quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A passagem do ano


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasta renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Liberalismo e religião

A quem pode interessar o conservadorismo
senão à plutocracia americana,
às corporações e bilionários?


NO INTERESSANTE artigo "Patologias do indivíduo" , Vladimir Safatle afirma que "a vida contemporânea demonstrou que individualismo e religiosidade, liberalismo e restrições religiosas dogmáticas, longe de serem antagônicos, transformaram-se nos dois polos complementares e paradoxais do mesmo movimento pendular".

Trata-se, para ele, do movimento pendular do pensamento conservador.

Num primeiro momento, a vitória do Partido Republicano nas recentes eleições americanas -que provavelmente até ocasionou o seu artigo- parece dar-lhe razão. Ocorre porém que, justamente nos Estados Unidos, o "pensamento conservador" se define em oposição ao "pensamento liberal", de modo que a vitória dos republicanos sobre os democratas foi tomada por todos como uma vitória dos conservadores CONTRA os liberais.

O que diferencia o conservadorismo americano do europeu é que os Estados Unidos não tiveram uma aristocracia. Principalmente depois da Revolução Francesa, o conservadorismo europeu, nostálgico do "ancien régime", definia-se contra a Ilustração, a secularização, o liberalismo e o individualismo, que considerava alienantes, e exaltava os valores da comunidade, da autoridade, da hierarquia e do sagrado.

Os Estados Unidos, porém, já surgiram com a afirmação tanto da separação entre o Estado e a religião quanto das liberdades individuais. A divergência entre conservadores e liberais americanos se dá principalmente no sentido e no alcance que cada um deles atribui a cada um desses pontos. O primeiro é um ponto fundamental para os liberais.

Quanto aos conservadores, basta lembrar a recente demonstração de ignorância da candidata republicana ao Senado pelo Estado de Delaware, Cristine O'Donnell, que reconheceu publicamente desconhecer que a separação entre o Estado e a religião se encontra estabelecida na famosíssima primeira emenda da Constituição dos EUA.

Quanto às liberdades individuais, os liberais tendem, cada vez mais, a entendê-las no sentido mais amplo e universal possível, considerando que compete à sociedade, por meio do aparelho de Estado, garantir que, em princípio, todos os cidadãos tenham a oportunidade de exercê-las plenamente, oferecendo-lhes, para tanto, as condições necessárias de saúde pública, educação, renda mínima etc.

Como o famoso economista liberal Paul Krugman recentemente declarou, o termo "liberal" nos Estados Unidos significa mais ou menos o mesmo que "social-democrata" significa na Europa.

Já os conservadores americanos, opondo-se à interpretação ampla das liberdades individuais, tentam reduzi-las basicamente à garantia do "laissez-faire", isto é, da ausência ou da minimização da intervenção do Estado na sociedade e na economia. Para eles, qualquer interpretação mais ampla das liberdades individuais é suspeita, e "social-democracia" é sinônimo de "comunismo".

A quem pode interessar diretamente tal conservadorismo, senão à plutocracia americana, aos grandes bancos, corporações e bilionários? Pode-se facilmente entender como é que, contra qualquer mudança, esses conservadores deem graças a Deus pela sobrevivência e expansão da religião e de pretensos "valores genuinamente americanos".

O estranho é que os republicanos tenham sido capazes de seduzir para esse conservadorismo grande parte da população interiorana e branca norte-americana, composta, em grande parte, de subempregados, desempregados e ameaçados de desemprego, exatamente em consequência da política republicana de "laissez-faire" para os grandes monopólios também na agricultura.

No entanto, os membros do Tea Party preferem explicar de outra maneira os seus problemas.
Dado que foi a partir dos anos 1960 que tiveram início não somente as mais importantes ampliações dos direitos -das liberdades- dos negros, das minorias em geral, das mulheres etc., mas também o declínio econômico dessa população, consideram que este declínio foi causado pela ampliação daqueles direitos.

Assim, tendo os anos 1950 como uma época áurea, culpam o liberalismo cosmopolita por tê-la destruído, ao minar os seus "valores genuinamente americanos".

De todo modo, é preciso reconhecer que a relação entre o liberalismo e a religião é um tanto mais complexa do que a que Safatle esboçou.


ANTONIO CICERO

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Basta tirar os sapatos

Ficar descalço chama a atenção
para furos nas nossas meias.
Mas a vulnerabilidade nos humaniza


"GENTE INTERESSANTE" não é um clube exclusivo.
Qualquer um pode entrar, porque todos são interessantes para alguém. O grau de interesse depende do que a pessoa revela de si, e não do quanto ela mostra. Não precisa fazer um striptease. Basta tirar os sapatos e esperar os resultados.

Sim, tirar os sapatos traz riscos: chama a atenção para os buracos nas nossas meias.
Mas ser vulnerável humaniza e pode convencer o outro a também tirar os sapatos. A maioria precisa de um empurrãozinho para fazer isso.

Nas festas, uso álcool. Nas minhas crônicas, tiro bem mais do que os sapatos, porque o público está distante e normalmente é simpático.

Por isso, aos leitores já revelei minha transa com uma prostituta, a vez que botei no jornal um classificado amoroso, minhas dificuldades de lidar com a adolescência dos meus enteados, meu derrame e alguns dos meus defeitos (mas não os piores). Eu já escrevi até sobre meu pelo corporal. Mas, mesmo assim, eu nunca tiro tudo.

Todas essas confissões têm o propósito de provocar alguma reação: risos, lágrimas, raiva ou reflexão. Enfim, comover aqueles que conseguem se identificar comigo e se sentir menos alienados, menos solitários. Às vezes, essa cumplicidade se confirma em um e-mail que diz: "Sua crônica expressou algo que sempre senti e queria dizer, mas nunca consegui"."

Há pouco tempo, eu contei a um amigo que, durante uma viagem recente à minha cidade natal, visitei, pela primeira vez, o túmulo da minha mãe, que morreu quando eu tinha dez anos. E quando vi a lápide me emocionei tanto que a abracei como se fosse seu corpo. Daí ele me contou que há dois anos, no Peru, ele visitou a montanha onde ocorreu o acidente aéreo que matou seus pais quando ele tinha 13 anos.

Quando viu uma cruz enorme fincada no lugar do desastre, ele se debruçou no solo diante dela e abriu os braços para dar nos seus pais o mesmo abraço simbólico que dei em minha mãe. Foi uma das raras vezes que ele se abriu comigo.

Ele tirou os sapatos porque eu tirei também. E quando duas pessoas começam a se expor, ambas ficam mais interessantes.

Uma pessoa pode ser interessante antes de abrir a boca. Pode ser também que ela nunca tire os sapatos e só revele que prefere se esconder.

Mas quem não corre o risco de se expor também paga um preço. Afinal, uma pérola só tem valor fora da ostra.


MICHAEL KEPP,

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Falta sexo

A escola deve tratar
o tema do sexo para garantir aos jovens
um desenvolvimento sexual saudável


A MÃE de um adolescente me contou que o maior interesse dele atualmente é tudo o que envolve a sexualidade.

Ele só pensa naquilo, brincou ela. Por isso, essa mãe tem uma pergunta: ela quer saber por que razão a escola não trabalha esse tema de maneira séria com os alunos dessa idade?

E ela ainda disse mais: até o dia em que falou comigo, próximo ao 1º de dezembro, quando se celebra o Dia Mundial da Luta contra a Aids, ninguém na escola havia dito nada a esse respeito, segundo lhe informou o filho. E o garoto frequenta o primeiro ano do ensino médio de uma escola particular muito bem conceituada na cidade de São Paulo.

Essa sempre é uma boa conversa já que, de fato, a escola não tem mesmo tratado o tema da sexualidade, embora ele esteja previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais como um tema transversal que a escola deve e precisa trabalhar de modo planejado.

Sabemos que as doenças sexualmente transmissíveis e a Aids estão presentes na vida dos jovens de maneira bem perigosa.

No Estado de São Paulo, por exemplo, 36,1 % dos casos notificados de DST concentram-se na faixa de idade de 13 a 24 anos.

Estudos realizados em diversos países apontam que a maioria dos portadores jovens do vírus HIV contraiu a infecção na adolescência.

É necessário um trabalho sistemático e sério de educação sexual, para garantir aos jovens o direito que eles têm de um desenvolvimento sexual saudável. Com tantas informações que apontam essa necessidade, a pergunta que fica é: por que a escola não tem cumprido sua parte?

Temos algumas pistas e a primeira delas é, certamente, a falta de formação da parte dos educadores formais.

Muitos deles, inclusive, preocupam-se com o tema e até o abordam com seus alunos.

O problema é que, quando fazem isso, estão sozinhos e por isso cometem atos desastrosos -como por exemplo passar seus valores pessoais e religiosos aos alunos, dar conselhos, julgar e até incentivar diretamente o que consideram atos preventivos, como a abstenção sexual ou uso de preservativo.

Ora, se as escolas dessem formação a seus docentes isso não ocorreria. Muitas delas formam seus professores para assuntos do conhecimento dos mais diversos tipos, oferecem capacitação para novas metodologias e teorias etc. Mas o tema da sexualidade, poucas priorizam nessa formação.

O segundo ponto que atrapalha a escola é a interferência dos pais. Algumas até mesmo afirmam que não têm um programa de educação sexual para os seus alunos porque os pais deles não aceitam isso.

Não cabe aos pais essa interferência na escola, e esta não deveria se submeter a tal tipo de intromissão, já que os mais novos têm direitos que precisam ser assegurados, independentemente de o que os pais deles pensam.

Cabe aos pais, isso sim, avaliar se o trabalho realizado é condizente com a idade dos alunos e se há fundamentação consistente para ele.

Os jovens, hoje, carecem de liberdade, notadamente em relação à sexualidade.
Eles são levados a acreditar que praticar o sexo é ser livre e que fazem isso por escolha própria. Não fazem: são praticamente levados a isso pela hiperestimulação erótica de nossa sociedade.
Pois seria na escola que eles teriam a oportunidade de construir um pensamento crítico a esse respeito de modo a poder, de verdade, ter escolha.

Por fim: qual a diferença entre sexo e sexualidade?
A escola, principalmente, deveria saber fazer essa diferença para então, com profissionalismo, planejar um trabalho de educação sexual com seus alunos e, dessa maneira, contribuir com o desenvolvimento pessoal e social dos mesmos.


ROSELY SAYÃO

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUEM QUER BRINCAR DE ESCOLHINHA?

Brincadeira deixou de ser popular
porque a escola tem exercido ema função hoje desnecessária



DURANTE MUITO tempo as crianças, principalmente as pequenas, gostavam muito de brincar de escolinha. Você mesmo, caro leitor, deve se lembrar de ter participado desse tipo de brincadeira.

O interessante era observar a imagem social que a escola tinha e que se manifestava no ato lúdico das crianças: em geral, o papel de professora -sim, a educação formal é do gênero feminino- era ocupado de modo bem firme, exigente e até severo.

A criança nesse papel impunha a seus pares que ocupavam o papel de aluno uma disciplina rigorosa, um esforço enorme para fazer a lição corretamente e até aplicava castigos. O mais curioso dessa situação é que a maior parte dessas crianças nunca havia frequentado escola anteriormente.

Isso significa que, mesmo que não correspondesse à realidade, essa era a ideia que as crianças faziam de escola. E por que essa brincadeira era tão popular? Porque as crianças tinham vontade de ir para a escola.

As crianças de hoje não brincam mais de escolinha.

Recentemente, testemunhei uma situação que comprova isso de modo peculiar. Um grupo de crianças com mais ou menos quatro anos estava em busca de uma brincadeira quando um adulto propôs a escolinha. Uma garota respondeu de imediato que isso seria muito chato.

Quais as brincadeiras preferidas pelas crianças pequenas hoje? Elas gostam de brincar de escritório, de banco, de shopping!

Um pensamento apressado pode ser o de que a escola não é divertida, por isso tem sido recusada pelas crianças.

Pensando melhor, pode ser porque a escola tem exercido, de modo geral, uma função hoje desnecessária.

Onde se pode aprender hoje conteúdos que só na escola se aprendia antes? Em qualquer lugar, não precisa mais ser na escola, não é verdade?

Aprende-se, por exemplo, em revistas, na internet, em jornais, na televisão etc.
Talvez por isso a escola seja considerada chata pelas crianças: porque ela não encontrou ainda sua nova função na atualidade.

Nesta época do ano, muitos pais estão em busca de uma boa escola para seus filhos. Alguns se orientam pelos rankings escolares, outros pelo espaço físico disponível, outros ainda pelas atividades oferecidas.

São poucos os pais que perguntam se a escola ensina a criança a ocupar o papel de aluno, principalmente nos primeiros anos do ensino fundamental.

É nesse período que a criança precisa aprender na escola a se esforçar para aprender, a repetir suas lições até dar o melhor de si, a saber ter postura física que facilite seu aprendizado, a ter disciplina para o trabalho.

Era exatamente isso o que as antigas brincadeiras de escola evidenciavam: exigência, rigor, disciplina.

Mas vale lembrar que a escola não pode apenas esperar que seus alunos cheguem lá já sabendo como fazer ou simplesmente cobrar ou reclamar. Não: como não há mais uma imagem social comum de escola, é a própria que precisa ensinar isso.

Conheço pais que reclamam na escola quando seus filhos dizem que a professora exige demais ou é brava. Quando essa é a imagem da professora mas a criança aprende, está tudo bem.

A função do professor não é ser legal, bonzinho ou camarada: é ensinar. E professores rabugentos também ensinam muito bem. Aliás, aprender a se relacionar com vários tipos de adultos é uma grande lição de vida para as crianças, que não precisam nem devem ser poupadas de situações difíceis.

Se conseguirmos reconstruir a imagem social da escola atualizando sua função, quem sabe as crianças poderão voltar a ter vontade de brincar de escolinha, não é mesmo?


ROSELY SAYÃO é psicóloga

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Nem marido, nem namorado

Apesar de tantas mudanças,
ainda faltam bons nomes
para definir os novos formatos
de relacionamento amoroso


MUITAS mulheres dizem que não sabem como definir o homem com quem estão tendo uma relação afetiva e sexual.

Algumas moram junto, mas não são casadas legalmente. Outras moram sozinhas, mas têm um compromisso estável. Outras ainda moram no mesmo apartamento, mas cada um tem seu quarto, banheiro, computador, telefone, televisão etc.

Elas dizem que não gostam de chamá-los de "marido", porque indicaria um nível de compromisso que não assumiram. Acham a palavra "namorado" pior ainda, consideram esquisito dizer que estão namorando depois de certa idade. "Namorido" (mistura de namorado e marido) dizem, é ridículo, apesar de o termo estar na moda em alguns meios.

Uma psicóloga de 47 anos diz: "Estou com uma pessoa há mais de dez anos. Eu acho estranho dizer que é meu "marido", porque não moramos juntos. "Namorado" é coisa para adolescente. "Companheiro" parece que sou do Partido Comunista. "Parceiro" parece que ele é meu sócio num negócio. Ele diz para todo mundo: esta é a minha mulher. Adoraria fazer como ele e dizer, apenas, 'este é o meu homem'".

Apesar de décadas de mudanças nas relações de gênero, nas famílias e nos casamentos, não foi inventado um bom nome para definir os homens e as mulheres que vivem novas conjugalidades.

O fato de não existir um nome indica que essas relações não são plenamente reconhecidas socialmente. Daí a necessidade de homens e mulheres usarem velhas definições, talvez como forma de tornar os novos arranjos conjugais mais legítimos, reconhecidos ou seguros.

Trata-se de um problema de classificação. Não conseguimos nomear adequadamente novas formas de compromisso amoroso sem recorrer a categorias anacrônicas, que estão muito longe de serem adequadas.

Uma antropóloga de 50 anos diz que o Facebook está mais antenado com os relacionamentos atuais. "Lá tem como opções: solteira, em um relacionamento sério, em um noivado, casada, em um relacionamento enrolado, amizade colorida, viúva, separada, divorciada. Eu me classifico como tendo um relacionamento sério. Mas na vida real como posso apresentá-lo aos meus amigos? Este é fulano, o meu relacionamento sério?"

Caros leitores e leitoras, alguma sugestão? Enviem suas ideias para o meu e-mail e, quem sabe, conseguimos descobrir uma definição mais satisfatória para as novas formas de conjugalidade. Mas, por favor, nada de namorido!



MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga

sábado, 27 de novembro de 2010

Tristeza não tem fim, felicidade sim


A felicidade é como a pluma

Que o vento vai levando pelo ar

Voa tão leve

Mas tem a vida breve

Precisa que haja vento sem parar

A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor

Brilha tranqüila depois de leve oscila

E cai como uma lágrima de amor



HOMENS E LOBOS


EXISTEM MOMENTOS em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino.Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.

Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente.

O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.

Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total.

Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.

A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado.

Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter.

A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição.

Vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total.

A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade.

Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? Depende do que entendemos por "superioridade".

Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?

JOÃO PEREIRA COUTINHO


“Para mim, o perdedor é aquele que não conseguiu viver sua vida com toda a intensidade que ela merece.O que não tem nada a ver com felicidade.

O projeto de sermos felizes é profundamente errado, concebido para nos manter na insatisfação, o que é absolutamente necessário na sociedade de consumo.

O ganhador é quem teve uma alta qualidade de experiência, seja qual for, que tenha sido intensamente.

A felicidade, eu sou contra.”

CONTARDO CALLIGARIS


“As pessoas felizes jamais deram qualquer contribuição para o desenvolvimento da cultura.Aliás, seria bobagem se elas tentassem dar contribuição, porque, se elas estão felizes, tratem de gozar sua felicidade!

Mas a contribuição vem de alguma forma daquelas pessoas que sofreram.

As obras de arte, a 9ª sinfonia de Betowen: se você imaginar que Betowen estava completamente surdo e ele, da sua surdez faz aquela obra fantástica, que a letra do coral é “alegria, oh alegria!”

RUBEM ALVES

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Ataques e justificativas

As relações estão coisificadas. Não é qualquer um que é visto como ser humano


FOMOS INFORMADOS de que cinco jovens de classe média, com comportamento violento, atacaram outros três na avenida Paulista, em São Paulo.

O fato logo foi seguido por comentários e explicações por parte de pessoas próximas às envolvidas: justificativas que tentavam amenizar a situação.

O acontecimento foi associado à homofobia, e essa relação está sob investigação. Mas, vejamos as declarações de pais de alguns dos agressores.

Um afirmou a um jornal que tudo não passou de "uma grande confusão" e foi além: disse que não se tratava de um ato homofóbico, e sim de uma briga comum.

Ah, bom! Se não há homofobia no meio, tudo fica menos sério, não é? Outro pai chamou os jovens agredidos de "supostas vítimas" e não aceita o fato de a versão deles ter sido apresentada à polícia sem a presença dos advogados dos que praticaram a agressão.

Outro reconhece que o filho tem "pavio curto" e afirma que, por isso, o jovem teria reagido com briga a uma "cantada" um pouco agressiva da parte dos jovens que foram atacados. Ah, bom, se foi reação, não foi tão grave assim.

A mãe de um deles afirmou que os encontrou chorando (eles estão, no momento em que escrevo este texto, recolhidos) e os chamou de "crianças". Ela disse também que não sente vergonha, mas que está sensibilizada com o fato de os outros jovens estarem machucados.

Um pai declarou a mesma coisa: que os garotos "estavam chorando" quando os viu. Ah, bom, se os agressores estão sofrendo, devemos nos preocupar com eles.

Já temos o suficiente para refletir a respeito desse fato que nos remete a outros semelhantes já noticiados.

O que a educação que praticamos em casa e nas escolas tem a ver com isso? Como o comportamento no mundo adulto estimula acontecimentos desse tipo?

Educar tem sido cada vez mais difícil. Você deve ter considerado, caro leitor, como muitas pessoas e eu, que o avanço do conhecimento e das tecnologias facilitariam o processo educativo.

Engano nosso: a cada dia, novos dispositivos, ideias e valores são incorporados à vida dos mais novos -e isso exige novas atitudes educativas de nossa parte.

Educar na atualidade exige um conhecimento crítico e uma compreensão do mundo e da realidade para que os atos educativos possam conter, pelo menos em sua intenção, possibilidades de mudanças para os mais novos.

O ocorrido aponta, entre outras coisas, que as relações com os outros estão "coisificadas", desumanizadas. Não é qualquer outro que é visto como ser humano.

Os que não são reconhecidos como parte do grupo ao qual a pessoa pertence, em geral bem pequeno, são vistos como estorvo, fonte de problemas e geradores de insegurança e, logo, de desconfiança. Isso impede a solidariedade, a colaboração e estimula a xenofobia. Índios, empregadas domésticas, prostitutas e homossexuais já foram tratados por jovens como "coisas" e não como seres humanos, em um passado recente.

Enquanto as escolas se preocuparem com a competição nos diversos "rankings" publicados, enquanto as famílias se preocuparem apenas com o futuro pessoal de seus filhos, e enquanto ambas as instituições não apostarem na recuperação da vida coletiva e social, nossos filhos terão poucas chances de uma existência digna.

Em tempo: mesmo que seu filho frequente uma escola privada renomada e conceituada, você não tem motivos para ficar tranquilo. Lá dentro também ocorrem exclusões, humilhações, enfrentamentos, furtos e abusos.



ROSELY SAYÃO

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Felicidade e alegria


Ser alegre (muito melhor do que ser feliz)
é gostar de viver mesmo
quando a vida nos castiga


QUANDO EU era criança ou adolescente, pensava que a felicidade só chegaria quando eu fosse adulto, ou seja, autônomo, respeitado e reconhecido pelos outros como dono exclusivo do meu nariz.

Contrariando essa minha previsão, alguns adultos me diziam que eu precisava aproveitar bastante minha infância ou adolescência para ser feliz, pois, uma vez chegado à idade adulta, eu constataria que a vida era feita de obrigações, renúncias, decepções e duro labor.

Por sorte, 1) meus pais nunca disseram nada disso; eles deixaram a tarefa de articular essas inanidades a amigos, parentes ou pedagogos desavisados; 2) graças a esse silêncio dos meus pais, pude decretar o seguinte: os adultos que afirmavam que a infância era o único tempo feliz da vida deviam ser, fundamentalmente, hipócritas; 3) com isso, evitei uma depressão profunda pois, uma vez que a infância e a adolescência, que eu estava vivendo, não eram paraíso algum (nunca são), qual esperança me sobraria se eu acreditasse que a vida adulta seria fundamentalmente uma decepção?

Cheguei à conclusão de que, ao longo da vida, nossa ideia da felicidade muda: 1) quando a gente é criança ou adolescente, a felicidade é algo que será possível no futuro, na idade adulta; 2) quando a gente é adulto, a felicidade é algo que já se foi: a lembrança idealizada (e falsa) da infância e da adolescência como épocas felizes.

Em suma, a felicidade é uma quimera que seria sempre própria de uma outra época da vida -que ainda não chegou ou que já passou.

No filme de Arnaldo Jabor, "A Suprema Felicidade", que está em cartaz atualmente, o avô (extraordinário Marco Nanini) confia ao neto que a felicidade não existe e acrescenta que, na vida, é possível, no máximo, ser alegre.

Claro, concordo com o avô do filme. E há mais: para aproveitar a vida, o que importa é a alegria, muito mais do que a felicidade. Então, o que é a alegria?

Ser alegre não significa necessariamente ser brincalhão. Nada contra ter a piada pronta, mas a alegria é muito mais do que isso: ser alegre é gostar de viver mesmo quando as coisas não dão certo ou quando a vida nos castiga. É possível, aliás, ser alegre até na tristeza ou no luto, da mesma forma que, uma vez que somos obrigados a sentar à mesa diante de pratos que não são nossos preferidos ou dos quais não gostamos, é melhor saboreá-los do que tragá-los com pressa e sem mastigar. Melhor, digo, porque a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.

Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para nós mesmos. Alguém perguntará: é reconhecível como?

Pois é, para quem consegue ser alegre, a lembrança do passado sempre tem um encanto que justifica a vida. Tento explicar melhor.

Para que nossa vida se justifique, não é preciso narrar o passado de forma que ele dê sentido à existência. Não é preciso que cada evento da vida prepare o seguinte. Tampouco é preciso que o desfecho final seja sublime (descobri a penicilina, solucionei o problema do Oriente Médio, mereci o Paraíso).

Para justificar a vida, bastam as experiências (agradáveis ou não) que a vida nos proporciona, à condição que a gente se autorize a vivê-las plenamente.

Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é.

É óbvio que não consegui explicar o que são a alegria e o encanto da vida. Talvez eles possam apenas ser mostrados: procure-os em "Amarcord" (1973), de Federico Fellini, em "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" (2003), de Tim Burton ou no filme de Jabor. "A Suprema Felicidade" me comoveu por isto, por ter a sabedoria terna de quem vive com alegria e, portanto, no encantamento.

Segundo Max Weber (1864-1920), a racionalidade do mundo industrial teria acabado com o encanto do mundo. Ultimamente, bruxos, vampiros, lobisomens, deuses e espíritos andam por aí (e pelas telas de cinema); aparentemente, eles nos ajudam a reencantar o mundo.

Ótimo, mas, para reencantar o mundo, não precisamos de intervenções sobrenaturais. Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.


CONTARDO CALLIGARIS

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cinderela criteriosa procura

O que não seduz uma mulher: homem que recita seu currículo, traduz cardápios ou descreve a sua BMW


ANOS ATRÁS, uma colunista do "NY Times" disse que as mulheres queriam "vaqueiros viris que não distingam entre Flaubert e "flambé'".

Antes desse tapa na cara do feminismo, li que algumas queriam homens para compartilhar a cozinha e as trocas de fraldas, e outras buscavam tipos tradicionais e segurança financeira. Mas, para mim, o que as mulheres querem se resume em duas palavras: uma narrativa.

Essa história, porém, tem de diferenciar esse homem dos outros. De que outro modo a mulher pode determinar suas chances de construir (ou conduzir) um relacionamento com ele -o objetivo dela?

No início, contei às cariocas por que troquei os EUA pelo Rio, como meus tropeços em português levavam a mal-entendidos, e até como eu descobri que era daltônico.

Elas, intrigadas com essas histórias, queriam saber se eu era receptivo aos seus sonhos, que esperavam encaixar nos meus. Essa sintonia, tipo "a gente se completa", é a raiz da ficção romântica, de Cinderela a "Orgulho e Preconceito", e molda as expectativas amorosas femininas.

No conto de fadas, a sintonia é simbólica: um sapato cabe no pé da heroína; no romance, é psicológica: os protagonistas se apaixonam, um ajuda o outro a ver seu próprio orgulho e preconceito.

O que também seduz uma mulher é ela sentir-se fruto de uma grande história de amor.

O que não seduz uma mulher são homens recitando o currículo, traduzindo cardápios em francês ou descrevendo a sua BMW, porque essas são listas, não histórias.

Mulheres são criteriosas. A plumagem de um macho pode levar a um caso, mas raramente a um casamento.

Narrativas são afrodisíacas para ambos. É a premissa do filme de 2004, "Antes do Pôr do Sol", versão moderna da Cinderela em que herói e heroína se contam histórias e se tornam protagonistas da história um do outro.

Anos depois de um breve e mágico encontro entre o americano Jesse e a francesa Celine, ela se apaixona pelo livro que ele escreveu sobre o momento (e sobre ela) e vai à livraria em Paris onde ele o está autografando.

Na "cidade do amor", eles se rendem a uma orgia verbal, troca intensa de experiências e ideias, expressa em anedotas, que revive a magia. Celine canta para Jesse uma música narrando como aquele encontro mexeu com ela.

Nesse "pas de deux" de palavras, não há beijos nem toques, só duas pessoas seduzindo uma à outra com histórias que se entrelaçam, como dois filamentos de DNA, girando em volta um do outro para construir nova história.

A premissa é tão cativante que não condena Jesse, infeliz no casamento, pelo adultério que está prestes a cometer. Por quê? Traição é episódio menor no que promete ser uma longa e rica narrativa.


MICHAEL KEPP

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vamos esperar os cadáveres para agir contra o celular?


PESQUISADORA AMERICANA QUE ENCABEÇA MOVIMENTO PARA CONTROLAR O USO DOS CELULARES AFIRMA QUE RADIAÇÃO EMITIDA PELOS APARELHOS É UMA "BOMBA-RELÓGIO"

A epidemiologista Devra Davis lidera uma cruzada para fazer as pessoas deixarem o celular longe de suas cabeças. Convencida de que a radiação emitida pelo aparelho lesa a saúde, ela escreveu "Disconnect" (sem edição no Brasil), cuja base são pesquisas que começam a mostrar os efeitos dessa radiação no organismo. Nesta entrevista, ela também perguntou: "Vamos esperar as mortes começarem antes de mudar a relação com o celular?".



Folha - Quais os riscos para a saúde de quem usa celular? Devra Davis - Se você segurá-lo perto da cabeça ou do corpo, há muitos riscos de danos. Todos os celulares têm alertas sobre isso. As fabricantes sabem que não é seguro. Os limites [de radiação] definidos pelo FCC [que controla as comunicações nos EUA] são excedidos se você deixa o celular no bolso.

Quais os riscos, exatamente?
O risco de câncer é muito real, e as provas disso vão se avolumar se as pessoas não mudarem a maneira como usam os telefones. Trabalhei nas pesquisas sobre fumo passivo e amianto. Fiquei horrorizada ao perceber que só tomamos atitude depois de provas incontestáveis de que danificavam a saúde.
Reconheço que não temos provas conclusivas nesse momento. Escrevi o livro na esperança de que meu status como cientista tenha peso, e as pessoas entendam que há ameaça grave à saúde e podemos fazer algo a respeito.

Mas há estudo em humanos que dê provas categóricas?
Quando você diz "provas", você quer dizer cadáveres? Você acha que só devemos agir quando já tivermos prova? Terei que discordar.
Hoje temos uma epidemia mundial de doenças ligadas ao fumo. O Brasil também tem uma epidemia de doenças relacionadas ao amianto. Só recentemente vocês agiram para controlar o amianto no Brasil, apesar de ele ainda ser usado. Ninguém vai dizer que nós esperamos o tempo certo para agir contra o tabaco ou o amianto. Estou colocando minha reputação científica em risco, dizendo: temos evidências fortes em pesquisas feitas em laboratório mostrando que essa radiação danifica células vivas.

Qual a maior evidência disso?
A radiação enfraquece o esperma. Sabemos por pesquisas com humanos. As amostras de esperma foram dividas ao meio. Uma metade foi mantida sozinha, morrendo naturalmente. A outra foi exposta a radiação de celulares e morreu três vezes mais rápido. Homens que usam celulares por quatro horas ao dia têm a metade da contagem de esperma em relação aos demais.

Crianças correm mais perigo?
O crânio das crianças é mais fino, seus cérebros estão se desenvolvendo. A radiação do celular penetra duas vezes mais. E a medula óssea de uma criança absorve dez vezes mais radiação das micro-ondas do celular. É uma bomba-relógio. A França tornou ilegal vender celular voltado às crianças. Nos EUA, temos comerciais encorajando celular para crianças. É terrível. Fico horrorizada com a tendência de as pessoas darem celulares para bebês e crianças brincarem. Sabemos que pode haver um vício no estímulo causado pela radiação de micro-ondas. Ela estimula receptores de opioides no cérebro.

Jovens usam muitos gadgets que emitem radiação.
Sim, e eles não estão a par dos alertas que vêm com esses aparelhos. Não é para manter um notebook ligado perto do corpo. As empresas colocam os avisos em letras miúdas para reduzir sua responsabilidade quando as pessoas ficarem doentes.

É possível comparar a radiação de celular à fumaça?
Sim. O tabaco é um risco maior. Mas nunca tivemos 100% da população fumando. Agora, temos 100% das pessoas usando celular. Então, ainda que o risco relativo não seja tão grande, o impacto pode ser devastador.

Nos maços de cigarro, há aquelas fotos horríveis. Esse é o caminho para o celular?
Isso é o que foi proposto no Estado do Maine (EUA). Está se formando um grande movimento para alertar as pessoas a respeito dos celulares. Isso é o que aconteceu com o fumo passivo. Vamos começar a ver limites para a maneira e os locais onde as pessoas usam celular. A maioria não sabe que, se você está tentado conversar num celular em um elevador, a radiação está rebatendo nas paredes e fica mais intensa em você e em quem estiver perto.

Além de usar fones, o que é possível fazer para prevenir?
Enviar mensagens de texto é mais seguro do que falar. Ficar com o celular nas mãos, longe do corpo, é bom, e mantê-lo desligado também.

Mas celular é um vício!
Sim. Temos que usá-lo de forma mais inteligente.


RAIO-X

FORMAÇÃO
Doutora em estudos científicos pela Universidade de Chicago e mestre em saúde pública pela Johns Hopkins

ATIVISMO
É fundadora da ONG Environmental Health Trust, que faz campanhas sobre riscos do tabaco, amianto e dos celulares para a saúde

LIVROS
"When Smoke Ran Like Water" (2002), sobre poluição, "The Secret History of the War on Cancer" (2007), sobre as causas ambientais do câncer, e "Disconnect" (2010)


Pesquisa liga proximidade de antena a maior risco de câncer

Quem vive a até 100 m de antena de celular tem 33% mais risco de morrer de câncer do que a população geral, diz pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais.
A engenheira Adilza Condessa Dode, 52, cruzou dados sobre mortes por tumores entre 1996 e 2006 em Belo Horizonte com áreas onde essas pessoas moravam e a localização das antenas de celular.
Ela elegeu tumores já associados esse tipo de radiação: próstata, mama, pulmão, intestino, pele e tireoide.
Em um raio de até mil metros das antenas, o risco foi maior. " O celular você desliga. A antena, não."
O médico Edson Amaro Jr., professor de radiologia da USP, pondera que o estudo não é fechado. Isto é, não foram controlados os hábitos de quem morava perto das antenas. "Esse tipo de estudo não é o ideal, mas também não há muitas alternativas."
O engenheiro Alvaro Augusto Salles, professor de telecomunicações na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, criou um modelo do cérebro baseado na tomografia de uma criança para simular efeitos da radiação.
Ele explica que as ondas têm efeitos térmicos (por isso a orelha esquenta quando se usa o celular) e não térmicos. Esses podem causar quebras nas fitas que formam a dupla-hélice do DNA, levando a mutações e a tumores.
Os riscos são maiores nas crianças, cujos tecidos estão se reproduzindo mais rápido.
Salles diz que, quando usamos o celular encostado na orelha, 75% da energia que seria usada na conexão é absorvida pela cabeça.
Para o engenheiro, se os celulares usarem antenas que direcionem a energia para o lado oposto ao da cabeça, o risco cairá muito. "O futuro é essa tecnologia, mas está demorando. São 5 bilhões de usuários. Mesmo que o risco seja pequeno, muitos podem ser afetados."


Aparelho é só uma das fontes de ondas nocivas, lembra médico


O celular não deve ser isolado como causa de problemas, lembra Edson Amaro Jr., professor de radiologia da Faculdade de Medicina da USP . "O homem polui o ambiente com todas as formas de ondas eletromagnéticas."
Já é sabido há anos que o sol é causa de câncer de pele. "Você se expor ao sol em situações extremas equivale a fazer exames de raio-X."
O que diferencia os tipos de radiação é a frequência. Quanto maior a frequência, maior a energia, e maiores os riscos de efeitos nocivos.
Conclusão: "Se você não precisa, não use celular, e se você não precisa, não se exponha ao sol", diz Amaro.

domingo, 7 de novembro de 2010

Tabu da virgindade feminina

Possibilidade de juntar patrimônio fez com que pais quisessem gerir vida sexual das filhas
Casamentos viraram, há 10 mil anos, moeda de troca entre famílias; urbanização recente teve efeito contrário



Foi há 10 mil anos que o hímen se tornou importante.
Essa é a conclusão de Peter Stearns, grande especialista em história sexual da Universidade George Mason (EUA).
Seu livro "História da Sexualidade", recém-lançado no Brasil pela editora Contexto, compara a vida típica de tribos nômades que vivem de caça e coleta com a das primeiras sociedades humanas pós-agricultura.
É inevitável, diz, perguntar: por que, de repente, a sexualidade feminina passou a ser vigiada e elas muitas vezes perderam até a chance de escolher seus parceiros?
Era diferente entre quem não plantava. "Grupos caçadores-coletores tinham fascínio pela sexualidade. A bissexualidade era comum."
Houve a mudança porque, com a possibilidade de acumular patrimônio (caçadores não juntam excedente nem terras), filhas viraram moeda de troca entre famílias. Surgiu a herança e o dote.
Com a residência fixa e as famílias agrupadas, ficou fácil, especialmente para pais, supervisionar os outros.
Era importante zelar para que as filhas não engravidassem de gente indesejada -e para que os filhos também não engravidassem qualquer uma, mas sem testes de DNA esse problema era menor.


AMOR SÉRIO

Ainda que restritivas, civilizações antigas tratavam de sexo com naturalidade. Um mito egípcio dizia que o deus Atum se masturbava na água e acabou ejaculando o Nilo.
Isso prosseguiu com as sociedades clássicas. A Grécia foi muito tolerante com homossexuais. Rapazes eram "tutorados" por homens mais velhos na sexualidade.
"Platão disse ser mais provável que o amor sério surgisse entre homens, pois podia envolver uma mistura de sexo e interessante conversação intelectual", diz Stearns.
Isso mostra que mulheres ainda eram reprimidas -ainda que os romanos valorizassem seu prazer, por exemplo.
Com a ascensão do cristianismo, porém, a maneira de lidar com o sexo endureceu. Na Idade Média, as cidades diminuem -e, em geral, quanto mais urbano um povo, mais liberal sexualmente.
Se religiões clássicas contavam aventuras sexuais dos deuses, Jesus nasceu de uma virgem. O sexo se aproxima do pecado. A homossexualidade cai na clandestinidade.


CIDADES PROMÍSCUAS

Com a Idade Média acabando, aos poucos as cidades voltaram a crescer. A industrialização, a partir do século 18, acelerou o processo.
Com o trabalho urbano, herdar terras deixa de ser vital. "Se o pai não podia assegurar herança, havia menos motivos para que os filhos aceitassem plenamente sua autoridade", diz Stearns. O anonimato das cidade grandes também oferece menor controle sobre a vida alheia.
Países da Europa, EUA e Brasil só viraram majoritariamente urbanos no século 20. O sexo acompanhou e dominou a cultura, seja em Hollywood ou nas revistas, e a virgindade perdeu espaço.
A homossexualidade passou a ser vista com mais naturalidade, e países como a Espanha legalizaram o casamento gay recentemente.
Com métodos anticoncepcionais eficientes, o sexo pelo prazer disparou. As mulheres no mercado de trabalho se tornam menos dependentes das ordens paternas.
É um processo que ainda está acontecendo. Ainda hoje, por exemplo, metade do mundo vive em áreas rurais.
"Não sabemos se o mundo todo vai se industrializar. É difícil dizer que o padrão moderno de sexualidade triunfará, apesar de ser tentador dizer que no futuro teremos ainda mais aceitação do sexo pelo prazer", diz Stearns.


Regiões islâmicas eram bem mais tolerantes do que Ocidente

É papel do homem fazer a mulher chegar primeiro ao orgasmo. Elas, porém, devem raspar pelos pubianos, para que fiquem atraentes. Homossexuais são aceitos.
Trata-se de uma descrição de uma sociedade bastante liberal, e pode surpreender saber que estamos falando das regiões islâmicas nos séculos após a difusão da religião, por volta do ano 600.
"O Oriente Médio era uma sociedade mais urbanizada e, em muitos sentidos, mais sofisticada que a Europa", diz Stearns. Era, também, mais liberal com o sexo -vide "As mil e uma noites", com histórias eróticas.
Apesar da virgindade feminina ser fortemente valorizada, um livro islâmico de 984 já reclamava que "hoje, quando um homem ama uma mulher, não tem outra coisa em mente a não ser erguer as pernas dela".
Para Stearns, isso pode ter sido revertido a partir do século 19, em parte, como reação à liberalização ocidental.
Mesmo falando mais de sexo, mulheres sempre foram bastante reprimidas no Islã. O adultério é um dos principais crimes- mas eles podem se casar com várias.
"A mudança nas condições da mulher no ocidente provocou mais ênfase, entre os islâmicos, no lado restritivo e punitivo", disse Stearns à Folha. "Pegas de surpresa nessa transição, muitas regiões adotaram uma postura de desconfiança." Ganharam força, então, a burca, o Talibã e apedrejamentos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Bem-estar é o novo luxo


O sociólogo francês Gilles Lipovetsky conta como a era do hiperconsumo está transformando nossos conceitos e vontades


O sociólogo francês Gilles Lipovetsky, 66, tornou-se popular por escolher o consumo, a moda e o luxo como objetos de estudo. De jeans e sandálias, o autor de "A Felicidade Paradoxal" e "O Império do Efêmero" recebeu a reportagem na cobertura de um prédio na zona sul de São Paulo, onde foi hospedado.
Na cidade para um fórum mundial de turismo, Lipovetsky veio falar sobre o "consumo de experiência".
Abaixo, fala também da obsessão pela saúde e afirma: bem-estar é o novo luxo.


O que é "consumo de experiência"?
Gilles Lipovetsky -
Vai além dos produtos que podem me trazer esse ou aquele conforto, ou me identificar com essa ou aquela classe. As razões para escolher um celular, hoje, vão além das especificações. Queremos ouvir música, tirar fotos, receber e-mails, jogar. Ter vivências, sensações, prazeres. É um consumo emocional.


Então, o que é o luxo, hoje?
O luxo, apesar de ainda existir na forma tradicional, também está mudando.
Quando buscamos um hotel de luxo hoje, não queremos torneiras de ouro, lustres. O luxo está nas experiências de bem-estar que o lugar pode oferecer. Spa, sala de ginástica, serviço de massagem. O bem-estar é o novo luxo.


Como consumir bem-estar?
Nos anos 60 e 70, quando o consumo de massa possibilitou que famílias de classe média se equipassem com produtos, o bem-estar ainda era medido em termos de quantidade. Hoje, o que está na cabeça das pessoas é o bem-estar qualitativo: a tal qualidade de vida. O que inclui a qualidade estética.

Qual a relação entre busca de bem-estar e uma sociedade mais e mais "medicalizada"?
A obsessão com a saúde e a prevenção é o lado obscuro do hiperconsumismo, gerador de ansiedade quase higienista. A quantidade de informação disponível torna o consumo complicado. Na alimentação, os consumidores estão ávidos pela leitura dos rótulos: quais são os ingredientes, de onde vêm, podem causar câncer, engordar? Há 40 anos, íamos ao médico uma vez por ano, se muito.
Hoje, um indivíduo faz até dez consultas por ano. O consumo de exames, para nos fazer sentir "seguros", cresce exponencialmente. Sintoma do hiperconsumismo: queremos comprar nossa saúde.


Como vê as campanhas contra o cigarro e a obesidade?
O hiperconsumidor está preso num emaranhado de informações e ele tem muitas regras a seguir. Parar de fumar faz parte da lógica da prevenção. É um sacrifício do presente em prol do futuro.
No hiperindividualismo, a gestão do corpo é central. Esse autogerenciamento permanente explica, também, a onda do emagrecimento.
Expor-se ao sol é arriscado, mas é considerado bonito ter a pele bronzeada. Privar-se de comer é privar-se do prazer. É um paradoxo que todos vivem e, por isso, no caso dessas mulheres subjugadas ao terrorismo da magreza, elas sentem culpa. As regras são contraditórias.


Qual é a saída para toda essa ansiedade?
As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center.
Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar "terapias de desenvolvimento pessoal". Um fim de semana zen, um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas à lógica do mercado.


Por que as pessoas não se sentem felizes?
O hiperindividualismo aparece quando nossa sociedade nega as instituições da coletividade. A religião, a comunidade, a política. Os deuses são os homens. O indivíduo é um agente autônomo que deve gerenciar a própria existência. Esse indivíduo pode fazer escolhas privadas -que profissão fazer, com quem se casar, o que comprar- mas está submetido às regras da globalização econômica de eficácia, de produtividade, juventude, consumo. O acesso ao conforto material, enquanto sociedade, não nos aproximou da felicidade. Há tanta ansiedade, tanto estresse, tanta angústia e tanto medo que a abundância não consegue proporcionar um sentimento de completude.


Consumimos para esquecer?
Também. Mas há um outro lado. Desenvolvemos o que eu chamei de "don juanismo" [ele cita o personagem "Don Juan", da ópera de Mozart, que "conheceu" 1.003 mulheres]. Todos nos transformamos em Dons Juans.
Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida passe ao largo.
Existe um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida.
É uma luta contra o tédio, uma busca incansável e viciada pela novidade, pela fuga da rotina.

domingo, 10 de outubro de 2010

A mulher inesquecível

Como ser 'especial' nesse mercado
de relações onde a oferta
é muito grande tanto no
plano real quanto no virtual?

O HOMEM brasileiro quer ser o primeiro na vida de uma mulher. Já a mulher deseja ser a única na vida do homem. Duas frases populares na nossa cultura amorosa.

É só abrir uma das revistas femininas e ler os depoimentos de mulheres famosas sobre namorados e maridos. Elas dizem: "Ele me faz sentir que eu sou a mulher mais especial do mundo".

É também o que dizem as "outras", para justificar o papel de amante de homem casado: "Eu sou a única. Ele só está com a esposa por obrigação. A verdadeira outra é ela. Eu sou a número um".

Como ser uma mulher especial em um mercado de relacionamentos onde a oferta é muito grande não só no mundo real, mas no virtual?

Eles dizem que na internet está disponível um enorme cardápio de mulheres de todos os tipos físicos, idades, profissões, nacionalidades etc. É um verdadeiro shopping onde tudo é muito fácil. Basta um clique.

Apesar da oferta excessiva, eles querem encontrar uma mulher especial, aquela que fará com que desistam de conquistar todas as mulheres do mundo.

Há uma característica essencial para ser considerada uma mulher inesquecível: ela deve despertar admiração.

Ela não é necessariamente a mais bonita, jovem ou sensual. Inesquecível, para eles, é: "Minha esposa, ela é a mulher mais marcante de toda a minha vida, ela me ensinou tudo o que eu sei sobre mim mesmo"; "minha namorada, ela me transformou em um homem muito melhor", e "minha ex-mulher, ela foi, é, e será para sempre o meu único e verdadeiro amor. É a pessoa que mais admiro no mundo".

Freud dizia que existe uma grande pergunta que ele não conseguiu responder, apesar de muitas décadas de investigação da alma feminina: o que quer uma mulher?

Muitas brasileiras responderiam facilmente: ser especial, única, inesquecível. Aparentemente, por trás desse desejo está o medo de ser ignorada, invisível, apenas mais uma no meio de tantas outras.

Ser inesquecível poderia protegê-las da invisibilidade social e da falta de reconhecimento do seu valor, poder e importância como mulher.

É cada vez mais difícil se tornar uma mulher inesquecível em uma sociedade que se caracteriza pelo consumo hedonista, onde as relações amorosas são tratadas como mercadorias frágeis, múltiplas e descartáveis. No entanto, prova de que o amor romântico resiste às profundas transformações sociais, homens e mulheres continuam alimentando esse ideal.



MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Marina Silva em Wall Street

Com o programa econômico mais liberal entre todos, PV apresentou o novo centro, com roupagem "moderna"


"Wall Street" é, entre outras coisas, o nome do novo filme do cineasta norte-americano Oliver Stone. Ele conta a história da crise financeira de 2008 tendo como personagem central um jovem especulador financeiro que parece ter algo semelhante ao que um dia se chamou pudor.

Sua grande preocupação é capitalizar uma empresa, que visa produzir energia ecologicamente limpa, dirigida por um professor de cabelos brancos e ar sábio. O jovem especulador é, muitas vezes, visto pelos seus pares como idealista.

No entanto, ele sabe melhor que ninguém que, depois do estouro da bolha financeira, os mercados irão em direção à bolha verde. Mais do que idealista, ele sabe, antes dos outros, para onde o dinheiro corre. Enfim, seu pudor não precisa entrar em contradição com sua ganância.

Neste sentido, "Wall Street" foi feliz em descrever esta nova rearticulação entre agenda ecológica e mundo financeiro. Ela talvez nos explique um fenômeno político mundial que apareceu com toda força no Brasil: a transformação dos partidos verdes em novos partidos de centro e o abandono de suas antigas pautas de esquerda.

A tendência já tinha sido ditada na Europa. Hoje, o partido verde alemão prefere aliar-se aos conservadores da CDU (União Democrata-Cristã) do que fazer triangulações de esquerda com os sociais-democratas (SPD) e a esquerda (Die Linke). Quando estiveram no governo de Schroeder, eles abandonaram de bom grado a bandeira pacifista a fim de mandar tropas para o Afeganistão.

Com o mesmo bom grado, eles ajudaram a desmontar o Estado do bem-estar social com leis de flexibilização do trabalho (como o pacote chamado de Hartz IV). Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do partido verde francês, fez de tudo para viabilizar uma aliança com os centristas do Modem. Algo que soaria melhor para seus novos eleitores que frequentam as praças financeiras mundiais.

No Brasil, vimos a candidatura de Marina Silva impor-se como terceira via na política. Ela foi capaz de pegar um partido composto por personalidades do calibre de Zequinha Sarney e fazer acreditar que, com eles, um novo modo de fazer política está em vias de aparecer. C

obrando os outros candidatos por não ter um programa, ela conseguiu esconder que, de todos, seu programa era o economicamente mais liberal. O que não devia nos surpreender. Afinal, os verdes conservaram o que talvez havia de pior em maio de 68: um antiestatismo muitas vezes simplista enunciado em nome da crença na espontaneidade da sociedade civil.

Não é de se estranhar que este libertarianismo encontre, 40 anos depois, o liberalismo puro e duro. De fato, a ocupação do centro pelos verdes tem tudo para ficar. Ela vem a calhar para um eleitorado que um dia votou na esquerda, mas que gostaria de um discurso mais "moderno".

Um discurso menos centrado em conflitos de classe, problemas de redistribuição, precarização do trabalho e mais centrado em "nova aliança", "visão integrada" e outros termos que parecem saídos de um manual de administrador de empresas zen. Alguns anos serão necessários para que a nova aliança se mostre como mais uma bolha.


VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dois pesos...

Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.




O jornal Estado de São Paulo teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas.

O debate eleitoral está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém.

Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família.

Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense.

A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso.

Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer.

O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições.

Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País.

Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale.

Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.


Maria Rita Kehl

domingo, 3 de outubro de 2010

O amor não é cego

"Um dos grandes motivos de fracasso é não trocar intensidade por profundidade, viver querendo voltar aos tempos da paixão"


As relações não duram porque a maioria não enxerga o outro como ele é, diz o psicólogo Jorge Bucay


Folha - O que significa amar de olhos abertos?

Jorge Bucay -
Gosto de uma definição que diz que o amor é a simples alegria pela existência do outro. Não é possessão, nem felicidade necessariamente. E por isso "com os olhos abertos". O amor cego não aceita o outro verdadeiramente como ele é.


Por que tanta gente prefere a intensidade da paixão, mesmo sabendo que é efêmera, a construir algo mais sólido?

É maravilhoso estar apaixonado e muitos preferem a intensidade superficial à profundidade eterna. Mas me pergunto como as pessoas pensam em ficar somente nisso. Qual o sentido de estar apaixonado perdidamente o tempo todo? Penso que é uma questão de maturidade.
Também tem a ver com a nossa sociedade, que adora emoções intensas. Procuramos correr mais rápido, chegar antes, desfrutar intensamente. A paixão é como uma droga: no seu momento fugaz faz pensar que você é feliz e não precisa de mais nada. Um olhar, uma palavra te levam aos melhores lugares.


Como construir uma relação mais profunda?

Seria bom estar preparado para saber que a paixão acaba. Amadurecer significa também desfrutar das coisas que o amor dá, como compartilhar o silêncio e não um beijo, saber que a pessoa está ali, ainda que não esteja ao meu lado. É preciso abrir os olhos, e isso é uma decisão. Ver o par na sua essência.
Mas primeiro é preciso estar bem consigo mesmo. Não se deve procurar o sentido da própria vida no companheiro ou nos filhos.
Você deve responder a três perguntas básicas nesta ordem: quem sou, aonde vou e com quem. É preciso que eu me conheça antes de te conhecer e que decida meu caminho antes de compartilhá-lo. Senão, é o outro quem vai dizer quem eu sou. E isso é uma carga muito grande.


O livro diz que as relações duram o que têm que durar, sejam semanas, seja uma vida.

Duram enquanto permitem que ambos cresçam. Significa conhecer-se, gostar de si mesmo, conhecer seus recursos e desenvolvê-los. Ao lado da pessoa amada, está a melhor oportunidade para isso. E essa é uma condição para construir um relacionamento. Um casal que não cresce, envelhece. E um casal que envelhece, morre.


O que leva ao fracasso?

Um dos grandes motivos de fracasso é não trocar intensidade por profundidade, viver querendo voltar aos tempos da paixão. Outro ponto de conflito é que as pessoas não conseguem deixar o papel que desempenhavam antes de casar, querem continuar sendo o "filhinho da mamãe", ou o "caçulinha da casa". Outro problema é a intolerância, a incapacidade de aceitar as diferenças, as pessoas discutem pelo dinheiro, pela criação dos filhos e, por fim, morrem sufocadas pela rotina.


E como enfrentar esses problemas ou desafios?

É preciso amor, atração e confiança. Comparo esses pilares a uma mesa de três pés. O tampo da mesa seria um projeto comum firme. Se faltar qualquer um desses elementos, a mesa cai. E sobre tudo isso deve-se montar outras coisas, como a capacidade de trabalhar juntos, de rir das mesmas coisas, de ser sexualmente compatíveis, sentir o outro como um apoio nos momentos difíceis. Às vezes a terapia ajuda, às vezes é um bom passaporte para a separação.


Como saber quando a relação chegou ao fim?

Se sinto que estou sempre no mesmo lugar, que me entedio, que não tenho vontade de estar com o outro, se sempre que saímos precisamos sair com outros casais pois não ficamos bem sozinhos, quando piadas como "o idiota do meu marido" ou a "bruxa da minha mulher" se tornam frequentes, algo não está funcionado.

Quem?


Desconfio de que já contei esta história em crônica muito antiga, mas de forma incompleta.

Agora, com a proximidade das eleições, acredito que ela deva ser relembrada.

O escritor Álvaro Lins foi editorialista do "Correio da Manhã", chefe da Casa Civil na Presidência de JK e embaixador em Portugal, onde, aliás, criou um caso internacional dando asilo a um adversário do regime salazarista.

Muitos o consideram o crítico literário mais completo do Brasil. Sua entrada na Academia Brasileira de Letras foi uma noite memorável, pois chegou atrasado duas horas para a cerimônia.

Em Lisboa, ele decidiu visitar a Suíça, sendo ali recebido com todas as honras. Na manhã do seu primeiro dia em Genebra, depois de ler os jornais locais, deu um giro pela cidade em companhia de um funcionário do governo. Andou pelas ruas, de carro e a pé.

Em dado momento, comentou: "Li nos jornais que hoje é dia de eleições gerais. Mas não estou vendo nenhum movimento especial, nenhuma fila, nenhum posto eleitoral...".

O funcionário explicou: "Senhor embaixador, hoje, realmente, é dia de eleições gerais, e elas estão se processando normalmente".

"Mas como? Não vejo nenhum movimento... nenhuma fila... parece um dia qualquer...".

"Não precisamos de filas. Cada quarteirão tem uma urna em local determinado. O eleitor chega e deposita sua cédula. À meia-noite, as urnas são recolhidas e, no dia seguinte, o resultado é proclamado."

Álvaro Lins ouviu, abaixou a cabeça, pensou um pouco e perguntou: "Mas digamos... um eleitor pode depositar na mesma urna ou em outras muitas cédulas de um só candidato, dez, vinte... cem... e aí como é que fica?"

Foi a vez de o funcionário suíço ficar espantado:
"Mas senhor embaixador, quem faria isso?".


CARLOS HEITOR CONY

sábado, 2 de outubro de 2010

Urubu na Bienal


"Há sempre um copo de mar/ Para um homem navegar". São versos do canto primeiro da "Invenção de Orfeu", o longo poema que Jorge de Lima publicou em 1952, um ano antes de morrer.

A 29ª Bienal, que abre hoje no Pavilhão do Ibirapuera para convidados e sábado para o público, está organizada em torno das relações entre "arte e política". E fez dos versos do poeta alagoano o seu título.

Entre o confinamento do "copo" e o infinito do "mar" existe uma tensão, na qual podemos (ou estamos condenados a) "navegar". Ou o colunista "navega" demais?

Nota-se, já a partir dessa escolha pouco óbvia (e da beleza complexa que os versos exprimem), o compromisso dos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos com o sentido de relevância da cultura.

Depois da "Bienal do Vazio", quando mimetizou seu ocaso, a mostra parece se reerguer, aliando inquietação e esforço reflexivo.

Mas nada disso pertence ao universo do presidente da OAB de São Paulo, Luiz Flávio Borges D'Urso. Ele anda ouriçado com os "excessos" da Bienal. Em nota, solicitou que os trabalhos de Gil Vicente sejam banidos da exposição, sob ameaça de acionar a Justiça. D'Urso viu incitação ao crime na série de desenhos "Inimigos", em que o artista pernambucano retrata a si mesmo atentando contra a vida de figuras públicas -Lula, FHC etc.

Pode-se ou não gostar dos trabalhos, mas "crime" seria censurá-los. Nos anos 1970, Raymundo Faoro colocou a OAB na linha de frente da luta pela democracia. D'Urso transforma a seção paulista da entidade em sucursal do obscurantismo. Sua atitude é oportunista e sua compreensão da arte é rudimentar.

Lembre-se que D'Urso foi líder do "Cansei", em 2007, quando o acidente da TAM serviu de pretexto para que uma fração da direita civil se organizasse em torno do que Cláudio Lembo chamou de "movimento de dondocas". O sr. Cansei está de volta. Mas por favor: urubus na Bienal, só os de Nuno Ramos...



Pedido da OAB-SP é ato assustador de censura

Nota autoritária fere integridade da curadoria e subestima o público


Tem notícia que assusta. A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil pedir por nota pública a exclusão de obras da próxima Bienal de São Paulo é uma delas.

O ato é assustador por várias razões. Primeiro, pelo caráter autoritário que revela.
Segundo, pelo entendimento equivocado que o motiva.

Por fim, porque, supostamente, é cometido em nome da defesa do Estado de Direito e das instituições democráticas. O presidente da seccional de São Paulo, Luiz Flávio Borges D'Urso, que assina a nota, perdeu uma boa oportunidade de omitir-se.

As obras que a OAB-SP sugere ocultar fazem parte da série "Inimigos", de Gil Vicente. São desenhos grandes (2 m por 1,5 m) feitos com carvão, nos quais o artista se retrata assassinando autoridades e figuras públicas. Entre as "vítimas", estão o presidente Lula, dois governadores de Pernambuco, a rainha da Inglaterra e o papa.

Segundo a OAB-SP, as obras demonstram "desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência".

D'Urso argumenta que "uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade do seu autor, deve ter determinados limites para sua exposição pública. Um deles é não fazer apologia ao crime, como estabelece a vedação inscrita no Código Penal Brasileiro".

Pela lógica de seu argumento, o presidente da OAB-SP considera que representar artisticamente um crime equivale a recomendar sua execução. No entanto, retratar um assassinato não significa fazer apologia ao crime.

É o espectador quem dará significado aos desenhos de Vicente. A obra de arte é apenas uma representação que adquire valor subjetivo para quem a observa.



DIREITO DE DESPREZAR


A despeito do que critica a nota, é legítimo e legal que uma obra de arte represente o desprezo do autor pelo poder instituído. Em um Estado democrático, todos têm o direito de sentir desprezo por qualquer pessoa ou instituição. Desprezar não é crime e, mais importante, todos temos o direito de expressar o desprezo artisticamente.

A prevalecer a linha de raciocínio da nota, talvez se devesse proximamente proibir a exibição de artistas como Hélio Oiticica, que recomendava ao público: "Seja marginal, seja herói".

Mais valioso para o Estado de Direito do que uma cláusula do Código Penal -no meu entender, mal interpretada pelo presidente da OAB-SP- é o espírito da Constituição Federal. Mais importantes são as liberdades e os direitos individuais, que servem de base e fundamento para o Estado de Direito e as instituições democráticas que a OAB-SP pretende defender. A tentativa de controle social por meio da supressão de obras artísticas chama censura. Simples assim.

Caso os organizadores não desistam de exibir os trabalhos, a OAB-SP promete recorrer ao Ministério Público Estadual para pedir a retirada das obras e o indiciamento dos responsáveis por apologia ao crime. A pena prevista é de três a seis meses de detenção ou o pagamento de multa.

É ao que se arriscarão os curadores e o presidente da Bienal se quiserem resguardar a integridade do trabalho de concepção e organização da mostra. A nota é autoritária e condescendente. Subestima a capacidade de discernimento do brasileiro. É legítimo perguntar até que ponto representa o entendimento jurídico e a sensibilidade política dos advogados paulistas.

Em qualquer hipótese, até o momento, o que parece atentar contra o Estado de Direito e as instituições democráticas não é a exibição das obras de Gil Vicente na Bienal, mas, sim, o teor da nota pública assinada por D'Urso. A OAB-SP errou e precisa admitir seu equívoco.



ALEXANDRE VIDAL PORTO, mestre em Direito pela Universidade de Harvard, é diplomata e escritor.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Felicidade nas telas


A necessidade de mostrar ao mundo
um semblante feliz
é uma das grandes fontes de infelicidade



UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.

Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?

Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo "job" fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.

Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.

Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: "As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos "felizes" entre as mais de 500 que eu tirei".

Logo nestes dias, acabei de ler "Perché Siamo Infelici" (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar "por que somos infelizes" e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.

Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.

Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.

Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?

Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?

1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;

2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.


CONTARDO CALLIGARIS