terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O fim do ego


Começa a sair nova tradução das obras completas
de Freud, projeto que quer resgatar fluência
do original e mudar termos consagrados



Freud não é mais o mesmo para o leitor brasileiro. Novas traduções estão dando nova cara aos textos do fundador da psicanálise, mudando termos já popularizados e imprimindo mais coloquialidade.
É o projeto do tradutor e historiador baiano Paulo César de Souza, que começa a publicar pela Companhia das Letras uma nova e ambiciosa versão das obras completas, em 20 volumes, um projeto que começou a desenvolver nos anos 80.
Seu esforço não é único. Em 2004 já haviam saído as primeiras traduções oficiais diretas do alemão, a cargo do psicanalista Luiz Alberto Hanns.
Em entrevista, Souza explica seu projeto e a rejeição a termos popularizados como "ego", que deve voltar a ser "eu", como no original alemão (opção também defendida por Hanns).
Os primeiros três volumes das obras completas chegam às livrarias em março, além da reedição de "As Palavras de Freud", tese de Souza defendida nos anos 90 na USP. Como 2009 marcou os 70 anos da morte de Freud, seus textos originais caíram em domínio público. Ainda que não tão abrangentes, novas traduções também estão sendo lançadas.


Há quantos anos você se dedica à tradução de Freud?

PAULO CÉSAR DE SOUZA - O primeiro artigo que publiquei na imprensa já tratava desse tema. Apareceu justamente na Ilustrada, em março de 85. Minha primeira tradução de Freud, de "A Transitoriedade", foi publicada em 89, também na Folha. Depois escrevi várias outras coisas, algumas reunidas em livros, e publiquei traduções numa revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Como conciliar a versão do texto original de Freud com a evolução dos estudos freudianos e psicanalíticos no século 20?
PAULO CÉSAR DE SOUZA - Acho que o tradutor deve se preocupar com os sentidos que as palavras tinham para o autor, não com os que elas vieram a ter para os comentadores e intérpretes. Esses outros sentidos não param de se multiplicar com o tempo, às vezes uma das conotações do termo original é ampliada por um discípulo, em detrimento de outra(s), e adquire vigência como um novo conceito. Pode ser um equívoco enriquecedor, para uns, e empobrecedor, para outros.
De todo modo, contribui para a proliferação de signos da floresta humana. É algo próprio da psicanálise e de outras disciplinas "humanas". Respondendo mais concretamente sua pergunta, não me preocupei com o que seja consagrado ou difamado.


A edição vai rever expressões já popularizadas, como "ego"...
SOUZA - Vinte anos atrás eu usava "ego", mas à medida que fui traduzindo Freud -e Nietzsche, que usa "ich" e também "es", com minúsculas- passei a achar estranho verter o corriqueiro pronome "eu" alemão pelo termo latino. Sei que "ego" já se popularizou em português, a única língua latina em que é usado, mas não consigo empregá-lo. "Es" é um problema em várias línguas. Os italianos usam "io" para "Ich", mas mantêm o "Es" alemão; eu mantive o "id", pois "Isso" não me pareceu muito bom em Freud. "Angst" significa tanto "medo" como "angústia" em alemão; é preciso que o leitor seja informado numa nota.


Teme que as novas expressões "não peguem"?
SOUZA - Não é preciso que "peguem". Minhas traduções de Nietzsche são muito citadas por especialistas, mas a maioria deles continua usando "vontade de potência", por exemplo, enquanto eu prefiro "de poder". Não tem problema, basta que estejamos de acordo quanto ao que significa. Noto que a importância da terminologia é superestimada nos debates sobre a tradução de Freud.
Há muita ênfase nos termos, em detrimento do texto. E o texto é o que importa realmente, pois nele há, ao mesmo tempo, intenção ou pretensão de cientificidade e recursos de sedução literária, com grandes percepções e, às vezes, fantasias psicológicas. Está ligado a isso o status nebuloso da psicanálise: é arte, ciência ou nenhuma das duas? Afinal, ninguém discute as traduções de Darwin, por exemplo.


Quantos volumes serão lançados no total? Quando serão publicados os últimos títulos?
SOUZA - Serão 20 volumes ao todo. O último será de índices e bibliografia; os dois primeiros, com textos pré-psicanalíticos, deverão ser traduzidos por André Medina Carone. É difícil precisar o ano em que concluiremos tudo; em algum momento da década de 2020, digamos.


Mudança de alguns termos já é consenso

A discussão sobre a tradução da obra de Freud é quase tão antiga quanto a própria psicanálise. Freud se preocupava com a clareza dos seus textos, que serviam à divulgação. O seu estilo já foi chamado de "prosa científica" e a qualidade literária de seu texto rendeu o Prêmio Goethe, em 1930.
Atualmente existe uma tendência majoritária de se revisar as traduções antigas para expurgar os excessos da terminologia técnica, que serviram no passado para conquistar respeitabilidade e reconhecimento na comunidade científica.
Os esforços mais radicais nesse sentido acontecem no Reino Unido, que tem tradição empirista. No Brasil, é avançada a discussão sobre a revisão do texto freudiano. Além de Marilene Carone, que antes de morrer em 1988 já propunha esse trabalho, o psicanalista Luiz Alberto Hanns coordena uma retradução de obras essenciais freudianas também guiado por esse critério. Para isso, utilizou teses de seu "Dicionário Comentado do Alemão de Freud" (Imago, 1996).
"No Brasil se usava a opção francesa ou inglesa de maneira apaixonada", diz Hanns. Os três volumes de "Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente", a seu cargo, já foram lançados.
Termos adotados pela nova tradução de Paulo César de Souza, como "eu" (no lugar de "ego"), já são praticamente consenso. "Boa parte da comunidade já usa "eu". Os franceses já usavam", diz Hanns.
As discussões devem continuar, já que nos próximos anos novas traduções serão lançadas. A L&PM está publicando "O Mal-Estar na Cultura" e "O Futuro de uma Ilusão", com tradução de Renato Zwick.


Um comentário:

  1. Adoro Freud , recomendo que assista o filme Alem da Alma e sobre ele e o inicio da descoberta da histeria por hipnose .....

    beijocas e parabens pelo bloog....

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