terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A função cultural das privadas


"Em tempos difíceis, em algumas pessoas crescem asas; outras compram muletas."

Quando vivi nos EUA, me informaram de uma revista científica que só publicava palpites não comprovados ainda por meio de pesquisas. A diferença entre artigos já provados e palpites é simples. Artigos já provados enunciam conclusões, chegadas, descansos. Palpites anunciam partidas, caminhadas, canseira...

Sugestões de adesivos para colocar em carros: "Você tem direitos; procure sempre um advogado"; "Você tem avessos; procure sempre um psicanalista...";

"Sem advogado não se faz justiça..."; "Os advogados, se quiserem, podem contribuir para a realização da justiça...".

Jay W. Forrester, professor de administração do MIT, enunciou a seguinte lei das organizações: "Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas". Essa lei foi enunciada há 2.000 anos de forma mais simples e poética, que todos podem compreender: "Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes" (Jesus).

O livro sagrado do taoísmo, o "Tao-Te-Ching", diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10 mil coisas que demandam ação. Todas não essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10 mil perturbações. Sabedoria é deixar o sufoco das 10 mil coisas não essenciais e focalizar os olhos na única coisa que é essencial.

"Paraíso" -jardim- é uma palavra que deriva do grego "paradeisos", que, por sua vez, vem do antigo persa "pairidaeza", que quer dizer "espaço fechado". Jardim é um espaço fechado. Por que fechado? Para ser protegido. Para que seja nosso.

Fora dos muros que fecham o jardim está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e beleza que mora nos seres humanos.

Política é a arte de criar esse espaço.

Política é a arte da jardinagem aplicada ao espaço público. Deixando de lado as 10 mil coisas a serem feitas, a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a convivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório. Não ficou claro? Explico.

Mais importante que cem fechaduras é a única chave que as abre...

Já pensaram que, mais importante que as 10 mil coisas administrativas que podem ser feitas, a tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar? O Diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema: "Ordena que essas pedras se transformem em pães...". Jesus respondeu que o que realmente importava eram as palavras...

"Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade." (Raul Seixas) É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas para se tornar realidade. É o essencial.

Escrevi, faz tempo, uma crônica com o título "A função cultural das privadas". Conversando sobre o assunto com uma amiga, tivemos uma ideia luminosa: e se as empresas passarem a colocar, na porta diante dos tronos, trechos literários curtos, para serem lidos pelos intelectuais assentados? Muitas experiências de iluminação científica surgiram em momentos de solidão meditativa.


RUBEM ALVES

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