quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,

Você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade
video

sábado, 26 de dezembro de 2009

Minha inveja, meu sucesso


Pesquisador se inspira na seleção natural para entender porque atitude invejosa existe entre seres humanos

RICARDO MIOTO

Imagine que você está passeando com sua namorada ou seu namorado. Passa, então, alguém mais bonito e aparentemente mais rico do que você. Se a sua primeira reação é soltar um "ele é gay" (caso você seja um homem) ou um "ela é uma vagabunda" (caso você seja uma mulher), parabéns. O seu comportamento invejoso é o combustível do sucesso humano.

Todos as emoções humanas, dizem os psicólogos que se interessam pela seleção natural, têm uma boa razão para existir. São consequência de milhões de anos de adaptação.

O instinto mais fácil de compreender provavelmente é a vontade de fazer sexo. Quem sentia deixou muito mais descendentes, passando essa característica adiante. Os filhos, por sua vez, tiveram outro punhado de filhos que gostavam de sexo, e assim por diante.

Outros comportamentos têm explicação menos óbvia. É o caso da inveja. Como ela poderia ser um comportamento vantajoso, a ponto de estar tão presente entre humanos?

Quem explica é o psicólogo evolutivo David Buss, da Universidade do Texas, em vários trabalhos recentes.
Ninguém gosta de sentir inveja, de perceber que alguém, em algum sentido, é superior. É um sentimento desagradável, por mais que se tente disfarçar.

Indivíduos invejosos, portanto, sempre tiveram um estímulo grande para se esforçar para alcançar os invejados -e, assim, acabar com a sensação incômoda de inferioridade. No longo prazo, invejosos têm, sim, mais chance de ter sucesso -especialmente reprodutivo.

Homens e mulheres, diz Buss, sentem tipos diferentes de inveja. Isso porque tiveram que se adaptar a dificuldades diferentes na evolução.

Modos de macho e fêmea

Biologicamente, em princípio, homens podem tantos quantos conseguirem gerar. Atraem-se em geral por mulheres jovens com aparência fértil.

Já o instinto feminino investe mais em cada bebê. São pelo menos nove meses de gestação. Mulheres que se importavam com a capacidade dos seus companheiros de assegurar que isso tudo não seria desperdiçado tiveram mais sucesso reprodutivo que as outras.

Então, evolutivamente, faz sentido que as mulheres se sintam atraídas, entre outras coisas, por homens que apresentem segurança. Quando a espécie humana vivia de caça e de coleta, isso significava conseguir trazer quantidades grandes de proteína para os filhos. No mundo moderno, significa algum sucesso profissional.

Como a inveja é consequência direta da competição entre as pessoas, homens tendem a se incomodar mais com os seus colegas que ganham mais. As mulheres, com as suas amigas mais atraentes do que elas.

Isso tudo não significa, claro, que homens não sintam inveja de caras bonitos (ou mulheres de moças ricas) ou que homens não se atraiam por mulheres de sucesso (e muito menos que mulheres não gostem de homens bonitos). É só uma questão de intensidade.

A inveja tem outro componente importante. Ela frequentemente aparece associada a uma tentativa de minimizar o sucesso do invejado. A promoção recebida por alguém no trabalho não significa competência ("é um mero puxa-saco"). A vizinha não é bonita porque se cuida ("fez uma plástica").

O instinto humano é não se inferiorizar com relação aos outros -ninguém quer ser visto como a última opção, especialmente em termos sexuais. Quem não se armou contra isso, ao longo da evolução, não se reproduziu e sumiu do mapa.

Tentar rebaixar quem está por acima, então, é uma tentativa, talvez até desesperada, de não parecer menor do que eles.

As pessoas, então, geralmente não admitem que sentem inveja porque fazer isso seria uma forma de dizer aos outros "sim, estou abaixo no ranking social e sei disso".

"Gore Vidal [escritor americano] já dizia: ter sucesso não é o suficiente. Os outros precisam fracassar", escreve Buss.

Inveja de velho

Desde as diferenças entre a inveja masculina e a feminina, até o gosto por estar acima no ranking social (as pessoas preferem ganhar R$ 3.000 se todos ganharem R$ 2.000 do que ganhar R$ 5.000 se todos ganharem R$ 7.000, por exemplo), muitas hipóteses sobre a inveja foram confirmadas com voluntários em experiências realizadas na última década.

Algumas, entretanto, ainda estão em aberto. A mais instigante, levantada por Buss, relaciona-se com a impressão de que as pessoas ficam menos invejosas com a idade -a inveja seria mais comum na juventude. A explicação, diz ele, talvez não seja o amadurecimento.

Pode ser que, depois do pico reprodutivo, a idade faça com que ser a última opção em termos sexuais já não faça tanta diferença. Os outros são mais bonitos? Que sejam. Tanto faz. Os pesquisadores querem respaldar, em breve, essas ideias em experimentos.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Para que o amor dure


É POSSÍVEL PRETENDER que uma mulher e um homem jurem se amar para o resto de suas vidas? Difícil, mas é o que acontece milhares de vezes por dia, na maioria dos países, em cerimônias de casamento. É como um contrato em que regras são estabelecidas mas nem sempre cumpridas, mas há quem garanta que regras foram feitas para isso.

Mas essa, convenhamos, é muito radical. Seria um sonho amar e ser amada pela mesma pessoa até o fim dos dias, no lugar de passar a vida tentando, tentando, se decepcionando, sofrendo, fazendo sofrer. Seria maravilhoso que as pessoas se casassem e se amassem para sempre, mas não é sempre que isso acontece.

E quando não acontece, são meses, às vezes anos de sofrimento para um monte de gente: os próprios, os filhos dos próprios, os pais dos próprios, os amigos que falam e tomam partido, ficam amigos de um lado e rompem com o outro, fora a divisão dos bens, a pensão alimentícia etc.; uma desestruturação geral, um caos.

Mas já que é um contrato, porque não mudar as regras, com a concordância dos dois envolvidos?

Poderia ser assim: tudo mais ou menos igual, mas já determinando, antes, o que é de quem, em caso de separação. Quando isso é feito no tempo das rosas, entre beijos e carinhos, pode ser uma tarde bem divertida um dizendo "ah, mas se a gente se separar, o som é meu", enquanto o outro responde "se você fica com o som, então eu fico com a TV", e sobretudo quem fica no apartamento e quem sai.

Tudo escrito num bloquinho, assinado pelos dois, que dali iriam direto para a cama rindo e dizendo que nada daquilo aconteceria jamais, pois o amor deles seria eterno.

Nesse contrato haveria uma cláusula, para mim a principal, igualzinha a quando se aluga um apartamento: o tempo de duração da relação. Um ano seria um prazo ótimo: nem curto demais, nem longo demais. Quando o dia chegasse, estariam automaticamente descasados e separados, e caberia apenas uma pergunta, como no programa de Silvio Santos: vai continuar ou vai desistir? Depois da resposta, ou uma nova lua de mel, ou cabe ao que vai sair fazer as malas e desaparecer sem ter que discutir a relação; sem ter que discutir a relação, está claro?

Essa cláusula preservaria e muito as uniões, e os casamentos durariam bem mais. Por quê? Vejamos.
Se uma pessoa sabe que num dia determinado o contrato termina -e ela está feliz com sua vida-, faz o quê? Trata de cuidar muito bem do seu marido/mulher, de encher de carinhos, de fazer as vontades, de se comportar como o parceiro/a ideal.

Se fizer assim, dificilmente o outro/ outra vai deixar de amar, e a prorrogação do contrato por mais um ano será automática. No ano seguinte, a mesma coisa, os mesmos cuidados, os mesmos carinhos. Sinceramente: se você sabe que pode perder aquela pessoa numa data já determinada, não vai fazer todas as gracinhas para que isso não aconteça?

Mas se mesmo assim um se apaixonar por outra/o e ficar esperando ansiosamente pela data do fim do contrato para fazer as malas e se mandar, é porque não ia dar certo mesmo.

E nesse caso terá que pagar uma multa, exatamente como nos contratos de aluguel. Assim, com o dinheiro da multa, o que foi deixado poderá fazer uma viagem - a Foz do Iguaçu ou às ilhas gregas- e lá encontrar mais um verdadeiro amor de sua vida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ainda as prioridades públicas

Câmara de São Paulo corta verba para ações antienchente, mas não a de publicidade

A Câmara de São Paulo aprovou na terça-feira, em segundo turno, o Orçamento para 2010 com cortes nos recursos para combate às enchentes --como investimentos em áreas de risco e canalização de córregos--, mas manteve intacta a verba destinada à publicidade oficial.

A peça aprovada ontem, por 42 votos a 13, prevê receitas totais de R$ 27,9 bilhões, valor inferior ao apresentado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) --R$ 28,1 bilhões-- e ao aprovado em primeiro turno na semana passada (R$ 28,8 bilhões).

Entre os cortes feitos pelo relator Milton Leite (DEM) estão R$ 70 milhões para a canalização de córregos, R$ 1 milhão para áreas de risco e R$ 30 milhões para a coleta de lixo. Já a verba de publicidade, de R$ 126 milhões, foi preservada.

O corte nas verbas para ações antienchente ocorre num momento em que a cidade enfrenta, uma semana depois, os transtornos de um temporal ocorrido na terça-feira da semana passada. Ainda há ruas e casas alagadas em bairros do extremo leste de São Paulo.

Atendimento

A peça aprovada ontem reduziu, em relação à primeira proposta, R$ 15 milhões da verba destinada ao sistema da prefeitura encarregado do atendimento aos cidadãos. Hoje, a principal responsável pelo serviço é a Call Tecnologia, que está envolvida em escândalo no governo de José Roberto Arruda (DEM), no Distrito Federal.

O valor para o serviço caiu de R$ 45 milhões para R$ 30 milhões. A prefeitura já havia informado que a verba será usada para melhorar o sistema, mas não será necessariamente por meio de contratos com a Call.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Prioridades públicas

PREFEITURA NAO TEM PLANO CONTRA ENCHENTES

José Ernesto Credendio

Cidade de São Paulo não fez diagnóstico nem apresentou ações de prevenção como prevê lei federal que entrou em vigor há três anos

Município não tem projeto de drenagem e não mapeia áreas de risco desde 2003; neste ano, licitações só começaram em setembro

Passados três anos da entrada em vigor da lei que obriga os municípios a preparar planos de prevenção e combate a enchentes, com a previsão de obras necessárias a longo prazo, a Prefeitura de São Paulo não elaborou seu planejamento e realiza apenas ações pontuais nos locais mais críticos.

A lei federal 11.445, mais conhecida como marco regulatório do saneamento, prevê que as prefeituras façam um diagnóstico da situação, proponham soluções com outros órgãos -Estado e União- e ainda criem mecanismos para avaliar o resultado dos investimentos.

Cobranças

A falta do Plano Diretor de Drenagem para a cidade foi tema de seminário realizado em outubro pelo Instituto de Engenharia de São Paulo, do qual participou o secretário municipal de Infraestrutura e Obras, Marcelo Cardinale Branco.

O presidente do instituto, Aluizio de Barros Fagundes, faz uma dura cobrança de ações do poder público para amenizar os efeitos dos temporais. “É preciso pensar na água, no esgoto, na drenagem e no lixo como saneamento básico, é um conjunto. A obrigação [de gerenciar tudo] é do prefeito”, disse.

Neste ano, segundo a Secretaria de Obras, foram liberados R$ 180 milhões para projetos contra enchentes, mas grande parte das licitações só começou neste semestre. Desde setembro, a secretaria lançou ao menos 11 editais para contratar estudos, projetos e obras de ampliação de galerias, canalização de córregos, drenagem de ruas e construção de piscinões.

No primeiro semestre, não houve editais para obras importantes, mas em setembro começou a licitação para dois piscinões na área central -praça das Bandeiras e praça 14 Bis-, projeto herdado do governo Marta Suplicy (PT).


KASSAB SEPARA MAIS VERBA PARA PROPAGANDA

Na mesma semana em que a Câmara aprovou projeto que eleva o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para cerca de 1,7 milhão de imóveis da capital, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) aumentou em R$ 10 milhões a verba destinada à propaganda de seu governo.

O reforço foi feito nesta sexta-feira (4), por meio de remanejamento de verbas. O dinheiro extra para publicidade faz parte de um remanejamento maior, de R$ 17 milhões, que engloba itens de educação e operações urbanas.

A princípio, Kassab havia previsto para este ano um investimento de R$ 30,4 milhões para "publicações de interesse do município". Esse montante, porém, já foi ampliado pelo prefeito para R$ 76,3 milhões até o fim de outubro. Isso representa, no total, um crescimento de 142% na verba publicitária.


Negócio dos sonhos

TV aberta investe em programas assistencialistas
Rodrigo Russo

Mesmo sem renovar ideias ou formatos, os programas do fim de semana que apostam no assistencialismo --ou na solidariedade, como preferem se caracterizar-- estão se consolidando como um bom negócio para emissoras e anunciantes.

Atualmente, as três maiores emissoras de TV aberta do país --Globo, Record e SBT-- têm quadros desse gênero. "Caldeirão do Huck" (Globo), "Programa do Gugu" (Record) e "Domingo Legal" (SBT), com quadros que investem na mudança de casas e carros, se destacam neste cenário.

É quase uma sequência: como os programas de transformação têm bons índices de audiência, geralmente acima de dez pontos no Ibope, não faltam anunciantes e patrocinadores --ou parceiros, no linguajar das TVs. Com a boa audiência e bons patrocínios, justificam-se os investimentos das emissoras.

Atualmente, as três maiores emissoras de TV aberta do país --Globo, Record e SBT-- têm quadros desse gênero. "Caldeirão do Huck" (Globo), "Programa do Gugu" (Record) e "Domingo Legal" (SBT), com quadros que investem na mudança de casas e carros, se destacam neste cenário.

É quase uma sequência: como os programas de transformação têm bons índices de audiência, geralmente acima de dez pontos no Ibope, não faltam anunciantes e patrocinadores --ou parceiros, no linguajar das TVs. Com a boa audiência e bons patrocínios, justificam-se os investimentos das emissoras.

Aqui, aparece a primeira --e talvez principal-- diferença entre os quadros: o orçamento. Com estrutura mais modesta, o "Construindo um Sonho", apresentado por Celso Portiolli no SBT, tem nas parcerias com empresas o principal meio de financiar as reformas e garante média de oito pontos entre as 11h e 14h45 do domingo.

"Tem casa que sai de graça para nossa produção", conta Roberto Manzoni, o Magrão, diretor do "Domingo Legal". Estima-se que a reforma de uma casa ou apartamento não saia por menos de R$ 100 mil.

Para isso, usam das permutas: em troca da cessão de materiais, móveis e eletrodomésticos (às vezes também há algum suporte financeiro para mão de obra), o canal cita os fornecedores durante o quadro, além de incluí-los em uma extensa lista de agradecimentos.

Merchandising

Muitas vezes, as permutas evoluem para ações de merchandising, em que o anunciante também paga pela inserção de seu produto. É com base nesse modelo que funciona o "Lar Doce Lar", quadro apresentado por Luciano Huck em seu "Caldeirão" desde 2006. Neste ano, o programa tem média de 18 pontos no Ibope nacional, enquanto concorrentes de horário não chegam a dez.

Em breve conversa, o apresentador lembra de cabeça cinco parcerias, que vão de eletrodomésticos a móveis. Além disso, conta com a maior grife entre os concorrentes: o arquiteto Marcelo Rosenbaum, responsável por agregar conceitos funcionais às casas, geralmente entregues a classes mais baixas.

Com menor número de merchandisings, mas contando com maior orçamento da emissora, o "Programa do Gugu", que estreou no fim de agosto na Record e tem índices próximos de 12 pontos na audiência, com picos de 17, levou do SBT o formato que já usava, e trocou o nome para "Sonhar Mais um Sonho". Gugu também faz "De Volta pro Meu Aconchego", em que leva famílias carentes de volta para as cidades natais.

A diretora nacional de mídia da agência de publicidade F/Nazca, Lica Bueno, conta que esse tipo de quadro, visto com receio inicialmente por se concentrar em camadas populares, hoje tem grande aceitação no mercado. "A ação do patrocinador soa muito menos forçada do que em uma novela, já que há todo um contexto envolvido. Além disso, é sempre bom associar-se a melhoras significativas na imagem de uma casa."

"Quero mudar minha vida"

Mas por qual razão esses quadros cativam a audiência? Lica formula uma hipótese: "A frase 'quero mudar minha vida' tem grande penetração nas classes C e D, e esses programas são boa representação disso".
Ainda segundo ela, os programas são uma oportunidade de sonhar, de ter esperança de que a mudança aconteça também para o público --embora as chances sejam remotas.

"Nós devolvemos um pouco de vida e de dignidade para essas pessoas, especialmente para os mais velhos", diz Homero Salles, diretor de Gugu.

Para Luciano Huck, "o que menos importa é a reforma em si. Isso é uma ferramenta para contarmos boas histórias --o que todo mundo tem". Caso sejam dramáticas, melhor ainda --para o programa, os anunciantes e a audiência.


Gênero assistencialista comete crueldade, diz especialista

Apesar de se mostrarem ao público como atrações beneficentes, os quadros que envolvem transformações escondem a realidade da escolha dos personagens beneficiados, diz Laurindo Lalo Leal Filho, professor de comunicação da USP e ouvidor da TV Brasil.

Para ele, "há uma falsidade desses programas, que são cruéis na relação com o

público", pois as histórias têm que ter possibilidade de conquist

ar audiência, por meio de narrativa dramática e dramatúrgica.

"Esse é o verdadeiro critério de seleção", explica.

Roberto Manzoni, o Magrão, diretor do "Domingo Legal" (SBT), que promove o quadro "Construindo um Sonho", é o único envolvido nas produções a admitir que as escolhas são baseadas em dois critérios: devem ser boas para o programa, de forma a serem contadas na TV de forma atrativa e com mais emoção, e ao mesmo tempo atender com sucesso aos necessitados de uma mudança.

Este último critério, que sugere a meritocracia na seleção dos personagens e que é apontado como decisivo pelos outros dois grandes programas ("Caldeirão do Huck" e "Programa do Gugu"), também é questionado por Leal Filho.

"Tenho certeza de que a maior parte dos que se dispõem a escrever para esses quadros precisam, necessitam, de uma mudança. Mas, fora os escolhidos, todos os outros continuam a viver sem nenhuma atenção."

Ainda, Leal Filho destaca que, caso os programas realmente desejassem fazer caridade, deveriam ter um olhar mais amplo, dedicado a favorecer o maior número possível de candidatos _que não são poucos.

Em 2008, foram enviadas cerca de 300 mil cartas candidatando-se para receber a transformação de casas do Lar Doce Lar, apresentado por Luciano Huck. Desde 2006, foram feitas aproximadamente 40 edições desse quadro.

Assistencialismo "soft"

O professor da USP ressalta que o assistencialismo sempre fez parte da TV brasileira (leia quadro abaixo), mas que a diferença dos atuais quadros é uma certa sofisticação. "Hoje, não se dá mais uma cadeira de rodas, não se mostra a desgraça crua; há uma nova roupagem, com base na TV americana."

Com um relativo aumento do poder aquisitivo do telespectador, notado pelo acesso de classes mais baixas a alguns bens de consumo, houve a necessidade de adequar o conteúdo ao público da TV, diz Leal Filho.

Homero Salles, diretor do "Programa do Gugu", entende que hoje o sonho do carro está banalizado, mas a casa própria segue como o desejo de todas as classes sociais, e por isso o maior impacto na audiência.

Para ele, o programa não é assistencialista, mas solidário. Luciano Huck também rejeita o rótulo: "Tenho absoluta convicção de que não é assistencialismo. Nunca tripudiei do sofrimento de ninguém".

Leal Filho especula três motivos que prendem a atenção do telespectador: o voyeurismo, "uma vida cotidiana dramática e bem editada", a tendência de acompanhar dramas pessoais, em uma espécie de catarse, e, por fim, a falta de alternativas.






sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Filho único

Em seu novo livro, o psicanalista Francisco Daudt defende a criação dos filhos de acordo com as particularidades de cada um deles

Após um intervalo, Francisco Daudt, 61, autor de "O Amor Companheiro: a Amizade Dentro e Fora do Casamento" (ed. Sextante) e de outras quatro obras, volta novamente a atenção para crianças e jovens no recém-lançado "Onde Foi que Eu Acertei - O que Costuma Funcionar na Criação dos Filhos" (R$ 38, 240 pág., Casa da Palavra).

O psicanalista carioca aborda temas como a importância de criar filhos conectados consigo mesmos, capazes de respeitar seus desejos e de não depender demais da companhia dos outros, entremeados por dicas sobre aspectos práticos da vida cotidiana, como a importância da tabuada.

O sr. cita características que gostaria de ver em seus filhos, como a liberdade de pensamento, o senso de justiça e a independência. Qual considera mais importante?

FRANCISCO DAUDT - Ter capacidade de se formar como indivíduo e de ter critério. Foi por conta dessas capacidades que recebi o melhor elogio que um pai pode receber. Patrícia falava sobre colegas que faziam parte de tribos, que se drogavam, se tatuavam, quando disse: "Pai, você criou a gente para ter critério próprio e, sendo assim, a gente acha umas coisas interessantes em uma tribo e outras não interessantes, então nunca somos objeto de posse de uma tribo. A gente se conecta com pessoas escolhidas".


No trecho do livro sobre a construção da autoestima, o sr. passa a impressão de que isso é algo simples. É mesmo?

DAUDT - Não é. A autoestima vem de fora. Você não pode pegar um desenho pouco caprichado e dizer que está lindo. Por causa da autoestima, precisa ser honesto sem ser ofensivo. Se disser que está lindo, a criança, que tem uma percepção do que é genuíno, vai ficar desconfiada. Ela vai tomar porrada fora de casa e vai achar que só pode viver em casa, onde todos acham lindo o que ela faz. Outra coisa é o reconhecimento. A criança tira nota dez e o pai diz que ela não faz nada mais que a obrigação. Não pode só apontar defeito, sem reconhecer qualidade.


Outro ponto que o sr. frisa no livro é a construção da vontade. Por que ela é necessária?

DAUDT - No meu tempo de criança, para conseguir alguma coisa do meu pai era um drama. Eu pedia R$ 10 e ele fazia cara de quem tinha levado uma facada no peito. Isso estimulou nossa independência financeira. Hoje, há uns pais doidivanas que, antes de a criança querer um computador, já compram o computador, o laptop, o iPod. A criança não quis nada nem pediu nada e não dá um caracol por aquelas coisas.
Fica uma criança sem vontade, sem garra, sem ambição, porque tudo cai do céu. Chega na adolescência, imagina se vai ter projeto de médio prazo, se vai poupar para comprar algo que ela ambiciona... Não. Ela está prisioneira do imediatismo e isso é um estímulo para o consumo de drogas.


O sr. dedica um bom espaço a temas da vida prática, como a necessidade do celular, as vantagens da tabuada etc. Por que quis abordar esses temas? Os pais estão perdidos na criação dos filhos?

DAUDT - Quis chamar a atenção para a vida real. Na geração dos meus pais, as casas não tinham piscina, os móveis eram pesados e tinha grade na janela. Quando me dei conta de que a possibilidade de uma criança morrer numa piscina é cem vezes maior do que por arma, fiquei horrorizado. Estamos progredindo em segurança e a pior coisa é que criança morre porque é frágil, então a prioridade é mantê-la viva, introjetar nelas o conceito de segurança.


Existe uma idade, na infância, a partir da qual é difícil "reverter" uma criação malfeita?

DAUDT - Cinquenta por cento do que somos nasce conosco. E 50% vem da tal criação única, que consiste em ter atenção especial para o filho entender o que ele é e se guiar por isso.


O sr. não atende adolescentes. Eles o aborrecem?

DAUDT
- Pela falta de capacidade de verbalização. Um adolescente que a mãe empurrou para a terapia é um "aborrecente", mas os meus não, porque tive consideração por eles sempre. Se me viram usar a autoridade do saber antes da da força, não têm por que serem rebeldes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A função cultural das privadas


"Em tempos difíceis, em algumas pessoas crescem asas; outras compram muletas."

Quando vivi nos EUA, me informaram de uma revista científica que só publicava palpites não comprovados ainda por meio de pesquisas. A diferença entre artigos já provados e palpites é simples. Artigos já provados enunciam conclusões, chegadas, descansos. Palpites anunciam partidas, caminhadas, canseira...

Sugestões de adesivos para colocar em carros: "Você tem direitos; procure sempre um advogado"; "Você tem avessos; procure sempre um psicanalista...";

"Sem advogado não se faz justiça..."; "Os advogados, se quiserem, podem contribuir para a realização da justiça...".

Jay W. Forrester, professor de administração do MIT, enunciou a seguinte lei das organizações: "Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas". Essa lei foi enunciada há 2.000 anos de forma mais simples e poética, que todos podem compreender: "Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes" (Jesus).

O livro sagrado do taoísmo, o "Tao-Te-Ching", diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10 mil coisas que demandam ação. Todas não essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10 mil perturbações. Sabedoria é deixar o sufoco das 10 mil coisas não essenciais e focalizar os olhos na única coisa que é essencial.

"Paraíso" -jardim- é uma palavra que deriva do grego "paradeisos", que, por sua vez, vem do antigo persa "pairidaeza", que quer dizer "espaço fechado". Jardim é um espaço fechado. Por que fechado? Para ser protegido. Para que seja nosso.

Fora dos muros que fecham o jardim está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e beleza que mora nos seres humanos.

Política é a arte de criar esse espaço.

Política é a arte da jardinagem aplicada ao espaço público. Deixando de lado as 10 mil coisas a serem feitas, a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a convivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório. Não ficou claro? Explico.

Mais importante que cem fechaduras é a única chave que as abre...

Já pensaram que, mais importante que as 10 mil coisas administrativas que podem ser feitas, a tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar? O Diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema: "Ordena que essas pedras se transformem em pães...". Jesus respondeu que o que realmente importava eram as palavras...

"Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade." (Raul Seixas) É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas para se tornar realidade. É o essencial.

Escrevi, faz tempo, uma crônica com o título "A função cultural das privadas". Conversando sobre o assunto com uma amiga, tivemos uma ideia luminosa: e se as empresas passarem a colocar, na porta diante dos tronos, trechos literários curtos, para serem lidos pelos intelectuais assentados? Muitas experiências de iluminação científica surgiram em momentos de solidão meditativa.


RUBEM ALVES

domingo, 6 de dezembro de 2009

A vida é contagiosa


Para cientistas,
ela se espalha de maneira contagiosa;

o mesmo vale para felicidade,

solidão e
até hábitos sexuais



É cruel: se você quer emagrecer, talvez o melhor a fazer seja dizer aos seus amigos gordos que fiquem longe. Porque um único grande amigo gordo aumenta em 57% as suas chances de engordar, segundo os cálculos de cientistas sociais americanos. A obesidade, dizem, espalha-se de maneira tão contagiosa quanto um vírus.

Não só ela, na verdade. O mesmo acontece com a felicidade, a agressividade, o hábito de fumar, a solidão.

Alguns exemplos podem ser até chocantes. Quando surge entre uns poucos adolescentes populares a noção de que o sexo oral é socialmente aceitável, é provável que o hábito se espalhe rápido entre os outros, dizem Nicholas Christakis e James Fowler, cientistas sociais de Harvard e da Universidade da Califórnia, respectivamente.

Justamente pelo fato de as pessoas serem influenciáveis, suas decisões não são sempre racionais. Comportamentos são adotados só porque todo mundo os adota também. Os economistas erraram, diz a dupla, que está lançando um livro sobre o assunto no Brasil -"O Poder das Conexões", pela editora Campus-Elsevier.


Você engorda, eu engordo

"Os economistas acham que as pessoas têm desejos e então tentam maximizá-los. Mas de onde surgem os desejos? Por que você quer uma BMW e não uma Mercedes? Eles vêm, com frequência, de outras pessoas. Somos influenciáveis. Tentar entender grupos entendendo apenas os indivíduos é estúpido", diz Christakis.

Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que as conexões sociais fossem poderosas. É óbvio que humanos são, de alguma maneira, influenciados por quem está ao redor. Mas não se sabia que era tanto -e nunca foi possível calcular algo assim. Como quantificar?

O ideal seria acompanhar um grupo grande de pessoas que se relacionassem ao longo de décadas. Aí, observar como tendências surgiam e se espalhavam dentro dele.

Christakis achou algo assim em 2002, em um cidade americana cheia de brasileiros -gente de Governador Valadares (MG), em especial.

Trata-se de Framingham, em Massachusetts, hoje com pouco mais de 60 mil habitantes. Desde 1948 pesquisadores preenchem, ano após ano, um monte de formulários sobre como anda a vida de boa parte deles. Queriam saber desde peso até hábitos alimentares. Mais de 15 mil pessoas de três gerações já participaram.

A ideia, inicialmente, era estudar quais hábitos propiciavam doenças cardíacas. Mas os pesquisadores tinham medo de que as pessoas mudassem de endereço, fazendo com que não pudessem mais ser encontradas. Por isso, pediam a todos que fornecessem os nomes dos seus amigos mais próximos, que poderiam dizer onde é que eles tinham se metido.

O que Christakis percebeu, portanto, é que, mesmo que não tenha sido projetado para isso, o estudo era um banco de dados perfeito para saber como certas características se espalhavam entre as pessoas ao longo do tempo.

Na análise, descobriram que um amigo obeso aumenta em 57% as suas chances de também ficar gordo. Mesmo amigos magros com conhecidos gordos influenciam seu peso.

Como em 1948, quando os dados começam, existiam bem menos gordos nos EUA, é possível perceber a epidemia da obesidade surgindo. Fica nítido, dizem os cientistas, que as pessoas engordam em grupos. Um piscar de olhos e todo um círculo social fica pesado.

Isso acontece porque são as pessoas mais próximas a você que criam a sua noção de normal e de bizarro.

Ou seja, amigos de gordos não ficam gordos porque comem junto com eles. Ganham peso porque, influenciados, aos poucos passam a parar de ver problemas em se alimentar mal nas suas próprias casas.

O contrário também é válido: vire uma modelo, mude de amizades e entre em um mundo repleto de magreza. Qualquer dobra mínima na barriga vai parecer uma questão de vida ou morte -você fará um enorme esforço para acabar com ela.


Tristeza não tem fim?

Aos poucos, Christakis e Fowler foram percebendo que as suas conclusões não valiam apenas para a obesidade. A felicidade, por exemplo, também foi estudado pela dupla. Cada amigo feliz aumentava em 15% a chance de que alguém também se declarasse feliz.

A infelicidade, claro, também é contagiosa. Tenha, então, uma meia dúzia de amigos tristes e será improvável que você consiga sorrir muito.

O ambiente ao redor, então, é fundamental para moldar o que alguém é. Ao ser questionado se isso faz com que os genes não sejam tão importantes, Christakis diz que não.

"Pode haver uma base genética mesmo para a quantidade de amigos que você tem ou para o quanto você está no centro da sua rede social. Algumas pessoas nascem tímidas e outras muito sociáveis, por exemplo."


Ricardo Mioto

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Olímpiadas no Rio


UMA GRANDE HIPOCRISIA

Alberto Murray Neto


A DECISÃO do Comitê Olímpico Internacional foi indigna. Mais do que isso, foi hipócrita. Tentaram fazer história à custa do desespero dos pobres. Não acredito que haja no COI alguém que ignore os gravíssimos problemas sociais do Brasil.

Se essa pessoa existe, não merece estar lá. Ou melhor, merece, sim.

Quem achou que fez história ao “dar os Jogos à América do Sul, em razão de seu caráter universal”, não pensou no movimento olímpico. Pensou em si mesmo e nos próprios interesses. Daí a hipocrisia.


O Brasil e o Rio são carentes de tudo. Não há escolas, hospitais, moradia, transporte público, alimentação para os pobres, luz elétrica, saneamento básico, esporte etc. As pessoas continuam morrendo de sede, de frio, de bala perdida etc.

O Rio é a porta de entrada para o Brasil, o que nos dá visibilidade no exterior. A cidade tem tido a má sorte de, há anos, ser maltratada por políticos incompetentes e mal-intencionados.

Se alguém acha que daqui a sete anos o Rio estará livre dos traficantes de droga e dos tiroteios, que o trânsito será fantástico, que haverá hospitais de qualidade, escolas públicas de excelente nível para todas as crianças, praças esportivas populares espalhadas pela cidade, pessoas morando condignamente, só para citar alguns exemplos, escolha uma bela praia e espere deitado. Para não se cansar.

Nada, rigorosamente nada vai mudar. A baia da Guanabara, por exemplo, vai permanecer um dos locais mais poluídos do mundo. Bela, mas de cheiro insuportável. Uma coisa, na cabeça dessa gente, é certa: o povo, pobre povo do Rio de Janeiro, que se lixe!

Tudo isso é assunto que deverá ser acompanhado de perto. Sei que gente boa do Rio criou algumas ONGs para fiscalizar o uso do dinheiro público.

Que elas trabalhem muito e façam o papel que os organizadores não terão coragem de fazer.
Que essas ONGs escancarem os números, as licitações públicas e quem estará por trás de cada empresa vencedora -isso quando houver a tal licitação. Que o TCU e o Ministério Público não se apequenem e cumpram o seu papel constitucional.

População carioca, assim que a festança acabar, cobre, fique de olho. Não se deixe enganar. Quero ver a patota olímpica fazer em sete anos o que já deveria ter sido feito há mais de 20.
Ainda assim, acho que os atuais administradores do esporte olímpico devem sair.

A renovação, salutar em quaisquer circunstâncias, deve ser feita com muito mais razão, até para dar maior transparência ao que ocorrerá à partir de agora. Se permanecerem os mesmos, o final da história já se sabe. Basta ver o Pan e multiplicar por mil o tamanho do escândalo.

Que venha a lei que limita as reeleições indefinidas, já valendo para os atuais mandatários. Já que o COI cometeu essa ignomínia, que se ponha gente do bem para administrá-la.

Nada do que foi escrito e falado sobre a candidatura por quem a ela se opôs é inútil. Tudo, agora com muito mais razão, deverá ser aplicado e observado. A doutrina olímpica da honestidade vai sempre prevalecer.

Venceram, pela coragem do que disseram, tantos e tantos nomes da imprensa, do esporte e da sociedade civil criticando essa manobra olímpica. Que todos continuem seu belo trabalho de fiscalização, agora redobrado.

As obras olímpicas serão muito mais caras, haverá denúncias, escândalos, atrasos nas construções e, acima de tudo, não vão entregar o que prometeram.

Aqueles que gravitam no entorno do movimento olímpico brasileiro vão ficar ouriçados. Viva a agência de turismo! Bravo para a corretora de seguros! Estupendo para a empresa que comercializa os ingressos! E a empresa de marketing esportivo, que vibre muito!

As construtoras vão dividir a fatia do bolo? Vai ter construtora falida reerguendo-se à custa desse projeto megalômano? Haverá licitações públicas? Os fornecedores de serviços terão que contratar “consultorias” de terceiros estranhos ao negócio?

Disseram aos brasileiros e aos cariocas que os Jogos Olímpicos seriam a solução dos seus problemas. “Olimpiator Tabajara”, seus problemas acabaram. O Nuzman agora vai virar o “Seu Creysson”.


ALTO RENDIMETNO

Renata Lo Prete


Apontado pelo TCU como um dos responsáveis por superfaturamentos no Pan-2007, cujos processos ainda tramitam no tribunal, o funcionário do Ministério do Esporte Ricardo Leyser Gonçalves cuidará agora das obras do Rio-2016.

Leyser é hoje um dos homens fortes na estrutura do PC do B. Chegou ao poder público na administração de Marta Suplicy (PT) em São Paulo, como chefe de gabinete da então secretária de Esportes, Nádia Campeão. Na época, coordenou reforma no autódromo de Interlagos para o GP de F1.


Instalado na Esplanada, Leyser continuou a gerenciar orçamentos e contratos com empreiteiras. A preparação para a Olimpíada envolverá investimentos da ordem de R$ 26 bilhões.

Contas 1. De janeiro a agosto deste ano, Leyser usou R$ 230 mil em diárias de viagens -há casos de viagens que ultrapassam R$ 80 mil.

Contas 2. O TCU também investiga contratos do Ministério do Esporte firmados sem licitação. Um deles é com a FIA (Fundação Instituto de Administração), que elabora estudos de impacto econômico. Entre 2008 e 2009, a entidade faturou R$