os portugueses, que continuam a consumir como se não houvesse amanhã. Mas existe amanhã e o Fantasma do Natal Futuro fala grego e vive em Atenas. O filme não é agradável: protestos nas ruas, três mortos até ao momento. Um pacote de ajuda internacional (110 bilhões de euros) que, segundo os especialistas, não evitará a falência e a saída do euro. Os gregos são nossa imagem futura.

Aliás, não apenas a nossa. Existem apostas sobre as próximas vítimas. Portugal lidera a corrida.

A Espanha vem a seguir. Depois a Irlanda. Depois a Itália. Eis os PIIGS, para usar o acrônimo suíno com que os países do Norte olham para o clube. Estamos todos no mesmo chiqueiro. Ou não? Verdade: o deficit português está cinco pontos abaixo do grego, por exemplo. Mas, em contrapartida, o total das nossas dívidas é maior, o que dificulta um crescimento econômico no médio prazo.

E, talvez mais importante, os nossos problemas econômicos radicam na mesma falência moral. Palavras pesadas? Talvez. Mas quando falamos de "moralidade", falamos apenas da justeza de certos comportamentos humanos.

E o comportamento dos portugueses, juntamente com os dos seus irmãos porquinhos, é a explicação principal para o atual desarranjo. Se dúvidas houvesse, bastaria assistir a um noticiário luso. Eu assisto, todos os dias. E todos os dias pasmo com a clarividência dos meus compatriotas, que não toleram qualquer medida de austeridade para tapar o abismo das finanças públicas.

Na semana passada, uma feroz trabalhadora portuguesa declarava a um jornalista que não suportaria calada qualquer mexida no seu bolso. "A casa, o carro, as férias -se me cortam o salário, como é que eu posso pagar tudo isso?" O jornalista ouviu. Não replicou o óbvio: e por que motivo a senhora tem tudo isso se não está segura de que pode pagar a conta?

Entendo o jornalista. Provavelmente, ele próprio estaria a pensar na sua casa, no seu carro, nas suas férias. No planeta Terra, comprar uma casa ou um carro seria o resultado do trabalho, da poupança, eventualmente do investimento. E esse processo, que constitui a base de qualquer economia sustentável, exige certas virtudes antiquadas, como o esforço, a prudência ou a frugalidade. Não existe almoço grátis.

Mas os portugueses e restantes parceiros viveram em Marte. E acreditaram que seria possível não produzir como os alemães, mas consumir como eles. Milagre? Não. Crédito fácil. Quem precisa trabalhar, poupar e investir quando existe dinheiro à disposição para pagar casas, carros e férias?

Estou a ser injusto. A cultura da irresponsabilidade não caiu do céu. Como escrevia recentemente Theodore Dalrymple no "City Journal", o comportamento das massas foi promovido pela corrupção democrática dos seus líderes. Foi promovido por governos sucessivos que, alçados ao poder, alimentavam a fantasia do bolso infinito, uma forma indireta de subornarem os seus eleitorados.

A Grécia, nesse capítulo, foi provavelmente imbatível: um país que concedia "subsídios de Páscoa" aos seus trabalhadores não merece apenas falir. Também merece um aplauso pela criatividade. É por isso que os gregos não foram apenas fraudulentos na forma como manipularam os seus indicadores econômicos para enganar Bruxelas. A fraude grega é a fraude portuguesa, ou espanhola, ou irlandesa, ou italiana. É a fraude de professar que é possível viver continuamente acima das posses de cada um.

Azar. Com a crise financeira de 2008, e a imperiosidade necessidade de salvar as economias do abismo, as dívidas dispararam para a estratosfera e a Europa olhou-se no espelho pela primeira vez. Sobretudo a Europa periférica, que vivia de empréstimos para pagar empréstimos, um perfeito esquema Ponzi que aterrorizou os mercados.

E agora? Antes do euro, a desvalorização da moeda era o caminho lógico para aumentar a competitividade das economias. Por outras palavras: os países empobreciam voluntariamente, mas eles continuavam a flutuar. Com o euro, a desvalorização está interdita aos países relapsos. Mas a fatura será igual: empobrecer. E, quem sabe, um dia contar aos netos que a festa foi boa enquanto durou.


JOÃO PEREIRA COUTO