domingo, 14 de junho de 2009

Navegar é preciso, viver nao é preciso


Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar do calor.
E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece
para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser;
que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".
("Mar sem fim"- Amyr Klink)


Por que se dar ao trabalho de viajar?
Suzana Herculano-Houzel


[...] Por que enfrentar horas de estrada para ver uma versão menos perfeita do que a da foto?

Está certo que, sem encarar o avião, eu não poderia rever minha amiga, que conheço desde 1992, quando começamos juntas a pós-graduação nos EUA. Nem poderia curtir meus dez dias de férias no noroeste daquele país, que eu ainda não conhecia, mas cujas praias sempre namorei em fotos.

E é esta, justamente, a questão da vez: encarar aviões e aeroportos para rever amigos e família é facilmente compreensível -mas por que se dar ao trabalho de viajar só para ver ao vivo o que já vimos em fotos?


Considere, por exemplo, a praia de La Push, na costa do Estado de Washington. No livretinho de cartões postais em minha mão, a foto era perfeita: dois montes isolados na beira d'água, céu avermelhado ao fundo, a água rasinha do mar embaixo. Minha amiga viu e comentou: "Ah, bacana, é para lá que vamos neste fim de semana".


Fiquei pensando que dificilmente veria, ao vivo, a mesma cena perfeita. Dificilmente, também, presenciaria, no caminho, as belezas locais da região de Seattle -o Monte Rainier, as montanhas Olympic- exatamente como mostradas nas outras fotos do livro.


Se podemos alimentar nosso cérebro com fotos tão lindas, já não é como se tivéssemos estado lá? Por que, então, enfrentar horas de estrada para ver uma versão menos perfeita -dependendo do clima, do sol, das pessoas- do que a da foto?


Porque, se não há outras experiências a serem associadas, a imagem perfeita é só isso: uma imagem. Por isso sabemos a diferença entre o que é memória real e o que é imaginação. Por mais perfeita que pareça, a lembrança de um postal é uma evocação puramente visual, pobre em detalhes e em comparação a todas as evocações sensoriais, emocionais e contextuais de uma lembrança real vivida no mesmo lugar.


Minhas fotos da praia de La Push podem não ser perfeitas como a do fotógrafo que labutou muitos dias para chegar à imagem digna de ser vendida como suvenir.


Mas é a minha foto, um "aide-memoire", como dizem os franceses, que, para o meu cérebro, vem acompanhado de outras imagens, de risadas, palavras, biscoitinhos, da sensação de frescor da bruma do Pacífico no rosto, da incongruência, para quem vem dos trópicos, de usar um casaco de lã na praia.


Nada se compara às lembranças das experiências reais, particulares ao meu cérebro -nem uma foto perfeita que outra pessoa tirou.


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