segunda-feira, 29 de março de 2010

Deixadas no passado


Elas podem ser vistas, dignas e lindonas, na plateia de colegas mais jovens, e você imagina que estão ali na condição de fãs desprendidas das novas gerações.

Mas não é sempre assim. Mais provável que estejam tentando atrair a atenção de um produtor ou de um agente que lhes dê trabalho -o primeiro, talvez, em seis meses ou um ano de silêncio profissional.


No Rio e em São Paulo, dezenas de grandes cantoras do passado vivem hoje os piores momentos de suas carreiras, esquecidas pela mídia e ignoradas pelos produtores.

As mais felizes, que conservaram um apartamentinho próprio, estão livres do aluguel, mas o condomínio já tem um ou dois anos de atraso. Muitas se seguram com uma aposentadoria que mal lhes paga a comida e os remédios. O plano de saúde, vitimado pela inadimplência, há muito que foi para o espaço. Algumas estão vivendo de cestas básicas doadas por amigos.


Não se trata de senhoras que, pela idade, já estariam, se quisessem, no Retiro dos Artistas, mas de mulheres vaidosas, ainda com a voz inteira, em perfeitas condições de trabalhar. Acontece de uma delas conseguir, de surpresa, uma noite num clube ou teatro mais privilegiado e não ter dinheiro para ajeitar o cabelo ou recauchutar o velho vestido.


Seus agentes alegam que esse tipo de oportunidade -aparições relâmpago em casas noturnas- é cada vez mais raro. As grandes casas só querem saber de "projetos" ambiciosos, para interessar os suspeitos de sempre, os patrocinadores. E estes, visando imprensa ou retorno, só reconhecem os nomes de hoje, e não se impressionam se Fulana ou Beltrana foi uma estrela, digamos, da bossa nova.


Sim, elas não são contemporâneas de Chiquinha Gonzaga, mas cantoras que, até outro dia, estavam construindo o futuro da música popular. O futuro chegou, e elas não têm vez nele.

RUY CASTRO



O texto provoca algumas reflexões importantes sobre aposentadoria e mostra que mesmo muito dinheiro em determinado momento da vida não é garantia de qualidade de vida no futuro. Cantoras que fizeram muito sucesso estão hoje com dificuldades financeiras.


É uma situação mais comum do que se imagina e ocorre não apenas com artistas, mas também com atletas, segundo Alvaro Dias, planejador financeiro com uma carreira construída em gestão de fortunas.


Os erros mais comuns, segundo Dias:

1- Entregam a gestão financeira a amigos e parentes que não tem conhecimento de planejamento financeiro.
2- Confundem patrimônio e renda.
3- São sensíveis ao assédio de familiares.
4- Compram bens caros que exigem manutenção cara.
5-Não cuidam da gestão do estilo de vida.


MARA LUQUET

domingo, 28 de março de 2010

Finesse

Algumas questões são tratadas
de forma grosseira porque
temos pressa em resolvê-las



O FILÓSOFO francês Blaise Pascal (século 17) dividia a inteligência em dois tipos de "espíritos". "Espírito", aqui, significa "atividade intelectual" e não alma penada ou um princípio pessoal e imaterial como no kardecismo. Os dois tipos são: o espírito geométrico e o espírito de "finesse".


O primeiro teria como vocação lidar com um grande número de questões ao mesmo tempo, arranjando-as de modo linear e encadeado, a fim de gerar deduções lógicas generalistas e de grande alcance. O segundo teria uma vocação para o detalhe e a sutileza, lidando melhor com um pequeno número de variáveis a cada vez, e fugindo das generalidades apressadas.


O geométrico ama a pressa e os resultados eficazes, o de "finesse" cultua a paciência e o cuidado, mas pode ser de eficácia duvidosa.


Normalmente eu tendo para o espírito de "finesse". O problema é que numa sociedade gigantesca como a nossa, com problemas de dimensões estatísticas, o espírito geométrico tende a devorar a alma. E, por definição, a alma vive mal na geometria. Seu habitat natural é a "finesse" porque a geometria tende ao grosseiro quando envolve seres humanos.


Em nossa complexa sociedade, algumas questões são tratadas de forma grosseira porque nós temos pressa em resolvê-las ou porque queremos fazer mentiras passarem por verdades. E aí, nós caímos num frenesi geométrico.


Leitores perguntam qual é minha posição quanto ao tema das cotas nas universidades. Outros, perguntam-me: "Você é a favor ou contra os direitos gays?".


O frenesi geométrico tende a dar respostas afeitas ao gosto de políticas públicas e movimentos sociais. Respostas geométricas são assim: "sou a favor" ou "sou contra" cotas ou direitos gays. E pronto.


Confesso: tenho alergia a esse negócio de "movimentos sociais" e suspeito muito do caráter de quem vive sempre metido neles. Não existe algo chamado "multidão do bem", toda multidão é do mal.


Recentemente ouvi um comercial no rádio que falava "todos juntos com uma só vontade e um só objetivo" (algo assim). Sinto um frio na espinha quando vejo "vontades unidas", pouco importa para quê.


Perdoe-me se isso parece uma falha de caráter, ou, quem sabe, se não sofri o suficiente na vida até hoje para confiar em multidões do bem, ou se conheço muitas mulheres bonitas e que gostam de tomar vinho antes do sexo. Na vida de um homem, o que decide sua realização é sempre sucesso profissional e sucesso com as mulheres, quem disser o contrário mente. Minha suspeita básica é de que desde os irmãos Caim e Abel (Caim matou Abel por inveja do amor de Deus pelo irmão), detestamos a felicidade no outro.


Mas e as cotas e os direitos gays? Tentemos uma resposta sem pressa.


Sou contra cotas raciais. Não acredito nessa coisa de dívidas históricas. Acho que isso serve para intelectuais fazerem carreiras ideologicamente orientadas (porque as universidades vivem sob repressão ideológica) e para pessoas politicamente articuladas garantirem seu futuro burocrático.
Sim, reinos africanos participavam do mercado de escravos e praticavam escravidão entre eles.

Dizer que a escravidão dos africanos no Brasil foi uma mera questão de "europeus contra negros" é mentira. E mais: essa prática de cotas raciais (racismo "do bem") é tão racista quanto qualquer outra.


Dizer que reinos africanos e africanos libertos da escravidão no Brasil participaram do comércio de escravos não é "preconceito contra negros". Aqueles que afirmam isso o fazem por má fé.

Sou a favor de cotas em universidades públicas para estudantes de escolas públicas que se destacam em sua vida estudantil porque eu acredito em recompensar o mérito.


E os direitos gays? Não acho que gays devam ter direitos especiais. Leis que criminalizam gestos e palavras "contra os gays" para mim são mero fascismo.


Cirurgia para troca de sexo pago pelo Estado é um abuso para o contribuinte. Acho uma bobagem essa coisa de "homoafetividade".


É um abuso quando professores de educação sexual dão bananas para meninos colocarem camisinha com a boca, como se ser gay fosse "normalzinho". Deve-se respeitar o mal-estar das pessoas diante disso, e querer "formar" mentes nesse nível não é função da escola.


Entretanto, sendo gays pessoas comuns, acho que, sim, eles devem ter o mesmo direito que os outros: o direito de casar, criar filhos e ser (in)feliz no amor e na vida como todo mundo.


Luiz Felipe Pondé

sexta-feira, 26 de março de 2010

As mãos limpas de Bush

Bush limpa a mão em Clinton após cumprimentar haitiano


Dois ex-presidentes dos Estados Unidos que visitaram o Haiti essa semana chamaram a atenção por uma gafe flagrada só por uma câmera.

George W. Bush acompanhava Bill Clinton na viagem para avaliar as necessidades para a reconstrução do Haiti.

Depois de cumprimentar um haitiano, Bush disfarça e limpa a mão na camisa de Clinton.

Clinton até esboça uma reação, mas a indiscrição de Bush já havia sido registrada. Mais uma para lista de gafes do ex-presidente americano.



terça-feira, 23 de março de 2010

Lembranças e brigas

Sempre que evocamos os eventos passados, nossas lembranças são reescritas e corrigidas


TUDO COMEÇOU em 1990, quando George Franklin, um aposentado californiano, foi acusado de um infanticídio que ele teria cometido 21 anos antes.

Repentinamente, Eileen, a filha de George, declarou que, quando criança, ela tinha visto seu próprio pai matar uma menina de oito anos. Eileen explicou seu longo silêncio por uma amnésia: ela presenciara um evento tão horrível que, por duas décadas, ela reprimira radicalmente toda lembrança dos fatos.

A jornada de George Franklin terminou sete anos mais tarde, quando um tribunal federal o soltou, considerando duvidoso o testemunho de Eileen.

O processo de Franklin inaugurou uma guerra que durou mais de uma década. De um lado, havia um grupo de psicoterapeutas que acreditavam no seguinte: eventos traumáticos podem ser totalmente apagados da memória e reconstruídos, mais tarde, com a ajuda e o incentivo de um terapeuta.

Do outro (é esse lado que prevaleceu), havia estudiosos do funcionamento da memória, que, à força de pesquisas experimentais, mostravam que 1) os eventos traumáticos nunca são propriamente apagados da memória e 2) a "reconstrução" de uma lembrança perdida, ainda mais com ajuda e incentivo de um terapeuta, é quase sempre um processo criativo, ou seja, invenção.

Quem se interessar por essa guerra pode ler o clássico "Victims of Memory" (vítimas da memória), de Mark Pendergrast (Upper Access, 1996), ou "Remembering Our Child- hood" (lembrando-se da infância), de Karl Sabbagh (Oxford, 2009).

O fato é que, graças à dita disputa, o funcionamento da memória foi pesquisado ativamente. E o que me importa hoje é justamente uma propriedade de nossa memória que foi documentada durante o debate dos anos 90 e que explica por que seria inexato dizer que Eileen Franklin, por exemplo, mentiu.

Aqui vai: a cada vez que evocamos ou aprimoramos nossa lembrança de um evento, nossas palavras modificam o evento aos nossos olhos, de tal forma que estamos prestes a jurar que ele aconteceu exatamente como diz nosso relato mais recente.

Um exemplo. Eu tinha ("tinha", no passado) uma lembrança infantil, dos meus dois anos. Como muitas lembranças da primeira infância, ela era uma simples percepção: a silhueta de uma criança correndo, destacando-se, em contraluz, diante de uma porta de vidro. Evoquei e descrevi essa lembrança pela primeira vez durante minha análise e, desde então, repetidamente, ao longo de minha vida, tentei "entendê-la", "recordá-la" melhor.

Resultado, hoje, minha lembrança é a seguinte: a criança que corre sou eu (o que é curioso, pois a dita criança está bem em frente de meus olhos) - e sou eu aos quatro anos, não aos dois (a porta de vidro é, "claramente", a da sala do apê dos meus quatro anos).

Além disso, posso dizer com convicção para onde estou correndo e por que estou extraordinariamente feliz (estado de ânimo que, aliás, não fazia parte da imagem inicial).

Não sei se algo disso corresponde ao acontecimento que deixou em minha memória a silhueta de uma criança em contraluz. Igual, é só por hábito profissional que me obstino a desconfiar de minha lembrança assim como ela se apresenta agora; se não fosse por essa desconfiança do ofício, aquela imagem enigmática de criancinha correndo em contraluz estaria mesmo completamente perdida - transformada, irremediavelmente, por todas as minhas narrações, explicações e interpretações.

Como os historiadores sabem há tempo, a cada vez que evocamos eventos passados, nossas lembranças são imediatamente reescritas e corrigidas por essa evocação.

Há uma consequência desse fenômeno, que todos verificamos, uma vez ou outra. Um casal briga ao redor de um acontecimento recente: "Você disse que.."; "Eu só disse aquilo porque você me provocou"; "Não, quem provocou primeiro foi você", e por aí vai. Imaginemos que ambos sejam de boa-fé e que cada um queira apresentar honestamente sua versão dos fatos; eles deveriam facilmente entender como surgiu o mal-entendido, não é?

Pois é, isso não acontece quase nunca. Ao contrário, em geral, a briga piora: o outro, que contesta minha versão e a contrapropõe a sua, é mentiroso, pois contesta não "minha versão", mas os próprios fatos, assim como eles, ao meu ver, foram impressos diretamente em minha memória.

Moral da história: seria bom que o uso da memória nos inspirasse alguma prudência. Afinal, a cada vez que nos lembramos de algo, quer queira, quer não, transformamos nosso passado.

CONTARDO CALLIGARIS


sexta-feira, 19 de março de 2010

morte e luto

[...] QUEM FICA PRECISA
ATUALIZAR SUA
REPRESENTAÇÃO MENTAL
DO MUNDO E AJUSTÁ-LA À
NOVA REALIDADE


Cachorro que aprende a pular o muro não dura muito tempo, e com o mestiço que meus pais recolheram da rua não foi diferente, apesar das experiências adquiridas em sua vida prévia como vira-lata.


Trouvé viveu seguro no jardim da casa até descobrir, dois meses atrás, uma brecha na janela e notar que suas pernas davam conta de alçar voo por cima do portão. Em uma de suas escapadas, e na ânsia de achar um caminho até meus pais na piscina que lhe era proibida, acabou morrendo afogado na do vizinho.


Meus pais ficaram desolados. A empatia com o sofrimento do ser querido ao expirar, no caso tragicamente embaixo da lona que semiprotegia a piscina, é apenas parte da dor. A maior, mais profunda e duradoura vem ao longo dos dias, conforme o cérebro, habituado à presença que fazia parte do seu mundo, antecipa esbarrar com quem se foi pelos corredores, na rotina do café da manhã, ao chegar em casa -mas não só não o encontra como sabe que não o encontrará mais.


Ficam as memórias, que, às vezes, podem ser evocadas com tanta nitidez que o cérebro quase acredita na presença do ser querido. E então, o luto: o período que o cérebro leva para aceitar que todas as expectativas que envolvem quem se foi não mais serão cumpridas (talvez por isso a constatação do corpo morto seja tão importante: para que não fique a angústia da dúvida).


Quem fica precisa atualizar sua representação mental do mundo e ajustá-la à nova realidade, que não é mais habitada por quem nos acariciava, buscava ou simplesmente fazia companhia. E isso leva tempo.


Quanto maior e mais próxima era a convivência, quanto mais entranhada em nossa representação do mundo era a pessoa que morreu, mais profunda é a dor da sua ausência e mais longo o luto.


Conforto meus pais lhes lembrando de que foi graças a eles que Trouvé ganhou uma vida feliz e sem sarnas.


Morrer é o fim inexorável para todos. Se a vida é como um filme cujo final conhecemos antes mesmo de iniciada a sessão, então é a história que vale a pena -como eu já deveria ter aprendido com meus filhos, que curtem quantas reprises puderem no Disney Channel.


Digo tudo isso à minha filha de dez anos, chorosa, para que ela vá aprendendo a conviver de maneira saudável com a ideia da morte. Mas não é pelo Trouvé que ela chora, nem pela certeza da morte, e sim pelos avós que irão sofrer com a falta do cachorrinho. Acho que ela entendeu: o papel da morte é dar valor à vida.



SUZANA HERCULANO-HOUZEL

sexta-feira, 12 de março de 2010

Tiro pela culatra


Comparação com comerciais de cervejas na Alemanha mostra como a publicidade brasileira está entranhada nos valores culturais do país



O que a publicidade visa é, sobretudo, vender produtos. Ninguém duvida disso. Para cumprir seus propósitos, faz uso de estratégias e até mesmo de artimanhas, algumas explícitas, outras bastante sutis. Quanto mais sutis, mais poder de penetração elas alcançam até o cerne emocional do consumidor.


Um país como o Brasil -em que sentimentos e emoções contam bem mais do que a racionalidade bem-comportada- se constitui em solo propício à fertilização do discurso publicitário.


Além da pragmática do consumo, há um outro aspecto da publicidade que, apesar de sua relevância, não costuma ser lembrado. A publicidade funciona como um termômetro que marca a temperatura dos valores culturais. Sem a sugestão, o apelo e o empréstimo de valores que estão impregnados na cultura de um povo, o discurso publicitário seria como carne sem tempero.


O recente alvoroço provocado pela campanha da cerveja Devassa Bem Loura, da Schincariol, produzida pela agência Mood, é um exemplo flagrante para pensar o enraizamento da publicidade na cultura.


De 2000 a 2004, coordenei a parte brasileira de uma pesquisa cultural comparativa entre Brasil e Alemanha (financiada pelo acordo Capes-DAAD). O projeto envolveu a vinda de pesquisadores alemães ao Brasil para analisar nossas mídias e vice-versa.


O que ele teve de mais interessante foi a revelação de que o olhar do outro nos alerta para aspectos de nossa própria cultura que nos passam despercebidos. Uma das mídias analisadas foi a publicidade (ver "Palavra e Imagem nas Mídias", org. L. Santaella e W. Nöth, 2008, ed. UFPA).


O que imediatamente provocou espanto nos pesquisadores alemães foram as publicidades de cerveja com gigantescas mulheres seminuas, em poses cheias de malícia, ocupando de 20 a 30 metros dos perfis de prédios espalhados por pontos nevrálgicos da cidade de São Paulo.


Na Alemanha, em sintonia com o gosto minimalista de seu design, as publicidades colocam ênfase na origem natural de seus ingredientes ou no prazer socializador da bebida, o de beber junto com amigos. Não por acaso, o sobretexto sexual da publicidade no Brasil intrigou os alemães.


Moral da estória: nossa aliança entre cerveja, mulheres e sexualidade (ou sensualidade, para fazer uso de um eufemismo) já é velha e não espanta mais nenhum brasileiro.


A sensualidade, a beleza e a juventude são valores para a cultura deste país. E ponto. Já dizia Vinicius de Moraes: "... que me desculpem, mas a beleza é fundamental".



Vestido de tubinho


O que levaria, então, o Conar a resolver se autorregular somente agora? O nome "devassa", para quem conhece o léxico, de fato, convida à devassidão. Qual? A de beber ou a de transar? A estrela escolhida para brilhar na devassa geral é nada menos que Paris Hilton, o emblema magno do despudor exibicionista.


Comparado com esse texto cultural de caráter global, é até tímido o vídeo com as poses esforçadamente sensuais da estrela. Qualquer mocinha classe média escolheria um tubinho negro, curto e justinho para causar um pequeno frisson em festinhas de final de semana.


Se comparada à exuberância curvilínea de muitas de nossas atrizes nacionalmente globais, a loirice da Hilton e suas formas nada redondas parecem aguadas. Como poderia uma jovem quase anoréxica competir, em pleno Carnaval, com o estonteante e quase desconcertante esplendor da beleza das rainhas das baterias da Sapucaí?


O tiro do Conar, como todo tiro moralista, saiu pela culatra. Uma campanha que, não obstante seus programados milhões, tinha tudo para simplesmente cair na saturada corrente midiática, virou notícia, justo aquilo de que a própria mídia precisa para se autoalimentar.


Pipocam matérias pelos jornais, o assunto entrou no rol dos tópicos mais quentes do Twitter, o vídeo recebeu no YouTube visitantes muito mais atentos do que os distraídos espectadores da TV.


Enfim, a devassa veio à tona, driblando a acelerada mutação dos interesses humanos enquanto o mundo gira. Além disso, às vésperas do Dia Internacional da Mulher [amanhã], é preciso lembrar que o respeito às mulheres e aos méritos -que vão além da superfície de suas curvas e recheios- não é algo que se incorpora na cultura por meio de decretos, censuras nem por seu oposto -as festividades-, mas pela educação e, acima de tudo, pelo apreço à dignidade que deve brotar da força íntima e das ações das próprias mulheres.


Homens machistas só vicejam onde mulheres ainda não cresceram diante de si mesmas e para o outro.


LUCIA SANTAELLA

é professora da Pontifícia Universidade Católica (SP) e autora de "Linguagens Líquidas na Era da Mobilidade" (Paulus).


segunda-feira, 8 de março de 2010

Por causa da mulher


Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria

Que o mundo masculino tudo me daria

Do que eu quisesse ter


Que nada

Minha porção mulher, que até então se resguardara

É a porção melhor que trago em mim agora

É que me faz viver


Quem dera

Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera

Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser


Quem sabe

O Superhomem venha nos restituir a glória

Mudando como um deus o curso da história

Por causa da mulher

Superhomem - a canção
(Gilberto Gil, 1979)


"Eu estava de passagem pelo Rio, indo para os Estados Unidos fazer a excursão do lançamento do Nightingale - um disco gravado lá, com produção do Sérgio Mendes -, em março e abril de 79, e gravar o disco Realce, ao final da excursão. Na ocasião eu estava morando na Bahia e não tinha casa no Rio, por isso estava hospedado na casa do Caetano. Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã.

"De repente eu ouvi uma zuada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Superhomem. Falava na sala com as pessoas, entre elas a Dedé [Dedé Veloso, mulher de Caetano à época]; eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo para salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme... Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir.

"Mas eu não dormi. Estava impregnado da imagem do Superhomem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa idéia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente: 'Que linda!' E eu viajei para os Estados Unidos. Fiz a excursão toda e, só quando cheguei a Los Angeles, um mês e tanto depois, para gravar o disco, foi que eu vi o filme. Durante a gravação, uma amiga americana, Olenka Wallac, que morava em Los Angeles na ocasião, me levou para ver.
"A canção foi feita portanto com base na narrativa do Caetano. Como era Superhomem - O Filme, ficou Superhomem - a Canção; não tinha certeza se ia manter esse título ao publicá-la, mas mantive."

Sobre a "porção mulher" - "Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo, e ela é o contrário. O que ela tem, de certa forma, é sem dúvida uma insinuação de androginia, um tema que me interessava muito na ocasião - me interessava revelar esse embricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano. Eu tinha feito Pai e Mãe antes, já abordara a questão, mais explicitamente da posição de ver o filho como o resultado do pai e da mãe. Em Superhomem - a Canção, a idéia central é de que pai é mãe, ou seja, todo homem é mulher (e toda mulher é homem)."

GILBERTO GIL

sexta-feira, 5 de março de 2010

Santas e prostitutas


Proibir o comercial de Paris Hilton é,
tão simplesmente, um insulto às mulheres


CENSURAR Paris Hilton é um gesto honroso e até higiênico: na sua vulgaridade plástica, Paris Hilton é um insulto à beleza natural das mulheres brasileiras. Fosse eu presidente da República e jamais Paris Hilton poderia estrelar em comercial televisivo. Seria como convidar um futebolista californiano para jogar na seleção canarinho.

Acontece que o governo brasileiro não censurou Paris por motivos patrióticos, ou até estéticos, o que seria compreensível. Censurou por motivos éticos. Eis a história: Paris foi convidada para fazer campanha publicitária de uma cerveja. O filme mostra Paris, em hotel carioca, colada à janela do quarto, passando a lata da bebida pelo corpo. Simula prazer.

Cá fora, o mundo simula delírio. Um rapaz, versão moderna e ridícula de James Stewart em "Janela Indiscreta", fotografa a lata, não Paris, com verdadeiro fervor alcoólico. Na praia, a multidão aplaude o espetáculo e bebe em homenagem. A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres não gostou.

Eu também não gosto de uma secretaria com esse nome, mas divago. A juntar ao repúdio governamental, alguns consumidores também se sentiram chocados com a indecência de Paris. E o Conselho de Autorregulamentação Publicitária abriu três processos pela manifesta imoralidade do comercial.

Uma coisa é ter mulheres na praia, seminuas, bebendo vários barris de cerveja. Outra, bem diferente, é ter uma mulher de vestido negro, na janela de um quarto de hotel, com uma lata de cerveja na mão. Para os moralistas da cerveja, na praia vale tudo. No quarto, não vale nada. E quando surge uma imagem demoníaca dessas, a solução é proibir. Na cabeça deles, a imagem degrada as mulheres e, em especial, a mulher loira, universalmente considerada a versão feminina de Forrest Gump.

Não vale a pena perder tempo com a profunda contradição do raciocínio: a sexualização onipresente na cultura popular brasileira faz de Paris Hilton um hino à castidade. Mas vale a pena perder tempo com a natureza paternalista de um governo que ressuscita os piores clichês do feminismo rasteiro para defender a sua dama.

O que nos disse o movimento feminista que explodiu pelo mundo depois da Segunda Guerra? Não é possível resumir em poucas frases a multiplicidade de argumentos e até de movimentos que marcharam pela causa. Mas, simplificando, o feminismo apresentava-se às massas com o propósito de "libertar" a mulher, o que implicava enterrar os seus papéis clássicos de subjugação falocêntrica.

As grilhetas femininas não estavam apenas em casa: na humilhação de cozinhar para o homem, de criar os seus filhos e de suportar as suas "violações" regulares no leito conjugal (obrigado, Andrea Dworkin).

A libertação implicava também que a mulher deixasse de ser objeto sexual; deixasse de ser "coisa", "carne", "corpo" e passasse a ser "pessoa". A luta contra a indústria pornográfica, por exemplo, foi um "must" do movimento, sobretudo nos Estados Unidos, e muitas vezes uniu as "revolucionárias" do movimento feminista com a extrema direita religiosa mais reacionária. Ironias da história. Ironias que a notável escritora Camille Paglia sublinhou em textos críticos sobre a condição feminina.

Para Paglia, o movimento feminista, longe de defender a "libertação" das mulheres, apenas pretendia substituir uma forma de autoritarismo por outra. Paglia não nega as provações que as mulheres experimentaram durante grande parte da história. Mas Paglia, ao contrário de Dworkin e suas vestais, entendia que a verdadeira libertação não passava por um novo catálogo de proibições. Passava por dar às mulheres o que estas não tinham anteriormente: escolha e poder.

Ou, em linguagem prosaica, se uma mulher deseja ser "coisa", "carne", "corpo", isso não a diminui enquanto "pessoa". Pelo contrário: é uma poderosa manifestação de autonomia e, no limite, de domínio sobre aquele que a deseja. Liberdade não é impor um único padrão de comportamento. Liberdade é, precisamente, não impor nenhum.
Proibir o comercial de Paris Hilton em nome da "dignidade das mulheres" é, tão simplesmente, um insulto às mulheres.

Um insulto à capacidade destas para decidirem ser o que entenderem: santas, prostitutas, ou nenhuma delas. Para o insulto ser perfeito, só faltava que o governo brasileiro liberasse o comercial sob a condição de Paris Hilton usar burca da cabeça aos pés.

Não riam. Brasília está longe de Teerã, sim. Mas o espírito é o mesmo.


JOÃO PEREIRA COUTINHO

terça-feira, 2 de março de 2010

O deus mau



O THRILLER "Contatos de 4º Grau", com Milla Jovovich, vale a pena ser visto. Com roteiro eficiente e boa construção de personagens, o filme mistura gravações da personagem real (uma psicóloga) interpretada pela atriz com ficção construída a partir de seu material de pesquisa em consultório.



Trata-se da reconstrução de eventos misteriosos do ano 2000 numa pequena cidade no Alasca. O filme discute o velho tema das visitas de extraterrestres e sequestros de seres humanos. Um contato de quarto grau significa contatos com extraterrestres que envolvem sequestros de seres humanos.




Tenho algum conhecimento do tema. Não sou um iniciado no contato com extraterrestres "cinzentos de cabeça grande" nem nunca vi luzes estranhas no céu. Mas devido a uma pesquisa sobre mídia e novas crenças com alunos de comunicação, desenvolvida desde 1997, já recebi inúmeros iniciados em aula. Entre eles, ufólogos e pessoas que já foram abduzidas. Pelo menos relatam isso. E pasme, caro leitor: já conversei com vários extraterrestres. Pelo menos assim se apresentam. São seres que dizem assumir a forma humana para melhor desenvolver sua pesquisa entre nós. Muitas delas poderiam estar sentadas do seu lado no metrô. Discorrem tranquilamente sobre seus planetas de origem.



Alguns traços se repetem. Apesar de confirmarem que existem malvados entre eles, os malvados nunca "foram à minha aula". Os bons têm missões relacionadas à evolução moral dos seres humanos em assuntos como solidariedade social e interplanetária ou cuidados com o ambiente e com excessos tecnológicos. Um tema também recorrente é a questão da espiritualidade. Essas crenças misturam extraterrestres e divindades variadas, de egípcias a astecas ou maias.



Normalmente essa espiritualidade apresenta valores morais comuns a outras formas de espiritualidade: bondade, crença numa vida melhor após a morte, preocupação com a alimentação ou responsabilidade com o universo. Chama a atenção no filme o tipo específico de espiritualidade que esses eventos no Alasca narram.



Segundo as gravações das entrevistas com os pacientes da psicóloga (e com ela mesma, que também é vítima de abduções), os extraterrestres do Alasca falavam sumeriano (uma língua muito antiga), traduzido por um especialista, hoje professor em uma renomada universidade canadense. Mas o mais importante é o conteúdo das falas. Esse conteúdo marca uma grande diferença entre a maioria esmagadora de relatos de eventos como esse e o caso do Alasca.



A espiritualidade deles é agressiva e leva suas testemunhas ao desespero existencial e, em alguns casos, a suicídios e homicídios. A psicóloga diz que o afeto causado por eles é de total "hopelessness" (negação absoluta de qualquer esperança). Eles falam pela boca de suas vítimas, assim como se fosse uma possessão demoníaca.



Numa das visitas noturnas à casa da psicóloga, um deles afirma: "Sou deus". Que tipo de deus causa "hopelessness"? Aí adentramos uma questão importante da história das religiões antigas. Trata-se do fenômeno chamado "gnosticismo". O termo é tardio (século 18), mas o fenômeno data, no mínimo, do primeiro século da Era Cristã, e foi objeto de interesse de gente como o grande psiquiatra Jung. Temos muitos textos de época que atestam o fenômeno.



Para muitos desses gnósticos, a criação é fruto de um deus mau que nos tortura. As provas são inúmeras: para viver, matamos, sabemos que vamos morrer e isso nos corrói, a injustiça sempre vence e os virtuosos nos parecem bobos, enfim, a consciência é uma câmara de horrores.




Na versão cristã (alguns textos são de cristãos da época), Cristo é visto como alguém enviado pelo "Pai silencioso" (outro deus) que não criou o mundo, mas que salva alguns de nós que despertam para o fato de que não há qualquer esperança no mundo porque seu criador é perverso. O filósofo Hans Jonas (século 20), estudioso do fenômeno, via no gnosticismo a marca da constante niilista no ser humano, que se repete, segundo ele, em escolas como o existencialismo e a tragédia.



Nesse sentido, a espiritualidade dos "ETs" do Alasca está em sintonia com velhas crenças humanas, mas raras nas "religiões de ETs" mais comuns. Ao contrário de reforçar a crença na felicidade, sufoca suas vítimas numa consciência insuportável da inviabilidade de tudo o que respira.



LUIZ FELIPE PONDÉ