sábado, 28 de novembro de 2009

Adultos infantilizados

A infantilização do consumidor é peça chave do espírito do capitalismo atual


DURANTE O feriado, nos cinemas, só dava "Lua Nova", de Chris Weitz, "2012", de Roland Emmerich, e "Os Fantasmas de Scrooge", de Robert Zemeckis. Claro, havia outros filmes, mas meio que perdidos na programação.

Imaginemos que você preferisse ler um romance e consultasse a lista dos mais vendidos. Você encontraria cinco títulos de Stephenie Meyer (a autora da saga de vampiros, cujo segundo volume inspira o filme "Lua Nova"), dois volumes dos "Diários do Vampiro", de L. J. Smith, e, no fim, "O Pequeno Príncipe".

Ora, assisti a "Os Fantasmas de Scrooge" (não perderia um filme de Zemeckis, o diretor de "Forrest Gump") e achei excelente; vi de óculos, em 3D, deleitando-me com a atmosfera encantada: como disse uma menina, nevava na sala de cinema. Não vi "Lua Nova", mas gosto da saga de Meyer, sobre a qual escrevi nesta coluna, assim como escrevi sobre o primeiro filme da série, "Crepúsculo". Além disso, aposto que me divertiria com a fantasia catastrófica de "2012"; Emmerich já me divertiu com "Independence Day". Enfim, tenho uma lembrança comovida de "O Pequeno Príncipe".

Então, por que me queixaria dessa preponderância de filmes e livros obviamente infantojuvenis? Não me queixo, apenas constato: nas salas de cinema ou nas livrarias, aparentemente, os adultos devem ser uma pequena minoria, com a exceção, é claro, dos que acompanham suas crianças ou as presenteiam com livros. Estou sendo irônico: é claro que os grandes consumidores de filmes e livros infantojuvenis só podem ser os adultos.

Domingo, um amigo editor me explicava, justamente, que o filé mignon atual são os "crossovers", ou seja, as obras que "atravessam", que seduzem tanto as crianças quanto os adultos. O best-seller e o blockbuster ideais são histórias supostamente para crianças e adolescentes, mas capazes de conquistar os leitores e os espectadores adultos.

Se consultarmos a lista dos livros mais vendidos de não ficção, a conclusão é a mesma. Como assim? Os ensaios não são o domínio reservado e sisudo dos adultos? Artifício: o sucesso dos livros de autoajuda forçou os jornais a separá-los dos de não ficção, mas, de fato, os mais vendidos de não ficção são os livros de autoajuda. Ora, o texto de autoajuda se relaciona com o leitor como com alguém que precisa e prefere ser guiado, orientado, ajudado a pensar, decidir e agir, ou seja, relaciona-se com o leitor como com uma criança.

Pois bem, Benjamin Barber, no seu novo livro, "Consumido - Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos" (Record), apresenta a infantilização do consumidor não como um acidente cultural momentâneo, mas como a peça chave do espírito do capitalismo contemporâneo.

Barber é convincente e divertido: chegaram os "kidadults", os "criançultos". O drama do dia não é que as crianças sejam alvo do mercado, mas que o mercado esteja transformando os adultos em crianças.

Por que o mercado prefere lidar com "criançultos"? E o que nos predispõe a sermos infantilizados? Uma breve hipótese. Houve, sobretudo a partir da segunda metade do século 20, uma explosão de um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, um amor feito de esperanças e expectativas monstruosas (as crianças serão o que quisemos e não conseguimos ser, nada lhes faltará). Esse tipo de amor parental cria consumidores ideais: por exemplo, indivíduos com pouquíssima tolerância à frustração (e alergia à própria ideia de que algo seja difícil ou, pior, impossível) e com uma imperiosa necessidade de satisfação imediata (e alergia a tudo o que posterga: preparação, estudo, reflexão, complexidade, poupança).

Alguém dirá: e daí, qual é o problema? Exemplo. João quer ser rapper na África do Sul e gasta, impulsivamente, o décimo terceiro da mãe na roupa certa para se parecer com seus ídolos. Para ser rapper na África do Sul, talvez fosse mais urgente que ele estudasse inglês seriamente. Mas essa observação poderia entristecer João. Melhor deixá-lo sonhar e confundir sua mascarada com o começo da realização de seu desejo; afinal, ele é feliz assim, não é? Pois é, suposição errada: quem cresce sem nunca se deparar com o impossível ou mesmo com o difícil, acaba, mais cedo mais tarde, vivendo no desespero. Por quê? Simples (como um filme para crianças): ele só consegue atribuir seus fracassos ao que lhe parece ser sua própria impotência.

Contardo Calligaris



2012 Retardados

O filme "2012", de Roland Emmerich, é um lixo da geração Obama.


Filmes-catástrofe são fracos, servem para tardes chuvosas de domingo, recheados com cama, chuva e preguiça, ao lado de alguém com quem você gosta de ficar na cama abraçado. Além, é claro, do fato de que o ano "fatídico" 2012 é uma maldição do povo maia, essa "grande civilização" que fazia sacrifícios humanos.

Além dos clichês mais banais de filmes-catástrofe (cientistas bonzinhos, autoridades malvadas, presidentes americanos solidários, famílias despedaçadas que se reúnem em meio ao caos, vinganças da deusa natureza contra o dinheiro -aquele mesmo que todo mundo quer no bolso), "2012" acrescenta a palhaçada do politicamente correto. Isso sim é o fim do mundo.

Leitores me perguntam por que essa palhaçada me irrita tanto. Respondo: porque é coisa de retardado.

Nós não vamos morrer todos afogados em grandes ondas do mar, nem em labaredas vulcânicas, nem com a gripe da porca (H1N1). Nosso espírito sim vai sufocar sob a bota do fascismo retardado do politicamente correto.

Sempre temo que, sem Clint Eastwood, o cinema dos Estados Unidos afunde na "catatonia do bem" retardado.

Como essa "catatonia do bem" piora o já terrível "2012" (cheio de interpretações sofríveis, salvo o "profeta" Woody Harrelson, roteiro sem pé nem cabeça, soluções ridículas para os personagens)?

Antes de tudo, vale salientar que a temática apocalíptica tem seu peso no imaginário. A ideia do fim do mundo espreme os seres humanos contra a força de questões essenciais como "o que fizemos com nossas vidas?", "como chegamos a essa situação?", "como perdemos tanto tempo com bobagens?".

É aí que o retardamento mental do politicamente correto estraga tudo: ele responde as questões de uma forma mais infantil do que cartinhas de crianças para o Papai Noel. E a força do drama humano se dissolve no ácido da estupidez.

É claro que o cientista bonzinho é um anjo negro. Não o anjo negro do Nelson Rodrigues, que tem as vísceras de quem de fato sofre e de quem padece da maldição de ser homem, mas o anjo negro da geração Obama, cujos intestinos digerem não o bolo alimentar, mas as flores e as virtudes santas.

Ao contrário dos cientistas reais que correm atrás de dinheiro para pagar suas pesquisas e fazem qualquer negócio pra consegui-lo (com razão), esse se preocupa apenas com os pobres, claro, apenas os pobres dos países do G8.

O presidente, outro anjo negro, morre procurando o pai perdido de uma criancinha chorona. Sua filha (diga-se de passagem, uma deusa africana), só se preocupa com a salvação da arte universal.

A namoradinha do magnata russo canalha, que o trai com seu piloto particular (mas tudo bem...), em meio à destruição do mundo, confessa a outra mulher santinha: "Foi meu namorado quem me obrigou a pôr silicone, eu não queria". Mentira: qualquer pessoa não retardada sabe que as mulheres colocam silicone para que as outras invejem seus seios e para seduzir os homens, e não porque seus namorados as obrigam.

Evidentemente que os namorados usufruem, graças a Deus, e elas ficam mais bonitas e felizes.

O único "bad guy" (bandido) é um gordo branco preocupado com dinheiro, como todos nós. Mas claro que, no novo mundo dos retardados do bem, ninguém quer dinheiro, por isso a pérola que o anjo negro da ciência do bem diz: "Não devemos começar um mundo novo assim".

O mundo acaba. Os continentes afundam, menos a África, que, em vez de afundar, se ergue. Ora bolas, a África é o berço da humanidade, até faz sentido. Mas o mais importante é que, na geopolítica dos retardados, a África é o continente onde todo mundo é legal e vítima dos malvados brancos.

E aí vem o pior. Imagine um "loser" (fracassado), um escritor falido que ganha a vida sendo motorista de limusine. Agora imagine que ele ainda ama sua ex-esposa (a outra mulher santinha que citei acima). Imagine que essa ex-esposa o trocou por um médico bem-sucedido! Agora adicione o fato de que seu filho o despreza e adora o novo marido médico bem-sucedido da sua mãe. Depois imagine que, em meio ao fim do mundo, esse filho pentelho diz para o pai "loser": "Você deveria dar uma chance ao Gordon [nome do marido médico de sua mãe], ele é bem legal". E aí o infeliz marido trocado responde: "Eu vou tentar, meu filho".

No dia que um homem, nessa situação, concordar com um papo furado desse, de um filho pentelho, aí, sim, o mundo acabou.

Luiz Felipe Pondé

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ato médico


"Ato médico" cria polêmica entre profissionais da saúde

CLÁUDIA COLLUCCI
MÁRCIO PINHO

Médicos e outras categorias da área da saúde vêm travando uma queda-de-braço desde o último dia 21 de outubro, quando a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei conhecido por "ato médico" e que agora tramita no Senado.

Pelo projeto, apenas médicos estão autorizados a diagnosticar doenças e prescrever tratamentos. As outras 13 categorias da área da saúde, não.

Fisioterapeutas, biomédicos, enfermeiros e psicólogos, entre outros, afirmam que perderão sua autonomia de atuação caso o projeto seja aprovado e sancionado pelo presidente Lula.

A versão é rebatida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina). O órgão alega que a lei preencherá uma lacuna ao regulamentar o exercício da medicina, definindo os atos privativos dos médicos e resguardando as competências específicas das 13 profissões.

No entanto, para Gil Almeida, presidente do Conselho de Fisioterapia do Estado de São Paulo e integrante do movimento "Ato Médico Não", esse "resguardo" é vago e vai gerar discussão na Justiça.

Ele afirma que a lei proposta engessará o desenvolvimento das profissões e poderá dificultar o acesso à saúde caso seja instituída uma triagem médica.

Pesquisadores da área da saúde pública entendem que é legítimo o projeto definir as competências exclusivas dos médicos, mas veem corporativismo. "Para os idosos, os doentes crônicos, é impossível a gente pensar em cuidado integral sem a colaboração de uma equipe multidisciplinar", diz Lígia Bahia, professora de saúde pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na avaliação de Luís Eugênio Fernandes de Souza, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, as disputas são legítimas, mas o que está em jogo é uma reserva de mercado. Ele diz que não é interesse da sociedade nem viável economicamente a definição estrita de atribuições para cada profissão.

"Temos uma série de programas de saúde pública, como o da hanseníase, para os quais existem protocolos bem definidos em que outros profissionais da saúde podem fazer, inclusive, a prescrição de medicamentos. Se o projeto proíbe isso, vai criar um obstáculo. E os pacientes de cidades que não têm médico? Deixarão de ser atendidos?", questiona.

Souza lembra que há uma má distribuição de médicos no país. "No interior da Bahia, tem prefeitura que precisa de médico, oferece salário de R$ 17 mil e não encontra profissional."

Na opinião do desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Erickson Gavazza Marques, a prioridade deve ser sempre o atendimento à pessoa. "Nosso objetivo não é ser guardião de profissão nenhuma. Se o médico não é capaz de prestar determinado serviço, não há razão para que outros profissionais não possam prestar a assistência desde que isso esteja bem regulamentado."


Falsa polêmica

Segundo o presidente do CFM, Roberto d'Ávila, "no mundo todo", o que caracteriza a profissão médica é o diagnóstico e o tratamento de doenças. "É só isso que queremos garantir. Está no senso comum, na história da medicina. O resto é falsa polêmica. Não há nada de corporativismo."

Ele diz que em relação aos programas de saúde que envolvam doenças crônicas -em que enfermeiros prescrevem remédios, por exemplo-, nada vai mudar. "O paciente só precisa fazer o diagnóstico e receber a primeira receita do médico."

Ávila afirma que há gestores públicos que vêm delegando competências médicas a outros profissionais para baratear o custo da saúde. "Há equipes de saúde sem médicos, onde enfermeiros e outros profissionais estão fazendo diagnósticos, prescrevendo. Isso é inaceitável. Lutamos por equipes completas, multidisciplinares, onde cada um tenha sua função específica", diz ele.


Psicóloga diz que "ato médico" é retrocesso

O projeto de lei conhecido por "ato médico" representa um retrocesso pois vai contra o princípio da integralidade das diferentes profissões da área da saúde, segundo a diretora-secretária do Conselho Federal de Psicologia, Clara Goldman Ribemboim.

Folha - Como vê o projeto?

Clara Ribemboim - Ele limita a autonomia das profissões e as transforma em ilhas. Preconiza que o diagnóstico e a prescrição terapêutica são prerrogativas exclusivas do médico. É um retrocesso e coloca em risco o cuidado integral à saúde preconizado pela Constituição federal para o SUS.

Folha - Há uma ideia de que a medicina é superior?

Clara - Existe uma visão de supremacia do saber médico em relação às outras. Porém, cada profissão traz sua colaboração na promoção da saúde, e o médico sozinho não domina todo o conhecimento.

Folha - Os médicos poderiam exercer funções características das outras profissões?

Clara - O que está em jogo não é o fato de os médicos exercerem as outras profissões. O que esse projeto visa é o monopólio do encaminhamento e da chefia dos serviços. Vai atravancar o processo de atendimento e teremos uma falência do SUS.

Folha - E quanto à chefia dos serviços apenas por médicos?

Clara - Os serviços médicos não são serviços onde só o médico atua. Temos exemplos na atenção básica de serviços multiprofissionais chefiados por diferentes profissionais.



Para médico, lei de saúde protegerá a sociedade

Para o vice presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Carlos Alberto Fernandes Ramos, a regulação de atividades relacionadas à saúde é positiva para a população pois irá garantir que, quando o assunto for uma doença, o atendimento seja feito por um profissional que estudou a fundo esse tema: o médico.

Folha - Por que o projeto é necessário?

Carlos Alberto Ramos - São 14 as profissões de saúde e só uma não está regulamentada: a medicina. Esse projeto vai dizer as competências do médico, as exclusivas e as que pode fazer como os outros.

Folha - Que benefício traz?

Ramos - Isso tem que ser feito para proteger a sociedade de eventuais inescrupulosos que realizem atos específicos da medicina. Ou ainda porque o médico estudou de forma extensa e mais aprofundada as doenças, seus efeitos, tratamentos, interações medicamentosas etc.

Folha - As outras categorias são marginalizadas?

Ramos - O projeto não as torna subalternas. Elas deverão apenas se ater aos limites citados por suas próprias leis. O médico não sabe fazer trabalhos de outras áreas e não vamos interferir nisso.

Folha - Essas leis são antigas, genéricas?

Ramos - Às categorias compete atualizá-las.

Folha - E quanto à chefia de serviços médicos?

Ramos - Estamos falando de serviço médico, não de saúde. Um médico na chefia resguarda o cumprimento do Código de Ética.




Médicos não criaram todas essas restrições
HÉLIO SCHWARTSMAN

É verdade que, em relação ao projeto original, de 2002, a atual proposta de regulamentação do ato médico é quase republicana: psicólogos, dentistas, fonoaudiólogos etc. não estão mais impedidos de fazer os diagnósticos necessários à sua profissão. Não obstante esse significativo avanço, o PL nº 7.703/06 permanece escandalosamente corporativista.
Apenas a ânsia por tentar estabelecer a maior reserva de mercado possível explica a existência de dispositivos que tornam a colocação de piercings e a aplicação de tatuagens atos privativos de médicos.
Foram com tanta sede ao pote que produziram uma piada involuntária, ao tornar o sexo uma zona restrita: segundo o art. 4º, pár. 4º, III, "a invasão dos orifícios naturais do corpo" é prática exclusiva da classe.
Na mesma linha de irrazoabilidade vai o art. 5, que proíbe não médicos de chefiar serviços médicos ou de lecionar disciplinas médicas. Dependendo de como a norma for interpretada, inviabiliza-se a função de administrador hospitalar.
Diga-se em favor dos médicos que não foram eles que criaram todas essas restrições. Eles só reproduziram dispositivos constantes das regulamentações profissionais das categorias que agora se queixam do corporativismo médico.
O problema, no fundo, são as raízes fascistas que permeiam a sociedade brasileira. As pessoas não se veem como cidadãs de uma República, mas como representantes de um segmento social que seria detentor de direitos naturais. O que se busca é inscrever em lei as reivindicações decorrentes desses "direitos" e esperar que o Estado as implemente. Viramos o país das corporações.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As drogas e o crime organizado

Klaus von Lampe: uma medida de pó

Euclides Santos Mendes, do jornal Folha de S.Paulo

O crime organizado é um “governo do submundo”, defende o pesquisador alemão Klaus von Lampe. Ele é autor do livro “Crime Organizado” (publicado na Alemanha em 1999).

Professor de justiça criminal na Universidade da Cidade de Nova York (EUA) e um nomes mais respeitados em sua área, Von Lampe estuda a formação e a atuação do crime organizado, sobretudo na Europa. Em entrevista à Folha, ele diz que a violência desencadeada pelo crime é parte de um fenômeno que perpassa alianças, disputas e interesses entre grupos criminosos e também parcelas da elite social.

“Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais”, afirma. Reduzir o poder do crime organizado -que chegou a derrubar um helicóptero da polícia, no Rio Janeiro – segundo Von Lampe, depende de ações que partam do Estado e da sociedade.

Ele ainda defende, na entrevista abaixo, a descriminalização controlada das drogas, o que, diz, poderia reduzir o tráfico e seus custos sociais.

Folha - A legalização do uso de drogas é uma medida eficaz para combater o narcotráfico?

Klaus von LampeEm primeiro lugar, não acho, por várias razões, que uma legalização total de todas as drogas seja praticável. O que é mais viável é a descriminalização, juntamente com um alto nível de regulação. Em segundo lugar, o número de consumidores, o impacto negativo sobre eles, os custos sociais do uso de drogas e o volume do tráfico poderiam ser reduzidos significativamente fornecendo o acesso legal às drogas atualmente ilegais. Todas as pesquisas sobre os efeitos da oferta controlada de drogas aos consumidores -como a heroína dada aos viciados em heroína- indicam que isso apresenta mais vantagens que desvantagens.

Folha - Que drogas dão mais dinheiro ao crime organizado?

Klaus von Lampe - Depende do fornecimento, da demanda e dos traficantes de drogas. Quanto mais elevados são a intensidade da aplicação da lei e os custos de transporte, mais elevado será o valor por unidade. Por isso os traficantes colombianos trocaram a maconha por cocaína quando os EUA intensificaram os esforços contra o contrabando na região do Caribe. A maconha era, simplesmente, muito volumosa.

Folha - O que sustenta o fluxo do tráfico de drogas?

Klaus von Lampe - Oferta e procura, e também um número justo de coincidências entre os meios de transporte, os contatos pessoais, as preferências e as habilidades dos traficantes.

Folha - No Brasil, organizações como o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e o Comando Vermelho, no Rio, agem mesmo com vários de seus líderes presos. Como o sistema carcerário e a legislação penal contribuem para o fortalecimento do crime organizado?

Klaus von Lampe - Há diversos exemplos, historicamente, de organizações criminosas (e, de forma geral, de redes criminosas) que estão sendo formadas dentro das prisões. Isso não é uma surpresa, a prisão é um lugar de encontro para pessoas que pensam de modo parecido. O fenômeno das gangues nas prisões parece ter relação, em parte, com superlotação e conflitos entre os detentos. A solução óbvia seria reduzir a superlotação nas prisões, procurando alternativas ao aprisionamento e/ou expandindo as capacidades do sistema carcerário.

Folha - Qual deve ser a responsabilidade do Estado no combate às organizações criminosas?

Klaus von Lampe - É importante que a pressão na aplicação da lei em criminosos seja elevada. A polícia precisa de determinadas ferramentas de investigação para ser eficaz. Além dos meios repressivos, a polícia e a sociedade devem desenvolver medidas preventivas contra a logística de grupos criminosos, reduzindo as oportunidades para o crime organizado e para os criminosos se estabelecerem e manterem contatos com outros criminosos.

Folha - Sua tese de doutorado trata do conceito americano de “crime organizado”. Como nasceu o crime organizado nas sociedades modernas? A vida urbana foi fundamental para isso?

Klaus von Lampe - Eu examinei o conceito de crime organizado, que foi consistentemente usado no discurso político sobre o crime desde 1919, começando em Chicago [EUA]. Mas ele não é confinado necessariamente aos ambientes urbanos.

Folha - Em áreas dominadas pelo tráfico de drogas em cidades como o Rio de Janeiro, organizações criminosas têm influência na comunidade local. Pode haver mudanças na percepção social do crime dentro e fora da área controlada?

Klaus von Lampe - Traficantes de drogas controlando um território são um problema que, acho, precisa ser visto sob diferentes ângulos. É preciso focar membros individuais, a gangue e seus símbolos, o contexto situacional de lugares de encontro, o transporte, o armazenamento e a venda das drogas. É preciso identificar os problemas sociais que conduzem à tolerância e à aceitação de traficantes de drogas em comunidades, a ponto de serem imitados pelos jovens. Não há nenhuma solução aplicável de maneira geral. É preciso sempre olhar a situação específica.

Folha - Como funciona a estrutura de poder do crime organizado?

Klaus von Lampe - Há diferentes manifestações do crime organizado. Na maior parte da Europa Ocidental, o crime organizado está ligado ao fornecimento de mercadorias e serviços ilícitos, e atividades como fraude, roubo, saque e extorsão. Em algumas regiões da Europa e dos EUA, esses crimes ocorrem no contexto de um “governo do submundo”, isto é, estruturas mais ou menos formalizadas que controlam e regulam atividades ilegais. Normalmente, nesses casos, os criminosos são forçados a compartilhar seus lucros ilegais com os grupos que se especializam no uso da violência e podem receber, em retorno, benefícios como proteção. Às vezes, há uma sobreposição entre empresas ilegais e o “governo do submundo” -por exemplo, quando membros de uma família da máfia na Sicília (Cosa Nostra) estão envolvidos no tráfico de drogas. Às vezes, os grupos começam como empresas ilegais e procuram ganhar o controle sobre um território. Eles estabelecem então um monopólio ou licenciam as atividades de outros criminosos. Por exemplo, um grupo do tráfico permite a um número limitado de indivíduos vender drogas em um determinado território. Em algumas regiões da Europa -e, historicamente, também nos EUA- há uma aliança entre o mundo e o submundo. Os criminosos colaboram com políticos e homens de negócios. Tais alianças emergem quando os governos e a sociedade civil são fracos. Os interesses particulares e políticos são perseguidos, mesmo violando a ordem legal e constitucional existente. Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais. Quando essas alianças se rompem, como no caso do cartel de Medellín [na Colômbia] e da máfia siciliana no começo dos anos 90, as elites políticas e dos negócios prevalecem no conflito militar subsequente, porque as elites sociais podem fazer todo o uso de recursos estatais (incluindo a polícia e as Forças Armadas).

Folha - Quais são as diferenças entre o crime organizado na Europa e nos Estados Unidos?

Klaus von Lampe - As organizações criminosas na Europa e nos EUA se enquadram em três categorias amplas: empresas ilegais, associações criminosas e “governo do submundo”.

Empresas ilegais, como grupos que realizam tráfico de drogas, tendem a ser pequenas e encaixadas em redes criminosas maiores.

Associações criminosas fornecem status e sustentação mútua e atendem, indiretamente, atividades econômicas ilícitas dos seus membros.

Elas regulam o comportamento entre os membros, como uma associação profissional, e podem desenvolver uma estrutura hierárquica.

“Governos do submundo” precisam ter uma estrutura hierárquica para evitar o conflito interno e trabalhar efetivamente. Eles também precisam ser reconhecíveis.

Em muitos casos, isso é conseguido por meio de alguns símbolos.

Associações criminosas podem funcionar como “governos do submundo”.

Em contraste, as demandas na estrutura da organização são bastante diferentes para empresas ilegais e outras formas de organização criminosa, de modo que elas raramente aparecem como uma organização.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sexo, drogas e geoengenharia

Autores de "Freakonomics" voltam à carga em livro que argumenta que é inútil reprimir a prostituição e o narcotráfico


A prostituição está em decadência. Em poucas décadas, os salários despencaram, junto com o número de profissionais. O culpado? O feminismo.

Afinal, as independentes mulheres contemporâneas que fazem sexo sem compromisso e de graça impuseram uma concorrência desleal às que desejam cobrar pelo serviço.

Quem disso isso são o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner, autores de "SuperFreakonomics". O livro, recém-lançado, é uma continuação do best-seller "Freakonomics", de 2005.

No primeiro livro, a dupla fez barulho ao dizer que existe correlação entre a liberação do aborto nos EUA nos anos 1970 e a queda nos crimes após duas décadas. No segundo, dedicam um capítulo à prostituição.

O sexo era encarado de forma muito diferente no começo do século passado, dizem. Havia mais pudor. Agendas repletas de telefones à disposição para uma noite mais empolgada não existiam. Festas eram um evento social, e não sexual -agradeça, portanto, por não ter nascido naquela época.

Para cada quatro homens que diziam ter perdido a virgindade com prostitutas entre 1933 e 1942, hoje há apenas um. Além disso, a prostituição era -e ainda é- ilegal na maioria dos EUA. A clandestinidade fazia com que a oferta de garotas de programa diminuísse.

Quando a demanda é alta e a oferta pequena, o resultado é óbvio. Prostitutas de Chicago ganhavam nos anos 1910 mais de US$ 6.000 por mês, em valores corrigidos. As melhores faziam mais de US$ 35 mil.

Ainda há prostituição de luxo, claro. Mas ela é apenas uma fração do que já foi. Garotas de programa se espalharam pelas ruas, o ambiente ao seu redor se encheu de viciados. Elas próprias passaram a usar bem mais drogas.

Imposto sobre serviço

Apesar de a prostituição ainda ser proibida, a polícia raramente cria problemas com as meninas. Ainda porque, hoje em dia, afirmam os autores, cerca de 3% dos "encontros" das prostitutas de rua de Chicago são com policiais e de graça -um suborno sexual.

Como dizem os autores, "os dados não mentem: é muito mais provável que as prostitutas de rua de Chicago façam sexo com os policiais do que sejam presas por eles".

Aí surge uma questão: se os policiais fossem realmente duros com a prostituição -ao melhor estilo tolerância zero-, será que ela desapareceria?

Não. Porque não adianta prender quem oferece o serviço. Quanto mais isso é feito, menor fica a oferta. Sobem, então, os preços. Quanto mais as prostitutas ganham, mais meninas entram na profissão.

Neste caso, portanto, você pode fazer a lei mais rígida que quiser. Chegará um momento em que a recompensa financeira de passar por cima dela será tão forte que não adiantará.

A solução, então, seria reprimir os clientes. Aí se corta a demanda, em vez da oferta, e a prostituição sofre um golpe.

Mas é difícil prendê-los. Em primeiro lugar, são muitos. Mais: eles desaparecem com a mesma velocidade com que aparecem. É muito mais complicado pegar um cliente do que uma prostituta.

O interessante é que exatamente o mesmo raciocínio serve para as drogas. Quanto mais traficantes são presos, mais sobe a renda dos que restam. Acabe com todos, e o preço das drogas tenderá ao infinito, tornando o ofício mais tentador.

Outro assunto do livro é o aquecimento global. Os autores defendem que é melhor dar um jeito artificial de esfriar o planeta do que lutar contra as emissões de CO2.

A ideia é fazer artificialmente o que os vulcões fazem naturalmente. Quando vulcões muito grandes entram em erupção, o planeta esfria. Isso acontece porque eles jogam dióxido de enxofre na estratosfera - a geoengenharia humana poderia fazer isso, dizem.

É o capítulo que vem gerando mais polêmica. Algumas das críticas se relacionam com a ideia de que mexer na natureza mais ainda para resolver velhos problemas só vai servir para criar problemas novos e desconhecidos. Outras dizem que os cálculos são frouxos e que tudo não passa de um chute. Em geral, mesmo entusiastas da geoengenharia não descartam a importância de reduzir o CO2.

Ciumeira

Levitt e Dubner apresentam uma mágoa. É duro gostar de microeconomia -essa economia que lida com o cotidiano, com as escolhas individuais. São sempre os macroeconomistas, dizem, como seus papos sobre "inflação, recessões e choques financeiros", que estão sempre nos jornais. Quando economia vai bem, são gênios. Quando vai mal, idiotas. Mas não saem das manchetes.

Os livros, então, nada mais são do que uma tentativa de mostrar que, sim, existe economia além dos bancos centrais. Apareça com um banco de dados que os microeconomistas, dizem, estarão lá formulando hipóteses para explicá-los. Podem surgir bobagens, mas o resultado é, em geral, muito bom.

LIVRO - "SuperFreakonomics"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A política do vale tudo

Em 1994, quando Collor foi absolvido pelo STF,
LULA disse: “Como cidadão brasileiro que tanto lutou para fazer a ética prevalecer na política, estou frustrado, possivelmente como milhões de brasileiros. Só espero que não apareça um trambiqueiro querendo anistiar Collor da condenação imposta pelo Senado”. A condenação era a inelegibilidade por oito anos.





IMAGENS DO LODAÇAL


Primeira imagem: Luiz Inácio Lula da Silva abraça Fernando Collor de Mello.
Ajuda-memória: Fernando Collor de Mello vem a ser aquele cidadão que, além de ter sido o único presidente afastado do cargo por falta de decoro em um país em que o decoro é artigo raríssimo, pagou a uma mulher para dizer na televisão que seu adversário (justamente Lula, naquele momento) quis obrigá-la a abortar da filha que ambos tiveram (Lurian).
Esse tipo de atitude é tão indecente, indecorosa, delinquencial que desqualifica qualquer pessoa para a vida pública (a rigor, também para a vida privada).
Não é, portanto, passível de perdão. Lula até poderia aceitar o apoio de Collor para fazer parte da maioria governista. Aceitou o apoio de tantos outros desqualificados que, um a mais, um a menos, nem se notaria.
Daí, no entanto, a abraçá-lo publicamente e a elogiá-lo vai uma distância que, percorrida, desqualifica também a vítima de antes.
Segunda imagem, a de ontem: Fernando Collor de Mello cumprimenta José Sarney.
Ajuda-memória: Fernando Collor de Mello vem a ser aquele cidadão que com maior virulência atacou o governo Sarney, a ponto de chamá-lo de ladrão, pelo que jamais pediu desculpas.
Sarney nunca escondeu o profundo rancor que sentia pelo seu desafeto, que, aliás, só se elegeu porque era o mais vociferante crítico de um presidente que batia recordes de impopularidade.
Ao abraçar Collor e aceitá-lo na sua tropa de choque, Sarney implicitamente dá atestado de validade aos ataques do Collor de 1989 e, por extensão, junta-se a ele na lama.
Que Collor, o indecoroso com condenação tramitada em julgado, ressurja com os mesmos tiques e indecências de antes compõe à perfeição o lodaçal putrefato que é a política brasileira.

CLÓVIS ROSSI



O ONTEM E O HOJE

Os jornais mostraram a foto de um raivoso Fernando Collor, ex-presidente da República e atualmente senador pelo estado de Alagoas, com o dedo em riste contra o senador Pedro Simon (PMDB-RS). Simon pedia, mais uma vez, a renúncia de Sarney. Collor, em defesa de Sarney, dizia o seguinte enquanto apontava seu dedo:

“Eu não aceito, com a responsabilidade de ex-presidente da República, que se trate desta forma um homem (Sarney) que governou o Brasil, que cumpriu a transição democrática com grandeza e maestria, e que hoje está sendo vitimado por acusações de toda a natureza. Eu sei o que é isso porque eu por isso passei. Em muito maior escala. Eu sei como tudo isso é forjado, sei como tudo isso nasce, como tudo isso desabrocha. E eu sei a quem interessa que o Senado retire daquela cadeira o presidente que todos nós elegemos e que vai cumprir seu mandato até o último dia que foi eleito”.

No mesmo dia, começou a circular um vídeo no YouTube. Trata-se de um discurso de Collor, do horário eleitoral de 1989. O tema é… José Sarney.





quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A guerra às drogas fracassou

De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
(Outros Sonhos, Chibo Buarque).



PERMITIR O acesso às drogas: essa hipótese assusta qualquer pessoa de bom senso. Melhor que não haja acesso. Melhor ainda seria que nem sequer houvesse drogas. Mas não é essa a realidade.

A proibição prevista em lei não vigora. Drogas são vendidas em toda parte em que há demanda, independentemente da qualidade das polícias e dos gastos investidos na repressão. A guerra às drogas fracassou.

Como os EUA demonstraram ao vencer a Guerra Fria, nenhuma força detém o mercado. Pode-se apenas submetê-lo a regulamentações. É irônico que esse mesmo país defenda a erradicação das drogas ilícitas.

Eis o resultado do proibicionismo: crescem o tráfico, a corrupção e o consumo.

Estigmatizados, os usuários padecem da ignorância sobre as substâncias que ingerem, escondem-se, em vez de buscar ajuda, e, mesmo quando não passam de consumidores eventuais, involuntariamente alimentam a dinâmica da violência armada e do crime que se organiza, penetrando instituições públicas.

Além disso, o Estado impõe aos escolhidos e classificados como "traficantes" -pelo filtro seletivo de nosso aparato de segurança e Justiça criminal- o futuro que pretende evitar: a carreira criminal. Digo "escolhidos" porque se sabe que a mesma quantidade de droga pode ser avaliada como provisão para consumo (quando o "réu" é branco de classe média) ou evidência de tráfico (quando o "preso" é pobre e negro).

Retornemos à primeira evidência: o acesso às drogas -não o impedimento- é a realidade.

Ora, se essa é a realidade e nenhum fator manejável, no campo da Justiça criminal, pode incidir sobre sua existência para alterá-la, a pergunta pertinente deixa de ser: "Deveríamos proibir o acesso às drogas?". Trata-se de indagar: "Em que ambiente institucional legal o acesso provocaria menos danos? Que política de drogas e qual repertório normativo seriam mais efetivos para reduzir custos agregados, sofrimento humano e violência?".

Há ainda uma dimensão não pragmática a considerar. Não considero legítimo que o Estado intervenha na liberdade individual e reprima o uso privado de substâncias -álcool, tabaco ou maconha.

A ausência do álcool no debate -droga cujos efeitos têm sido os mais devastadores- revela a artificialidade (alguns diriam a hipocrisia) das abordagens predominantes.

Se o atual modelo foi derrotado pelos fatos, qual seria a alternativa? Proponho a legalização das drogas, e não apenas a flexibilização na abordagem do consumidor. O tráfico deveria passar a ser legal e regulado.

Isso resolve o problema das drogas? Não, mas o situa no campo em que pode ser enfrentado com mais racionalidade e menos injustiça -e menos violência, ainda que esse seja só mais um argumento, e não a única ou principal justificativa para a legalização.

Há quem considere que uma eventual legalização não exerceria impacto sobre a violência, uma vez que os criminosos migrariam para outras práticas. Discordo.

Acho que o efeito da legalização não seria desprezível porque: 1) sem drogas, seria mais difícil financiar as armas; 2) mudaria a dinâmica de recrutamento para o crime, que perderia vigor, pois outros crimes envolvem outras modalidades organizativas e outras linguagens simbólicas, muito menos sedutoras e acessíveis aos pré-adolescentes; 3) entraria em colapso a maldição do crack e seus efeitos violentos; 4) se esgotaria a principal fonte de corrupção; 5) finalmente, como pesquisas demonstram, em cada processo de migração, o crime perderia força e capacidade de reprodução.

Opiniões respeitáveis aprovam esses argumentos, mas alertam: nada podemos fazer antes que o mundo se ponha de acordo e decida avançar rumo à legalização das drogas. Discordo.

Se não nos movermos, não ajudaremos o mundo a se mover. Com prudência, mas também com audácia, temos de nos rebelar contra esse perverso relicário de iniquidades.

Luiz Eduardo Soares é professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da Universidade Estácio de Sá. Foi secretário nacional de Segurança Pública (2003).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Aprender é ter insights

A educação opera lentamente,
de modo evolucionário.
Nao cria utopias repentinas.
Não oferece remédios mágicos.
Não faz promessas categórias.
Exige esforço e disciplina.
Desperta o homem para suas próprias potencialidades criativas.
A educação, considerada corretamente,
é o instrumento de sobrevivencia
mais formidável que o homem possui.
(Frederick Mayer).



A máquina de fazer salsichas


O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O objetivo será avaliar o que sobrou

UM HOMEM RESOLVEU dedicar-se à produção de salsichas. Aconselhando-se com técnicos e cientistas, foi informado de que o que havia de mais moderno para tal fim era uma máquina importada de fazer salsichas. Ele não titubeou: comprou a dita máquina porque queria ser um produtor de salsichas bem sucedido.


A máquina era assim: numa extremidade, havia um grande funil onde a carne deveria ser colocada. Apertava-se um botão e a máquina começava a funcionar. Na outra extremidade, fim do processo, saíam as salsichas gordas e vermelhas.


Mas não basta que a máquina produza salsichas. É preciso que a produção seja comercialmente vantajosa. E como se avalia isso? Comparando-se os quilos de carne colocados no funil inicial com os quilos de salsicha que saem na extremidade final da máquina. Se, na entrada, se colocam cem quilos de carne e saem 95 quilos de salsichas, a máquina é ótima. Mas se só saírem dez quilos de salsichas, a máquina não presta.


Não estou procurando sócios para uma aventura econômica. Minha coisa é a educação. E pensei que a educação poderia ser avaliada por um exame parecido com a máquina de salsichas -que comparasse os "quilos" de saberes que as escolas colocam nos olhos, ouvidos e memória da "máquina" chamada "aluno" com o que "sobra" ao final.


As escolas colocaram muita coisa dentro do meu funil, nos 17 anos que as frequentei. Quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior.


Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei a 16.830 -o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo a fala dos professores.


O exame -um tipo de Enem- seria assim: Primeiro: o programa para o exame seria constituído de tudo o que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano. O que foi colocado no funil.


Segundo: os alunos não assinarão os seus nomes porque não são eles que estão sendo avaliados, mas o desempenho da máquina, isto é, do sistema escolar.


Terceiro: não haverá "cursinhos" preparatórios para tais exames. Será proibido também recordar a matéria. Guarde isso: o aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O objetivo do exame será avaliar o que sobrou.


Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes "dolomitas" e "piroclásticas", mas não sei o que significam. Esqueci-me do "crivo de Erastóstenes". Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda.
Também me esqueci das dinastias dos faraós. Não sei a lei de Avogadro.


Sei pouquíssimo de análise sintática. Acho que, dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim, só sobrariam uns 10%.


Você depositaria suas economias mensalmente num fundo de investimento, por 17 anos, se você soubesse que depois desses 17 anos receberia só 10% do que você depositou?


Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros, que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos.


Acho mesmo é que a culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estragada. As salsichas cheiram mal.


O nariz as reprova. O jeito é vomitá-las, isto é, esquecê-las. Concluo: a performance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produza salsichas apetitosas...


RUBEM ALVES

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Olha aí! É o meu guri!

Chega suado
E veloz do batente

Traz sempre um presente

Prá me encabular

Tanta corrente de ouro

Seu moço!

Que haja pescoço

Prá enfiar

Me trouxe uma bolsa

Já com tudo dentro

Chave, caderneta

Terço e patuá

Um lenço e uma penca

De documentos

Prá finalmente

Eu me identificar


Olha aí!
Olha aí!

Ai o meu guri, olha aí!

Olha aí!

É o meu guri e ele chega!

(Meu Guri, Chico Buarque)


Clichês de vida e de morte

O soldado do tráfico quer ser um enlatado cultural, um produto de massa desejado


NA SEMANA passada, na zona norte do Rio de Janeiro, durante um conflito entre os traficantes do morro dos Macacos, na Vila Isabel, e os do morro de São João, em Engenho Novo, um helicóptero da Polícia Civil foi derrubado a tiros. Enquanto a guerra entre as facções do tráfico continua, a polícia tenta encontrar os responsáveis e, quem sabe, "reconquistar" esses e outros morros cariocas. Essa conjuntura produziu, ao longo da semana, numerosas mortes e algumas imagens assombrosas.

A mais comentada, Brasil afora, foi uma fotografia de Marcelo Sayão/Efe: ela mostra um corpo torturado e baleado, que foi achado, na terça-feira, dentro de um carrinho de supermercado, nas proximidades do morro dos Macacos.

Na foto, ao redor do carrinho, há nove adolescentes, meninos e meninas; um deles, vestido a caráter, carrega um skate; dois usam chapéus de beisebol; só um veste uma camiseta sem logotipos e marcas, branca; alguns esticam o pescoço para examinar o cadáver (ocultado parcialmente por um saco de lixo).

No mesmo dia ou nos dias seguintes, não sei mais, esbarrei em outra fotografia, cujo tema era mais usual e de cujo autor, infelizmente, não me lembro. Nela, um soldado do tráfico está em cima da laje de uma casa que é situada, provavelmente, nas alturas do morro.

A cena é fotografada de baixo, como se fosse vista por alguém que está tentando subir -por exemplo, um invasor, seja ele policial ou traficante de outra quadrilha. Com o rosto escondido pela camiseta revirada e transformada em capuz (mas quem inventou esse hábito, os jogadores de futebol ou os criminosos?), o soldado do tráfico ergue sua metralhadora mais como uma bandeira do que como uma arma. Bandeira de quê? Do tráfico de drogas ou de sua vontade (satisfeita?) de ter um acesso fácil à festa do consumo?

No fundo, tanto faz. A droga é apenas mais um objeto que resume e carrega consigo as falsas promessas de todos os outros objetos: "Consuma-me e fique bacana e feliz".

Tanto faz, também, porque duvido que, lá em cima do morro, o soldado do tráfico se preocupe com as cores e a significação de sua bandeira; ele não está defendendo ou promovendo a causa de seus valores ou de seus interesses, ele está apenas encenando (propositalmente, para o fotógrafo, para os amigos e para nós) um gesto que faz parte da retórica trivial da resistência ou da revolta, tipo "no passarán" ou lutaremos "até o último homem".

Em outras palavras, o soldado do tráfico está se identificando com as representações do heroísmo assim como elas são vendidas pela produção cultural de massa (sobretudo de segunda categoria): o que ele quer é, antes de mais nada, encarnar um clichê. Por isso mesmo, aliás, ele é patético, no duplo sentido da palavra: sinistro (porque quem age para sair bem na foto é capaz de qualquer pose -ou seja, de qualquer selvageria que capture o olhar do outro) e tocante (pela miséria de seu destino).

Falando em destino miserável, pareceu-me entender, de repente, por que o cadáver no carrinho do supermercado é o futuro do soldadinho que se exibe no alto do morro. Há, entre as duas imagens, uma implicação lógica. Claro, quem vive na bravata, geralmente, coloca sua vida em risco, mas, no caso, não é só disso que se trata.

O soldado do morro pratica uma bravata sem valores, ideais ou interesses definidos para defender. Sem dúvida, ele tem aspirações de consumo, está a fim de um tênis legal, de um chapéu de marca e de todo o bagulho de que ele precisar, mas seria ingênuo pensar que ele arrisca a vida por essas "commodities" -que, afinal, ele poderia conseguir de outro jeito, a um custo menor.

Se ele arrisca a vida é para nos mostrar, do alto do morro, sua metralhadora erguida, na esperança de causar forte impressão: junto com nosso medo, ele quer suscitar nossa admiração, quem sabe nossa inveja. Por isso, antes de ambicionar TER as coisas que estão nas prateleiras das lojas, ele ambiciona SER um enlatado cultural, um produto de massa supostamente desejado por todos. E é normal que um produto de massa, mais cedo mais tarde, acabe num carrinho de supermercado.

Talvez seja este o sentido da curiosidade manifestada pelos jovens reunidos ao redor do morto desovado em baixo do morro dos Macacos: "Que produto mais estranho é esse? Será que é maneiro? Será que é "da hora'?".