quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O terremoto da pobreza

E pobres são como podres
e todos sabem como se tratam os pretos

E quando você for dar uma volta no Caribe

E quando for trepar sem camisinha

E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti, reze pelo Haiti

O Haiti é aqui

O Haiti não é aqui

(Caetano Veloso e Gilberto Gil)


--------------------------------------------------------------------------------
A tragédia do Haiti não é só produto da natureza; é resultado da incúria humana e da corrupção
--------------------------------------------------------------------------------


LISBOA TREMEU em 1755. O Grande Terremoto horrorizou a Europa culta e pôs Voltaire a pensar. Onde estaria Deus? Sim, onde estaria Deus naquele Dia de Todos os Santos para permitir a matança indiscriminada de mulheres, velhos, crianças?

No século 18, Lisboa deixou de ser, entre os homens letrados do Iluminismo, uma mera cidade. Passou a ser, como Auschwitz no século 20, o símbolo do mal. Do mal radical, inominável, inexplicável.

Passaram 250 anos. Lisboa deixou de tremer. Ou quase: umas semanas atrás, nas primeiras horas da madrugada, senti a casa a dançar um "twist". Durou segundos. Alguns livros no chão, um copo partido. Por momentos, ainda pensei que talvez fossem os meus vizinhos em reconciliação amorosa.

Não eram os vizinhos. Os alarmes dos carros estacionados na rua desmentiam com estridência qualquer cenário romântico. Era terremoto, confirmaram as notícias. Nível 6 na escala Richter. Nenhum morto. Nenhum ferido. Nenhuma interrogação sobre Deus.

Exatamente o contrário do sucedido no Haiti. Incontáveis mortos. Incontáveis feridos. E, nos jornais da Europa, textos pseudofilosóficos sobre o papel do divino. O tom era comum. A tese também: a natureza é insondável.

Difícil discordar. Mas a tragédia do Haiti não é apenas produto de uma natureza insondável. É o resultado da incúria humana; da corrupção; da miséria material; e da tirania.

Eis a tese apresentada em ensaio fundamental para entender a contabilidade macabra dos desastres naturais. Foi publicado em 2005 por Matthew Kahn em revista do prestigiado MIT. Intitula-se "The Death Roll from Natural Disasters: the Role of Income, Geography, and Institutions" (a lista da morte por desastres naturais: o papel da renda, da geografia e das instituições).

O objetivo de Kahn não é metafísico; é bem prático. E foi motivado por crença comum, que vi repetida nos últimos dias: por que motivo os desastres naturais só atingem nações pobres?

Kahn começa por provar que uma crença não passa disso mesmo. Entre 1980 e 2002 (o arco temporal do estudo), a Índia teve 14 grandes terremotos. Morreram 32.117 pessoas. No mesmo período, os Estados Unidos tiveram 18 grandes terremotos. Morreram 143 pessoas. Iguais conclusões são extensíveis aos 4.300 desastres naturais do período em análise e às suas 815.077 vítimas. Observando e comparando 73 países (pobres, médios e ricos), a conclusão de Kahn é arrepiante: os grandes desastres naturais distribuem-se equitativamente pelo globo.

O que não se distribui equitativamente pelo globo é o número de mortos: países com um PIB per capita de US$ 2.000 apresentam uma média de 944 mortos por ano. Países com um PIB per capita de US$ 14 mil, uma média de 180 mortes. Moral da história? Se uma nação de 100 milhões de pessoas consegue subir o seu PIB de US$ 2.000 para US$ 14 mil, isso resulta numa diminuição de 764 vítimas por ano.

Mas a análise não se fica pela riqueza. Não se fica apenas pelos países que têm maior capacidade para planificar com rigor, construir com segurança e socorrer com rapidez. A juntar à riqueza, a política tem uma palavra a dizer.

A política, vírgula: a democracia e a boa governação. A disparidade dos mortos não é só imensa entre países ricos e pobres; também o é entre países democráticos e não democráticos. Em países democráticos, onde os governantes são julgados pelos seus constituintes e vigiados por uma imprensa livre, a forma como se planifica, constrói ou socorre é o verdadeiro teste de sobrevivência para esses governantes. O número de mortos em países democráticos é, mostra Kahn, incomparavelmente inferior aos mortos anônimos dos regimes ditatoriais/autoritários.

No Haiti, um terremoto com 7,1 graus na escala Richter trouxe devastação inimaginável e dezenas de milhares de mortos. Em 1989, um terremoto com 7,1 graus na escala Richter provocou 67 vítimas nos EUA. Nenhum espanto: os EUA não têm um PIB per capita de US$ 1.400 e não foram governados por "Papa Docs", "Baby Docs" e outros torcionários para quem o destino do seu povo era indiferente desde que a rapina pudesse continuar.

Em 1755, quando o terremoto de Lisboa fez tremer a Europa, ficaram célebres as palavras do marquês de Pombal: é hora de enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No século 18, era impossível dizer melhor. No século 21, impossível é dizer pior. Depois de enterrar os mortos e cuidar dos vivos, só existe uma forma de mitigar a violência da natureza: enriquecendo e democratizando.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Relatórios "majoritariamente" corretos...

Alerta sobre derretimento de geleiras do Himalaia está mal fundamentadoLíderes investigam como a previsão foi para no relatório final.

Painel responsável pela elaboração do relatório venceu o prêmio Nobel ao lado de Al Gore

Uma advertência da Organização das Nações Unidas (ONU) de que as geleiras do Himalaia estavam derretendo mais rapidamente do que em qualquer outro lugar do mundo e que poderiam desaparecer até 2035 está mal fundamentada cientificamente, admitiu nesta quarta-feira (20) o painel do clima da ONU (IPCC).

A informação no relatório "refere-se a estimativas com poucas comprovações sobre a taxa de derretimento e a data do desaparecimento dos glaciares himalaios", disse o IPCC.

As afirmações sobre as geleiras himalaias, parte do volumoso relatório do grupo que venceu o Prêmio Nobel em 2007 junto com o ex-vice-presidente americano Al Gore, eram pouco conhecidas até o jornal "The Sunday Times" dizer que a projeção parecia ser baseada em uma matéria jornalística.

O ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, repetiu na terça-feira (19) suas críticas prévias à avaliação inicial do painel sobre os glaciares himalaios. "A saúde dos glaciares é causa de grande preocupação, mas a posição alarmista do IPCC de que eles poderiam derreter completamente até 2035 não foi baseada nem um pouco em evidência científica", disse ao "The Times of India".

Fontes de erros

O 4º Relatório de Avaliação do IPCC de 2007 dizia que os glaciares do Himalaia estavam recuando mais rapidamente do que em qualquer outro lugar e, em uma nota confusa, que a área total da geleira "vai provavelmente encolher dos atuais 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados até o ano de 2035".

Em carta enviada à revista "Science", um grupo de quatro cientistas apresentou as prováveis fontes das informações falsas A afirmação de que as geleiras estão regredindo no Himalaia mais depressa do que em qualquer outra parte do mundo teria sido extraída de um comunicado da ONG ambientalista WWF. A entidade, por sua vez, citava uma reportagem da revista "New Scientist" a respeito de um estudo "não publicado" e "que não compara a taxa de perda de gelo no Himalaia com outras geleiras".

Além disso, dizem os autores da carta, o trecho que diz que sua área total provavelmente encolherá para 100 mil quilômetros quadrados não pode se referir ao Himalaia, cuja área de geleiras é de 33 mil quilômetros quadrados. Porém, eles ressaltam que os relatórios do IPCC de 2007 são "majoritariamente corretos".



segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Corrupção: o ovo da serpente


Quem atua na fiscalização das eleições sabe que todo o sistema foi desenhado para não funcionar e que a fiscalização é impossível
--------------------------------------


O ESCÂNDALO envolvendo o governo do Distrito Federal gerou diversas manifestações acerca da causa da corrupção no país.

A impunidade é uma das mais lembradas. Ninguém duvida de que a impunidade é um câncer, mas o diagnóstico de quem vê aí o motor da corrupção está distorcido. Impunidade há em todo lugar, tanto no narcotráfico quanto no homicídio, e não é um mal específico do assalto aos cofres públicos.

Quem acompanha de perto o jogo político e as campanhas eleitorais não tem dúvida de qual é a fonte da roubalheira oficial no Brasil.

O ovo da serpente é o financiamento da corrida eleitoral. Como procurador regional eleitoral no Rio Grande do Sul, tive a oportunidade de atuar em quatro eleições e refletir demoradamente sobre essa loucura que é o processo das eleições no Brasil.

Quem trabalha na fiscalização dos pleitos sabe que o sistema está desenhado para não funcionar. Não se trata de fiscalização ineficiente e sim de fiscalização impossível. Num Estado como São Paulo, participam das eleições gerais milhares de candidatos, cada um com sua campanha, suas contas e seu financiamento.

Nesse quadro, que fiscalização seria possível? Não se trata de uma campanha por partido, como ditaria a racionalidade e como acontece na maioria dos países da Europa. Também não é uma campanha por distrito, como ocorre nos Estados Unidos, em que o partido possui apenas um candidato por distrito.

A campanha no Brasil é uma geleia geral, com mais de uma centena de candidatos por partido, cada um com sua campanha, brigando contra todos, inclusive contra correligionários.
O quadro é de uma irracionalidade inacreditável. Na verdade, cada candidato é uma campanha eleitoral, e o partido atua como mero coadjuvante.

Pois bem, impossível a fiscalização, surge um outro agravante. As campanhas são caríssimas. Um candidato a deputado federal, por exemplo, que pretenda se eleger e fazer uma campanha competitiva, precisará despender uma soma enorme de recursos.

Há quem fale em quinhentos mil reais (os dados não são exatos, pois não se dispõe de estatísticas confiáveis, na medida em que ninguém pode afirmar que os recursos declarados espelhem a realidade). Como um candidato, com renda mediana, reunirá essa soma de recursos para se lançar numa aventura de sucesso incerto?
Como se vê, os candidatos dependem desesperadamente de recursos para competir em igualdade de armas com os demais, num sistema de fiscalização inviável. Um candidato não pode contar com o seu partido.

Resultado: a necessidade absurda de obter recursos do setor privado torna a via lícita de arrecadação estreita demais, razão por que há um consenso silencioso na classe política de que o caixa dois é uma necessidade inafastável na vida real e de que esta nada tem a ver com o desenho platônico das regras que regulam a arrecadação de recursos na legislação eleitoral.

Pois bem, o caixa dois corre solto e o sistema permite que a classe política considere o artifício moralmente justificável: "Sou uma vítima do sistema". Não é de graça que todo agente público, flagrado com dinheiro na cueca ou na meia, usa sempre a mesma defesa, "a propina se destinava ao caixa de campanha". O leigo se pergunta: "Como alguém pode se defender de um crime confessando outro delito?".

É que o caixa dois seria, por assim dizer, inevitável. É ilícito mas não tem nem a sombra da reprovabilidade moral da corrupção. Caixa dois na campanha é como contrabando de sacoleiro, previsto na legislação penal, mas tolerado por todos. É algo, alguém diria, que só os hipócritas condenam, pois quem vive na vida real da política sabe que sua prática é necessária. E mais, o dilema é invencível.

Ou se admite o caixa dois ou se inviabiliza a competitividade na eleição.

O duro é que o caixa dois não é assim tão inocente. Cria um vínculo maldito entre financiador e candidato, pois a dívida que surge na campanha será paga na administração. Como o eleito vai tratar com isenção um empresário que alimentou substancialmente sua campanha? E o vínculo do financiamento eleitoral tende a se converter na promiscuidade da administração. E tudo será justificado pela necessidade de se financiar futuras corridas eleitorais. E o círculo vicioso não terá fim, especialmente porque a generosidade do financiador, estimulada pelos privilégios da administração, tende a se avantajar, e os recursos públicos e privados, agora já indistinguíveis, financiarão, além da campanha, um carro novo, um iate, uma amante etc. etc.

O que fazer? Esse quadro não vai mudar até que a sociedade se conscientize de que o sistema eleitoral está sob maldição. Ou se muda o sistema ou se mantém intacto o ovo da serpente.

JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ainda uma verdade (in)conveniente


O Canal 4 britânico produziu o devastador documentário intitulado "A Grande Farsa do Aquecimento Global".

Ele não foi, ao que parece, exibido por nenhuma das redes de televisão nos EUA, mas está disponível na internet e agora LEGENDADO legendado em português.

Produzido por Martin Durkin, do Channel 4, da BBC de Londres.


A GRANDE FARSA DO AQUECIMENTO GLOBAL


Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=RDzuXPM1W3k

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=L18k0Y5MMok

Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=r68nSt2fMPY

Parte 4: http://www.youtube.com/watch?v=KNtvuA-D_O8

Parte 5: http://www.youtube.com/watch?v=7QojxAG_rd8

Parte 6: http://www.youtube.com/watch?v=0mZSKRDDBFE

Parte 7: http://www.youtube.com/watch?v=atYTQ3soxZo

Parte 8: http://www.youtube.com/watch?v=KI6_1ndsTFg

Parte 9: http://www.youtube.com/watch?v=OBd8_cgLYek

Uma verdade (in)conveniente

A mudança do clima,
para mais quente ou
para mais frio,
ocorrerá com ou sem o nosso consentimento.


O planeta está realmente esquentando?


ACABAMOS de assistir às principais lideranças mundiais reunidas em Copenhague para discutir os destinos do planeta diante da ameaça do aquecimento global antropogênico. Ironicamente, foram necessários muitos agasalhos, pois o frio de um inverno rigoroso já se anunciava.

A tese defendida pelo IPCC, de que o aquecimento é provocado pelo homem, baseia-se em três grandes pilares: as séries históricas dos desvios de temperatura global, as séries históricas de concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) e uma previsão de clima baseada no dobro da concentração de CO2.

As séries históricas dos desvios de temperatura global, nas quais se baseia o IPCC, mostram que, nos últimos cem anos, a temperatura média do planeta aumentou 0,6, mas, ao analisarmos os dados, notamos que esse crescimento não foi constante nem linear, pois houve períodos em que ocorreu redução da temperatura do globo.

Além disso, e mais curioso ainda, observamos na análise dos mesmos dados que, nos momentos em que a temperatura subiu, não há relação de proporcionalidade com o aumento de CO2, ou seja, não é possível, com base nessas séries históricas, afirmar que a temperatura aumentou em decorrência do aumento das emissões de dióxido de carbono.

Outra observação inquietante desses dados mostra que, entre 1943 e 1966, período em que o processo de urbanização se consolidava no mundo, associado ao crescimento econômico expressivo do pós-guerra, ocorreu redução de 0,18 na temperatura global.

Mais recentemente, a partir de 2005, os dados de temperatura média global baseada em dados de satélites divulgados pela Universidade do Alabama Huntsville (UAH) mostram uma tendência de resfriamento global. Contrariando as previsões dos ambientalistas, o planeta viveu entre 2007 e 2009, no Hemisfério Norte, invernos bastante rigorosos, com direito a uma nevasca histórica em Washington no último mês de dezembro e a inacreditáveis 34,6 negativos na Alemanha, onde, de acordo com o Serviço Alemão de Meteorologia, o inverno está sendo classificado entre os cinco ou dez mais frios dos últimos cem anos.

Os outros dois pilares do aquecimento antropogênico estão relacionados à concentração de CO2 na atmosfera. Segundo os que anunciam essa pseudocatástrofe, essa concentração nunca foi tão elevada quanto agora. Será?

Essa afirmação baseia-se inicialmente nos estudos de Guy S. Callendar, que, a partir de 1938, passou a pregar a influência humana no incremento da temperatura do planeta em decorrência da queima de combustíveis fósseis. É dele um estudo publicado em 1958 que afirma que a concentração média de CO2 atmosférico no século 19 era de 290 ppm (partes por milhão) e, no século 20, chegou a 320 ppm.

Estudos posteriores dos cientistas Fonselius, Koroleff e Wärme lançaram dúvida sobre a tese de Callendar, mostrando que, na verdade, ele teria escolhido a dedo seus dados.
A manipulação teve o objetivo de estabelecer uma suposta tendência de crescimento exponencial nos índices de concentração e de desprezar concentrações superiores ao patamar eleito por ele.
Nos dados desprezados, encontram-se concentrações superiores a 500 ppm já no século 19, mas elas tiveram de ser ignoradas para tornar defensável seu ponto de vista.

Afirma-se que o grande vilão do aquecimento global é o homem, por sua parcela de contribuição para o efeito estufa -retenção do calor pelos gases que apresentam concentração variável na atmosfera, entre eles o dióxido de carbono.

Um dado que tem sido ignorado, no entanto, é que 95% do efeito estufa é decorrente da concentração de outro gás: o vapor d'água. O CO2 corresponde somente a 3,6% do total. Mais grave ainda é que, desse percentual, o homem e suas máquinas respondem por apenas 0,1%. Por essa razão, o climatologista Marcel Leroux disse que "na atmosfera do IPCC não há água".
Entramos recentemente numa nova fase fria do oceano Pacífico e enfrentamos um ciclo de manchas solares que tem apresentado uma atividade muito baixa, como se esperava com os ciclos de Gleissberg.

Isso deve nos levar, ao contrário do que anunciam os profetas do apocalipse climático, a um novo período de resfriamento global, apesar do El Niño deste ano.

O fato é que as temperaturas globais são reguladas por fenômenos naturais de âmbito sistêmico. A mudança do clima, para mais quente ou para mais frio, ocorrerá com ou sem o nosso consentimento. Quem viver verá!

GUSTAVO M. BAPTISTA,
doutor em geologia, é professor adjunto da UnB (Universidade de Brasília)
e autor do livro "Aquecimento Global: Ciência ou Religião?".

sábado, 9 de janeiro de 2010

Em defesa dos adolescentes


Para psicóloga, pais devem respeitar mais os filhos nessa fase da vida, evitando rotulá-los, e adaptar a forma de educá-los aos tempos atuais


[...] QUANTAS MÃES ALERTAM O FILHO SOBRE O RISCO DAS DROGAS E SÓ DORMEM COM REMÉDIOS?

DANIELA TALAMONI


Em uma época em que os adolescentes costumam ser culpados pela falta de união e de respeito nas famílias, a psicóloga Elizabeth Monteiro, no recém-lançado livro "Criando Adolescentes em Tempos Difíceis" (Summus, 176 págs., R$ 39,10), vai pelo caminho contrário: defende o jovem e passa um sermão nos pais.


Para a autora, a passagem da infância para a vida adulta causa a mesma revolução no corpo e na cabeça que ocorria com adolescentes de outras gerações, mas, hoje, o mundo está mais favorável aos desvios de comportamento, o que exige nova postura dos pais -que, em geral, seguem modelos de educação ultrapassados.


"Escrevo este livro em favor dos adolescentes. É muito cômodo dizer: "Meu filho é um problema". Difícil é descobrir o que há em você que gera "o problema" do seu filho."
A seguir, trechos da entrevista com Elizabeth, mãe de quatro filhos e avó de dois netos.

Hoje é, de fato, mais difícil criar filhos adolescentes?
ELIZABETH MONTEIRO -
Sim. O perfil da família mudou, e os modelos de pai e de mãe deveriam se adaptar a isso, o que não acontece. Perdidos, os pais imitam as atitudes dos pais da novela, do amigo do filho...
Também terceirizam a educação para avós, escola, babá e até para o terapeuta. Isso favorece a falta de convivência e dificulta a transmissão dos valores entre gerações. Antes, a figura do avô, por exemplo, era respeitada, e o adolescente evitava certas atitudes para não decepcioná-lo. Isso não é mais tão importante.


Qual deveria ser o novo modelo de pais?
MONTEIRO -
Os pais precisam definir uma escala de valores e passar isso aos filhos, sendo bons modelos de homem e de mulher. Afinal, o que sustenta toda forma de amor é a admiração. O problema é que pai e mãe passam duplas mensagens.
Quantas mães alertam o filho sobre o risco das drogas e só dormem ou melhoram o humor com remédios?


A sra. escreveu que é possível impor limites de forma lúdica, afetiva e firme. Como?
MONTEIRO -
Os pais acham que bater e gritar são formas de impor limites. Não se pode confundir diálogo com sermão. Algumas perguntas (Está estudando? Já arrumou o seu quarto?) não estimulam conversas, só afugentam os jovens.


A sra. também sugere que os pais devem atualizar seu modo de sentir e de amar os adolescentes.
MONTEIRO -
Todos os pais amam os filhos, mas amar também é aceitar, e poucos aceitam o jeito do adolescente.


O jovem é discriminado pelos próprios pais?
MONTEIRO -
Os adultos em geral insistem em certos rótulos: aborrescente, rebelde, drogado... Mas o ponto central do meu livro é livrá-los disso. Os jovens ainda não sabem qual é o seu papel na sociedade e assumem os papéis que os outros tentam lhe impor. O jovem não é essa pessoa monstruosa, ele é frágil, precisa de limites e agride por medo de ser agredido.
O problema mais comum no meu consultório é a destruição do vínculo afetivo. Pais e filhos não aproveitam o tempo em família. Eles já não suportam nem olhar uns para os outros.


Qual é o perfil do filho que provavelmente correrá menos riscos na adolescência?
MONTEIRO -
O jovem que se sente valorizado e respeitado na família e que é útil para a sociedade (estimulado a conhecer desde cedo o valor do trabalho ou a participar de ações voluntárias, por exemplo) tem a autoestima elevada e dificilmente segue por um caminho que faça mal a outra pessoa ou a si mesmo.


Como proteger os filhos dos perigos do mundo virtual sem invadir sua privacidade?
MONTEIRO -
Os pais devem aprender a usar ferramentas como blogs, Orkut e Twitter para não se intimidarem quando a invasão da privacidade dos filhos for necessária. Salvamos uma adolescente que caminhava até para a prostituição quando o pai rastreou seus e-mails.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ainda as prioridades públicas

NESSE ANO TEM MAIS

Ok, o Brasil não tem tsunami, terremoto, furacão ou nevasca. Mas tem o flagelo da seca e a tragédia das chuvas que devastam e matam. A diferença é que a seca mata de geração em geração, lentamente, dia após dia, longe das redes de TV e da grande imprensa, enquanto as chuvas matam de repente, sorrateiramente, diante das câmeras, das fotos e dos repórteres. A seca do Nordeste empurra os filhos do Brasil para o Sul maravilha. E as chuvas no Sul maravilha fazem o Brasil inteiro chorar.

A virada de 2009 para 2010 no Brasil inunda as redes mundiais de notícias e confronta as realidades dos dois Brasis: o do esplendoroso espetáculo dos fogos do Réveillon em Copacabana e o que sucumbe à lama, à falta de planejamento e à ocupação irregular de encostas.

O contraste vai para as telas e para as páginas, alternando ora pessoas de todas as idades, felizes e em festa, ora as que choram a perda de filhos, mulheres, maridos, pais, mães, amores, não raro famílias inteiras. Ou que, simplesmente, perderam suas casas e todos os seus pertences sob a força da água.

Sem emprego e sem os dentes da frente, um homem ainda jovem olha para a câmera e declara, em choque: "Perdi tudo, até o que nem acabei de pagar". Ele teve sorte.

Há meia centena de mortos só no Rio, seja em bairros pobres, seja na paradisíaca Angra dos Reis, deixando como mártir da virada do ano a menininha Mariana, de três anos, que passou horas soterrada, foi retirada sob o uivo doído e comovente de um bombeiro e acabou morrendo no hospital.

Tragédias assim têm causas naturais, sim, mas têm também a enorme responsabilidade do poder público e o empurrão da imprevidência, da ganância ou da simples ignorância. E deixam um grito e um eco: prevenir, prevenir, prevenir. Porque, no que vem, tem mais.

ELIANE CATANHÊDE



UM ATO INOVADOR

Com o atraso denunciado em uma quantidade inqualificável de mortes, o prefeito de Angra dos Reis adota uma providência administrativa que o põe à frente dos mais de 5.000 prefeitos brasileiros, no que seja respeito ao próprio dever, coragem política e contribuição social. Tal medida de Juca Brandão é a que proíbe construções e ampliações em 15 morros de Angra. Ao menos até que as perícias de geotécnica manifestem-se sobre a segurança das áreas.

A falta de tal interdição nas cidades favelizadas, proveniente apenas da conveniência eleitoreira, resultou em uma espécie de urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza).

Se não era possível conter a debandada rural para cidades grandes, sob auspícios das problemáticas oportunidades de ascensão econômica, um mínimo de orientação e racionalidade todos os administradores públicos de tais cidades e Estados deviam estabelecer, até por obrigação preliminar. Mas os novos conglomerados não foram vistos como acréscimos de gente, de pobreza e da necessidade de ação: aos olhos dos políticos, o que chegava e se instalava eram votos disponíveis.

A atitude das administrações não foi e não é, por acaso, uma tolerância por compreensão social, como pretendem tantos argumentos atenuadores dos problemas implícitos na favelização, pelo país todo? As condições deprimentes das favelas ("onde o Estado não entra", admitem os mesmos argumentos) têm as assinaturas daqueles todos que permitiram, ou permitem ainda, o seu surgimento indiscriminado e crescimento alucinado.

Perversidade que segue, por si mesma, um processo de evolução sob as mesmas responsabilidades: favelas hoje são áreas também de especulação imobiliária, com a criação da indústria das lajes e da expansão sorrateira.

O "choque de ordem", que o recém-prefeito carioca Eduardo Paes tenta aplicar no Rio, demoliu como exemplo um vasto prédio que se alastrava em uma favela. O exemplo ficou para quem não mora em favela, lê jornal e assiste à TV: sobreposição de quatro, cinco andares, sobre bases precárias, e muitas delas expulsando ou sufocando vizinhos a poder de violências, continuam a subir. A indústria da laje é o enriquecimento, relativo, mas enriquecimento, à custa da subcondição favelada. Sempre sob o patrocínio da conveniência eleitoreira.

As vidas que correm risco ou se perdem com as ocupações sem critério, permitidas porque ricas ou porque pobres, não jamais foram as dos administradores públicos.

JÂNIO DE FREITAS


UM ANO BOM?

Políticos tendem a viver num mundo paralelo, no qual os problemas são sempre responsabilidade dos outros. Além disso, a maioria crê na existência de um complô geral que impede o reconhecimento de tudo o que foi realizado com “tanto sacrifício pelos injustamente criticados administradores”.

Só levando isso em conta para entender a entrevista do prefeito Gilberto Kassab publicada na quarta-feira no caderno Cotidiano. Para Kassab, 2009 foi um ano bom para a cidade e para sua administração!

Entre outras coisas, Kassab disse que “nunca foi investido tanto em drenagem quanto na nossa gestão”.

Será, então, que os moradores do Jardim Pantanal, que ficaram dias com água podre dentro de casa, estão sendo ingratos quanto criticam o governo municipal? E aqueles que tiveram carros revirados nas ruas alagadas por causa de galerias e bueiros sujos? A indignação deles só ocorre porque não compreendem as prioridades da prefeitura?

Um mínimo de autocrítica, senhor prefeito, é essencial para membros do Executivo. Sem isso, não há como melhorar. Não há como corresponder às expectativas dos cidadãos.

Veja que a imagem de um ano bom não encontra eco na opinião desses cidadãos.

Em novembro do ano passado, a maioria dos paulistanos (56%) julgava a gestão Kassab como ótima ou boa. Já na última pesquisa Datafolha, feita entre 14 e 18 de dezembro, esse índice caiu para 39%. Mais: 13% deram nota zero para a administração municipal.

Como Kassab abriu a caixa de maldades para este ano (IPTU com aumento de 40%, reajuste na tarifa dos ônibus acima da inflação a partir de segunda-feira, taxa de inspeção veicular ainda mais cara e sem devolução), o mais provável é que essa avaliação fique ainda pior na vida real. Já no mundo paralelo…

VAGUINALDO MARINHEIRO

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Prioridades públicas


SP lança ofensiva publicitária com sete campanhas na TV
Peças elogiam a administração de Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência

Na virada para o ano eleitoral de 2010, o governo de São Paulo lançou uma ofensiva publicitária na TV com sete campanhas que enaltecem a administração de José Serra (PSDB), principal presidenciável do PSDB.

Até o dia 31, o governo levará ao ar, por exemplo, duas diferentes propagandas sobre o Rodoanel e outra sobre as obras da Nova Marginal. As peças são produzidas por duas agências cujos contratos com o governo somam R$ 50 milhões por ano.

Só no Natal foram veiculadas 28 inserções, todas encerradas com o slogan: "Governo de São Paulo: trabalhando por você". Em alguns programas, como o "Mais Você" e o especial de Roberto Carlos, na Globo, foram exibidas duas campanhas num mesmo bloco de intervalos.

Além de duas peças de campanhas de longa duração -uma sobre a universidade virtual e outra sobre Imprensa Oficial- foram apresentadas propagandas sobre a qualidade das estradas de São Paulo, recuperação de adolescentes pela Fundação Casa, urbanização de favelas, PoupaTempo e corredor de ônibus.

À exceção da campanha sobre o PoupaTempo -que se encerra amanhã- todas têm vigência até o dia 31.

Oito das inserções do dia de Natal foram sobre o Rodoanel, que tem inauguração prevista para 27 de março, uma semana antes do prazo fixado para que o titular de um cargo eletivo se afaste para concorrer a outra vaga -como deve ser o caso do governador Serra.

Com vigência de 24 a 31 de dezembro, a campanha da Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado) ficará restrita às festas de fim de ano.
O governo não informou o custo, sob o argumento de que só é possível calcular após o encerramento das campanhas.

A Artesp acaba de concluir uma licitação para a contratação de uma agência, a um custo de R$ 10 milhões por semestre. A Fundação Casa também lançou licitação para contratação de agência de publicidade (de R$ 5 milhões semestrais).


ENQUANTO ISSO...


Maratona nas estradas acaba em enchente em São Paulo
Forte chuva alagou diversas áreas da capital paulista


Depois dos congestionamentos nas estradas no Réveillon, os paulistanos enfrentaram enchentes na cidade de São Paulo logo no segundo dia de 2010.
Uma chuva forte de pouco mais de duas horas ontem à tarde deixou ruas alagadas em diversas áreas da capital, levando os bombeiros até a resgatar pessoas em cima de veículos.
O temporal, que foi mais intenso no centro e na zona sul, provocou ao menos 28 pontos de alagamento, 12 dos quais intransitáveis, inclusive em avenidas movimentadas, como 23 de Maio, Sumaré e Marquês de São Vicente. O túnel do Anhangabaú teve de ser fechado ao tráfego devido à chuva.
Muita gente que viajou para passar a virada no litoral havia antecipado a volta em razão do mau tempo -e enfrentado filas nas rodovias tanto na ida, quando a viagem levou até oito horas, como no retorno.


Histórica, São Luiz do Paraitinga fica submersa 85% da população saiu de casa;
Guararema teve 4 mortes


Uma das principais cidades históricas do Estado, São Luiz do Paraitinga (a 182 km de SP), ficou completamente alagada ontem devido à chuva que transbordou o rio Paraitinga. Dos cerca de 10.500 habitantes, 4.000 ficaram desabrigados (levados a abrigos) e 5.000 desalojados (foram para casa de parentes) -ou seja, mais de 85% dos moradores tiveram que deixar suas residências.

Mortes em Guararema
Um deslizamento de terra matou quatro pessoas anteontem em uma casa no bairro Ipiranga, em Guararema (Grande SP). Dois dos corpos foram localizados só ontem. O soterramento aconteceu por volta das 14h15 de sexta-feira. Uma pessoa foi resgatada com vida e levada ao Hospital Municipal. O estado de saúde dela era estável.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Novo ano


QUANDO EU era menino, à meia-noite de 31 de dezembro, em meio às explosões dos fogos de artifício, ouviam-se os tiros de revólver que os homens disparavam com a intenção de matar o ano velho.

Essa prática nefasta que causava vítimas de balas perdidas, no entanto, refletia, como nenhuma outra, o impacto que a chegada do próximo ano provoca no espírito humano: destruir o velho para saudar a chegada do novo.

Toda vez que o fim de dezembro se aproxima, sou invadido pela certeza de que minha vida será ainda melhor. Sei que se trata de um pensamento mágico, mas me aproprio dele para experimentar a sensação de felicidade que a esperança traz.

Então faço planos para estudar mais, dedicar mais tempo para a família e os amigos, escrever livros, criar bons textos, correr maratonas, ler livros que me transformarão, subir e descer o rio Negro muitas vezes e ouvir as histórias dos ribeirinhos, além de me tornar menos neurótico, reconciliado com os meus conflitos internos.

Tenho consciência de que o conjunto de afazeres necessários para atingir esses objetivos é vasto, mas não me acovardo diante deles. Em minha imaginação, conseguirei cumpri-los; na pior das hipóteses, uma ou outra demanda ficará para trás, incompleta.

Como tenho feito nos últimos tempos, em dezembro do ano que agora começa submeterei as realizações e os fracassos ocorridos a um balanço geral cujo formato aprendi com uma amiga que já se casou quatro vezes.

Dizia ela que, em caso de dúvida sobre continuar casada ou separar-se, dividia uma folha de papel em duas partes. Numa delas colocava as vantagens do relacionamento e as qualidades do marido; na outra, as desvantagens e os defeitos. Durante meses anotava na coluna correspondente tudo o que lhe ocorria a respeito do outro: dos traços da personalidade ao gosto musical, do grau de honestidade à bagunça com as roupas, das atitudes generosas às manifestações de egoísmo.

No fim, quando se achava preparada para tomar a decisão, fazia a soma aritmética de cada coluna. Se o número de qualidades e vantagens fosse maior, continuava casada; caso contrário, tudo acabado.

Não atribuía pesos distintos aos itens relacionados em cada lista, a grandeza de caráter valia tanto quanto o desleixo com o tubo de pasta de dente, a infidelidade conjugal tanto quanto o bom gosto com as gravatas ou as boas maneiras à mesa. Adotava o método aritmético porque, se o fizesse de outra maneira, ficaria paralisada, sem condições de decidir a respeito da importância relativa de cada qualidade ou defeito no cômputo geral.

Sem o rigor sistemático das listagens de minha amiga, quando o fim de ano se aproxima, procuro alinhar de um lado o que deu certo e os acontecimentos que me deixaram feliz, do outro as frustrações e os erros que cometi. No final, somo tudo para saber se o ano foi bom.

Adoto o mesmo critério dela: a soma aritmética. O carro que comprei pesa tanto quanto a caneta de estimação que perdi; o livro que publiquei não vale mais do que a história lida para minha neta na hora de dormir; as rugas novas em meu rosto valem tanto quanto o olhar tímido da morena de cabelo curto que passou por mim na avenida Paulista. O escore final, resultado da diferença numérica entre as duas colunas, é que define o quanto foi bom ou mau o ano que termina.

O inconveniente desse método é que ele me obriga a traçar planos ambiciosos para o ano seguinte; utópicos até, porque o tempo impõe limites às tarefas que um homem consegue realizar nas 24 horas de cada dia.

Não tem importância, prefiro acreditar que 2010 será um ano que me trará momentos de felicidade jamais vividos e que conseguirei colocar em prática as ideias mais mirabolantes que me vierem à cabeça, do que imaginar a situação contrária: a do ano preenchido pela repetição rotineira.

O único problema é que o número de desafios que me disponho a enfrentar para obter um escore favorável no fim de tudo às vezes cansa. Chego a invejar o equilíbrio psicológico daqueles que levam vidas mais contemplativas, em lugares remotos, como o caboclo que vi ao longe, sozinho, sentado num tronco à beira do rio Negro, às 6h.

Ao encontrá-lo na mesma posição duas horas mais tarde, perguntei o que fazia ali:
"Estou sentado", respondeu.

DRAUZIO VARELLA