terça-feira, 27 de abril de 2010

É preciso ser denso para ser leve..


É preciso ser leve como uma brasa, não como uma chama.
Leve como um aceno, não como um grito.
Leve como uma horta, não como um jardim.
Leve como um livro, não como uma página.
Leve como um poema, não como um verso.
Leve como uma duna, não como o vento.
Leve como um vestido, não como um lenço.
Leve como o cristal, não como o vidro.
Leve como o pão, não como a migalha.
Leve como um temporal, não como o relâmpago.
Leve como o varal, não como o casaco.
Leve como o telhado, não como a telha.
Leve como uma árvore, não como o fruto.
Leve como o caroço, não como o inseto.
Leve como as mãos, não como a aliança.
Leve como o mar, não como a espuma.
Leve como uma geada, não como a nuvem.
Leve como vinho, não como a fumaça.
Leve como a ofensa, não como o elogio.
Leve como o clarão, não como a lâmpada.
Leve como a pá, não como a faca.
Leve como o cavalo, não como a lã.
Leve como o armário, não como a gaveta.
Leve como o moinho, não como o chapéu.
Leve como o rosto, não como o pente.
Leve como o mel, não como abelhas.
Leve como a rocha, não como a erva.
Leve como uma varanda, não como a janela.
Leve como a voz, não como o silêncio.
Leve como a meia-noite, não como o meio-dia.
Leve como a despedida, não como a volta.
Leve como uma casa, não como um quarto.
Leve como as córneas, não como as moedas.
Leve como um corredor, não como um quadro.
Leve como uma escada, não como um degrau.
Leve como uma mesa, não como o prato.
Leve como o caráter, não como a opinião.
Leve como uma fome, não como o apetite.
Leve como desejo, não como a vontade.
Leve como o amor, não como a paz.
Leve como o corpo, não como o sangue.
Leve como uma porta, não como um pêndulo.
Leve como o inverno, não como o verão.
Leve como a confidência, não como o segredo.
Leve como a alegria, não como a euforia.
Leve como a memória, não como a papoula.
Leve como o balanço, não como a corda.
Leve como a insistência, não como a dúvida.
Leve como um casal, não como a solidão.
Leve como a boca, não como a língua.
Leve como a música, não como a palavra.
Leve como a migração, não como o pássaro.
Leve como o ninho, não como o ramo.
Leve como a pata, não como a asa.
Leve como uma cicatriz, não como o traço.
Leve como o espanto, não como a reza.
Leve como o medo, não como um morto.
É preciso ser denso para ser leve...

CARPINEJAR

domingo, 25 de abril de 2010

Os joguinhos da internet e a dependência


A famosa "fazendinha" da rede social Facebook vicia mais que sites pornográficos, diz psicólogo especializado em tratar adictos de computador

HÁ TRÊS ANOS, o psicólogo Cristiano Nabuco atende viciados em internet, no Hospital das Clínicas de SP.

"Achávamos que sexo lideraria os problemas, mas as redes de relacionamento são responsáveis pela maioria das dependências", diz.

Uma das novas "drogas" é o "Farmville", aplicativo mais popular do site social Facebook, com quase 90 milhões de usuários no mundo e mais de 1 milhão de fazendeiros virtuais no Brasil.


Parecem inofensivos. Mas esses novos jogos reúnem todas as características favoráveis à dependência: aumentam a autoestima, propiciam uma ascensão rápida (ainda que virtual), tornam-se mais difíceis nas fases seguintes.

Dessa forma, alerta o psicólogo, exercem mecanismos semelhantes aos de vícios em outros tipos de entretenimento: o usuário busca esse mundo para fugir dos problemas e simular uma vida social bem-sucedida.


Que riscos os jogos virtuais trazem?
CRISTIANO NABUCO
- Quando analisamos seus efeitos negativos, a primeira coisa que vem à mente são os de combate. Eles favorecem a ascensão rápida nas fases iniciais para mexer com o ego do jogador e, depois, exibem dificuldades. Um dos poucos estudos sobre o assunto mostrou que, após dez minutos de jogo, há liberação de dopamina, neurotransmissor que motiva e aumenta a atenção.

Esses mecanismos também são encontrados nos jogos do Facebook e do Orkut?
NABUCO
- Nos jogos mais recentes, como o "Farmville", há uma mescla de rede social com a perspectiva de poder administrar sua "propriedade". Ainda não temos fundamentos para explicar quais mudanças bioquímicas ocorrem. Mas, diferentemente de destruir, você passa a dividir, doar, construir. É como se a sua generosidade fosse praticada virtualmente.

Mas isso não seria bom?
NABUCO
- A princípio, esses jogos seriam inofensivos. Mas veja este exemplo: atendi uma senhora de 52 anos que não tinha disposição para sair e estava com problemas de desempenho no trabalho. Parecia depressão até que, no quinto encontro, ela me contou que se cansava por causa dos horários em que ficava na internet. "Tenho uma fazenda, doutor. Quer ver no seu computador? Tenho de acordar às 4h da manhã para colher os morangos, senão eles estragam." Parecia uma menina mostrando sua Barbie nova! Tinha a fazenda mais bonita da comunidade virtual e não poderia correr o risco de perder esse "título".

Onde esses diferentes tipos de jogos se encontram no que diz respeito à dependência?
NABUCO
- Todos promovem o aumento da autoestima. Para pessoas com depressão, fobia social ou um problema psicológico pontual, a perspectiva de "controlar" um ambiente se torna uma porta de fuga de realidades mal vividas. Essa paciente descrevia uma qualidade de vida muito ruim e tinha uma vida virtual muito boa.

Como ocorre essa promoção da autoestima?
NABUCO
- Ela é construída sobre dois pilares: capacidade de controlar a frustração e de mudar o que está em seu entorno. Imagine um obeso que não consegue tolerar a frustração de ser gordo nem dizer aos colegas "não gosto disso" quando sofre uma brincadeira de mau gosto. Na internet, é só deletar quem os atinge. Lá, ele é o que não consegue ser de fato.

O "Farmville" e outros jogos complementam essa estrutura?
NABUCO
- Dão chances de o indivíduo realizar sonhos muito rapidamente, desejos e fantasias que não conseguiria de outra forma. E, de quebra, gera a expectativa de ser admirado.

Esse bem-estar persiste por muito tempo?
NABUCO
- Quem joga por horas seguidas se sente melhor, mas isso é pouco consistente, porque sabe que o sucesso está restrito à vida virtual.

O Brasil figura entre os maiores usuários das redes de relacionamento. Esses fatores teriam alguma relação?
NABUCO
- Talvez você consiga igualar as pessoas por meio da internet, o que tem impacto por aqui. O menino da periferia pode ser ouvido em seu jogo da mesma forma que alguém em melhor posição social.

As redes sociais também são agentes da dependência?
NABUCO
- Ninguém chega no meio de uma sala e diz "Pessoal, saí com fulano", porque é ridículo, mas muitos publicam isso em sites de relacionamento para milhões lerem. Para que você seja legitimado entre os demais, tem de ter sua página virtual. As pessoas estão viciadas em se relacionar pela internet. As redes dão um grau de satisfação e aceitabilidade que elas não teriam no mundo real.

O dependente é sempre mal resolvido com a vida?
NABUCO
- Os profundamente dependentes perdem a habilidade de manejar o tempo que passam na vida virtual. Em 99% dos dependentes, há depressão, fobia social ou transtorno bipolar. Geralmente, há questões mal trabalhadas, como problemas familiares.

Mas, então, essa dependência é sintoma de outra doença?
NABUCO
- Acreditou-se nisso por muito tempo. Mas observamos hoje comportamentos nesses pacientes que levam ao diagnóstico de dependência.

Quais são esses critérios?
NABUCO
- Falar só de Orkut e de jogo, ter noção de que faz uso excessivo, mas não conseguir reduzir o tempo, apresentar depressão ou ansiedade, tender a mentir sobre uso abusivo, sofrer impacto na vida profissional e social e ter oscilações de humor se não acessa a internet.

Muitos correm o risco de perder a noção do real e do virtual?
NABUCO
- O jovem não dá o telefone na balada, passa o MSN. Não liga, manda torpedo. Até a comunicação sofre interferências do mundo virtual. Quanto mais eu fico na internet, mais ocupo meu cérebro com essa vida virtual. Ele perde momentaneamente a habilidade de discernir o que é virtual do que é realidade.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

De pecados e crimes


O noticiário sobre pedofilia, atingindo religiosos da Igreja Católica, inclusive da alta hierarquia, traz tantos dados que chocam, que o Vaticano publicou editorial atacando a imprensa internacional por cumprir seu papel, qual seja, o de informar.

Acostumada a tratamento diferenciado, muitas vezes privilegiado, por parte da mídia, com desvantagem para os demais grupos religiosos, a hierarquia católica reage de forma hostil à impossibilidade que teve a imprensa de postar-se como cúmplice de crimes inaceitáveis, por omissão.

É certo que as relações das religiões com os poderes terrenos são assunto delicado e polêmico. Investidos de aura suprahumana, para os que crêem neste ou naquele culto, com facilidade pode ocorrer de buscarem transbordar, para o plano meramente político, o poder espiritual que lhes é atribuído pela religião, como instituição humana.

Decorre daí a facilidade de, em nome da divindade, fazer acordos internacionais (como a concordata com a Santa Sé a que se curvaram políticos do Brasil), desenvolver articulações políticas e facilmente ganhar espaço, onde outros dependem do voto e da legitimidade. O uso do poder espiritual para obter benesses humanas é tanto mais perigoso, quanto mais confunde argumentos que invocam caridade, para alcançar privilégios materiais, suprimindo direitos de outros.

Ao potencializar o poder espiritual pela união ao poder político, mera e complexamente humano, a expectativa é de reunir os benefícios das duas esferas. Engendrada nas altas hierarquias, repercute em outros níveis de forma imprevisível. Enquanto alguns religiosos tomam o compromisso de defesa dos direitos, outros enveredam por caminho oposto.

Copiando a má prática humana na política, esperam a máxima visibilidade dos méritos e a completa impunidade dos erros. Quando ocorre alguma "escorregada", que em outros seres humanos, "comuns", será chamado de crime, considera-se "natural" a invisibilização e o silêncio, garantindo a impunidade, pelo desconhecimento público.

Vale lembrar que a Igreja Católica, por sua associação milenar, desde Constantino, ao poder terreno, tem digerido mal a independência e autonomia laica dos Estados em relação aos cultos, processo fortalecido a partir da Revolução Francesa - e conseqüentemente, digere mal a autonomia da cidadania e a soberania do Estado.

Por ser instituição burocratizada altamente complexa, a diversidade interna da Igreja Católica lhe permite um portfólio de exemplos de religiosos com atuação religiosa e social impecável, para contrapor aos abusos agora denunciados. O reconhecimento do drama vivido pelas vítimas, mesmo a indenização pecuniária, nada retira do caráter irreversível do dano causado a quem sofreu a violência sexual, em particular sendo criança, que perdeu o direito à inocência, pela ação de quem supunha ser seu guia.

O uso da autoridade como forma privilegiada de cometer o abuso é aviltante para as relações de autoridade e para o próprio sentido educativo dessas relações.

A lentidão em reconhecer os casos de abuso e pedofilia, em diferentes países, como o Brasil, é a outra face da moeda, que credita à Igreja Católica o poder de a tudo julgar e tudo determinar na vida humana, inclusive interferindo em políticas públicas.

É o caso das pressões sobre o 3º PNDH, para os temas de retirada dos símbolos religiosos de estabelecimentos públicos, reconhecimento da autonomia das mulheres, em caso de aborto, e das uniões homoafetivas, incluindo adoção de filhos. Ignora que seus fiéis, se convictos, não serão obrigados a coisa alguma que contrarie sua doutrina, por uma lei que se proponha como possibilidade.

Porque a lógica do interesse público precisa pautar-se por atender a toda a cidadania, sem discriminação, cabendo às denominações religiosas convencer seus membros a que atendam as determinações morais que pregam, definindo o que é pecado, e não ao Estado, que lida apenas com o que é crime.

Quem for convicto seguirá os ditames da religião sem titubear, ainda que as leis ofereçam possibilidades a si vetadas pelas normas religiosas. Se uma denominação religiosa proíbe o álcool, não será a existência de bares que convencerá o seu adepto a provar da bebida.

Ao tomar conhecimento de infratores em suas fileiras, e imediatamente encobri-los, o que o Vaticano reitera é sua disposição de ser soberano por sobre a ordem humana, que é plural do ponto de vista religioso e de consciência, mesmo quando os atos cometidos - pecados ou não - são terrível e simplesmente enquadráveis como possíveis crimes, cabendo, pois, ao Estado investigar e julgar, de forma pública e transparente, o que apenas engrandecerá a instituição religiosa por abrir-se com coragem, prevenindo semelhantes situações.


ROSELI FISCHMANN é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da USP, coordena o Núcleo de Educação em Direitos Humanos da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, entre outros, o livro "Estado Laico" (Memorial da América Latina).

sábado, 17 de abril de 2010

Sorte ou Azar


Era uma vez um menino pobre que morava na China e estava sentado na calçada do lado de fora da sua casa. O que ele mais desejava era ter um cavalo, mas não tinha dinheiro.

Justamente nesta dia passou em sua rua uma cavalaria, que levava um potrinho incapaz de acompanhar o grupo. O dono da cavalaria, sabendo do desejo do menino, perguntou se ele queria o cavalinho. Exultante o menino aceitou.

Um vizinho, tomando conhecimento do ocorrido, disse ao pai do garoto: "Seu filho é de sorte!" "Por quê?", perguntou o pai. "Ora", disse ele, "seu filho queria um cavalo, passa uma cavalaria e ele ganha um potrinho. Não é uma sorte?" "Pode ser sorte ou pode ser azar!", comentou o pai.

O menino cuidou do cavalo com todo zelo, mas um dia, já crescido, o animal fugiu. Desta vez, o vizinho diz: "Seu filho é azarento, hein? Ele ganha um potrinho, cuida dele até a fase adulta, e o potro foge!" "Pode ser sorte ou pode ser azar!", repetiu o pai.

O tempo passa e um dia o cavalo volta com uma manada selvagem. O menino, agora um rapaz, consegue cercá-los e fica com todos eles. Observa o vizinho: "Seu filho é de sorte! Ganha um potrinho, cria, ele foge e volta com um bando de cavalos selvagens." "Pode ser sorte ou pode ser azar!", responde novamente o pai.

Mais tarde, o rapaz estava treinando um dos cavalos, quando cai e quebra a perna. Vem o vizinho: "Seu filho é de azar! o cavalo foge, volta com uma manada selvagem, o garoto vai treinar um deles e quebra a perna." "Pode ser sorte ou pode ser azar!", insiste o pai.

Dias depois, o reino onde moravam declara guerra ao reino vizinho. Todos os jovens são convocados, menos o rapaz que estava com a perna quebrada. O vizinho: "Seu filho é de sorte..."

Assim é na vida, tudo que acontece pode ser sorte ou azar. Depende do que vem depois. O que parece azar num momento, pode ser sorte no futuro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A ilha da Páscoa

Perto de 1400, a floresta já não existia e a última palmeira foi cortada, extinta com outras 21 espécies de plantas nativas


A ILHA DE PÁSCOA está localizada no sul do Pacífico, em um local esquecido no meio do mar. Foi avistada por europeus em um domingo de Páscoa, em 1722. Ao contrário da maioria das ilhas daquela parte do mundo, o terreno não tinha grandes árvores e a grama era tão seca que, à distância, parecia areia.

Os viajantes foram recebidos por uma comitiva de nativos em canoas frágeis e ao desembarcar ficaram surpreendidos com os grandes moais, gigantescas estátuas de pedra esculpidas na forma de rostos humanos, espalhadas pelo litoral, como se vigiassem o alto-mar.


Ainda hoje a ilha é cercada por uma nuvem de mistério. A chave do mistério é revelada ao voltarmos à época da chegada dos primeiros polinésios, a cerca de 1400 anos. Vindos do oeste, os Rapanui encontraram um pequeno paraíso.

Eram 166 quilômetros quadrados cobertos por uma densa floresta subtropical que crescia sobre o fértil solo de origem vulcânica. A fauna local permitia uma dieta muito rica para os moradores. Carne de golfinho, de foca e de 25 tipos de aves selvagens que eram assados com a lenha retirada da floresta. É o que mostram escavações arqueológicas em antigos sítios ocupados, graças a essa biodiversidade o número de habitantes aumentou bastante.

Boa parte dos recursos locais era gasta na intensa produção e no transporte de estátuas. Para movê-las, dezenas de pessoas utilizavam cordas e uma espécie de trenó feito de palmeiras e arrastavam os moais por 14 quilômetros até o litoral. A partir de 1200, a produção entrou em um ritmo mais acelerado e que durou pelos 300 anos seguintes, sendo preciso cada vez mais madeira, cordas e alimentos.

Por volta de 1400, a floresta já não existia e a última palmeira foi cortada, extinta com outras 21 espécies de plantas nativas. Assim, não havia mais madeira e cordas para o transporte de moais nem troncos resistentes para a construção de barcos para a pesca em alto-mar.

Assim a pesca diminuiu. As colheitas também foram prejudicadas com o desmatamento e com o habitat devastado todas as espécies de aves foram extintas.

Todos esses fatores causaram uma grave falta de alimentos e o número de habitantes foi reduzido a um décimo dos 20 mil que habitaram a ilha no seu auge. E sem comida, os Rapanui apelaram para o canibalismo. Em vez de ossos de pássaros ou de golfinhos, passou-se a encontrar ossos humanos nas escavações de moradias desse período. Muitos deles foram quebrados para se extrair o tutano.


O canibalismo cometido pelos nativos serve como exemplo do que pode acontecer quando o meio ambiente é explorado até o limite e o seu equilíbrio é afetado: a civilização que depende de seus recursos é levada ao colapso. Ela se devora a si mesma, "canibalisticamente".

E serve de lição para nossa geração que está vivendo as consequências do crescimento econômico, tal como aconteceu com os moradores da ilha de Páscoa. Eles viram a destruição da natureza que suas atividades estavam produzindo mas não tiveram a sabedoria de parar.

Seremos nós construtores de moais? O crescimento econômico e o crescimento tecnológico não serão os fantásticos moais que estamos construindo?

RUBEM ALVES


terça-feira, 6 de abril de 2010

Nostalgia da lama


Escândalos envolvendo os jogadores Adriano e Vagner Love,
do Flamengo, escancaram o preconceito
de classe no Brasil



Talvez não seja correto dizer que o esporte é um espelho da sociedade, mas a maneira como os fatos do esporte e seu entorno são lidos pela mídia certamente diz muito sobre ambas (a sociedade e a própria mídia).

O "mea culpa" do golfista Tiger Woods diante das câmeras expôs muito mais que suas infidelidades conjugais. Colocou a nu uma cultura manifestamente puritana que transforma em espetáculo midiático a repressão de suas pulsões.

Como se sabe, muitos norte-americanos, talvez a maioria, acham que gostar de sexo é uma espécie de doença.

No Brasil, a cobertura e a repercussão crítica dos recentes escândalos envolvendo os astros do futebol Adriano e Vagner Love revelam, entre outras coisas, um indisfarçável preconceito de classe.

O que mais escandaliza a chamada crônica esportiva, com honrosas exceções, parece ser o ambiente em que os personagens foram "flagrados". A própria recorrência desse verbo é significativa, como se estar num baile funk ou simplesmente na favela fosse por si só uma atitude ilícita ou, no mínimo, suspeita.


Na Chatuba e na Barra

O vínculo entre os termos favela e crime, martelado durante décadas pelos meios de comunicação, parece ter-se tornado indissolúvel.

Condena-se Adriano não tanto por trocar socos com a namorada, mas por fazê-lo no morro da Chatuba, e não numa cobertura na Barra da Tijuca ou num palacete em Milão.

O viés de classe nunca ficou tão evidente, aliás, como quando o jogador, um ano atrás, deixou de se reapresentar a seu clube, a Internazionale de Milão, e se refugiou durante três dias no bairro onde se criou, no Rio de Janeiro. A perplexidade foi geral, na imprensa e no mundo futebolístico.

A pergunta que se repetia era: como um sujeito abre mão de milhões de euros, do destaque num clube de ponta, de uma cidade sofisticada, para voltar à favela? O corolário, explícito ou subjacente, era mais ou menos o seguinte: "Quem nasceu na maloca nunca vai deixar de ser maloqueiro".

Uma espécie de "nostalgia da lama" arrastaria Adriano para baixo -ainda que, topograficamente, para cima.

O que escandaliza, no fundo, é a recusa em aderir aos valores, condutas e discursos tornados praticamente compulsórios para quem "vence" na nossa sociedade.

Não se perdoa Vagner Love por optar por um baile funk na Rocinha em vez de uma boate na zona sul do Rio. No primeiro, estão os "bandidos"; na segunda, a gente de bem.

Pouco importa que o tráfico que mata tanta gente no morro se alimente do consumo recreativo de muitos habitués das casas noturnas chiques.

Num país de "malandros com contrato, com gravata e capital", não escandaliza ninguém que Kaká saia publicamente em defesa dos líderes de sua argentária igreja, investigados em dois países por estelionato e lavagem de dinheiro.

Kaká, diz a crônica em uníssono, é um rapaz de boa cabeça, de boa família, de boa "estrutura". Mas Vagner Love aparecer num baile na Rocinha ladeado por traficantes armados (algo que talvez ocorresse com qualquer celebridade que visitasse o local) é intolerável.


Motel e travestis

Para reforçar a constatação de que, entre nós, o viés de classe é ainda mais forte do que o viés moralista, um caso exemplar é o de Ronaldo, "flagrado" (olha o verbo de novo) com três travestis num motel do Rio.

O que mais se ouviu, nos bastidores da imprensa, foi: "Como é que um sujeito com a grana que ele tem vai se meter com travecos de rua? Era só pegar o telefone e encomendar a perversão que quisesse, no sigilo do seu apartamento ou de um hotel de luxo".

Ou seja, dependendo do montante gasto, do cenário e dos figurinos, tudo é bonito e aceitável.


JOSÉ GERALDO COUTO

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ainda é, mesmo que já tenha ido

Não se afobe, não
Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios

No ar

(Futuros amantes, Chico Buarque)



O amor não morre de pé. O amor morre deitado para confundir os cabelos e ousar de novo. Toda separação é um laço. Todo divórcio é um vínculo. Conheço gente que se separa só para se aproximar de outro jeito. Para provocar, para atrair a atenção, para pedir o retorno. Não há ofensa que não tenha uma carícia em seu início.

Fazer as malas é a última tentativa. Fazer as malas é preservar o armário. A mala pode ser o túmulo do armário ou uma outra cama de casal. Na mala, as roupas enfim se deitam, se amam, se roçam, sem a proteção e o biombo dos cabides. As mangas entram com malícia em bolsos, os botões abertos são brincos, o zíper é uma gargantilha, camisas experimentam gravatas, calças andam com uma única perna.

O amor não se resolve sozinho, não é de onde nasceu. O amor é natural de onde morreu. O sofrimento é o contrário: morre onde foi parido. Morre sem trocar de cidade.

Mesmo que seja maltratado, estiolado, reduzido a pó, o amor volta, se regenera com facilidade. O amor tem pele de sobra nos olhos. No amor, a pele é córnea. Quem ama não é capaz de morrer por um amor, é capaz de voltar a viver por um amor. O amor perdoa o que Deus condenaria, o amor condena o que Deus perdoaria.


O amor é imprevisível. Não tem lógica. Torna a presença imaginada ou torna a ausência real. O amor cria sua própria necessidade. O amor não é uma obrigação, é uma opção. Não se é obrigado a amar, até é possível viver uma vida sem amor, mas não é possível viver o amor sem dar a vida em troca. O amor é se encostar para dormir e ficar ainda mais acordado.

O amor ilude, contraria, engana. É instável e machuca, abre ferimentos graves e invisíveis, confunde um pássaro com fruto e prende as patas em um caule, corta as asas como se fossem gomos, esvazia a casa, arruina a fé, cria os piores fiascos, infantiliza os joelhos, devasta o certo e o errado, inventa lugares para se esconder, quebra as lentes dos óculos, expulsa amizades, prepara escândalos, esconjura atrasos.


Ainda assim é melhor do que o tédio. Ninguém se agride pelo tédio, pois ele anula qualquer vontade.

O amor é como o rio, não deixa de barulhar represado de pedras. Sofrer é pouco ao amor. As lágrimas nunca serão fartas como a saliva. A saliva é a lágrima da alegria.