sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ridículos tiranos

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos
Caetano Veloso


Os regimes mais canalhas nascem e prosperam
em nome da liberdade.

Nelson Rodrigues



O subdesenvolvimento explica


A mais sintética -e nem por isso menos certeira- definição para os formidáveis esforços que o presidente colombiano Álvaro Uribe e seus seguidores desenvolvem para obter a re-reeleição é do ex-deputado liberal Jaime Castro: "O que está ocorrendo é uma demonstração de subdesenvolvimento político muito grande". Bingo.

A América Latina, que transitou com razoável segurança e velocidade, do autoritarismo para a democracia a partir dos anos 80, não conseguiu passar à etapa seguinte: a substituição ou, na pior das hipóteses, uma convivência mais equilibrada entre instituições fortes e homens do destino.
Ou caudilhos que se acham insubstituíveis, a sua mais persistente figura política.

O vício da perpetuação não distingue corrente política ou ideológica, não é diferente na direita ou na esquerda ou até no centro.
Basta lembrar que quem rompeu, no Brasil, a tradição de que reeleição era vetada (mesmo uma só) foi Fernando Henrique Cardoso.

No dia em que ele tomaria posse, 1º de janeiro de 1995, já desembarcou em Brasília com o projeto para introduzir a reeleição o deputado pernambucano Maurílio Ferreira Lima (PSDB).
Ressalve-se que FHC não tem características caudilhescas, no sentido de apelo popular. Mas o grupo que chegava ao poder via nele e, acima de tudo, no Plano Real que ele encarnava, a melhor chance de ficar 20 anos no poder, como chegou a dizer Sérgio Motta, o braço direito de FHC até morrer.

Antes, na Argentina, Carlos Menem também obteve o direito a disputar a reeleição, igualmente amparado num fenômeno econômico (a paridade entre o peso e o dólar, que acabara com a inflação e, por extensão, com surtos devastadores de hiperinflação).


Não importa que esse modelo contivesse o germe da destruição econômica e social que viria já no fim do segundo mandato de Menem. Importava era a continuidade.
Só depois é que a esquerda latino-americana aderiu à onda, nas figuras de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Daniel Ortega, na Nicarágua, está ainda na fase de tentativa. Nesses casos, trata-se de caudilhismo puro e duro.

Não há "chavismo" sem Chávez, como não houve varguismo sem Getulio Vargas, no Brasil, ou peronismo sem Juan Domingo Perón na Argentina (o que existiu depois dele foi sempre um saco de gatos, que se matavam literalmente uns aos outros durante o governo de Isabelita Perón e, agora, se enfrentam nas urnas com menos sangue real, mas uma contundência retórica parecida).


Posto de outra forma: não há correntes de opinião organizadas na forma de partidos que possam levar a bandeira quando o caudilho morre ou deixa o poder, seja qual for a razão. Mesmo no Brasil, em que o caudilho Luiz Inácio Lula da Silva renunciou, ao que tudo indica, a aceitar o que Uribe agora busca (a re-reeleição), seu substituto não é um histórico do partido em que Lula sempre militou.

Na verdade, Dilma Rousseff é candidata do "lulismo", não do petismo, ainda que o PT a aceite porque é abençoada pelo chefe, dotado de imensa popularidade.
O subdesenvolvimento apontado por Jaime Castro é até explicável.

Democracia é um jogo recente no subcontinente. Nos Estados Unidos, mais de 200 anos de prática levaram a uma estabilidade que permite proibir para sempre a volta de um presidente depois de cumpridos dois mandatos sucessivos.


Bill Clinton, por exemplo, tinha popularidade suficiente para ser melhor candidato que John Kerry, quando este disputou, pelos democratas, contra George Walker Bush que buscava a reeleição.

Mas não podia competir. Nem por isso, o Partido Democrata desapareceu. Voltou com Barack Obama quatro anos depois. E ganhou.



CLÓVIS ROSSI



sábado, 19 de setembro de 2009

As mulheres de Chico Buarque

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas

Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas
(Chico Buarque)


As figuras do feminino na canção de Chico Buarque


"O que quer a mulher?" A pergunta de Freud ressoa na poesia de Chico Buarque,

Já se falou muito que Chico Buarque conhece a alma feminina como nenhum outro homem.

Agora, todas as mulheres de sua obra são reveladas no livro "Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque", de Adélia Bezerra de Menezes (Ateliê Editorial e Boitempo Editorial).

A autora lecionou Literatura Brasileira na Technische Universitãt de Berlim e é professora de Teoria Literária na Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Essa é o segundo mergulho de Adélia na obra de Chico. No início dos anos 80 lançou "Desenho Mágico - Poesia e Política em Chico Buarque" (cuja reedição saiu recentemente pela editora Ateliê e que chegou a ganhar um Prêmio Jabuti em 1982). Ela não avalia a obra de Buarque como música, mas como "alta poesia", segundo afirma.

"Ele às vezes assume um ponto de vista espantosamente feminino", diz a autora.

Em qualquer show de Chico Buarque é possível ver o fascínio que o cantor e compositor de 55 anos, três filhas e dois netos causa na ala feminina do público.

Boa parte desse fascínio, segundo pondera a jornalista Regina Zappa, autora de livro sobre o compositor, vem mais de sua habilidade em descrever sentimentos do que nos olhos verdes do cantor.

"Eu acho que a chave disso tem muito a ver com a música dele, com o sentimento das suas canções, que são muito fortes e autênticas", diz Regina.

LIVRO - "Figuras do Feminino" perpassa todas as mulheres da obra do cantor, de "Carolina" e "Bárbara", do início da carreira a "Cecília" e "Você Você", do disco "As Cidades". E articula as canções com imagens que se relacionam com os temas, telas de Di Cavalcanti, Vicente do Rêgo Monteiro, Volpi e outros.

Em "Pedaço de Mim", por exemplo, Adélia de Menezes usa uma reprodução da tela "O Casal", de Ismael Neri. Em "Angélica", é uma ilustração de Portinari. E assim por diante.

"Não é um livro para qualquer leitor, no entanto. Tem uma abordagem acadêmica, já que foi concebido como tese. Mas a análise das letras do autor dá uma certa leveza à publicação, ajudando a transpor os entroncamentos teóricos. A autora revela artifícios do compositor, que às vezes usa sobreposição de imagens (a mulher e a cidade) para falar do tema do feminino e passa do afetivo ao social, do sexual ao político, sempre sob um prisma original - diferentemente do discurso habitual sobre a mulher."

Autora avalia obra do compositor como "alta poesia"




quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Mas vou até o fim...

Não acredito apenas em talento natural.
Mesmo Mozart, um caso sem aparente explicação humana, não seria possível sem a família e o meio musical onde nasceu e cresceu, capaz de fazer florescer o que já era puro gênio no pequeno Wolfgang.

Não se iludam, preguiçosos e indolentes: o talento natural pode ser o primeiro passo.
Mas ainda existem todos os outros para dar, em anos infindos de trabalho e solidão pessoal.

João Pereira Coutinho



"Os amigos não me deixaram desistir".


Das fileiras da escola de direito do Largo São Francisco, em São Paulo, ao cargo de desembargador recém nomeado no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 9ª Região, Paraná. A trajetória do juiz Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, 50, seria comum para um estudante da mais importante universidade do país não fosse um desafio: no terceiro ano do curso, o então candidato a bacharel perdeu completamente a visão.


Fonseca nasceu prematuro de seis meses, com baixa visão, o que não o impediu de entrar para a Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo). Já como estagiário do Centro Acadêmico 11 de Agosto, o problema se agravou, até a cegueira completa. Tinha 23 anos.

"Eu só continuei graças aos meus colegas, que gravavam os livros em fitas cassete para eu conseguir estudar. Essa amizade foi fundamental para toda a minha vida", conta.

Desde então, galgou passos na carreira. Advogou de 1985 a 1987, foi assessor de um juiz de Campinas (interior paulista) até 1991 e, nesse meio tempo, em 1990, prestou concurso para juiz do Trabalho. Passou, mas foi desclassificado por ser cego.

Não desistiu. Enquanto, mais uma vez, colegas se mobilizavam para reverter o resultado desfavorável do concurso com um mandado de segurança, que acabou negado, conseguiu tornar-se procurador do Trabalho, aprovado em 6º lugar, entre cerca de 5.000 candidatos, no exame do Ministério Público do Trabalho. Também fez mestrado e doutorado, e hoje dá aulas em pós-graduação.

Depois de 18 anos na carreira de procurador, e mais uma vez com o apoio dos colegas, foi nomeado à Justiça do Trabalho pelo Quinto Constitucional, dispositivo previsto na Constituição Federal pelo qual o próprio Judiciário escolhe um membro do Ministério Público para fazer parte daquele Poder. Fonseca exerce a função desde agosto deste ano e, nesta quinta-feira (17), recebe a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sua cerimônia de posse festiva.

"Meu trabalho mudou, porque agora em vez de fazer ações, investigações, eu julgo. Mas a rotina continua a mesma, com ledores que me auxiliam. E deve ficar ainda mais fácil, porque agora estão digitalizando os processos que chegam ao tribunal e eu terei um programa de computador que transforma os textos em voz", afirma

Ao todo, são oito assessores que se revezam para auxiliá-lo com a leitura -o mesmo número a que têm direito todos os desembargadores do tribunal. Estuda-se a possibilidade de se incluir mais uma pessoa para exercer apenas esta função, mas não foi preciso qualquer adaptação no local em razão da deficiência. "A única adaptação necessária no escritório é esse programa para a conversão dos processos [em voz]", afirma.

O magistrado diz que já participou de decisões colegiadas e que, para isso, também conta com a ajuda dos colegas desembargadores, com quem afirma ter uma boa relação. "Estou muito feliz. Gosto muito de Curitiba. E estou muito honrado com a visita do presidente Lula."

Fonseca também considera que os jovens com dificuldades visuais de hoje terão muito mais condições de se tornarem juízes, justamente em razão do avanço da tecnologia. "Eles têm muita destreza com o computador. Na minha época não havia essas possibilidades."

Já sobre seu novo cotidiano, atendendo as demandas trabalhistas, é realista. "O problema da Justiça do Trabalho está no excesso de demanda e na falta de juízes, apesar de que ela ainda é a mais célere do país. Mas a primeira instância é muito mais carente", conclui.

Rosanne D'Agostino

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Casamentos possíveis

Casamentos possíveis

Em geral, a gente casa com a pessoa certa:
com quem podemos culpar por nossos fracassos


UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer".

Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.

Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.

As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.

Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.

Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.

Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".

Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa "certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.

Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças", que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.

Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.

Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.

À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.

O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.


CONTARDO CALLIGARIS

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Na minha cidade tem poetas

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
(Caetano Veloso)


Guardanapos de Papel

Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas

E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados

Guardados entre livros e sapatos, em baús empoeirados


Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares

E convivem com fantasmas multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores


Suas ilusões são repartidas, partidas, partidas
Entre mortos e feridas, feridas, feridas
Mas resistem com palavras confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas


Não desejam glorias nem medalhas, medalhas, medalhas

Se contentam com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos


Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem

O que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem


Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho veste suas caudas tortas


Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas, confusas,

Em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas

Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram


Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro



Leo Masliah e Carlos Sandroni



domingo, 6 de setembro de 2009

É proibido ser homossexual

"Conheço pessoas que deixaram as práticas homossexuais.
E isso lhes trouxe conforto.
Perderam a atração homossexual, que foi se minimizando.
Deixaram de sentir o desejo por intermédio
da psicoterapia e por outros meios.
O ativismo pró-homossexualismo está diretamente ligado ao nazismo.
As políticas públicas pró-homossexualismo querem, por exemplo, criar uma nova raça e eliminar pessoas.
Essas pessoas que estão homossexuais estão ligadas a todo um poder nazista de controle mundial.”

Rozângela Alves Justino



Discordar de nosso próprio desejo


Um terapeuta deve deixar suas opiniões e crenças no vestiário do consultório, a cada dia


EM 31 de julho, o Conselho Federal de Psicologia repreendeu a psicóloga Rozângela Alves Justino por ela oferecer uma terapia para mudar a orientação sexual de pacientes homossexuais.
Não quero discutir a "possibilidade" desse tipo de "cura" (afinal, reprimir o desejo dos outros e o nosso próprio é uma atividade humana tradicional), mas me interessa dizer por que concordo com a decisão do Conselho.


A revista "Veja" de 12 de agosto publicou uma entrevista com Alves Justino, na qual ela explica sua posição. No fim, a psicóloga manifesta seu temor do complô de um "poder nazista de controle mundial", que estaria querendo "criar uma nova raça e eliminar pessoas", graças a políticas abortistas, propagação de doenças sexualmente transmissíveis etc.


Para ser psicoterapeuta, não é obrigatório (talvez nem seja aconselhável) gozar de perfeita sanidade mental. É possível, por exemplo, que um esquizofrênico, mesmo muito dissociado, seja um excelente psicoterapeuta (há casos ilustres). Mas uma coisa é certa: para ser terapeuta, ser inspirado por um conjunto organizado de ideias persecutórias é uma franca contraindicação.


Na verdade, pouco importa que as ideias em questão sejam ou não persecutórias e delirantes: de um terapeuta, espera-se que ele deixe suas opiniões e crenças (morais, religiosas, políticas) no vestiário de seu consultório, a cada manhã. Quando, por qualquer razão, isso resultar difícil ao terapeuta, e ele sentir a vontade irresistível de converter o paciente a suas ideias, o terapeuta deve desistir e encaminhar o caso para um colega. Por quê?


Alves Justino, com sua aversão por homossexualidade, sadomasoquismo e outras fantasias sexuais, ilustra a regra que acabo de expor. Explico.


A psicóloga defende sua prática afirmando que a psiquiatria e a psicologia admitem a existência de uma patologia, dita "homossexualidade ego-distônica", que significa o seguinte: o paciente não concorda com sua própria homossexualidade, e essa discordância é, para ele, uma fonte de sofrimento que poderíamos aliviar -por exemplo, conclui Alves Justino, reprimindo a homossexualidade.


De fato, atualmente, psiquiatria e psicologia reconhecem a existência, como patologia, da "orientação sexual ego-distônica"; nesse quadro, alguém sofre por discordar de sua orientação sexual no sentido mais amplo: fantasias, escolha do sexo do parceiro, hábitos masturbatórios etc. Existe, em suma, um sofrimento que consiste em discordar das formas de nosso próprio desejo sexual, seja ele qual for (alguém pode sofrer até por discordar de sua "normalidade"). Pois bem, nesses casos, o que é esperado de um terapeuta?


Imaginemos um nutricionista que receba uma paciente que se queixa de seu excesso de peso, enquanto ela apresenta uma magreza inquietante: ela tem asco da forma de seu próprio corpo, que ela percebe como enorme e que ela não aceita como seu. O nutricionista não tentará nem emagrecer nem engordar sua paciente, pois o problema dela não é o peso corporal, mas o fato de que ela discorda de si mesma a ponto de não conseguir enxergar seu corpo como ele é.


No caso da orientação sexual ego-distônica, vale o mesmo princípio: o problema do paciente não é seu desejo sexual específico, mas o fato de que ele não consegue concordar com seu próprio desejo, seja ele qual for. As razões possíveis dessa discordância são múltiplas.

Por exemplo, posso discordar de meu desejo sexual porque ele torna minha vida impossível numa sociedade que o reprime (moral ou judicialmente) e cujas regras interiorizei. Ou posso discordar de meu desejo porque ele não corresponde a expectativas de meus pais que se tornaram minhas próprias. E por aí vai.


Nesses casos, o terapeuta que tentar resolver o problema confiando em sua visão do mundo e propondo-se "endireitar" o desejo de quem o consulta, de fato, só agudizará o conflito (consciente ou inconsciente) do qual o paciente sofre. Ora, é esse conflito que o terapeuta deve entender e, se não resolver, amenizar, ou seja, negociar em novos termos, menos custosos para o paciente. Em outras palavras, diante da ego-distonia, o terapeuta não pode tomar partido nem pelo desejo sexual do paciente, nem pelas instâncias que discordam dele.


Ou melhor, ele pode, sim, só que, se agir assim, ele deixa de ser terapeuta e vira militante, padre ou pastor.


CONTARDO CALLIGARIS



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

É proibido engordar


Depois dos fumantes, obesos são alvo de
patrulhamento


Cobrança de poltrona extra para passageiros muito gordos na companhia aérea United Airlines, que tem voos no Brasil, amplia debate sobre restrições




Se em São Paulo a vida dos fumantes está ficando mais difícil, com proibições ao cigarro em bares e empresas, em outros países os obesos também sofrem patrulhamento.
Os quilos a mais já custam mais caro em várias companhias aéreas internacionais (algumas com voos no Brasil), nas quais passageiros muito acima do peso podem ter de pagar por duas poltronas em voos cheios.

No Estado do Alabama (EUA), o governo cobrará, a partir de 2011, US$ 25 por mês de obesos que não se cuidarem.
Na Inglaterra, um condado motivou protestos ao passar a cobrar, neste ano, 50% a mais para enterrar corpos "maiores".

"Isso é cruel", diz Walmir Coutinho, diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. "Sei que as empresas não querem prejuízo, mas a ciência mostra que não é correto dizer que só é gordo quem quer. Seria algo como taxar mais os cadeirantes porque [eles] precisam de mais auxílio."

A United Airlines cita reclamações de "cerca de 700 passageiros em 2008" que viajaram "espremidos" para justificar a criação, há duas semanas, da cobrança de poltrona extra para obesos em voos lotados.
Nada será cobrado se houver cadeiras disponíveis, diz a empresa. Outras oito companhias americanas já faziam a cobrança. Algumas, como a Continental e a Delta, operam no Brasil, onde as regras também valem, assim como a United.

No Brasil, TAM e Gol dizem que não adotam essa política.
O Procon de São Paulo condena a ideia. "Trata-se de atitude discriminatória em razão de um aspecto físico, o que não condiz com o princípio de igualdade estabelecido pela Constituição Federal", afirma a entidade em nota.

Para a atriz Fabiana Karla (114 kg e 1,65m), 33, "as companhias deveriam ser acessíveis a todos". "Não faço apologia da gordura, sei que a obesidade traz problemas [como maior risco de hipertensão, diabetes, infarto, derrames], mas é preciso entender as diferenças."

O atleta de sumô Willian Higuchi, 26, que vai a Taiwan em julho para um campeonato, diz que os lutadores chegam "moídos" das viagens. "Aqui não há lutadores de sumô de 150 kg, como no Japão. Mas peso 117 kg e o desconforto é grande."

DANIEL BERGAMASCO


Cemitério

No condado inglês Houghton Regis, o conselho de funerais decidiu cobrar desde março 50% a mais para enterrar pessoas muito gordas. "O fundamento básico é que ocupam mais espaço", disse à Folha o conselheiro Steve Oliver.
A regra começou a vigorar em março. Em vez da tarifa normal de 129 libras (R$ 415), o sepultamento de obesos custa 194 libras (R$ 625).


"Imposto de gordura"

Funcionários do governo estadual do Alabama (EUA) pagarão US$ 25 mensais se estiverem fora do peso e não se cuidarem. Para os outros, o plano de saúde continua grátis.
Antes do "imposto de gordura", o governo já cobrava US$ 25 de fumantes. "Houve polêmica, mas há resultados positivos. O total de empregados fumantes caiu de 23% para 21%", disse à Folha Garry Mathews, do governo local.