quarta-feira, 17 de junho de 2009

Porque era ela, porque era eu

"Nunca conseguimos explicar o motivo de estar amando.
Sempre explicamos fácil o motivo da separação.
Amar deve ser uma sábia ignorância."
Carpinejar



PORQUE ERA ELA, PORQUE ERA EU

CHICO BUARQUE

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu


Essa canção é uma variação sobre um dito famoso do Montaigne [filósofo Michel de Montaigne (1533-1592)] -"Parce qu'était lui, parce qu'était moi".
Ele se referia nos "Ensaios" à grande amizade com o Étienne de la Boétie, que morreu muito jovem, dizendo que a ligação entre ambos existia simplesmente "porque era ele, porque era eu".
Na canção, o "lui" [ele] virou uma mulher. É uma canção de amor.
Por coincidência, estive em Paris no mês passado e vi duas vezes nos jornais alusões à frase do Montaigne. A canção na verdade já estava pronta.

CHICO BUARQUE


EXPLICANDO O INEXPLICÁVEL
Gabriela Mekari

O ensaista/escritor francês Michel Eyquem de Montaigne (1533 - 1592) tinha o costume de reler seus livros e republicá-los de tempos e tempos, tranformando frases e conceitos.

Ironicamente, a única forma que o autor encontrava de dar vida a seus novos valores era adaptando-os nos velhos ensaios.
Um de seus ensaios foi dedicado a La Boétie, amigo do autor que morrera ainda jovem.

Em uma de suas republicações, Montaigne resolveu ampliar a dedicatória que dizia, simplesmente, "ao amigo La Boétie". Escreveu: "Parce que c'etait lui" (Porque era ele).


Alguns anos depois, em uma nova releitura, acrescentou ao lado da página: "Parce que c'etait moi" (Porque era eu).


Mais alguns anos depois, ao discorrer sobre a amizade com La Boétie, Montaigne assim disse: “Na amizade a que me refiro, as almas entrosam-se e se confundem numa única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que não o saberia expressar senão respondendo: porque era ele, porque era eu.

No encontro de duas almas, não é raro que os dois envolvidos não consigam explicar o que viram no ser adorado. A aproximação erótico-amorosa ou das amizades não é de ordem racional.

Também não é possível dizer que o objeto do amor erótico ou de uma amizade se defina a partir de uma escolha, a não ser que esta seja uma escolha inconsciente.


Penso que, desde a primeira vez em que dois seres se encantaram, em vidas e tempos distantes, a pergunta “Por que esta pessoa e não outra qualquer?” sempre será respondida à maneira de Montaigne, parodiado por Chico Buarque: “Porque era ela, porque era eu”.
Certamente é a explicação mais coerente que eu já ouvi para o inexplicável.



O AMOR

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso o contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.
O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela maneira que se revela quando menos se espera.
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu inteligente + você linda = dois apaixonados!
Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio, nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é. Pense nisso."


(Arnaldo Jabor)



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