quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ainda é, mesmo que já tenha ido

Não se afobe, não
Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios

No ar

(Futuros amantes, Chico Buarque)



O amor não morre de pé. O amor morre deitado para confundir os cabelos e ousar de novo. Toda separação é um laço. Todo divórcio é um vínculo. Conheço gente que se separa só para se aproximar de outro jeito. Para provocar, para atrair a atenção, para pedir o retorno. Não há ofensa que não tenha uma carícia em seu início.

Fazer as malas é a última tentativa. Fazer as malas é preservar o armário. A mala pode ser o túmulo do armário ou uma outra cama de casal. Na mala, as roupas enfim se deitam, se amam, se roçam, sem a proteção e o biombo dos cabides. As mangas entram com malícia em bolsos, os botões abertos são brincos, o zíper é uma gargantilha, camisas experimentam gravatas, calças andam com uma única perna.

O amor não se resolve sozinho, não é de onde nasceu. O amor é natural de onde morreu. O sofrimento é o contrário: morre onde foi parido. Morre sem trocar de cidade.

Mesmo que seja maltratado, estiolado, reduzido a pó, o amor volta, se regenera com facilidade. O amor tem pele de sobra nos olhos. No amor, a pele é córnea. Quem ama não é capaz de morrer por um amor, é capaz de voltar a viver por um amor. O amor perdoa o que Deus condenaria, o amor condena o que Deus perdoaria.


O amor é imprevisível. Não tem lógica. Torna a presença imaginada ou torna a ausência real. O amor cria sua própria necessidade. O amor não é uma obrigação, é uma opção. Não se é obrigado a amar, até é possível viver uma vida sem amor, mas não é possível viver o amor sem dar a vida em troca. O amor é se encostar para dormir e ficar ainda mais acordado.

O amor ilude, contraria, engana. É instável e machuca, abre ferimentos graves e invisíveis, confunde um pássaro com fruto e prende as patas em um caule, corta as asas como se fossem gomos, esvazia a casa, arruina a fé, cria os piores fiascos, infantiliza os joelhos, devasta o certo e o errado, inventa lugares para se esconder, quebra as lentes dos óculos, expulsa amizades, prepara escândalos, esconjura atrasos.


Ainda assim é melhor do que o tédio. Ninguém se agride pelo tédio, pois ele anula qualquer vontade.

O amor é como o rio, não deixa de barulhar represado de pedras. Sofrer é pouco ao amor. As lágrimas nunca serão fartas como a saliva. A saliva é a lágrima da alegria.


Um comentário:

  1. belo texto! são tantos os conceitos e os preconceitos sobre o amor...dificil mesmo é conseguir lidar com ele na prática...ninguém ama para ser infeliz, no entanto quanto sofrimento ele traz...

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