quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ainda as prioridades públicas

NESSE ANO TEM MAIS

Ok, o Brasil não tem tsunami, terremoto, furacão ou nevasca. Mas tem o flagelo da seca e a tragédia das chuvas que devastam e matam. A diferença é que a seca mata de geração em geração, lentamente, dia após dia, longe das redes de TV e da grande imprensa, enquanto as chuvas matam de repente, sorrateiramente, diante das câmeras, das fotos e dos repórteres. A seca do Nordeste empurra os filhos do Brasil para o Sul maravilha. E as chuvas no Sul maravilha fazem o Brasil inteiro chorar.

A virada de 2009 para 2010 no Brasil inunda as redes mundiais de notícias e confronta as realidades dos dois Brasis: o do esplendoroso espetáculo dos fogos do Réveillon em Copacabana e o que sucumbe à lama, à falta de planejamento e à ocupação irregular de encostas.

O contraste vai para as telas e para as páginas, alternando ora pessoas de todas as idades, felizes e em festa, ora as que choram a perda de filhos, mulheres, maridos, pais, mães, amores, não raro famílias inteiras. Ou que, simplesmente, perderam suas casas e todos os seus pertences sob a força da água.

Sem emprego e sem os dentes da frente, um homem ainda jovem olha para a câmera e declara, em choque: "Perdi tudo, até o que nem acabei de pagar". Ele teve sorte.

Há meia centena de mortos só no Rio, seja em bairros pobres, seja na paradisíaca Angra dos Reis, deixando como mártir da virada do ano a menininha Mariana, de três anos, que passou horas soterrada, foi retirada sob o uivo doído e comovente de um bombeiro e acabou morrendo no hospital.

Tragédias assim têm causas naturais, sim, mas têm também a enorme responsabilidade do poder público e o empurrão da imprevidência, da ganância ou da simples ignorância. E deixam um grito e um eco: prevenir, prevenir, prevenir. Porque, no que vem, tem mais.

ELIANE CATANHÊDE



UM ATO INOVADOR

Com o atraso denunciado em uma quantidade inqualificável de mortes, o prefeito de Angra dos Reis adota uma providência administrativa que o põe à frente dos mais de 5.000 prefeitos brasileiros, no que seja respeito ao próprio dever, coragem política e contribuição social. Tal medida de Juca Brandão é a que proíbe construções e ampliações em 15 morros de Angra. Ao menos até que as perícias de geotécnica manifestem-se sobre a segurança das áreas.

A falta de tal interdição nas cidades favelizadas, proveniente apenas da conveniência eleitoreira, resultou em uma espécie de urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza).

Se não era possível conter a debandada rural para cidades grandes, sob auspícios das problemáticas oportunidades de ascensão econômica, um mínimo de orientação e racionalidade todos os administradores públicos de tais cidades e Estados deviam estabelecer, até por obrigação preliminar. Mas os novos conglomerados não foram vistos como acréscimos de gente, de pobreza e da necessidade de ação: aos olhos dos políticos, o que chegava e se instalava eram votos disponíveis.

A atitude das administrações não foi e não é, por acaso, uma tolerância por compreensão social, como pretendem tantos argumentos atenuadores dos problemas implícitos na favelização, pelo país todo? As condições deprimentes das favelas ("onde o Estado não entra", admitem os mesmos argumentos) têm as assinaturas daqueles todos que permitiram, ou permitem ainda, o seu surgimento indiscriminado e crescimento alucinado.

Perversidade que segue, por si mesma, um processo de evolução sob as mesmas responsabilidades: favelas hoje são áreas também de especulação imobiliária, com a criação da indústria das lajes e da expansão sorrateira.

O "choque de ordem", que o recém-prefeito carioca Eduardo Paes tenta aplicar no Rio, demoliu como exemplo um vasto prédio que se alastrava em uma favela. O exemplo ficou para quem não mora em favela, lê jornal e assiste à TV: sobreposição de quatro, cinco andares, sobre bases precárias, e muitas delas expulsando ou sufocando vizinhos a poder de violências, continuam a subir. A indústria da laje é o enriquecimento, relativo, mas enriquecimento, à custa da subcondição favelada. Sempre sob o patrocínio da conveniência eleitoreira.

As vidas que correm risco ou se perdem com as ocupações sem critério, permitidas porque ricas ou porque pobres, não jamais foram as dos administradores públicos.

JÂNIO DE FREITAS


UM ANO BOM?

Políticos tendem a viver num mundo paralelo, no qual os problemas são sempre responsabilidade dos outros. Além disso, a maioria crê na existência de um complô geral que impede o reconhecimento de tudo o que foi realizado com “tanto sacrifício pelos injustamente criticados administradores”.

Só levando isso em conta para entender a entrevista do prefeito Gilberto Kassab publicada na quarta-feira no caderno Cotidiano. Para Kassab, 2009 foi um ano bom para a cidade e para sua administração!

Entre outras coisas, Kassab disse que “nunca foi investido tanto em drenagem quanto na nossa gestão”.

Será, então, que os moradores do Jardim Pantanal, que ficaram dias com água podre dentro de casa, estão sendo ingratos quanto criticam o governo municipal? E aqueles que tiveram carros revirados nas ruas alagadas por causa de galerias e bueiros sujos? A indignação deles só ocorre porque não compreendem as prioridades da prefeitura?

Um mínimo de autocrítica, senhor prefeito, é essencial para membros do Executivo. Sem isso, não há como melhorar. Não há como corresponder às expectativas dos cidadãos.

Veja que a imagem de um ano bom não encontra eco na opinião desses cidadãos.

Em novembro do ano passado, a maioria dos paulistanos (56%) julgava a gestão Kassab como ótima ou boa. Já na última pesquisa Datafolha, feita entre 14 e 18 de dezembro, esse índice caiu para 39%. Mais: 13% deram nota zero para a administração municipal.

Como Kassab abriu a caixa de maldades para este ano (IPTU com aumento de 40%, reajuste na tarifa dos ônibus acima da inflação a partir de segunda-feira, taxa de inspeção veicular ainda mais cara e sem devolução), o mais provável é que essa avaliação fique ainda pior na vida real. Já no mundo paralelo…

VAGUINALDO MARINHEIRO

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