sábado, 8 de maio de 2010

Voz dissonante


Um dos principais historiadores da música popular brasileira, José Ramos Tinhorão diz que a produção de canções se restringe cada vez mais a nichos


Quatro meses antes de, em já famosa entrevista à Folha de São Paulo realizada em 2004, Chico Buarque afirmar crer na possibilidade do fim da canção, José Ramos Tinhorão dissera o mesmo à mesma Folha de São Paulo. Foi bem menos lido e mais atacado do que Chico, naturalmente.

Aos 82 anos, Tinhorão parece não ter se desviado em nada do percurso que começou a trilhar em 1958, quando recebeu a incumbência de escrever sobre música no "Jornal do Brasil" e se tornou um dos mais originais frasistas, ensaístas e historiadores da cultura popular do país. Quando se debruça sobre um assunto, chega muito antes dos outros ou já chega imprimindo uma visão absolutamente peculiar.

Tinhorão lança mais dois livros, alcançando a marca de 28: "A Música Popular Que Surge na Era da Revolução" (ed. 34, 176 págs., R$ 32) relata, com fartura de informações, o que aconteceu na música em Portugal e na França por conta da Revolução de 1789; "Crítica Cheia de Graça" (ed. Empório do Livro, 160 págs., R$ 43) compila alguns de seus textos publicados na imprensa, atuação que lhe custa até hoje o ódio de bossa-novistas, tropicalistas, jazzistas, roqueiros e outros times.

E, ainda, com a publicação da biografia "Tinhorão - O Legendário" (Imprensa Oficial, 280 págs., R$ 20), de Elizabeth Lorenzotti, e a instalação na sede carioca do Instituto Moreira Salles do enorme Acervo Tinhorão, fica difícil suas ideias não voltarem à tona, embora muita gente as preferisse sepultadas.

"A figura do artista como conhecemos, romântica, vai acabar. O engenheiro de som vai ser mais importante do que o artista. Hoje, fabrica-se som, em breve não será preciso tocar nenhum instrumento. Quando vem uma dessas bandas tocar aqui, a imprensa exalta as toneladas de equipamento que elas trazem. Hoje, a música popular se julga por toneladas", afirma ele.

O rap, o funk, a música eletrônica e boa parte da música pop já não têm os instrumentos como eixo, e sim as programações feitas em computador. Estas exigem musicalidade, claro, mas não a derivada de cinco séculos de música tonal, tradição que culminou nas canções, como aponta Tinhorão.

"Não existe mais gente buscando novas sínteses. A hegemonia hoje é a média, a repetição. Nada acaba, a canção de qualidade vai continuar a ser feita, mas viverá em nichos, como aconteceu com a ópera e o quarteto de câmara. [José Miguel] Wisnik e [Luiz] Tatit continuam a fazer canções porque gostam, mas não há como fugir do processo histórico", afirma, referindo-se a dois compositores-ensaístas que já criticaram sua visão do fim da canção.

"Processo histórico" é uma expressão que remete ao marxismo -ou ao "materialismo histórico-dialético", como ele prefere-, que foi a base de seus ensaios sobre música na imprensa, especialmente nos dois períodos no "Jornal do Brasil": 1958 a 63 e 1975 a 81.

Eram ensaios porque Tinhorão costumava partir de um disco para fazer uma "análise sócio-histórico-cultural", o que seria impossível hoje, por falta de espaço, formação e porque nos acostumamos a dar dicas sobre um produto que será consumido, e não escrever sobre uma suposta criação artística.

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