sábado, 31 de outubro de 2009

Taleban na universidade

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um

Maldita Geni

(Geni, Chico Buarque)




Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22).

Michele Vedras (nome fictício inventado por ela em um blog) só conseguiu sair da escola sob escolta de cinco soldados da PM, duas mulheres inclusive, que tiveram de usar spray de pimenta para conter os mais exaltados e abrir caminho entre a massa. Vídeos do ataque circulam pela rede, um deles intitulado "A Puta da Uniban".

O microvestido rosa-choque de Michele, naquele dia, andou de ônibus -no total, a moça gasta duas horas para ir e voltar da faculdade. Mereceu elogios -"Gostosa!"- durante o trajeto. O mesmo vestido foi usado na festa de aniversário da sobrinha de Michele, uma festinha em família. Mas, na Uniban, onde a moça chegou às 19h45, o tempo esquentou.

Estudantes de outros cursos que não os de turismo, entrevistados pela Folha anteontem, criticaram Michele. "Ela veio provocar." "Ela andava rebolando." "Deixou cair uma carteira, de propósito, só para ter de se agachar." "Aquilo não é roupa de vir à faculdade."

Estudantes do curso de turismo ouvidos pela Folha defenderam a colega. "Ela sempre anda assim, de um jeito ousado." "Ela faz esse estilo mulherão mesmo." "Ela é avantajada, sim. Mulheres com a autoestima lá embaixo morrem de inveja." "é uma vergonha para a escola ter alunos assim. Parece que esses caras nunca viram uma mulher."

Desfile na rampa

O prédio da faculdade de turismo tem um átrio central cercado de rampas por todos os lados. Quando Michele chegou à escola e começou a subir uma rampa, os rapazes ficaram paralisados. Alguns conseguiram se mexer. Mas para ir ao prédio vizinho, chamar colegas para ver também. A pequena multidão, até aí, tinha cerca de 200 pessoas, segundo um estudante. Muitos assobiavam.

Michele achou melhor sair da rampa no segundo andar e usar a escada para chegar ao terceiro, onde fica a classe dela.

As aulas começaram. às 20h30, a jovem resolveu ir ao banheiro. Uma colega de classe fez questão de acompanhá-la, receando algum problema. "Eu estava com receio, mas nem podia imaginar o que viria daí para frente", disse Kelly Andrezzi dos Santos, 19. De repente, algo como 20 garotas de outros cursos invadiram o banheiro. Queriam obrigar Michele a vestir uma calça, xingavam-na, diziam que ela estava provocando, "causando".

A confusão foi a senha. Rapazes saíam de suas salas e se aglomeravam na porta do banheiro das mulheres. O professor Rubens, de Desenvolvimento Gerencial, que dava aula para a classe de Michele, teve de sair da sala em operação de resgate. Foi acompanhado por colegas de turma.

"A gente teve de distribuir tapas nas mãos dos meninos, que tentavam enfiar o aparelho celular no meio das pernas [da Michele], para tirar fotos", lembra a amiga Amanda de Sousa Augusto, 19, aluna da mesma classe. "Foi uma agressão, uma injustiça. A Michele é uma superboa pessoa."

A turma do professor Rubens voltou para a sala e se trancou nela. A essa altura, a maioria dos garotos dos dois prédios da Uniban já tinha saído de suas classes. Eles revezavam-se no visor da porta, pulavam para alcançar uma janela mais alta.

O coordenador de curso subiu até a classe sitiada. Pediu que Michele fosse embora. Que ela vestisse o jaleco dele ao sair. E foi-se. Michele não quis sair.

O namorado ia buscá-la no fim do período de aulas -iriam juntos a uma festa.

Presos na sala de aula, a turma e o professor ouviam os estudantes lá fora gritando. "Solta ela, professor! Deixa pra nós." "Vamos estuprar!" Colegas de classe colaram folhas de fichário por dentro da janela, para evitar os olhares.

A essa altura, Michele chorava, desmanchando a maquiagem. Um chute na porta, a maçaneta voou. Machucou o professor. Três seguranças se apresentaram na sala. O mais graduado dirigiu-se à moça: "Bonito, né... Vir à faculdade dessa maneira". Ele queria que Michele saísse naquele momento, mas a representante de classe não permitiu. Achava que a colega corria risco. Chamou o 190.

"Seus coxinhas [PMs], vão levar a gostosa?", um aluno uivou no ouvido de A., um dos policiais que atendeu ao chamado.

Quando Michele passou, escoltada, na frente da sala dos professores, uma docente fez questão de sair. Com uma careta, perguntou: "é essa a fulana?".

Na catraca da escola, sempre sob a escolta policial, Michele viu entre os que a agrediam uma menina com o celular na mão, fotografando a sua vergonha: "Ela pega o ônibus comigo todo dia. Sempre quietinha.

Mas naquele dia, ela atacava irada: pu-ta, pu-ta. Não entendi por que tanta raiva".

Filha de uma dona de casa e de um supervisor de serviços, ambos apenas o primário completo, Michele tem um irmão de 32 e duas irmãs (30 e 16). O pai é quem paga os R$ 310 de mensalidade. Mora em um bairro popular em Diadema. Já trabalhou em um mercadinho.

Michele não pretende abandonar a faculdade. Hoje, ela comparece pela primeira vez à Uniban, desde o episódio, para depor em uma sindicância que apura o ocorrido. A jovem tem ficado reclusa. "Sempre ando arrumada, salto alto e maquiada. é assim que me vejo. é assim que eu sou. Mas, desde aquela quinta-feira, não consigo mais ser quem eu era. Só me visto de calça e camiseta e a maquiagem ficou na gaveta", disse.



O martírio de Geyse nos faz pensar


ANNA VERONICA MAUTNER


Geyse ia a uma festa depois da aula. Na balada ou na festa, seus trajes, sua maquiagem, não levantariam a alma selvagem dos colegas. As mesmas pessoas em outro contexto conteriam sua inveja e seu desejo. O surgir daquela beleza não pasteurizada, esperada na balada, mas não na escola, pegou todos de surpresa. Ninguém estava preparado e a sensualidade fora de contexto arrebatou e desorganizou. Jovens que começam a "ficar" muito cedo aplicam ao "ficar" uma sexualidade pasteurizada, claramente quantificada.

Têm a sua vida instintiva reprimida. Beija-se sem paixão. Fica-se porque é lugar, hora e idade de ficar. Namorar é uma outra etapa. Antigamente, namorava-se para poder beijar. Agora, namorar quer dizer que só se beija um, ou melhor, namorar é beijar com tesão.

Geyse, a jovem atacada por colegas, meninos e meninas, não sabia o que estava fazendo quando adentrou com sua sensualidade o espaço em que não se estava preparado para reprimir. Não foi só ela que errou.

Seus algozes também não sabiam que é bom estar preparado. A sexualidade pode ser atiçada inesperadamente. A força do sexo pode surpreender. Geyse apenas errou de traje e fez tremer fortalezas indefesas.

É tão ameaçadora a liberdade sexual para os jovens que não são protegidos pela proibição social ou familiar que eles, de forma velada, se castram. Nem Geyse conhecia seu poder nem os jovens conheciam a força do desejo reprimido. Quando a repressão vem de fora, ela tanto castra quanto protege.

Não conheço outro caso igual ao de Geyse, mas conheço algumas ameaças. Moças lindas, viçosas, que se mostram sem levar em conta o esforço que tem que ser feito para reprimir a vontade de tomar de assalto o corpo do outro.

Não estou propondo retorno aos velhos padrões. Apenas me surpreendo com o resultado da autocensura a que os jovens estão obrigados, uma vez que a censura social e familiar está cada vez mais distante.

Quem deve conter? Como deve ser contido? Não sei. Geyse nos dá assunto para pensar.


video

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O esplendor da relva

Dentro de sua extensa temporalidade o homem procura compreender o mundo e a si mesmo

PRETENDE-SE colocar o homem no centro da História e da Arte. Mas que espécie de homem? Cada época teve um a seu agrado. O religioso, na Idade Média; o social, no século 19. O econômico, de Marx para cá. E houve o homem moral da Antiguidade clássica. E há o homem-homem despido de rótulos, quase uma abstração, o homem metafísico, das religiões em geral.

Esse tipo de homem abastece principalmente o Humanismo: o tempo e o meio podem condicioná-lo, influí-lo, marcá-lo em sua maneira, mas nunca em sua essência. Oprimido ou opressor, estúpido ou gênio -os acidentes e incidentes servindo apenas para diferenciá-lo num espaço limitado de tempo e em medidas exclusivamente retóricas.

Bom, há ainda o homem eterno. Este é um absurdo de boa vontade, uma cômoda e pueril autoexplicação. Mesmo que essa coisa extremamente finita que é o homem possua alguma faculdade imortal, ainda assim não será eterno: foi criado, era nada antes de ser -qualquer catecismo confirma isso.

Dentro de sua extensa temporalidade (ia dizer infinita temporalidade), o homem procura compreender o mundo e a si mesmo. Os rótulos fabricados por ele e para ele vão caindo à medida que o tempo avança. Rei da Criação, Filho de Deus, Animal Racional, Bípede Implume, Pilar da Sociedade, Lobo do Homem. A lista é extensa e ridícula. Mas independente de sua compreensão, há que viver e o homem vive: é cidadão, estuda, casa, contrai dívidas, é imperador, papa, botânico, milionário, soldado, cantor de cabaré, louco de estrada, artista de cinema nacional.

Entra então um filósofo e pega o artista do cinema nacional e diz: eis um homem! Um romancista faulkneriano não pode chegar a isso e diz simplesmente: não é um homem, é vulgarmente um artista do cinema nacional. Chega finalmente o crítico e nega o filósofo e o romancista.

Ao filósofo contradita: não é um homem, é um artista do cinema nacional. E ao romancista contraria: não é um artista do cinema nacional. É um homem.

Independente dessas emocionantes questões, tudo leva o homem à destruição. Dirão: não há destruição, há transformação, há até aquela frase muito repetida segundo a qual nada se cria e nada se destrói. Uma ova! Podemos retornar ao mamão de onde viemos, mas nunca eu serei um mamão. Células de mamão podem reviver em mim, mas o meu eu -meu gosto, minha miséria, meu pranto- jamais reviverão no mamão. Ou em outro homem.

Por isso, depois de mim o dilúvio, o tango e aquele poeta que vive comendo coisas.

De todos os conceitos com que se procura justificar o homem, o mais boçal é o da arte. O artista é o que mais se autopromove. Recrimina no homem de negócios a preocupação pelo lucro, a vantagem imediata e material, controlada todas as noites pelos computadores de última geração quando o lucro atinge proporções também eletrônicas.

Tal preocupação, justamente por ser mensurável, é muito mais válida e honesta que a dos artistas, cujos valores são abstratos, especulativos, e, no mais das vezes, irreais.

Sim, a arte formou respeitável patrimônio através do tempo. Não importa que Homero tenha sido um conjunto de oito ou mais desocupados que escreviam epopeias homéricas. O valor dessas obras subexiste, e para quê? Para reprovar alunos nos bancos escolares, para servir de epígrafe a autores menores e, vez por outra, entusiasmar um erudito arredio da vida, trancado nos livros e no passado.

Então surge a pergunta: por que, sabendo disso tudo, você também escreve livros? Resposta: não dou para vender terrenos, sou preguiçoso e burro, nem para advogado dei. Não, não foi vocação. Não há vocação para isso, como não há vocação para se ser bandeirinha de futebol. A coisa acontece quando se somam as decepções e quando vamos adquirindo a certeza de nossas limitações. Alvíssaras!

Bem: há o esplendor da relva onde é bom amar, ainda que o amor seja breve como a glória da flor. A frase é parecida com um verso de Wordsworth, mas é minha mesmo.

Carlos Heitor Cony


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A cara do mal


Morto há cem anos,
o italiano Cesare Lombroso
criou a teoria do criminoso nato


O dia 19 de outubro passado assinalou o centenário de morte de uma das mais importantes figuras da modernidade, aquele que é considerado o pai da criminologia como ciência: o italiano Cesare Lombroso.

Nascido em 1835 em uma abastada família judaica de Verona, Lombroso formou-se em medicina na Universidade de Pavia.

À sua formação médica associou-se a influência do positivismo de Auguste Comte (1798-1857), então no auge, uma corrente de pensamento que valorizava a ciência em detrimento da religião ou da metafísica. Desde cedo, Lombroso interessou-se pelo problema da doença mental.

Apesar dos avanços científicos registrados no século 19, a psiquiatria estava ainda numa fase rudimentar, dominada pela obsessão classificatória e pelo alienismo que Machado de Assis retrata tão bem no conto "O Alienista".

Na ausência de medicamentos eficazes e de tratamentos como a psicanálise, a intervenção médica se resumia ao hospício, que não era muito diferente de uma prisão e que não melhorou muito mesmo depois de Philippe Pinel (1745-1826), na França revolucionária, ter determinado que os pacientes não podiam ser acorrentados.

Lombroso, que lecionou na Universidade de Turim, também dirigiu instituições psiquiátricas.
Na linha da frenologia do médico austríaco Franz Joseph Gall (1758-1828) e da fisiognomia do pastor e filósofo suíço Johann Kaspar Lavater (1741-1801) -que procuravam deduzir características psicológicas a partir da conformação do crânio e dos traços faciais- e baseado nos seus próprios e exaustivos estudos de delinquentes vivos ou mortos, Lombroso formulou a famosa teoria do criminoso nato.

Neste, diz, reaparecem características atávicas, hereditárias -os estigmas, que permitiriam identificar uma disposição para o crime, por meio de características morfológicas: maxilar grande e prognata, testa pequena, zigomas salientes, prognatismo, nariz adunco, lábios grossos, barba escassa, calvície, braços longos, mãos grandes, anomalias dos órgãos sexuais, orelhas grandes e separadas, polidactia.

A isso se acrescentaria insensibilidade à dor, cinismo, vaidade, crueldade, falta de senso moral, preguiça excessiva, caráter impulsivo. A epilepsia também estaria associada ao crime.


Seguidores no Brasil

Essas ideias foram expostas em sua obra mais conhecida, "O Homem Delinquente" [1876; publicado no Brasil pela ed. Ícone], e tiveram enorme repercussão, tanto nos meios médicos e jurídicos, como entre a intelectualidade em geral.

Surgiu daí um campo de estudos que se tornou conhecido como antropologia criminal.
Lombroso teve seguidores no Brasil, entre eles o filósofo e jurista Tobias Barreto (1839-1889) e o médico baiano Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), catedrático de medicina legal na Faculdade de Medicina da Bahia.

Nina Rodrigues integrava uma corrente médico-antropológica fortemente influenciada pelas ideias de Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), que veio para o Rio de Janeiro em 1869 como chefe da missão francesa. Gobineau interessou-se pela mestiçagem no Brasil.
Considerado hoje um dos precursores do racismo nazista, achava que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira.

Do ponto de vista médico, a miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e degenerescência (conceito do psiquiatra francês Bénédict Morel, 1809-1873), esta manifesta inclusive na doença mental, sobretudo naquilo que se conhecia então como "neurastenia", a "fraqueza dos nervos", conceito popularizado nos EUA pelo famoso médico George M. Beard. Em "Os Sertões", Euclydes da Cunha fala nos "mestiços neurastênicos", conceito ao menos em parte neutralizado pelo famoso trecho que começa com "o sertanejo é, antes de tudo, um forte".

A propósito, a Nina Rodrigues coube estudar o crânio decapitado de Antonio Conselheiro. Lombroso também influenciou intelectuais de peso, como [os escritores] Émile Zola e Anatole France.

Um dado curioso em sua trajetória é o de que, depois de ter atacado o espiritismo, passou a defendê-lo.

As ideias de Lombroso, que inevitavelmente podiam ser colocadas a serviço do preconceito, hoje são consideradas ultrapassadas. Isso não diminui o valor de seu trabalho. Ele procurou dar bases científicas à psiquiatria e à criminologia, e esse é um caminho inteiramente válido.

Compreender a mente, inclusive a mente do criminoso, é um objetivo que permanece como um desafio para o nosso mundo, no qual a violência é um fenômeno habitual.

MOACYR SCLIAR

sábado, 24 de outubro de 2009

Reflexões de um ex-traficante

Quando ele foi preso, já tinha passado dos 30 anos e se sentia impune -era o que psicólogos chamam de "adultescente"

HOJE é o quinto aniversário do dia mais solitário na vida de Jaques Chulam, um paulistano de classe média alta, ex-estudante de engenharia, cujo maior prazer era surfar nas ondas do Havaí. Em 25 de outubro de 2004, uma manhã cinzenta e fria, ele foi metido numa cela, em Lisboa, acusado de tráfico de drogas.

Naquele exato momento, descobriu-se adulto -alguém habituado à amplidão do mar estava num cubículo de oito metros quadrados.

Até então, era capaz de plantar maconha numa reserva florestal protegida, em Honolulu, sem ver perigo. Traficava no eixo Brasil-Estados Unidos, mas, no íntimo, achava que nunca daria em nada. É um típico caso de clichê fundo do poço: empanturrava-se de crack nas fétidas calçadas ao redor do Ceagesp, forjou o próprio sequestro, viajou para surfar quando a filha estava para nascer. Perguntei-lhe por que um indivíduo rico, com tantas possibilidades, vira traficante.

Depois de sair da cadeia, no ano passado, Jaques colocou sua história no papel, com o título de "Surfista, Ex-Drogado, Ex-Traficante" (editora Francisco Alves), livro lançado na semana passada.

Meu interesse estava aguçado por causa de conversas que tive com jovens de classe média, presos na Fundação Casa (ex-Febem) -estima-se, entre policiais, que está crescendo o envolvimento de jovens mais ricos na venda de drogas, o que se reflete nas estatísticas prisionais. Documentos oficiais indicam que 30% da ex-Febem vêm de famílias com maior poder aquisitivo.

Jaques Chulam reafirma as pistas que colhi nas entrevistas. "Há um tipo de jovem que não amadurece porque não aprendeu a ver limite nas coisas, sempre acha que, no fim, alguém acaba dando um jeito." Quando ele foi preso em Lisboa, já tinha passado dos 30 anos e se sentia impune -era o que psicólogos chamam de "adultescente".

Isso explica por que ele se drogava, bêbado, no banheiro do avião, apesar de ter quilos de cocaína na bagagem e ter de enfrentar a alfândega de Los Angeles. Voltava para a poltrona com o nariz branco, a ponto de ser advertido por uma irritada aeromoça. "Minha vida se tornou uma constante viagem. Um filme com um único personagem: eu".

A falta de limite é, em sua visão, estimulada com a convicção, no Brasil, de que rico não vai para a cadeia. Sempre haveria um jeito de contratar um bom advogado ou, mais fácil, subornar um policial -o episódio dos policiais que roubaram os ladrões que roubaram e mataram um educador do AfroReggae não ajuda a desestimular essa convicção.

"É como se fôssemos educados com a noção de que sempre é possível manipular. Quanto mais o jovem acreditar em seu poder de manipulação, pior." Depois de forjar seu próprio sequestro, Jaques foi internado numa clínica. "Manipulei os psicólogos. Em menos de uma semana, tive alta."

A incapacidade de ver o perigo e a sensação de impunidade se somam, para Jaques, ao status que a droga confere ao traficante. "Viramos o centro da festa, rodeados por um bando de meninos e meninas que passam a bajulá-lo." Chegou a organizar raves que, além de garantir seu status, davam-lhe a garantia de ser fornecedor de drogas. Ganhava, portanto, duplamente.

A situação degringola de vez quando o traficante se transforma em viciado -ou começa a traficar porque se viciou. "É inacreditável que, quando estamos na viagem, não percebemos que essa combinação só pode dar em cadeia ou cemitério, tantas são as bandeiras que damos."

Aprendeu o que significa se enganar com os amigos. "Nesse tipo de ambiente, os amigos são sombra. Só aparecem quando estamos brilhando."

Na terça-feira passada, quando conversamos, Jaques estava embarcando em mais uma viagem, dessa vez para a China, onde iria importar produtos marítimos numa feira internacional -quer fazer do mar seu principal negócio.

Sentia-se, brilhante, animado com o livro. Mas parece ter aprendido, com tantas manipulações e autoenganos, que vai ter de se esforçar pelo resto da vida para poder manter os "ex" do título do seu livro.

Exceto ser surfista.

PS - Um fato ajudou Jaques a escrever o livro. Na prisão, em Lisboa, ele, que não gostava de ler, ficou responsável pela biblioteca -o que lhe pareceu, diante das demais ofertas, o melhor emprego do mundo. A combinação de excesso de tempo com reflexões sobre sua vida, com suas sombras, estimulou a ideia de escrever um livro, que serviu como uma espécie de acerto de contas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Os tais valores


A queixa dos ofendidos normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala tanto quanto se fala em cabala da Vila Madalena, energias, aquecimento global e outros clichês, isso é, os tais dos “valores“.

Frases como “hoje não existem valores” soam tão ridículas como “sofro porque os unicórnios estão sendo extintos“. Quando alguém começa falando “porque a crise dos valores hoje em dia…”, eu já sei que o resto é blábláblá. Por acaso alguém acha que o mundo já foi melhor? Há 500 anos existiam “valores” mais válidos? Respondo: não, o mundo nunca foi bom.

E mais: se há 500 anos havia “valores” mais válidos é porque simplesmente havia menos opções na vida. Muitas opções, muita mistura, muitas viagens, muita gente diferente, muita terapia…
muita incerteza. A própria ideia de “escolha de valores” implica num “mercado de valores“.

Todo mundo se acha “progressista”, “emancipado”, “ético”, adora dizer que gosta de mudanças morais, mas contanto que o mundo caiba em sua salinha de TV. O relativismo só serve para se achar índio fofinho.

Quer deixar alguém com vergonha: mande ele ou ela elencar a lista de “valores” que julga certa (não vale coisas do tipo “não matarás” porque essa ideia é de Moisés…). Ninguém é repressor, mas todo mundo tem seu chicotinho à mão. O moralismo barato nunca esteve tanto em voga.

Falando mal da propaganda me sinto como um agente do bem enfrentando os demônios do mundo. Mas todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em suas mãos. Para isso acontecer, tem de ter consumo. Ah, como é difícil esse mundo de gente grande.

Ouvi dizer que umas 200 leis andam por aí querendo controlar a propaganda. Ouvi também falar de uma lei que obriga a ter, nas fotos, algo como “esta foto não é real” a fim de libertar as meninas da beleza “artificial“. Alguém pode me explicar o que vem a ser a “beleza natural“?

Ninguém pode controlar o modo como se “forma” o padrão de beleza sem se tornar um fascista. Pois bem, aí está o photoshop ético. Ridículo, como aliás todo esse furor legislativo. A ideia de uma propaganda “construtiva” em termos de “valores” é de inspiração fascista. Quem vai dizer quais são os “valores construtivos“?

Se tomarmos por evidência o que as pessoas falam, todas têm ótimos “valores“, ninguém corrompe ninguém, ninguém trai ninguém, ninguém mente para ninguém, todo mundo ensina aos filhos o bem. Veja a pesquisa recente publicada no caderno Mais! desta Folha (dia 4 passado): segundo a pesquisa, nós vivemos numa Escandinávia, todo mundo é muito ético.

Ninguém fala a verdade quando é perguntado sobre “valores”. Óbvio que não: seria como ficar nu em público. A tendência a projetar uma autoimagem de gigante ético é tão normal quanto cobrir as partes íntimas do corpo. É mais ou menos como se perguntar: é verdade que sua mãe é amante do vizinho? Ela é, mas você não vai contar.

Por exemplo, uma reunião de pais numa escola é um desfile de pessoas que são absolutamente seguras quanto aos “valores” que passam para os filhos. Mentira. Pura piada. Quando muito, os pais veem os filhos à noite. Só não terceirizam os filhos quem não tem dinheiro ou mulheres sem inquietações profissionais ou libertárias, ou seja, as “coitadas” que as outras acham que são “apenas mães”.

Se dependesse desses “santos“, o mundo já estaria salvo só de ouvi-los cantar o hino aos “valores de seus filhos“. A vida cotidiana se dá aos pedaços, aos trancos e barrancos, com fragmentos de consciência e a custa de muito esforço. Ninguém sabe com certeza o que está fazendo, quando está fazendo, em meio a tudo que faz ao mesmo tempo, o tempo todo.

Enfim, suspeito que esse papo de “valoresserve para evitarmos falar de coisas mais sérias.

LUIZ FELIPE PONDÉ

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Para sempre é sempre por um triz


Como ter um relacionamento duradouro e feliz

Em seu livro Uma Nova Visão do Amor, o psiquiatra Flávio Gikovate diz que procurar no ser amado o seu complemento, a sua outra metade, é um perigo para a saúde do relacionamento. “Antigamente um dos pares precisava sempre fazer grandes concessões, porque os casais imaginavam que tinham de fazer tudo juntos”, diz Flávio. “As pessoas estão mais individualistas e aprenderam que a chave de um relacionamento sereno é o respeito pelas diferenças de gosto”.

Flávio é formado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) desde 1966 e autor de 25 livros que já venderam mais 600 mil exemplares nos últimos 30 anos. Escreveu durante anos para a Folha de São Paulo e para a Revista Claudia. Toda essa experiência você confere agora em uma entrevista com dicas preciosas para manter um bom relacionamento com o seu amado.


Baseada na sua experiência como profissional, quais conselhos você daria a quem está pensando em casar agora? O que é importante levar em conta, observar, refletir para ter um relacionamento duradouro e feliz?

Flávio Gikovate - O primeiro ingrediente para um relacionamento duradouro reside na escolha do parceiro: quanto maiores as afinidades de gostos e interesses, mas, principalmente, de caráter, melhor. Gente honesta deve se relacionar com gente honesta. Isso é essencial, pois, se a aliança se faz com alguém que mente ou que é mais para egoísta, por exemplo, os problemas ficarão agravados depois do casamento.

Outro fator é não ser ingênuo ou otimista: convém pensar que ao casar, todos os problemas e dificuldade pioram, sim! As pessoas se acomodam e mostram mais a sua face negativa. Assim, é preciso que tudo, inclusive o sexo, esteja 100% durante o namoro porque talvez venha a piorar um pouco.

Um terceiro conselho: um relacionamento não permanece encaixado e funciona bem automaticamente. Ou seja, é preciso cuidado, atenção com o outro, esforço para que as afinidades e projetos de vida continuem convergentes. Isso não é fácil e exige muita atenção sobre os próprios anseios, os do parceiro e cuidado nas conversas e negociações. Aliás, elas devem existir o tempo todo porque os pontos de vista serão divergentes em muitos aspectos e os diálogos tem que ser respeitosos para serem produtivos.


O amor de hoje é diferente do amor de antigamente? É importante manter a individualidade? Uma certa renúncia não é inerente ao relacionamento, ou seja, não temos sempre de abrir mão de coisas em prol da relação?

FG - Antigamente, as concessões eram grandes porque os casais imaginavam que tinham que fazer tudo juntos. Quase sempre havia um que concedia e o outro, o mais egoísta, que abusava da tolerância do mais generoso. Além disso, a idéia que estava em vigor era a de que ao homem cabia dirigir a vida a dois. Isso não é mais verdade: as moças representam 60% dos estudantes universitários, de modo que em breve estarão mais bem preparadas e ganhando mais que a média dos homens. A independência sexual e financeira da mulher, junto com os avanços tecnológicos de utilização individual (IPod, computador, DVD, etc) tem feito crescer a individualidade das pessoas, o que é uma ótima notícia. Assim, em vez de concessões, que por vezes tem que ocorrer, a chave de um relacionamento sereno é o respeito pelas diferenças, gostos e individualidades. Ou seja, quando se gosta da mesma coisa, se faz junto. Quando um gosta e o outro não, cada um faz o que gosta e se encontram depois. Ambos felizes. Quem faz as concessões acaba se aborrecendo internamente e não raramente arruma uma briga por algum motivo fútil.


Como resolver interiormente a sensação de desemparo e de insegurança para deixar de depender do parceiro amoroso?

FG - Nenhum de nós consegue resolver completamente a sensação de desamparo que nos acompanha desde o nascimento. Por isso mesmo gostamos de ter um parceiro amoroso. Podemos lidar com essa sensação individualmente. Um dos recursos é, por exemplo, manter-se ocupado e entretetido tanto com o trabalho como com leituras, esportes, cinema, amigos, etc. O que tem que ser claro é que o parceiro sentimental não tem que ser o remédio definitivo, único e permanente para o nosso desamparo. O nosso desamparo é problema nosso! O parceiro, quando presente, nos ajuda muito, mas não é sua obrigação nos aliviar o tempo todo das sensações íntimas dolorosas.


Com o passar dos anos, a maioria dos casais não sente mais aquela paixão avassaladora do início, aquele êxtase. Porque isso acontece? É possível reacender esta chama e manter um relacionamento longo e feliz?

FG - É possível, sim, que o amor permaneça igualmente intenso e gratificante por toda a vida. É claro que terá altos e baixos, dependendo do comportamento do parceiro e do nosso estado de alma. O que desaparece é o componente do medo que está associado à paixão: paixão = amor + medo. O medo é relacionado com o risco de ruptura, além do medo da felicidade, condição com a qual acabamos por nos acostumar. Com o casamento, os temores de ruptura diminuem muito e o medo se atenua. Aí, o essencial é não se acomodar e tratar de conservar a riqueza de conversas.
A intimidade depende também de um fator essencial: não julgar o parceiro o tempo todo. Existem muitas pessoas que não sabem ouvir a não ser com a idéia de encontrar e apontar os defeitos do outro. Isso é horrível, pois acaba levando o outro a se calar, a omitir tudo aquilo que poderá ser passível de crítica. Com isso, a intimidade se prejudica e, ao longo do anos, pode vir a se romper de modo radical.


É possível, depois de 30, 40 anos de casamento, ser uma pessoa que ainda provoque interesse no outro? Como não deixar que a rotina mate o relacionamento? Pessoas muito diferentes conseguem manter um relacionamento longo ou é preciso haver compatibilidades?

FG - Já afirmei que a harmonia conjugal depende essencialmente das afinidades, principalmente as de caráter. É impossível confiar em um parceiro que mente, que é insincero. Com o tempo isso destrói o eventual encantamento e o amor desaparece.

A rotina não perturba o cotidiano a não ser quando ela é muito chata! Rotinas agradáveis, compartilhadas com alegria, são uma dádiva. Não é a rotina que destrói o relacionamento, mas a falta de criatividade de modo que só sobra o cotidiano que é forçosamente repetitivo.

Para que as pessoas continuem a ser interessantes para seus parceiros é preciso que elas se reciclem, renovem seu repertório, tenham interesses e se dediquem a eles. O casamento não é chato, chatas são as pessoas que não progridem, que não leem, não assistem a filmes, não acompanham as notícias, não tem nada de novo para dar. Chatas são as pessoas que acham que seus parceiros estão no mundo para entretê-las e não percebem que elas mesmas devem encontrar os meios de fazer a vida agradável.

As pessoas esperam do parceiro o que deveriam buscar em si mesmas. Amor é o sentimento que temos por quem nos provoca a adorável sensação de paz e aconchego que neutraliza momentaneamente nosso desamparo. Amor não é entretenimento, não é parque de diversões. Aventuras devem acontecer juntos ou separados, em atividades profissionais, intelectuais, projetos de viagem, etc

domingo, 11 de outubro de 2009

As cartas de amor

Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração

Espero que desculpes os meus erros por favor

Nas frases desta carta que é uma prova de afeição
Renato Russo



Todas as cartas de amor são

Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente Ridículas.)

Álvaro de Campos



As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.
As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.

Fabricio Carpinejar


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sábado, 3 de outubro de 2009

O sistema de cotas

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados,
quase todos pretos

Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
Caetano Veloso e Gilberto Gil

DOM DE ILUDIR

Sousa Santos é da "nova esquerda". Usa seu dom de iludir para vestir a política de raça com a fantasia de um programa de redenção social

NO VESTIBULAR da UnB (Universidade de Brasília), um hipotético filho do ministro Joaquim Barbosa, do STF, com renda familiar de várias dezenas de salários mínimos, que estudou nos melhores colégios particulares, optante do sistema de cotas raciais, precisaria de menos pontos para ser aprovado que um estudante de escola pública de pele clara, filho de trabalhadores, com renda familiar de três salários mínimos.

Como sustentar a constitucionalidade e a justiça disso?

W. E. B. Du Bois, o intelectual americano que fundou o pan-africanismo no início do século 20, interpretava a história como um drama cujos protagonistas eram as raças.

Num ensaio que está na origem remota das atuais políticas racialistas, ele formulou a tese de que a raça negra seria salva pela sua elite intelectual: "os talentosos 10%", na expressão escolhida como título do ensaio.

Eis aí a única forma intelectualmente honesta de justificar o sistema de cotas raciais na UnB.

Mas a honestidade intelectual é um artigo escasso numa esquerda que não entendeu o significado da queda do Muro de Berlim e continua a hostilizar os princípios sobre os quais se sustenta a democracia.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos arautos proverbiais dessa esquerda, invocou a "justiça social" e a "justiça histórica" como argumentos de legitimação do sistema de cotas ("Tendências/Debates", 26/8).

É uma opção pelo ilusionismo, que investe na confusão conceitual para ocultar o sentido das políticas de raça.

De acordo com a proposição implícita de Sousa Santos, o hipotético filho de Barbosa figura como representação da massa de pobres pardos e pretos vitimados por uma abolição sem reformas sociais e uma modernização econômica excludente.

Sobre essa fundação imaginária, ele apresenta as cotas raciais da UnB como um modelo de ferramenta para o "fim do colonialismo social" no Brasil.

Falta, porém, combinar a justificativa histórica com o antropólogo José Jorge de Carvalho, "pai fundador" do sistema de cotas naquela universidade, que o explicou de um modo singelo: "Aí não há nenhuma discussão do capital, nenhuma proposta socialista, nenhuma proposta renovadora da ordem do capital; todo mundo pode acumular riqueza. Mas, digamos assim, celebra a diversidade.

Seja como for, pelo menos alguns passaram a ser bilionários: índios bilionários, latinos bilionários, negros bilionários".

Carvalho é um racialista legítimo, da linhagem de Du Bois. Pretende fazer da universidade um dínamo de geração de elites raciais -e reconhece isso. Sousa Santos é um intelectual da "nova esquerda". Usa seu dom de iludir para vestir a política de raça com a fantasia de um programa de redenção social.

E finge desconhecer os inúmeros estudos empíricos que comprovaram, em diferentes países, que os sistemas de preferências raciais beneficiam unicamente a diminuta camada superior do grupo social definido como uma raça.

Relatando a ação de inconstitucionalidade movida pelo DEM contra o sistema de cotas da UnB, o presidente do STF, Gilmar Mendes, sugeriu que a corte reflita sobre o conceito de fraternidade. Sousa Santos enxergou na sugestão uma "inovação importante no discurso do Supremo" e sustentou a ideia de que o programa de preferências raciais institucionaliza uma "fraternidade efetiva".

O adjetivo do sociólogo nada significa, funcionando só como um recurso retórico destinado a circundar o dilema de fundo.

A fraternidade invocada por Gilmar Mendes é a da Revolução Francesa.

Antes de 1789, a nação era apenas a aristocracia, entrelaçada por vínculos de sangue e de privilégio que formavam um tipo de fraternidade. Depois da derrubada da Bastilha, a nação foi redefinida como o povo inteiro, unido por um contrato político.

A nova fraternidade proclamada fundou-se na ausência de distinções essenciais entre os indivíduos: a "irmandade dos cidadãos". Eis o motivo pelo qual, no tríptico dos revolucionários, a fraternidade não figurava sozinha, adquirindo significado na companhia da liberdade e da igualdade.

Políticas de preferências raciais podem ser justificadas pelo conceito de fraternidade, mas com a condição de que ele seja traduzido nos termos do "Ancien Régime". A raça é uma fraternidade de sangue: uma irmandade inventada a partir de descendências imaginárias.


Dividir o Brasil em raças oficiais, o pressuposto dos sistemas de cotas raciais, equivale a optar por esse tipo de fraternidade, em detrimento da "irmandade dos cidadãos". É curioso, e um tanto trágico, que se tente sustentar tal programa com um discurso de esquerda. Mas é um sinal dos tempos...

DEMÉTRIO MAGNOLI



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