quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sobre feridas e cicatrizes

"Adeus nem sempre significa o fim...

às vezes significa um novo começo..."

Um Beijo Roubado


O TRAUMA DO AMOR
Contardo Calligaris

Todo amor busca compensar um desastre amoroso passado;
somos ferid
os antes da batalha.

Nos homens como nas mulheres, os amores que acabam deixam a sensação de um dano quase físico, material ("retiraram uma parte de mim") -um dano, portanto, que poderia ser compensado. Deve ser por isso que tanto os homens quanto as mulheres, às vezes, "curam" as dores de uma separação com aquisições extravagantes. "Ela me deixou? Compro uma moto."

Mas as mulheres, freqüentemente, preferem que a reparação do dano seja o ônus do ex-parceiro. Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve "infidelidade" do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem.

Há como explicar essa diferença, mas isso, hoje, não vem ao caso.

O fato é que fui assistir ao filme de Wong Kar-wai, "UM BEIJO ROUBADO".

o filme de Kar-wai é uma esplêndida elegia sobre o trauma amoroso. Os quatro personagens principais são todos inválidos da guerra das paixões. Ficam num canto lambendo suas feridas ou saem pelo mundo afora para esquecê-las ou cicatrizá-las, mas, de qualquer forma, para eles, um novo amor é a tentativa de compensar um desastre passado, que os deixou sem chaves para as portas da vida.

Para um psicanalista, é um prato cheio: confirma-se, indiretamente, a idéia de que nos apaixonamos pelos outros porque não nos foi permitido ficar com a mãe e ou com o pai. Todo amor corrigiria uma grande decepção amorosa, forçada e originária, todo amor seria um paliativo contra as dores da renúncia a nossas paixões edipianas. Ou seja, atrás de nossa vida amorosa, sempre há um dano inicial. "Será que alguém paga um dia?", diriam as mulheres evocadas na conversa com Pommier.

Tudo bem, mas o complexo de Édipo, que se tornou sabedoria psicológica comum, não deixa de ser um mistério. Por que seríamos saudosos de uma única relação que nos foi proibida para que todas as outras fossem permitidas? Por que seríamos para sempre queixosos de uma única perda que nos libertou e nos soltou pelo mundo?

Mais misterioso: é raro que a lembrança de nossos primeiros afetos amorosos (com a mãe, especialmente) seja a de um idílio; em geral, ela vem junto com a queixa de termos sido, de uma maneira ou de outra, preteridos ou mesmo traídos. Talvez essa lembrança queixosa seja influenciada pelo que vem depois: a gente veria nossa primeira infância pelo prisma das dores da autonomia, do crescimento e da separação.

Mas talvez haja algo mais, algo que nos torna feridos antes da batalha, queixosos de ter sofrido um dano antes de qualquer amor, inclusive antes daquela primeira relação, miticamente feliz, com a mãe. Talvez a sensação de que fomos traídos, e não nos foi dado o que queríamos e esperávamos anteceda o amor e suas frustrações. Talvez todos os amores, inclusive o edipiano, sejam apenas compensações frustrantes por um dano que, aliás, inevitavelmente, eles renovam. Mas de que dano estou falando?

De qual sensação originária de que o mundo sempre nos priva porque nunca responde à altura de nossos pedidos?






EU TE AMO
Chico Buarque

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios

Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir


Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas

Diz com que pernas eu devo seguir


Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração

Meu sangue errou de veia e se perdeu


Como, se na desordem do armário embutido

Meu paletó enlaça o teu vestido

E o meu sapato inda pisa no teu


Como, se nos amamos feito dois pagãos

Teus seios ainda estão nas minhas mãos

Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta

Te dei meus olhos pra tomares conta

Agora conta como hei de partir.





domingo, 26 de julho de 2009

Como encantado ao lado teu

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;

Nada aconteceu.

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu.


Todo o Sentimento (Chico Buarque)



Depois de 65 anos, inglesa volta atrás e diz 'sim'

Para os mais românticos: o amor é, definitivamente, lindo! Para os mais céticos, ele, definitivamente, é muito insistente!

Depois de 65 anos, o inglês Michael Fitter finalmente convenceu Mary Oaten a se casar com ele. Os dois se conheceram no fim da Segunda Guerra Mundial, em Londres, e começaram um breve romance.

Quando Michael resolveu tornar o namoro mais sério, Mary jogou um balde de água fria e sentenciou: está muito cedo para casamento.

Com a recusa, o namoro esfriou e os dois tomaram outros rumos na vida.

Constituíram famílias e agora, com 81 anos, finalmente conseguiram dar um happy end à história de amor que atravessou décadas. Desta vez, Mary disse 'sim'!

A chama voltou a reacender no coração inquieto de Michael quando ele ficou viúvo no ano passado. Por coincidência, Mary estava viúva havia poucas semanas.

"Eu sempre carreguei dentro do meu coração uma chama por ela. Quando ficamos sozinhos, rapidamente percebi que ela é a pessoa certa para mim", contou o recém-casado ao "Daily Mail".


Arqueólogos na Itália encontram um casal enterrado entre 5000 e 6000 anos atrás, num verdadeiro abraço de amor eterno

Pode chamar se de abraço eterno. Arqueólogos italianos descobriram os esqueletos de um casalque teria sido sepultado abraçado há mais de cinco mil anos.


- É um caso extraordinário – disse Elena Menotti, que liderou a equipe nas escavações perto da cidade de Mantova, norte do país. – Eles estão realmente se abraçando.

Menotti disse acreditar que os dois – quase certamente um homem e uma mulher, embora ainda não tenha sido confirmado – morreram jovens, porque suas arcadas dentárias estavam quase inteiramente intactas e não estavam gastas.


- Quando os descobrimos, ficamos muito entusiasmados. Tenho este emprego há 25 anos. Fiz escavações em Pompéia e vários sítios famosos, mas eu nunca fiquei tão comovida assim, porque esta é a descoberta de algo especial.


Um laboratório tentará determinar a idade do casal, a época da morte e há quanto tempo

estão enterrados.





quinta-feira, 16 de julho de 2009

De perto ninguém é normal

Quero inventar
O meu próprio pecado (Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno (Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça (Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo (Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel (Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça (Cálice!)



Os normalopatas

Sorrio de espanto: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, sou um demente

A TIMIDEZ É doença? Uma amiga minha acredita que sim e procurou ajuda especializada. Entrou numa consulta de psiquiatria e, como normalmente acontece, nunca mais de lá saiu. Um ano depois, e algumas sessões depois, existem progressos: ela consegue estar num "evento social" e conversar "naturalmente" com as pessoas em volta. A terapia ajudou (muito).

A medicação ajudou (muitíssimo): um coquetel de antidepressivos e ansiolíticos que a obrigaram a sair da concha e a conhecer o mundo.

Escutei tudo isso ao almoço e não pude deixar de pensar como o mundo é um local estranho. Tempos houve em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana.

Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.

Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.

Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.

O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder". Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.

Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.

O vício pela internet e pelo e-mail ("internet addiction"); o gosto por vários parceiros sexuais, em sucessão ou em simultâneo ("sex addiction"); a compulsão "terapêutica" por compras ("compulsive shopping"); a fúria incontrolada e muitas vezes injustificada ("embitterment disorder"); o preconceito perante a "diferença" ("pathological bias"); e mesmo a tendência idiossincrática para colecionar materiais diversos ("pathological hoarding"), nada escapa à inquisição psiquiátrica.

Leio esse admirável cardápio e sorrio de espanto. Ou de medo. Ou de ambos. Razão simples: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, eu sou objectivamente um demente. Nada que surpreenda os meus leitores mais regulares, é certo. Muitos menos as pessoas que partilham a minha existência.

Mas algo me surpreende. Eu nunca imaginei que a minha gula (diária e noturna); os meus acessos de fúria (justificados ou não); os meus recorrentes preconceitos (contra políticos, adolescentes ou feministas); os meus desportos mais íntimos (que não incluem a monotonia); a forma criminosa como gasto fortunas (em camisas, sapatos, ternos); e a minha tendência para guardar obsessivamente os mais ridículos objetos (jornais antigos, próteses, peças de lingerie alheias), fosse motivo para tratamento médico especializado.

Prometo marcar consulta. E prometo emergir das sessões um homem novo: vegetariano, ambientalista, tolerante, multicultural e, no duplo sentido da palavra, com espírito de missionário.

No mundo moderno em que vivemos, a única doença tolerável é mesmo a normalopatia.


JOÃO PEREIRA COUTINHO