quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sejamos o lobo do lobo do homem

"A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade,
pois liberdade envolve responsabilidade,
e a maioria das pessoas tem medo de responsabilidade."

-- Sigmund Freud



Educação em poder do Estado
ROSELY SAYÃO


Algumas cidades do interior paulista adotaram o toque de recolher para crianças e adolescentes e outros municípios já estão interessados na medida. Fiquei perplexa quando li a primeira notícia que tratava do assunto, mas logo percebi que há todo um quadro que sustenta essa medida. Em primeiro lugar, já faz tempo que desertamos as ruas das cidades porque perdemos a confiança de que sejam lugares onde se pode ter uma vida boa.

As ruas são consideradas locais inseguros que provocam medo; transformaram-se em depósitos de problemas originados por nossos estilos de vida. Todo o aparato de segurança que usamos -de condomínios fechados a travas de segurança nas portas dos carros- servem para nos colocar fora das ruas. Vivemos em pequenos "quartos de pânico", não parece?

Em segundo lugar, também já faz tempo que nós, adultos, perdemos a mão de como nos postar diante dos adolescentes, Em parte porque eles têm aquilo que mais desejamos, perseguimos e fazemos de conta ter: a juventude. Por isso, passamos a tratá-los como iguais, como se ocupassem lugares simétricos aos nossos.

A questão da educação democrática é um capítulo à parte. Passamos a acreditar que os adolescentes devem ser respeitados em seus direitos sem saber ao certo o que são tais direitos e sem também ensiná-los sobre os deveres correlatos. Sim: cada direito -o de ser respeitado, por exemplo- exige um dever -o de respeitar. Mas isso serviu mesmo a mais uma deserção: de nossa autoridade.

Em nome dessa ideia de educação, sentimo-nos sem o direito de ocupar um lugar legítimo para conter, restringir, coibir ou suspender, mesmo que temporariamente, os quereres impulsivos e impositivos deles. Finalmente, vivemos um período em que, voluntariamente e em nome de causas aparentemente nobres, temos abdicado de nossa autonomia. Vivemos em tempos de terceirizar nossas vidas, lembra-se? E é isso que abre espaço para a entrada do Estado. Basta enumerar, como exemplo, quantos decretos proibitivos que envolvem a vida social já foram editados.

Voltemos ao toque de recolher. Muitos pais são favoráveis à medida. Imagino que seja mais fácil, para eles, segurar o filho em casa pela força do Estado do que pela própria autoridade. Mas é bom lembrar que essa medida restringe a liberdade de escolha dos pais de como educar seus filhos.

Em relação aos jovens, diretamente atingidos, a medida é preconceituosa. Afinal, qual a porcentagem de adolescentes nas ruas que comete delitos, envolve-se em confusão ou entra em contato com drogas, por exemplo? E a dos que não fazem nada disso? E a dos que fazem tudo isso dentro de casa? Mais uma vez, optamos por demonizar a juventude e retirá-la de cena.
Cada vez mais, permitimos -e queremos- a intervenção do Estado em nossas vidas. Parece mesmo que buscamos nele um pai que as governe. Quem precisa de pai e de mãe são as crianças e os jovens. Que sejam eles a governar a vida dos filhos, e não o Estado, a polícia etc.



Reflexões sobre a autonomia
ROSELY SAYÃO


Recebo muitas mensagens de pais às voltas com a educação dos filhos, e um fenômeno tem me chamado a atenção: a correspondência de pais cujos filhos fazem cursinho ou estão na faculdade tem crescido bastante. O ditado popular "filho criado, trabalho dobrado" agora parece ter aplicação literal.

São várias as questões com as quais os pais têm dificuldades de lidar: um jovem não quer estudar nem trabalhar, outro já prestou vestibular três vezes e quer fazer mais um ano de cursinho porque não desiste de tal universidade, uma jovem que acredita ter feito uma escolha equivocada de curso e agora quer largar tudo, outro que exige um carro porque não quer usar transporte coletivo etc.

Apesar da diversidade de situações, podemos arriscar uma hipótese abrangente: muitos jovens hesitam em entrar na vida adulta. Essa adolescência estendida tem sido construída com o apoio das instituições mais importantes na formação deles: a família e a escola.

Nunca falamos tanto em autonomia quando tratamos da educação dos mais novos. Pais de crianças com menos de cinco anos já autorizam o filho a passar a noite em casa de conhecidos, permitem que escolha suas roupas, brinquedos e até a escola que frequentará. Um pouco mais tarde, em nome da autonomia, muitas crianças são abandonadas à mercê de seus parcos recursos de autocontrole.Isso quer dizer que damos autonomia às crianças e aos adolescentes quando ainda não têm competência para usá-la.

Aliás, nunca é demais lembrar que o processo de construção da autonomia passa, necessariamente, pela heteronomia, ou seja, por um período de submissão a alguns adultos. Parece que essa autonomia significa sair de cena para que o jovem "protagonize" sua vida. Mas é preciso entender que a passagem da heteronomia à autonomia ocorre a partir da adolescência, jamais na infância, e com a devida tutela dos pais e da escola, que devem acompanhar como o jovem administra a liberdade pela qual terá de se responsabilizar.

Tal atitude faz parceria com outra assumida por muitos pais. Eles fazem de tudo para evitar que os filhos sofram, enfrentem as dificuldades da vida, se frustrem, arquem com as responsabilidades sobre seus atos. Ao mesmo tempo, tentam oferecer-lhes a melhor vida social possível.

Isso faz com que os jovens cheguem ao final da adolescência sem autoconfiança, sem orgulho de seus feitos, com enorme dificuldade para perseverar diante das dificuldades e com medo do futuro. Aí dá para entender sua falta de resistência diante da adversidade, dos obstáculos e das exigências do final da adolescência. A opção que surge, então, é estender esse período, evitar a responsabilidade de ser adulto, viver por sua própria conta e risco.

Os pais que querem ajudar esses jovens precisam sair de cena, ainda que tardiamente, para que eles finalmente tenham oportunidade de realizar o potencial que têm.

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