sexta-feira, 19 de março de 2010

morte e luto

[...] QUEM FICA PRECISA
ATUALIZAR SUA
REPRESENTAÇÃO MENTAL
DO MUNDO E AJUSTÁ-LA À
NOVA REALIDADE


Cachorro que aprende a pular o muro não dura muito tempo, e com o mestiço que meus pais recolheram da rua não foi diferente, apesar das experiências adquiridas em sua vida prévia como vira-lata.


Trouvé viveu seguro no jardim da casa até descobrir, dois meses atrás, uma brecha na janela e notar que suas pernas davam conta de alçar voo por cima do portão. Em uma de suas escapadas, e na ânsia de achar um caminho até meus pais na piscina que lhe era proibida, acabou morrendo afogado na do vizinho.


Meus pais ficaram desolados. A empatia com o sofrimento do ser querido ao expirar, no caso tragicamente embaixo da lona que semiprotegia a piscina, é apenas parte da dor. A maior, mais profunda e duradoura vem ao longo dos dias, conforme o cérebro, habituado à presença que fazia parte do seu mundo, antecipa esbarrar com quem se foi pelos corredores, na rotina do café da manhã, ao chegar em casa -mas não só não o encontra como sabe que não o encontrará mais.


Ficam as memórias, que, às vezes, podem ser evocadas com tanta nitidez que o cérebro quase acredita na presença do ser querido. E então, o luto: o período que o cérebro leva para aceitar que todas as expectativas que envolvem quem se foi não mais serão cumpridas (talvez por isso a constatação do corpo morto seja tão importante: para que não fique a angústia da dúvida).


Quem fica precisa atualizar sua representação mental do mundo e ajustá-la à nova realidade, que não é mais habitada por quem nos acariciava, buscava ou simplesmente fazia companhia. E isso leva tempo.


Quanto maior e mais próxima era a convivência, quanto mais entranhada em nossa representação do mundo era a pessoa que morreu, mais profunda é a dor da sua ausência e mais longo o luto.


Conforto meus pais lhes lembrando de que foi graças a eles que Trouvé ganhou uma vida feliz e sem sarnas.


Morrer é o fim inexorável para todos. Se a vida é como um filme cujo final conhecemos antes mesmo de iniciada a sessão, então é a história que vale a pena -como eu já deveria ter aprendido com meus filhos, que curtem quantas reprises puderem no Disney Channel.


Digo tudo isso à minha filha de dez anos, chorosa, para que ela vá aprendendo a conviver de maneira saudável com a ideia da morte. Mas não é pelo Trouvé que ela chora, nem pela certeza da morte, e sim pelos avós que irão sofrer com a falta do cachorrinho. Acho que ela entendeu: o papel da morte é dar valor à vida.



SUZANA HERCULANO-HOUZEL

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