domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tenebrosas transações


Dormia
a nossa pátria mãe

tão distraída

sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações

(Vai passar, Chico Buarque)


Qual é a natureza da corrupção política no Brasil?

Parto do princípio de que a moralidade política é maquiavélica e hobbesiana. Para ilustrar o argumento, considero algumas das características de três escândalos recentes: o caso do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), a fraude no concurso público do Instituto de Criminalística, em São Paulo, e a fraude corporativa de lavagem de dinheiro da Camargo Corrêa.

Esses três acontecimentos, distintos entre si, possuem algo em comum: o desprezo pela lei e o não respeito a valores morais que deveriam nortear o autointeresse e a busca de fins privados.

Nos dois primeiros casos, a moral pública é violada e, no terceiro, aquela moral que deveria conduzir, de boa forma, os negócios corporativos.


Estamento burocrático

Fraudes em concursos públicos no Brasil são exceções. Trata-se, em tal caso, de um exemplo de apropriação patrimonialista da coisa pública, revelador de algo perverso: o caráter não republicano "de facto" daquilo que Raymundo Faoro, em "Os Donos do Poder" [ed. Globo], definiu como estamento burocrático.

Estamento burocrático é uma definição que encerra em si mesma uma contradição: a ideia de burocracia moderna -de um corpo de gestores funcionais, eficazes, racionais, que separam coisa pública de coisa privada- e estamento -conceito relacionado a uma sociedade estamental, a um grupo de indivíduos, tal qual ocorria em sociedades pré-modernas, que desfrutam de um direito quase natural à apropriação do patrimônio público. O estamento burocrático gere o Estado, mas o faz, em parte, em benefício próprio.

No Brasil, tanto no nível da baixa burocracia como na alta, envolvendo aí o patronado político brasileiro, não há esta distinção clara entre a gestão do Estado para a sociedade e sua gestão para algumas corporações de funcionários públicos, agregados e políticos.

A fraude da Camargo Corrêa é lesa-pátria, pois representa evasão de divisas. Esse é um mal, porém menor, se comparado às fraudes públicas citadas anteriormente.

Mas revela algo em comum com os casos de corrupção: a crença de que os sistemas de vigilância e punição são frágeis. O estamento burocrático revelou-se um instrumento de captura do Estado no escândalo do Distrito Federal, uma máquina política. O termo "máquina política" tem origem na literatura política norte-americana, na análise feita sobre corrupção municipal. Mas como funciona uma máquina política?

Imagine um governador que retribui seus correligionários com propinas ou com dinheiro retirado de empresários: os correligionários podem açambarcar deputados e o Judiciário local. Isso é uma máquina política, uma instituição, uma regra do jogo que faz com que, dados os incentivos, as motivações derivadas das propinas, os agentes (políticos, burocratas, jornalistas cooptados, desembargadores) atuem na forma de quadrilha.

Uma marca das máquinas políticas é que elas não existem em razão de uma ou outra eleição, isto é, elas se entranham dentro do Estado: são um esquema permanente de uso ilegal da coisa pública.


"Panelinhas"

No Brasil, tais máquinas poderiam ser caracterizadas como "panelinhas", em que as relações cooperativas de seus membros geram benefícios mútuos, inclusive de autoproteção (daí a importância de cooptar desembargadores e ameaçar traidores).

O esquema de corrupção no Distrito Federal é diferente de um simples caso de fraude num concurso público ou da evasão de divisas associada à má conduta corporativa.

Ele revela, a despeito de suas particularidades, uma característica intrínseca ao Estado brasileiro: os membros da clientela -do estamento burocrático e agregados- se atribuem um direito natural ao uso privado da coisa pública.

Na verdade, em geral, não há um problema nas pessoas, mas, sim, nas regras que as norteiam. A qualidade do jogo político depende da qualidade dos jogadores e da qualidade das regras do jogo, pois delas derivam incentivos que determinam as decisões dos agentes.


Incentivos tortos

No Brasil não há lei, e os incentivos, no jargão dos economistas, são "tortos": levam a uma má conduta. O problema aqui não são os governos: a corrupção é relacionada com a estrutura do Estado -os governos são cooptados por máquinas políticas do próprio Estado.

O mundo da política manifesta o que há de mais vil em nossa natureza.

Na política devemos ser criaturas hobbesianas e maquiavélicas: desejamos a destruição do inimigo, o poder.

Mas o poder corrompe, e nossas paixões devem ser controladas por nós mesmos, ou inibidas, "de facto", pela lei.

Falando sobre a qualidade dos jogadores na arena política: ela não tem relação com a capacidade deles; são muitos competentes e capazes. Mas há, no Brasil, regras do jogo que incentivam a ganância.


Marcos Fernandes


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

As taras que os tarados taram

De todas as taras sexuais,
não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.
Millor Fernandes


Preso acusado de passar 3.000 trotes pornôs ao 190

Desempregado fez em um dia 200 ligações para a polícia do ES


Após dez meses de investigações, a Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo prendeu anteontem um homem acusado de passar, neste mesmo período, cerca de 3.000 trotes pornográficos para o serviço de emergência 190.


O desempregado A.S. 20, chegou a ligar 200 vezes para o serviço em um só dia, diz o diretor do Centro Integrado Operacional de Defesa Social, Nylton Rodrigues.


Somente quando A.S. foi preso, descobriu-se que todas as ligações partiam da mesma pessoa. "Em algumas, ele se identificava como Cassiano, mas em outras ele só gemia e falava pequenos palavrões", diz Rodrigues. Na casa do suspeito, em Viana (39 km de Vitória), foram encontrados diferentes chips de celular pré-pago. De acordo com Rodrigues, ele usou 40 números diferentes.


Nos telefonemas, dizem os investigadores, A.S. chamava as atendentes de "gostosas" e dizia querer beijá-las. "A gente ficava muito constrangida", disse uma atendente.


A demora em localizar o suspeito ocorreu também, segundo a Secretaria de Segurança, pela curta duração das ligações. O rastreamento só pôde ser feito por um sistema que localiza o aparelho sem depender do número do telefone.


Policiais disseram que foram achados mais de 200 DVDs pornográficos com o suspeito.
Em depoimento, ele disse que tem fetiche por mulheres "militares e fardadas". Segundo Rodrigues, A.S. ficou decepcionado ao ser informado de que o 190 no Estado é terceirizado. Ou seja, as atendentes são civis e não usam farda.


A.S. está preso preventivamente. Ele será indiciado por atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, com pena de até cinco anos.


O serviço 190 do Espírito Santo recebe 10 mil ligações por dia. Dessas, 42% são trotes -a maioria feita por crianças.

LUIZA BANDEIRA


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"Poder público nunca esteve à altura de SP"


Para o jornalista Gilberto Dimenstein, a cidade "mais interessante do país" é também "um exemplo magnífico de incompetência"


Em sabatina, colunista da Folha diz também que desafio de melhorar a educação é semelhante ao fim da escravidão

DA REPORTAGEM LOCAL

São Paulo é a cidade mais interessante do país, apesar de o poder público não estar à sua altura, avalia o jornalista Gilberto Dimenstein, idealizador da ONG Cidade Escola Aprendiz e colunista da Folha.
De um lado, afirma, há uma metrópole repleta de oportunidades. Do outro, políticos a veem apenas como trampolim.
Em sabatina da Folha na segunda-feira, o jornalista disse também que o desafio de melhorar a educação pública é semelhante ao fim da escravidão.
"De cada cem alunos que saem do ensino médio em São Paulo, apenas 5% sabem ler e escrever apropriadamente. Dá para imaginar uma fábrica de automóveis com esse índice?", questionou. "É uma tragédia."
Dimenstein contou também que até hoje não sabe se é jornalista ("o crítico") ou educador ("o otimista"). E disse não aceitar cargos públicos por ter deficit de atenção. "Imagina trocar o nome do presidente?"
Abaixo, trechos da sabatina do jornalista, que respondeu a perguntas de Rogério Gentile (editor de Cotidiano), Hélio Schwartsman (articulista da Folha), Marcos Augusto Gonçalves (editorialista da Folha) e Gustavo Ioschpe (economista e articulista da revista "Veja").
Autor dos livros "Meninas da Noite" e "O Mistério das Bolas de Gude", Dimenstein, 53, respondeu também a questões da plateia, composta por 203 pessoas, no Teatro Folha.



Poder público de SP
O poder público nunca esteve à altura da cidade de São Paulo. Não é só esse prefeito [Gilberto Kassab, do DEM].
Aqui, o cara se elege principal vereador de São Paulo e, na semana seguinte, já está pensando ser deputado federal.
São Paulo é um exemplo magnífico de incompetência. As marginais, que poderiam ser parques, viraram marginais. Tiraram bondes, não fizeram metrô. São Paulo chegou a um ponto que cemitério virou vista. Aqui, vista é quando não tem uma coisa na frente.
Ao mesmo tempo, São Paulo é a cidade mais interessante do Brasil. Existe uma coordenação entre sonhar e fazer. Todo o mundo tem um projeto. Veja a revolução na baixa Augusta [centro]. Em poucos lugares do mundo há tantas tribos juntas.


Ampliação das marginais
O [governador] Serra tem uma série de qualidades. Mas a marginal é um exemplo de como alguém pode ser obtuso numa cidade. Gastar R$ 2 bilhões numa rua que fechará de carros em dois anos, é gastar à toa.


Pedágio urbano
Eu colocaria amanhã. Limita os carros na rua e arruma dinheiro para o transporte público. Cedo ou tarde, será preciso brigar com a classe média.


País melhor
Não estou na idade de ser ingênuo. Existem carências, corrupção. Qualquer um que entre numa escola pública ou num hospital vê isso. Mas nunca vi o Brasil tão bem. É fruto de uma série de governos e de ações da sociedade. A minha geração viveu grande parte do tempo com regime militar, inflação alta, baixo crescimento, instabilidade política e econômica. Hoje há um pouco de crescimento, inflação baixa e estabilidade.
Sou de um tempo que empresário não discutia assunto social. Hoje, pessoas importantes da indústria, do serviço, dizem: Percebemos que sem uma sociedade civilizada, do ponto de vista educacional e social, não nos garantimos nem como empresários, devido à baixa produtividade, nem como indivíduo, devido aos sequestros.
E vejo mais preocupação dos empresários com a educação pública do que sindicatos, como CUT, Força Sindical.


FHC x Lula
Acho ridícula essa discussão. Temos 16 anos do mesmo governo. O Lula é a continuação do Fernando Henrique, algumas vezes até melhorada.
O grupos que criticam a imprensa, especialmente os do PT, estão incomodados com a fiscalização que a imprensa faz.


Defesa de parcerias público-privadas na educação
Seria ótimo que uma entidade social ou um empresário pudesse fazer gestão de escolas, recebendo uma cota do Estado.


Escolas em dificuldades
Mesmo a melhor escola privada está com dificuldades. As crianças vivem no mundo interativo, de redes sociais, do GPS. Não noto a escola como um centro de curiosidade. É um problema mundial. Temos uma geração com muita velocidade e pouca capacidade de aprofundar. É só falar com as empresas.


Mercado de trabalho
Para trainee numa grande empresa, são 3.000 candidatos por vaga. Mesmo assim, às vezes não se consegue preencher todas, porque as pessoas não estão preparadas para o teste.
Fiquem aterrorizados: a pessoa está na melhor escola, gastando fortunas com psicopedagogo, aula particular, e talvez não entre no mercado de trabalho. As escolas estão muito distantes do mercado de trabalho.


Importância de faculdades de baixa qualidade
Tenho sentimentos confusos diante disso. A melhor resposta seria: prende, arrebenta, fecha. Ao mesmo tempo, vejo tanta gente que melhorou pelo menos um pouco por ter feito uma faculdade de administração, de direito. Às vezes serviu como uma espécie de reforço do segundo grau. Temos de apoiar essas escolas. Quando for um caso gravíssimo, fecha.


Educação paulista
O PSDB está no governo há tanto tempo, cada um fez coisas diferentes. É um fracasso do partido não ter colocado uma política unificada.
Em que pese uma série de avanços, como o professor ganhar por mérito. Há pouco estímulo para a pessoa dar aula na escola pública.


Problema da imprensa
A gente aprende desde a faculdade que a boa notícia é a má notícia. Isso é muito bom, mas, ao mesmo tempo, a imprensa não desenvolve a mesma capacidade de descobrir coisas que funcionam. Os leitores querem saber quem é uma pessoa legal, quem é o ministro legal.


Quem é legal?
Tem várias pessoas. A gestão do ministro Fernando Haddad na Educação é boa. No ano passado tive o prazer de ver a aprovação da ampliação da obrigatoriedade escolar, aumento de recursos para a creche.


Futuro do jornalismo
Tem informação hoje de tudo que é lado, de celular, de internet. Se o jornalista não souber contextualizar tudo isso, o leitor abandonará o jornal.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A assinatura do vazio



A ciência da natureza cala o universo, a ciência da grana devasta as relações humanas


UM SINTOMA típico da modernidade é o sentimento de orfandade: o universo não é um útero, mas um deserto. Depois de Newton e sua mecânica, o universo deixou de ser o espaço da "assinatura de Deus" para se transformar numa espécie de lego vazio de sentido. Pedras e inércia.

A ciência moderna abriu o caminho para o darwinismo, que transmitiu aos seres vivos a mesma "assinatura do vazio" que Newton tinha dado aos seres inanimados. Entre Newton e Darwin, as pedras, os animais e você, todos, estão imersos no mesmo mar de silêncio, de inércia e de movimento cego. Enfim, um nada de significado. Qualquer "voz" vinda desse universo é apenas fruto de seu cérebro doente.

Por exemplo, se seu filho de 15 anos tem um câncer, e você pergunta para o médico "mas por quê?", tudo que ele pode responder é "fator genético, processos celulares, azar atômico". Não é isso que você quer ouvir, mas é tudo que a medicina cientifica pode dizer.

Você quer ouvir coisas como: "Ele escolheu ter câncer aos 15 anos nesta vida para aprender algo necessário para seu desenvolvimento espiritual", ou "ele sofre porque foi escolhido por Deus para isso".
Mas não é só a ciência da natureza cega que nos assusta. Outra ciência nos atormenta: a ciência do dinheiro e de sua vida calculada. O capitalismo implica virtudes econômicas e contábeis que devem resolver não só sua conta bancária, mas também suas relações pessoais, suas decisões existenciais, suas escolhas profissionais, enfim, a totalidade da sua vida.

A ciência da natureza cala o universo, a ciência da grana devasta as relações humanas. Essa ciência do dinheiro acaba por desmantelar qualquer mistério. E pior: joga sobre o lamento romântico a suspeita da pura e simples incompetência como causa escondida do próprio lamento.

Quer um exemplo?
Goethe (séculos 18 e 19), romântico alemão, em seu maravilhoso romance "Anos de Formação de Wilhelm Meister", nos conta o processo de formação do jovem Meister: de adolescente passará a homem.

Nosso jovem Meister é um artista que sofre pressões de seu pai burguês para se tornar o futuro administrador dos negócios da família. Nada mais chato para um jovem que, além de sonhar o tempo todo com sua amada Marianne, uma atriz (que na realidade é amante de um burguês), alimenta projetos teatrais e poéticos. O jovem Meister é um exemplo claro da personalidade artística romântica: tem náuseas diante das demandas banais de uma vida do dinheiro.

Ele tem um amigo que, esse sim, se vira bem no mundo onde os jovens devem se preparar para serem futuros homens de negócios.

Numa cena memorável, nossos dois jovens conversam sobre uma decisão tomada pelo jovem Meister. Depois de sofrer muito com um mundo onde não há confiança nem amor verdadeiro, nosso herói decide queimar todos os seus "poemas e projetos" e se tornar definitivamente um homem maduro e seguir os desejos de seu pai.

Mas o importante aqui não é propriamente a decisão, mas a explicação que nosso herói dá para o amigo (bem resolvido) como causa de sua mudança de vida.

O jovem Meister diz que "sentiu" que todo o universo lhe mostrou que era hora de mudar. Uma experiência de "parceira cósmica" lhe mostrara o caminho. Então, num "acesso de verdade", nosso romântico queimou tudo que significa "seu velho eu".

A resposta de seu amigo representará a voz da maturidade moderna humilhando a reação do ainda infantil Meister: "O universo nada tem a ver com nossas decisões". E mais: pensar que o universo seja "responsável" de algum modo pelo que nos acontece ou por nossas decisões, erra acerca da natureza do universo (mudo), mas fala muito acerca da nossa covardia e da incapacidade de assumir a "solidão desse silêncio", na qual apenas nós e outros homens e mulheres como nós mesmos são responsáveis pelo que acontece.

A virtude burguesa por excelência é a capacidade de sermos agentes de nosso sucesso e de nosso fracasso sem responsabilizarmos ninguém nem nada por eles. Uma espécie de "virtú maquiaveliana" vista pelos olhos de um banqueiro e vivida pela alma de um caixa de banco.

Não se trata da morte de um "velho eu" e do nascimento de um "novo eu" pelas mãos de um universo "parteiro" que fala conosco de um modo misterioso, mas simplesmente da agonia infantil do jovem Meister que ainda não percebeu que a batalha contra o mundo das pedras, da inércia e do dinheiro é uma batalha perdida.

LUIZ FELIPE PONDE

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Será que emagrece mesmo ?!


Proteste constata desequilíbrio nutricional em shakes para emagrecer

Tomar shakes para substituir refeições e emagrecer pode ser perigoso, indica avaliação da Proteste, Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. De cinco produtos testados, nenhum possui equilíbrio nutricional suficiente.

Os shakes testados foram Bio Slim, Diet Shake, Diet Way, Herbalife e In Natura no sabor chocolate. Praticamente todos fornecem carboidratos e proteínas demais e gordura de menos. Herbalife e In Natura têm taxas de carboidratos dentro dos parâmetros ideais.

A associação não recomenda o consumo frequente de shakes sem orientação adequada de um especialista, pois o emagrecimento rápido poderá vir à custa de perda de músculos e água, não de gordura.

Segundo a Proteste, o consumo em excesso de proteína, a longo prazo, pode acarretar problemas renais e hepáticos e perda de cálcio pelo organismo. Apesar de os produtos estarem dentro dos limites legais, o órgão acredita que a quantidade não deva ultrapassar 10 a 15% do valor energético do produto. Em média, os shakes apresentam 32% de proteína.

A gordura, por sua vez, aparece em baixíssima quantidade, mas o corpo precisa de lipídios para absorver vitaminas e sintetizar hormônios, diz a entidade. Já com relação às fibras, para substituir uma grande refeição, os shakes deveriam ter cerca de 10 gramas de fibra por porção, porém nenhum deles chega nem perto deste valor.

Uma dieta saudável também precisa de carboidratos, cerca de 50 a 60%, de acordo com a Proteste, mas três dos shakes fornecem mais do que isso, apesar de possuírem valor energético baixo -de 190 kcal (Herbalife) a 230 kcal (Diet Shake) – já misturados com leite.

A Associação alerta ainda que Diet Shake e Herbalife não têm data de fabricação, sendo que o segundo também não informa a validade após aberto. O shake DreamWeek – Light Shake não tem registro no Ministério da Saúde (obrigatório em alimentos para controle de peso). Assim, não se enquadra na portaria que regula os shakes e não foi testado.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O fim do ego


Começa a sair nova tradução das obras completas
de Freud, projeto que quer resgatar fluência
do original e mudar termos consagrados



Freud não é mais o mesmo para o leitor brasileiro. Novas traduções estão dando nova cara aos textos do fundador da psicanálise, mudando termos já popularizados e imprimindo mais coloquialidade.
É o projeto do tradutor e historiador baiano Paulo César de Souza, que começa a publicar pela Companhia das Letras uma nova e ambiciosa versão das obras completas, em 20 volumes, um projeto que começou a desenvolver nos anos 80.
Seu esforço não é único. Em 2004 já haviam saído as primeiras traduções oficiais diretas do alemão, a cargo do psicanalista Luiz Alberto Hanns.
Em entrevista, Souza explica seu projeto e a rejeição a termos popularizados como "ego", que deve voltar a ser "eu", como no original alemão (opção também defendida por Hanns).
Os primeiros três volumes das obras completas chegam às livrarias em março, além da reedição de "As Palavras de Freud", tese de Souza defendida nos anos 90 na USP. Como 2009 marcou os 70 anos da morte de Freud, seus textos originais caíram em domínio público. Ainda que não tão abrangentes, novas traduções também estão sendo lançadas.


Há quantos anos você se dedica à tradução de Freud?

PAULO CÉSAR DE SOUZA - O primeiro artigo que publiquei na imprensa já tratava desse tema. Apareceu justamente na Ilustrada, em março de 85. Minha primeira tradução de Freud, de "A Transitoriedade", foi publicada em 89, também na Folha. Depois escrevi várias outras coisas, algumas reunidas em livros, e publiquei traduções numa revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Como conciliar a versão do texto original de Freud com a evolução dos estudos freudianos e psicanalíticos no século 20?
PAULO CÉSAR DE SOUZA - Acho que o tradutor deve se preocupar com os sentidos que as palavras tinham para o autor, não com os que elas vieram a ter para os comentadores e intérpretes. Esses outros sentidos não param de se multiplicar com o tempo, às vezes uma das conotações do termo original é ampliada por um discípulo, em detrimento de outra(s), e adquire vigência como um novo conceito. Pode ser um equívoco enriquecedor, para uns, e empobrecedor, para outros.
De todo modo, contribui para a proliferação de signos da floresta humana. É algo próprio da psicanálise e de outras disciplinas "humanas". Respondendo mais concretamente sua pergunta, não me preocupei com o que seja consagrado ou difamado.


A edição vai rever expressões já popularizadas, como "ego"...
SOUZA - Vinte anos atrás eu usava "ego", mas à medida que fui traduzindo Freud -e Nietzsche, que usa "ich" e também "es", com minúsculas- passei a achar estranho verter o corriqueiro pronome "eu" alemão pelo termo latino. Sei que "ego" já se popularizou em português, a única língua latina em que é usado, mas não consigo empregá-lo. "Es" é um problema em várias línguas. Os italianos usam "io" para "Ich", mas mantêm o "Es" alemão; eu mantive o "id", pois "Isso" não me pareceu muito bom em Freud. "Angst" significa tanto "medo" como "angústia" em alemão; é preciso que o leitor seja informado numa nota.


Teme que as novas expressões "não peguem"?
SOUZA - Não é preciso que "peguem". Minhas traduções de Nietzsche são muito citadas por especialistas, mas a maioria deles continua usando "vontade de potência", por exemplo, enquanto eu prefiro "de poder". Não tem problema, basta que estejamos de acordo quanto ao que significa. Noto que a importância da terminologia é superestimada nos debates sobre a tradução de Freud.
Há muita ênfase nos termos, em detrimento do texto. E o texto é o que importa realmente, pois nele há, ao mesmo tempo, intenção ou pretensão de cientificidade e recursos de sedução literária, com grandes percepções e, às vezes, fantasias psicológicas. Está ligado a isso o status nebuloso da psicanálise: é arte, ciência ou nenhuma das duas? Afinal, ninguém discute as traduções de Darwin, por exemplo.


Quantos volumes serão lançados no total? Quando serão publicados os últimos títulos?
SOUZA - Serão 20 volumes ao todo. O último será de índices e bibliografia; os dois primeiros, com textos pré-psicanalíticos, deverão ser traduzidos por André Medina Carone. É difícil precisar o ano em que concluiremos tudo; em algum momento da década de 2020, digamos.


Mudança de alguns termos já é consenso

A discussão sobre a tradução da obra de Freud é quase tão antiga quanto a própria psicanálise. Freud se preocupava com a clareza dos seus textos, que serviam à divulgação. O seu estilo já foi chamado de "prosa científica" e a qualidade literária de seu texto rendeu o Prêmio Goethe, em 1930.
Atualmente existe uma tendência majoritária de se revisar as traduções antigas para expurgar os excessos da terminologia técnica, que serviram no passado para conquistar respeitabilidade e reconhecimento na comunidade científica.
Os esforços mais radicais nesse sentido acontecem no Reino Unido, que tem tradição empirista. No Brasil, é avançada a discussão sobre a revisão do texto freudiano. Além de Marilene Carone, que antes de morrer em 1988 já propunha esse trabalho, o psicanalista Luiz Alberto Hanns coordena uma retradução de obras essenciais freudianas também guiado por esse critério. Para isso, utilizou teses de seu "Dicionário Comentado do Alemão de Freud" (Imago, 1996).
"No Brasil se usava a opção francesa ou inglesa de maneira apaixonada", diz Hanns. Os três volumes de "Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente", a seu cargo, já foram lançados.
Termos adotados pela nova tradução de Paulo César de Souza, como "eu" (no lugar de "ego"), já são praticamente consenso. "Boa parte da comunidade já usa "eu". Os franceses já usavam", diz Hanns.
As discussões devem continuar, já que nos próximos anos novas traduções serão lançadas. A L&PM está publicando "O Mal-Estar na Cultura" e "O Futuro de uma Ilusão", com tradução de Renato Zwick.