segunda-feira, 29 de junho de 2009

Isso não são horas

Quem vem lá,
que horas são ?!
Isso não são horas,
que horas são ?!

É você, é o amor ?!

Isso não são horas,
que horas são ?!

Quem vem lá ?!

Isso não são horas,
que horas são ?!

A casa está bonita

A dona está demais
A última visita
quanto tempo faz
Balançam os cabides
, lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
no conjugado coração
Será que o amor se sente em casa

Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair

A brasa no tapete coração


Suburbano Coração
Chico Buarque


Amores e mudanças

Contardo Calligaris


Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa


QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.

Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?

Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.

O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas. Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.

O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.

Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate.

Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.

Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.

Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.

Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".

O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.

No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.

Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.

Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.


O cálice

Luiz Felipe Pondé


Uma das qualidades de "Tinha que Ser Você" é exatamente ser otimista sem ser brega


O filme "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), em cartaz, "Tinha que Ser Você" em tradução ridícula, com Dustin Hoffman e Emma Thompson discute um tema duro, sem deixar de ser delicado. A história não é um mero romance de um homem e uma mulher que se encontram de forma improvável, já nos 60 anos, quando tudo tende a estar decidido e muito pouco resta a fazer. O filme descreve a vida de dois "losers" (pessoas fracassadas na vida) que se encontram e como eles apostam um no outro.

Uma das qualidades do filme é exatamente ser otimista sem ser brega, coisa rara numa cultura que preza por um otimismo de massa para retardados do tipo: "Confie no seu desejo que vai dar certo". Não, na maioria das vezes, não dá certo, pouco importa o que você fizer.


O filme é uma anatomia do fracasso. Só a coragem pode desafiar o hábito do fracasso. A vida só sorri para os corajosos. Esta é a grandeza de Harvey, quando, aos 45 minutos do segundo tempo, arranca um sorriso da triste mulher envelhecida, até então atolada, como ele, no hábito do fracasso. E apostam numa vida improvável. Vem aos lábios: "Meu Deus, afaste de mim o cálice da covardia!". Enquanto eu tiver coragem, minha alma respira.


A figura do "loser" é insuportável. Antes de tudo porque a maioria da humanidade é "loser" e você de 20 anos poderá ser um "loser" aos 50.


A diferença entre o título em português (romance "sessão da tarde") e o título original (falando da última chance na vida de um homem) revela que a grandiosidade do filme não está exatamente no "amor improvável". Mas na coragem de pessoas maduras enfrentarem o "aconchego" que o hábito pode dar, mesmo que seja o hábito da infelicidade, como diz a personagem de Emma Thompson quando confessa, ao final, mais ou menos assim: "É mais fácil quando me decepciono".

Ele é um homem que sonhava em ser um pianista e virou um criador medíocre de jingles. Separado, sua esposa se casa de novo com um homem bem sucedido, alto e bonito. Há maior tormento para um homem baixinho, feio e pobre do que imaginar sua ex-esposa, gemendo delícias na cama entre as mãos de um homem rico, alto e bonito?


Harvey receberá dois duros golpes. Primeiro, será trocado por um jovem no emprego (ele recebe seu emprego de volta, e sua recusa será a chave de que escolheu mudar de vida); depois, sua filha escolherá o marido da mãe (o tal alto, rico e bonito) para levá-la ao altar -o filme se passa no momento em que ele vai a Londres para o casamento da filha.


Aliás, uma das qualidades do filme é não demonizar a ex-esposa e a filha como se elas fossem aquele tipo de mulher insensível e interesseira que habita os pesadelos dos homens fracassados. Todavia, faz parte do imaginário dos homens fracassados serem abandonados por suas mulheres. Se acreditarmos nas estatísticas, acreditaremos que as mulheres são (quase) sempre insensíveis e cruéis com seus maridos fracassados. Mulheres e filhos não suportam homens fracos e derrotados pela vida. São poucas as opções para os homens: ou o sucesso ou o sucesso.


Ele vive o inferno universal do homem derrotado: pouco dinheiro, competência medíocre, recusa sistemática das mulheres em considerá-lo parceiro. No voo para Londres, quando ele tenta entabular uma conversa com uma loira se ntada ao seu lado, ela o troca pelo travesseiro de forma fulminante.

Ela trabalha no aeroporto de Londres fazendo aquelas pesquisas chatas com os passageiros.

Tem coisa mais chata do que ser parado por essas mulheres passadinhas, com o corpo se desmanchando dentro de vestidos foscos, fazendo perguntas pentelhas quando você sai de um voo de 12 horas?


Ela é uma mulher tímida, meio desajeitada, e já naquela idade em que a solidão é seu par. É triste se ver como um iogurte que lentamente atravessa o prazo de validade. Sua mãe, ela mesma trocada pela secretária do marido (eles fugiram para o sul da França), passa o dia atormentando a filha pelo celular.


Com um trabalho idiota, nossa heroína enfrenta a dura verdade de que a maioria das mulheres resseca diante do fracasso amoroso, apesar da propaganda enganosa dizer o contrário. Para as mulheres, os índices de sucesso permanecem monótonos como os desertos: leveza d'alma, beleza das formas.


É um drama para gente grande, nada a ver com romance adolescente. "Losers" de 60 anos têm a experiência do tempo contra eles, não têm uma segunda chance.



Um comentário:

  1. Toda vez que eu venho no seu blog leio coisas muito boas do Calligaris, esta semana vou ver uma peça chamada " O homem da tarja preta" seria ótimo ler alguma coisa aqui sobre esta peça que pareçe muito interessante.
    Abç

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