quinta-feira, 27 de agosto de 2009

É proibido fumar

"Gostaria de ver por parte do governador a mesma rigidez para tratar da proibição de circulação dos veículos altamente poluidores que, diariamente, despejam no nosso "límpido ar da cidade" toneladas de fumaça. Ou a poluição dos veículos não é tão prejudicial quanto a fumaça produzida por quem fuma?"

JOSÉ PIPINIS FILHO
(São Paulo, SP)



O bandido é você


Leis repressivas servem como nova forma de legitimação a políticos desmoralizados


APESAR DAS imoralidades cotidianas da política, acho que em muitos lugares do Brasil uma ideia está com os dias contados. É o velho lema do "rouba, mas faz".

De Adhemar de Barros a Paulo Maluf, passando por Médici e Juscelino, a realização de grandes obras públicas foi uma das principais razões para a popularidade de um governante.

Mas, hoje em dia, para o governo Serra por exemplo, o Rodoanel parece ter menos impacto do que a lei antifumo.

Basta ver um anúncio publicado recentemente nos jornais, em que celebridades como Jô Soares e Pelé aparecem usando uma camiseta, com o símbolo de cigarro proibido, em apoio à iniciativa do governador.

Claro que não falta ali o logotipo do governo do Estado. O anúncio rememora a clássica propaganda eleitoral em que atores de novela enunciam melosamente seu apoio a determinado candidato.

Fica mais fácil, evidentemente, mobilizar os famosos para uma causa em tese meritória e cívica.

A grande maioria da população, aliás, apoia a ideia de proibir rigorosamente o cigarro em qualquer lugar onde possa haver prejuízo à saúde dos não-fumantes.

Admito o acerto da lei, ainda que seus exageros sejam evidentes. Que dizer de um bar onde todos os garçons sejam fumantes? Por que não aceitar que seja um reduto da nicotina, para quem quiser entrar nele?

Não importa. Minha impressão é que, depois do "rouba mas faz", e do espetáculo parlamentar do "rouba e não faz nada", cria-se uma nova forma de legitimação política para os governantes.
Governante bom é aquele que proíbe as coisas.

O sucesso de tal atitude se comprovou na lei contra os outdoors, na gestão Serra/Kassab em São Paulo.

Por sorte, não escrevi nada a respeito na época em que a iniciativa começou. Eu achava que aquilo não daria certo, que tiraria emprego de muita gente, e que a cidade não ficaria melhor depois da lei.

Eu estava enganado. Perto da Folha, por exemplo, os olhos do pedestre respiram com a retirada de tudo quanto é cartaz e fachada de mau gosto. A arquitetura original de alguns prédios degradados revive, e a cidade ganha de novo cara de cidade.

Desconheço as estatísticas, mas, sem dúvida, a lei da cidade limpa ajudou muito a reeleição do prefeito Kassab.

O contraste é completo, se pensarmos nas tentativas da prefeita anterior, Marta Suplicy, inventando uma obra viária para agradar a classe média (certo túnel na avenida Rebouças), que acabou indispondo mais ainda o eleitorado rico contra o PT.

Não, o caminho para adquirir votos é outro. Grandes e pequenas obras contam, a esta altura, não como um ato político importante, mas como uma rotina de Estado. De resto, as dimensões que adquirem os casos do Rodoanel e do metrô extravasam os limites temporais de uma administração determinada.

Fazer, todo político faz. Roubar, todo político rouba. Então onde marcar a diferença entre um político e outro?

Talvez em coisas como a lei antifumo e a Cidade Limpa. O prefeito ou o governador que se apresentarem no papel de entidade proibitiva e repressora ganharão votos em todo lugar. Não precisam defender a pena de morte: que defendam o banimento dos fumantes, por exemplo.

Encarnando a repressão legítima, cada governante inverte os termos da equação trivial nos dias de hoje. A saber, a de que os políticos são bandidos e os cidadãos são inocentes.

Eis que descobrimos, com a Lei Seca e a investida contra os fumantes, que os cidadãos não são inocentes de modo nenhum. São, na verdade, criminosos e assassinos.

Atende-se, desse modo, à vontade de ver, de vez em quando, a lei ser cumprida. Sabemos que, ao contrário do escroque norte-americano Bernard Madoff, não haverá condenação rápida nem garantida para os espertalhões nacionais -muito menos para senadores e deputados.

O prêmio de consolação é ver um ricaço, obviamente alcoolizado, às voltas com guardas de trânsito. É ver a lei sendo seguida à risca quando um adolescente, inchado de ecstasy, inventa de acender um cigarro no meio da balada.

A vontade de legislação -e de fiscais- preenche, desse modo, a falta de ética de todo o sistema político brasileiro. Esperto é o governante que, antes de ser acusado, aponta a acusação de ilegalidade contra os cidadãos -por senso de culpa, os eleitores terminam votando nele.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Diz um aviso que li

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não – livres?
Bertolt Brecht



Até tu, São Paulo?

A SÉRIE "Mad Men" ainda não estreou no Brasil. Lamento. Melhor é impossível. "Mad Men" é o retrato perfeito dos publicitários da Madison Avenue na Nova York sofisticada de 1960. Mas é mais do que isso. Um fresco sobre a grande transição americana: do aburguesamento dos "fifties" à contracultura dos "sixties". Do tédio à lixeira.

Um pormenor, porém, não deixa de causar espanto entre os filistinos: o fumo. Em "Mad Men", toda a gente fuma com uma naturalidade que nos parece herética. Dentro dos edifícios, fora dos edifícios. Mães, pais. Patrões. Empregados. E médicos, é claro, a começar por um ginecologista que segura o cigarro com uma mão e faz o exame com a outra. Equilibrismo puro.

Tanto fumo não deveria espantar. Pessoalmente, ainda recordo o tempo heroico em que o meu avô me levava ao cinema e fumava, em plena sala, do princípio ao fim.

E, historicamente, "Mad Men" está na viragem. Em 1950, Richard Doll publicava o primeiro grande ensaio científico sobre a relação direta entre fumo (ativo) e doença. Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer.

O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.

Mas a ideologia é a ideologia é a ideologia. De vez em quando, afirmo que alguns traços nazistas sobreviveram a 1945. Sou insultado. Não respondo. Basta olhar em volta para perceber que algumas das nossas rotinas médicas mais básicas teriam agradado ao tio Adolfo e à sua busca de perfeição terrena. Exemplos? Certas formas de eugenia "respeitável", praticadas por milhões de pessoas quando recebem uma má ecografia. Ou a demonização absoluta que o fumante moderno conhece nos Estados Unidos. Na Europa. E agora, hélas, em São Paulo.

Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço a natureza totalitária dela, novamente dominada por uma ideia iníqua de perfeição física.

Tudo começa pela elevação da mentira a dogma: o dogma de que "fumo passivo" é um perigo fatal para terceiros. O dogma não é apenas fantasioso; é também perigoso, porque estabelece de imediato uma divisão moral entre os agentes da corrupção (os fumantes) e as vítimas inocentes (os abstêmios). É só substituir "fumante" por "judeu"; e "abstêmio" por "ariano" para regressar a 1933.

E regressar a 1933 é regressar a um mundo que desprezava a liberdade individual com especial ferocidade. A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos.

Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos "desviantes". Isso não é regressar a 1933. É, no mínimo, um regresso à Rússia de 1917. Se juntarmos ao quadro uma verdadeira "polícia sanitária" que ataca à paisana, é possível concluir que o espírito KGB emigrou para o Brasil.

Finalmente, lembremos o essencial: os extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices, ou pelo menos indiferentes aos extremistas. Será São Paulo esse tipo de sociedade?
Parece. A última pesquisa Datafolha é sinistra: a esmagadora maioria dos paulistas (88%) aprova a lei antifumo. Só 10% se opõem a ela. Só 2% lhe são indiferentes. Mais irônico é olhar para os fumantes: depois de anos e anos de propaganda e desumanização, eles olham-se no espelho, sentem o clássico nojo de si próprios e até concordam com a lei (77%).

Razão tinha Karl Kraus quando afirmava, na Viena de inícios do século, que o antissemitismo era tão normal que até os judeus o praticavam. Péssimo presságio.

JOÃO PEREIRA COUTINHO



"Fitter happier"

As leis draconianas impostas pelo governo Serra à população fumante de São Paulo têm um saudável caráter de estímulo a um debate público mais qualificado sobre o mundo em que vivemos.

Os argumentos pelo banimento do fumo são sólidos, basta ouvir um bom médico (tudo bem que a maioria dos que eu conheço fuma, ao contrário de mim).
Cigarro dá câncer e mil outras perebas. Vicia.

Tudo isso é verdade e, na prática, fico feliz em não ter que colocar para fora de casa a camisa usada numa noite em local enfumaçado.

Mas a questão é outra.


A sociedade do ultraconsumo ocidental busca mecanismos sociais para mitigar a aflição decorrente da inadequação de sua condição.

Busca no controle a compensação por seus excessos -vide o embate recente entre a humildade consciente de Bento 16 e a liberdade integral de Nietzsche.

No coletivo, o Estado oferta o controle.


É notável como a discussão se dá nas elites que querem ou não pitar no Fasano.

Esse tipo de lei não é para pobres, que continuarão fumando cigarro contrabandeado nas bibocas inacessíveis a fiscais.

Mas quem limita o Estado? Hoje é o cigarro, amanhã será a bebida. E depois?


Há incontáveis livros sobre o mal das sociedades perfeitas.

Quando o Estado começa a dizer como eu devo morrer, algo está errado.

Afinal de contas, morremos a cada segundo; cada inspiração oxida nossas células e nos encaminha para os braços da Ceifadora.


Ah, mas é muito custoso para o Estado. Aumente-se o imposto, faça a fabricante pagar a parte dela no SUS. Invista-se em educação.

Lógico que o fumo passivo tem de ser banido, mas uma vez que ainda é legal, o fumante deve ser preservado.


Mas caminhamos para outro lugar.

Para o mundo cantado pelo Radiohead em "Fitter Happier". "Mais em forma, mais saudável e mais produtivo/ um porco/ numa jaula/ usando antibióticos".


IGOR GIELOW

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Torna-te eternamente responsável pelo que cativas

Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho,
pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho,
mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós.
Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito, mas há os que não levam nada.


KAHLIL GIBRAN



O PEQUENO PRÍNCIPE E A RAPOSA

- Quem és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer “cativar”?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços...

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa nenhuma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
-Por favor... cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa nenhuma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estaria inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.

- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa...

Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada!

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele…

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…

O Pequeno Príncipe é um livro escrito por Antoine de Saint-Exupéry.

Foi escrito em 1943, um ano antes de sua morte. É sua obra mais conhecida. Do lado de fora parece ser um simples livro para crianças. O Pequeno Príncipe é na verdade um livro profundo, escrito de forma enigmática e metafórica. Um livro poético e filosófico sem igual. Esse livro foi traduzido para muitas outras línguas, sendo seu original em francês. Também dele foram feitos histórias para serem ouvidas, filmes e desenhos animados, além de adaptações.