sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Novo ano


QUANDO EU era menino, à meia-noite de 31 de dezembro, em meio às explosões dos fogos de artifício, ouviam-se os tiros de revólver que os homens disparavam com a intenção de matar o ano velho.

Essa prática nefasta que causava vítimas de balas perdidas, no entanto, refletia, como nenhuma outra, o impacto que a chegada do próximo ano provoca no espírito humano: destruir o velho para saudar a chegada do novo.

Toda vez que o fim de dezembro se aproxima, sou invadido pela certeza de que minha vida será ainda melhor. Sei que se trata de um pensamento mágico, mas me aproprio dele para experimentar a sensação de felicidade que a esperança traz.

Então faço planos para estudar mais, dedicar mais tempo para a família e os amigos, escrever livros, criar bons textos, correr maratonas, ler livros que me transformarão, subir e descer o rio Negro muitas vezes e ouvir as histórias dos ribeirinhos, além de me tornar menos neurótico, reconciliado com os meus conflitos internos.

Tenho consciência de que o conjunto de afazeres necessários para atingir esses objetivos é vasto, mas não me acovardo diante deles. Em minha imaginação, conseguirei cumpri-los; na pior das hipóteses, uma ou outra demanda ficará para trás, incompleta.

Como tenho feito nos últimos tempos, em dezembro do ano que agora começa submeterei as realizações e os fracassos ocorridos a um balanço geral cujo formato aprendi com uma amiga que já se casou quatro vezes.

Dizia ela que, em caso de dúvida sobre continuar casada ou separar-se, dividia uma folha de papel em duas partes. Numa delas colocava as vantagens do relacionamento e as qualidades do marido; na outra, as desvantagens e os defeitos. Durante meses anotava na coluna correspondente tudo o que lhe ocorria a respeito do outro: dos traços da personalidade ao gosto musical, do grau de honestidade à bagunça com as roupas, das atitudes generosas às manifestações de egoísmo.

No fim, quando se achava preparada para tomar a decisão, fazia a soma aritmética de cada coluna. Se o número de qualidades e vantagens fosse maior, continuava casada; caso contrário, tudo acabado.

Não atribuía pesos distintos aos itens relacionados em cada lista, a grandeza de caráter valia tanto quanto o desleixo com o tubo de pasta de dente, a infidelidade conjugal tanto quanto o bom gosto com as gravatas ou as boas maneiras à mesa. Adotava o método aritmético porque, se o fizesse de outra maneira, ficaria paralisada, sem condições de decidir a respeito da importância relativa de cada qualidade ou defeito no cômputo geral.

Sem o rigor sistemático das listagens de minha amiga, quando o fim de ano se aproxima, procuro alinhar de um lado o que deu certo e os acontecimentos que me deixaram feliz, do outro as frustrações e os erros que cometi. No final, somo tudo para saber se o ano foi bom.

Adoto o mesmo critério dela: a soma aritmética. O carro que comprei pesa tanto quanto a caneta de estimação que perdi; o livro que publiquei não vale mais do que a história lida para minha neta na hora de dormir; as rugas novas em meu rosto valem tanto quanto o olhar tímido da morena de cabelo curto que passou por mim na avenida Paulista. O escore final, resultado da diferença numérica entre as duas colunas, é que define o quanto foi bom ou mau o ano que termina.

O inconveniente desse método é que ele me obriga a traçar planos ambiciosos para o ano seguinte; utópicos até, porque o tempo impõe limites às tarefas que um homem consegue realizar nas 24 horas de cada dia.

Não tem importância, prefiro acreditar que 2010 será um ano que me trará momentos de felicidade jamais vividos e que conseguirei colocar em prática as ideias mais mirabolantes que me vierem à cabeça, do que imaginar a situação contrária: a do ano preenchido pela repetição rotineira.

O único problema é que o número de desafios que me disponho a enfrentar para obter um escore favorável no fim de tudo às vezes cansa. Chego a invejar o equilíbrio psicológico daqueles que levam vidas mais contemplativas, em lugares remotos, como o caboclo que vi ao longe, sozinho, sentado num tronco à beira do rio Negro, às 6h.

Ao encontrá-lo na mesma posição duas horas mais tarde, perguntei o que fazia ali:
"Estou sentado", respondeu.

DRAUZIO VARELLA

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