quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O esplendor da relva

Dentro de sua extensa temporalidade o homem procura compreender o mundo e a si mesmo

PRETENDE-SE colocar o homem no centro da História e da Arte. Mas que espécie de homem? Cada época teve um a seu agrado. O religioso, na Idade Média; o social, no século 19. O econômico, de Marx para cá. E houve o homem moral da Antiguidade clássica. E há o homem-homem despido de rótulos, quase uma abstração, o homem metafísico, das religiões em geral.

Esse tipo de homem abastece principalmente o Humanismo: o tempo e o meio podem condicioná-lo, influí-lo, marcá-lo em sua maneira, mas nunca em sua essência. Oprimido ou opressor, estúpido ou gênio -os acidentes e incidentes servindo apenas para diferenciá-lo num espaço limitado de tempo e em medidas exclusivamente retóricas.

Bom, há ainda o homem eterno. Este é um absurdo de boa vontade, uma cômoda e pueril autoexplicação. Mesmo que essa coisa extremamente finita que é o homem possua alguma faculdade imortal, ainda assim não será eterno: foi criado, era nada antes de ser -qualquer catecismo confirma isso.

Dentro de sua extensa temporalidade (ia dizer infinita temporalidade), o homem procura compreender o mundo e a si mesmo. Os rótulos fabricados por ele e para ele vão caindo à medida que o tempo avança. Rei da Criação, Filho de Deus, Animal Racional, Bípede Implume, Pilar da Sociedade, Lobo do Homem. A lista é extensa e ridícula. Mas independente de sua compreensão, há que viver e o homem vive: é cidadão, estuda, casa, contrai dívidas, é imperador, papa, botânico, milionário, soldado, cantor de cabaré, louco de estrada, artista de cinema nacional.

Entra então um filósofo e pega o artista do cinema nacional e diz: eis um homem! Um romancista faulkneriano não pode chegar a isso e diz simplesmente: não é um homem, é vulgarmente um artista do cinema nacional. Chega finalmente o crítico e nega o filósofo e o romancista.

Ao filósofo contradita: não é um homem, é um artista do cinema nacional. E ao romancista contraria: não é um artista do cinema nacional. É um homem.

Independente dessas emocionantes questões, tudo leva o homem à destruição. Dirão: não há destruição, há transformação, há até aquela frase muito repetida segundo a qual nada se cria e nada se destrói. Uma ova! Podemos retornar ao mamão de onde viemos, mas nunca eu serei um mamão. Células de mamão podem reviver em mim, mas o meu eu -meu gosto, minha miséria, meu pranto- jamais reviverão no mamão. Ou em outro homem.

Por isso, depois de mim o dilúvio, o tango e aquele poeta que vive comendo coisas.

De todos os conceitos com que se procura justificar o homem, o mais boçal é o da arte. O artista é o que mais se autopromove. Recrimina no homem de negócios a preocupação pelo lucro, a vantagem imediata e material, controlada todas as noites pelos computadores de última geração quando o lucro atinge proporções também eletrônicas.

Tal preocupação, justamente por ser mensurável, é muito mais válida e honesta que a dos artistas, cujos valores são abstratos, especulativos, e, no mais das vezes, irreais.

Sim, a arte formou respeitável patrimônio através do tempo. Não importa que Homero tenha sido um conjunto de oito ou mais desocupados que escreviam epopeias homéricas. O valor dessas obras subexiste, e para quê? Para reprovar alunos nos bancos escolares, para servir de epígrafe a autores menores e, vez por outra, entusiasmar um erudito arredio da vida, trancado nos livros e no passado.

Então surge a pergunta: por que, sabendo disso tudo, você também escreve livros? Resposta: não dou para vender terrenos, sou preguiçoso e burro, nem para advogado dei. Não, não foi vocação. Não há vocação para isso, como não há vocação para se ser bandeirinha de futebol. A coisa acontece quando se somam as decepções e quando vamos adquirindo a certeza de nossas limitações. Alvíssaras!

Bem: há o esplendor da relva onde é bom amar, ainda que o amor seja breve como a glória da flor. A frase é parecida com um verso de Wordsworth, mas é minha mesmo.

Carlos Heitor Cony


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