quarta-feira, 10 de junho de 2009

O que será que anda nas cabeças

O que será que será?
O que não tem governo, nem nunca terá?
O que nao tem vergonha, nem nunca terá.?
O que não tem juízo?
Chico Buarque


A PSICOLOGIA DA ECONOMIA


Escravo de instintos primários de sobrevivência, o pequeno investidor que se dispõe a enfrentar sozinho os gigantes do mercado, fatalmente, acaba fazendo tudo errado: compra ações na alta e vende na baixa.

"Na tentativa de acertar, acaba errando ainda mais", disse o psicólogo israelense Daniel Kahneman, professor da Universidade Princeton (EUA). Bombardeado pela propaganda e "sedado" pela ilusão do crédito, gasta mais do que pode.

E, para quem acredita que isso só acontece com indivíduos, Kahneman afirma que, coletivamente, os mercados globais tiveram o mesmo comportamento irracional no ano passado. Presidentes dos maiores bancos do planeta permitiram que apostas sem conexão com a realidade -como as hipotecas "subprime" [de segunda linha]- jogassem o mundo na maior crise desde 1929.

Por observações como essas, Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 2002.

Na economia, vendedores e compradores ajustam preços de acordo com a lei da oferta e da procura. Se muitos querem um produto raro, seu preço explode; se a demanda desaparece, pode ser vendido por quase nada. Em busca da eficiência, os mercados tendem a alocar recursos onde estão as melhores oportunidades de retorno.

No mundo real, no entanto, nem sempre as coisas acontecem assim. Investidor compra ação na alta e vende na baixa, bancos colocam bilhões em hipotecas sem condições de serem pagas, empresas valem menos do que têm em caixa e, diante do pânico, uma manada de investidores sai vendendo ações de empresas lucrativas por qualquer preço.

O psicólogo Daniel Kahneman formulou os princípios que explicam como emoções simples, ligadas ao instinto de sobrevivência, explicam essas anomalias do mercado e impedem os investidores de calcularem corretamente os riscos que assumem.

A psicologia de Kahneman mostrou que o investidor padece de excesso de confiança e que a maioria das pessoas se julga acima da média na hora de obter lucros no mercado.

Um dos arquétipos mais comentados de comportamento irracional do investidor é a aversão a perdas. Por ele, o investidor sente mais a dor de um prejuízo do que o prazer por um lucro de mesmo valor.

O excesso de otimismo -e depois de pessimismo- impele as pessoas a comprarem uma ação com base na rentabilidade passada, acreditando que a história repetirá.

Ao menor sinal de que uma aposta vai se desmoronar, acontece o efeito manada. O investidor mais inseguro segue quem julga ter mais informação, numa cadeia que força as explosões de bolhas.

A psicologia econômica mostrou ainda que os mercados acabam sobrevalorizando o impacto de novas tecnologias, como foi a internet em 2000. A vergonha de errar faz com que o investidor aposte junto com a média do mercado.


Como a psicologia econômica explica a atual crise financeira?
DANIEL KAHNEMAN
- Havia uma crença forte de que os mercados iriam organizar os preços de ações, hipotecas, moedas de uma maneira eficiente, o que não foi o caso. Alan Greenspan [ex-presidente do BC dos EUA] foi muito explícito em dizer que acreditou nisso durante toda a sua vida, mas que não era mais verdade. O fato é que os agentes financeiros estão mais preocupados em aumentar os seus próprios ganhos e não conseguem ver os riscos que estão tomando. Um exemplo bastante óbvio é o das hipotecas "subprime" que os mutuários não tinham condições de pagar -tomar esse tipo de risco era claramente irracional. O que é mais complicado e ainda mais interessante saber é por que os presidentes dos grandes bancos e as autoridades dos governos não conseguiram ver tudo isso chegando?

E por quê?
KAHNEMAN
- Porque aquilo que não conseguimos imaginar simplesmente não existe para nós. Meu amigo Nassim Taleb, que escreveu o livro "O Cisne Negro", fez uma importante contribuição ao mostrar que as pessoas trabalham com estatísticas erradas sobre o mundo e ignoram o risco de eventos aleatórios e imprevisíveis, mas que acabam governando o mundo. São esses os cisnes negros. Quando um evento não esperado acontece, a gente imediatamente o compreende e pode explicá-lo. Somos grandes contadores de histórias...

Faz parte da natureza humana subestimar os risco?
KAHNEMAN
- Sim, especialmente os grandes riscos. Somos bons para prever a chuva, mas não o furacão. O mundo é um lugar instável, em que as coisas são complicadas. É aterrorizante a ideia de que não compreendemos o mundo que nos cerca. E não compreendemos bem o que aconteceu em 2008.

Após grandes perdas, as pessoas ficam mais conservadoras?
KAHNEMAN
- Depois da Grande Depressão, as pessoas se tornaram conservadoras com dinheiro por um longo período. Meu palpite é que os indivíduos vão se tornar mais conservadores. Mas os indivíduos tomam direções diferentes da dos investidores institucionais [fundos de investimento e de pensão]. É o que talvez estejamos vendo com a recente alta do mercado financeiro.

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