segunda-feira, 29 de junho de 2009

Isso não são horas

Quem vem lá,
que horas são ?!
Isso não são horas,
que horas são ?!

É você, é o amor ?!

Isso não são horas,
que horas são ?!

Quem vem lá ?!

Isso não são horas,
que horas são ?!

A casa está bonita

A dona está demais
A última visita
quanto tempo faz
Balançam os cabides
, lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
no conjugado coração
Será que o amor se sente em casa

Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair

A brasa no tapete coração


Suburbano Coração
Chico Buarque


Amores e mudanças

Contardo Calligaris


Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa


QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.

Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?

Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.

O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas. Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.

O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.

Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate.

Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.

Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.

Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.

Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".

O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.

No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.

Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.

Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.


O cálice

Luiz Felipe Pondé


Uma das qualidades de "Tinha que Ser Você" é exatamente ser otimista sem ser brega


O filme "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), em cartaz, "Tinha que Ser Você" em tradução ridícula, com Dustin Hoffman e Emma Thompson discute um tema duro, sem deixar de ser delicado. A história não é um mero romance de um homem e uma mulher que se encontram de forma improvável, já nos 60 anos, quando tudo tende a estar decidido e muito pouco resta a fazer. O filme descreve a vida de dois "losers" (pessoas fracassadas na vida) que se encontram e como eles apostam um no outro.

Uma das qualidades do filme é exatamente ser otimista sem ser brega, coisa rara numa cultura que preza por um otimismo de massa para retardados do tipo: "Confie no seu desejo que vai dar certo". Não, na maioria das vezes, não dá certo, pouco importa o que você fizer.


O filme é uma anatomia do fracasso. Só a coragem pode desafiar o hábito do fracasso. A vida só sorri para os corajosos. Esta é a grandeza de Harvey, quando, aos 45 minutos do segundo tempo, arranca um sorriso da triste mulher envelhecida, até então atolada, como ele, no hábito do fracasso. E apostam numa vida improvável. Vem aos lábios: "Meu Deus, afaste de mim o cálice da covardia!". Enquanto eu tiver coragem, minha alma respira.


A figura do "loser" é insuportável. Antes de tudo porque a maioria da humanidade é "loser" e você de 20 anos poderá ser um "loser" aos 50.


A diferença entre o título em português (romance "sessão da tarde") e o título original (falando da última chance na vida de um homem) revela que a grandiosidade do filme não está exatamente no "amor improvável". Mas na coragem de pessoas maduras enfrentarem o "aconchego" que o hábito pode dar, mesmo que seja o hábito da infelicidade, como diz a personagem de Emma Thompson quando confessa, ao final, mais ou menos assim: "É mais fácil quando me decepciono".

Ele é um homem que sonhava em ser um pianista e virou um criador medíocre de jingles. Separado, sua esposa se casa de novo com um homem bem sucedido, alto e bonito. Há maior tormento para um homem baixinho, feio e pobre do que imaginar sua ex-esposa, gemendo delícias na cama entre as mãos de um homem rico, alto e bonito?


Harvey receberá dois duros golpes. Primeiro, será trocado por um jovem no emprego (ele recebe seu emprego de volta, e sua recusa será a chave de que escolheu mudar de vida); depois, sua filha escolherá o marido da mãe (o tal alto, rico e bonito) para levá-la ao altar -o filme se passa no momento em que ele vai a Londres para o casamento da filha.


Aliás, uma das qualidades do filme é não demonizar a ex-esposa e a filha como se elas fossem aquele tipo de mulher insensível e interesseira que habita os pesadelos dos homens fracassados. Todavia, faz parte do imaginário dos homens fracassados serem abandonados por suas mulheres. Se acreditarmos nas estatísticas, acreditaremos que as mulheres são (quase) sempre insensíveis e cruéis com seus maridos fracassados. Mulheres e filhos não suportam homens fracos e derrotados pela vida. São poucas as opções para os homens: ou o sucesso ou o sucesso.


Ele vive o inferno universal do homem derrotado: pouco dinheiro, competência medíocre, recusa sistemática das mulheres em considerá-lo parceiro. No voo para Londres, quando ele tenta entabular uma conversa com uma loira se ntada ao seu lado, ela o troca pelo travesseiro de forma fulminante.

Ela trabalha no aeroporto de Londres fazendo aquelas pesquisas chatas com os passageiros.

Tem coisa mais chata do que ser parado por essas mulheres passadinhas, com o corpo se desmanchando dentro de vestidos foscos, fazendo perguntas pentelhas quando você sai de um voo de 12 horas?


Ela é uma mulher tímida, meio desajeitada, e já naquela idade em que a solidão é seu par. É triste se ver como um iogurte que lentamente atravessa o prazo de validade. Sua mãe, ela mesma trocada pela secretária do marido (eles fugiram para o sul da França), passa o dia atormentando a filha pelo celular.


Com um trabalho idiota, nossa heroína enfrenta a dura verdade de que a maioria das mulheres resseca diante do fracasso amoroso, apesar da propaganda enganosa dizer o contrário. Para as mulheres, os índices de sucesso permanecem monótonos como os desertos: leveza d'alma, beleza das formas.


É um drama para gente grande, nada a ver com romance adolescente. "Losers" de 60 anos têm a experiência do tempo contra eles, não têm uma segunda chance.



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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Porque era ela, porque era eu

"Nunca conseguimos explicar o motivo de estar amando.
Sempre explicamos fácil o motivo da separação.
Amar deve ser uma sábia ignorância."
Carpinejar



PORQUE ERA ELA, PORQUE ERA EU

CHICO BUARQUE

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu


Essa canção é uma variação sobre um dito famoso do Montaigne [filósofo Michel de Montaigne (1533-1592)] -"Parce qu'était lui, parce qu'était moi".
Ele se referia nos "Ensaios" à grande amizade com o Étienne de la Boétie, que morreu muito jovem, dizendo que a ligação entre ambos existia simplesmente "porque era ele, porque era eu".
Na canção, o "lui" [ele] virou uma mulher. É uma canção de amor.
Por coincidência, estive em Paris no mês passado e vi duas vezes nos jornais alusões à frase do Montaigne. A canção na verdade já estava pronta.

CHICO BUARQUE


EXPLICANDO O INEXPLICÁVEL
Gabriela Mekari

O ensaista/escritor francês Michel Eyquem de Montaigne (1533 - 1592) tinha o costume de reler seus livros e republicá-los de tempos e tempos, tranformando frases e conceitos.

Ironicamente, a única forma que o autor encontrava de dar vida a seus novos valores era adaptando-os nos velhos ensaios.
Um de seus ensaios foi dedicado a La Boétie, amigo do autor que morrera ainda jovem.

Em uma de suas republicações, Montaigne resolveu ampliar a dedicatória que dizia, simplesmente, "ao amigo La Boétie". Escreveu: "Parce que c'etait lui" (Porque era ele).


Alguns anos depois, em uma nova releitura, acrescentou ao lado da página: "Parce que c'etait moi" (Porque era eu).


Mais alguns anos depois, ao discorrer sobre a amizade com La Boétie, Montaigne assim disse: “Na amizade a que me refiro, as almas entrosam-se e se confundem numa única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem, não se lhes percebendo sequer a linha de demarcação. Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que não o saberia expressar senão respondendo: porque era ele, porque era eu.

No encontro de duas almas, não é raro que os dois envolvidos não consigam explicar o que viram no ser adorado. A aproximação erótico-amorosa ou das amizades não é de ordem racional.

Também não é possível dizer que o objeto do amor erótico ou de uma amizade se defina a partir de uma escolha, a não ser que esta seja uma escolha inconsciente.


Penso que, desde a primeira vez em que dois seres se encantaram, em vidas e tempos distantes, a pergunta “Por que esta pessoa e não outra qualquer?” sempre será respondida à maneira de Montaigne, parodiado por Chico Buarque: “Porque era ela, porque era eu”.
Certamente é a explicação mais coerente que eu já ouvi para o inexplicável.



O AMOR

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso o contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.
O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela maneira que se revela quando menos se espera.
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu inteligente + você linda = dois apaixonados!
Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio, nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é. Pense nisso."


(Arnaldo Jabor)



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domingo, 14 de junho de 2009

Navegar é preciso, viver nao é preciso


Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar do calor.
E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio tecto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece
para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser;
que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".
("Mar sem fim"- Amyr Klink)


Por que se dar ao trabalho de viajar?
Suzana Herculano-Houzel


[...] Por que enfrentar horas de estrada para ver uma versão menos perfeita do que a da foto?

Está certo que, sem encarar o avião, eu não poderia rever minha amiga, que conheço desde 1992, quando começamos juntas a pós-graduação nos EUA. Nem poderia curtir meus dez dias de férias no noroeste daquele país, que eu ainda não conhecia, mas cujas praias sempre namorei em fotos.

E é esta, justamente, a questão da vez: encarar aviões e aeroportos para rever amigos e família é facilmente compreensível -mas por que se dar ao trabalho de viajar só para ver ao vivo o que já vimos em fotos?


Considere, por exemplo, a praia de La Push, na costa do Estado de Washington. No livretinho de cartões postais em minha mão, a foto era perfeita: dois montes isolados na beira d'água, céu avermelhado ao fundo, a água rasinha do mar embaixo. Minha amiga viu e comentou: "Ah, bacana, é para lá que vamos neste fim de semana".


Fiquei pensando que dificilmente veria, ao vivo, a mesma cena perfeita. Dificilmente, também, presenciaria, no caminho, as belezas locais da região de Seattle -o Monte Rainier, as montanhas Olympic- exatamente como mostradas nas outras fotos do livro.


Se podemos alimentar nosso cérebro com fotos tão lindas, já não é como se tivéssemos estado lá? Por que, então, enfrentar horas de estrada para ver uma versão menos perfeita -dependendo do clima, do sol, das pessoas- do que a da foto?


Porque, se não há outras experiências a serem associadas, a imagem perfeita é só isso: uma imagem. Por isso sabemos a diferença entre o que é memória real e o que é imaginação. Por mais perfeita que pareça, a lembrança de um postal é uma evocação puramente visual, pobre em detalhes e em comparação a todas as evocações sensoriais, emocionais e contextuais de uma lembrança real vivida no mesmo lugar.


Minhas fotos da praia de La Push podem não ser perfeitas como a do fotógrafo que labutou muitos dias para chegar à imagem digna de ser vendida como suvenir.


Mas é a minha foto, um "aide-memoire", como dizem os franceses, que, para o meu cérebro, vem acompanhado de outras imagens, de risadas, palavras, biscoitinhos, da sensação de frescor da bruma do Pacífico no rosto, da incongruência, para quem vem dos trópicos, de usar um casaco de lã na praia.


Nada se compara às lembranças das experiências reais, particulares ao meu cérebro -nem uma foto perfeita que outra pessoa tirou.


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quarta-feira, 10 de junho de 2009

O que será que anda nas cabeças

O que será que será?
O que não tem governo, nem nunca terá?
O que nao tem vergonha, nem nunca terá.?
O que não tem juízo?
Chico Buarque


A PSICOLOGIA DA ECONOMIA


Escravo de instintos primários de sobrevivência, o pequeno investidor que se dispõe a enfrentar sozinho os gigantes do mercado, fatalmente, acaba fazendo tudo errado: compra ações na alta e vende na baixa.

"Na tentativa de acertar, acaba errando ainda mais", disse o psicólogo israelense Daniel Kahneman, professor da Universidade Princeton (EUA). Bombardeado pela propaganda e "sedado" pela ilusão do crédito, gasta mais do que pode.

E, para quem acredita que isso só acontece com indivíduos, Kahneman afirma que, coletivamente, os mercados globais tiveram o mesmo comportamento irracional no ano passado. Presidentes dos maiores bancos do planeta permitiram que apostas sem conexão com a realidade -como as hipotecas "subprime" [de segunda linha]- jogassem o mundo na maior crise desde 1929.

Por observações como essas, Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 2002.

Na economia, vendedores e compradores ajustam preços de acordo com a lei da oferta e da procura. Se muitos querem um produto raro, seu preço explode; se a demanda desaparece, pode ser vendido por quase nada. Em busca da eficiência, os mercados tendem a alocar recursos onde estão as melhores oportunidades de retorno.

No mundo real, no entanto, nem sempre as coisas acontecem assim. Investidor compra ação na alta e vende na baixa, bancos colocam bilhões em hipotecas sem condições de serem pagas, empresas valem menos do que têm em caixa e, diante do pânico, uma manada de investidores sai vendendo ações de empresas lucrativas por qualquer preço.

O psicólogo Daniel Kahneman formulou os princípios que explicam como emoções simples, ligadas ao instinto de sobrevivência, explicam essas anomalias do mercado e impedem os investidores de calcularem corretamente os riscos que assumem.

A psicologia de Kahneman mostrou que o investidor padece de excesso de confiança e que a maioria das pessoas se julga acima da média na hora de obter lucros no mercado.

Um dos arquétipos mais comentados de comportamento irracional do investidor é a aversão a perdas. Por ele, o investidor sente mais a dor de um prejuízo do que o prazer por um lucro de mesmo valor.

O excesso de otimismo -e depois de pessimismo- impele as pessoas a comprarem uma ação com base na rentabilidade passada, acreditando que a história repetirá.

Ao menor sinal de que uma aposta vai se desmoronar, acontece o efeito manada. O investidor mais inseguro segue quem julga ter mais informação, numa cadeia que força as explosões de bolhas.

A psicologia econômica mostrou ainda que os mercados acabam sobrevalorizando o impacto de novas tecnologias, como foi a internet em 2000. A vergonha de errar faz com que o investidor aposte junto com a média do mercado.


Como a psicologia econômica explica a atual crise financeira?
DANIEL KAHNEMAN
- Havia uma crença forte de que os mercados iriam organizar os preços de ações, hipotecas, moedas de uma maneira eficiente, o que não foi o caso. Alan Greenspan [ex-presidente do BC dos EUA] foi muito explícito em dizer que acreditou nisso durante toda a sua vida, mas que não era mais verdade. O fato é que os agentes financeiros estão mais preocupados em aumentar os seus próprios ganhos e não conseguem ver os riscos que estão tomando. Um exemplo bastante óbvio é o das hipotecas "subprime" que os mutuários não tinham condições de pagar -tomar esse tipo de risco era claramente irracional. O que é mais complicado e ainda mais interessante saber é por que os presidentes dos grandes bancos e as autoridades dos governos não conseguiram ver tudo isso chegando?

E por quê?
KAHNEMAN
- Porque aquilo que não conseguimos imaginar simplesmente não existe para nós. Meu amigo Nassim Taleb, que escreveu o livro "O Cisne Negro", fez uma importante contribuição ao mostrar que as pessoas trabalham com estatísticas erradas sobre o mundo e ignoram o risco de eventos aleatórios e imprevisíveis, mas que acabam governando o mundo. São esses os cisnes negros. Quando um evento não esperado acontece, a gente imediatamente o compreende e pode explicá-lo. Somos grandes contadores de histórias...

Faz parte da natureza humana subestimar os risco?
KAHNEMAN
- Sim, especialmente os grandes riscos. Somos bons para prever a chuva, mas não o furacão. O mundo é um lugar instável, em que as coisas são complicadas. É aterrorizante a ideia de que não compreendemos o mundo que nos cerca. E não compreendemos bem o que aconteceu em 2008.

Após grandes perdas, as pessoas ficam mais conservadoras?
KAHNEMAN
- Depois da Grande Depressão, as pessoas se tornaram conservadoras com dinheiro por um longo período. Meu palpite é que os indivíduos vão se tornar mais conservadores. Mas os indivíduos tomam direções diferentes da dos investidores institucionais [fundos de investimento e de pensão]. É o que talvez estejamos vendo com a recente alta do mercado financeiro.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sejamos o lobo do lobo do homem

"A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade,
pois liberdade envolve responsabilidade,
e a maioria das pessoas tem medo de responsabilidade."

-- Sigmund Freud



Educação em poder do Estado
ROSELY SAYÃO


Algumas cidades do interior paulista adotaram o toque de recolher para crianças e adolescentes e outros municípios já estão interessados na medida. Fiquei perplexa quando li a primeira notícia que tratava do assunto, mas logo percebi que há todo um quadro que sustenta essa medida. Em primeiro lugar, já faz tempo que desertamos as ruas das cidades porque perdemos a confiança de que sejam lugares onde se pode ter uma vida boa.

As ruas são consideradas locais inseguros que provocam medo; transformaram-se em depósitos de problemas originados por nossos estilos de vida. Todo o aparato de segurança que usamos -de condomínios fechados a travas de segurança nas portas dos carros- servem para nos colocar fora das ruas. Vivemos em pequenos "quartos de pânico", não parece?

Em segundo lugar, também já faz tempo que nós, adultos, perdemos a mão de como nos postar diante dos adolescentes, Em parte porque eles têm aquilo que mais desejamos, perseguimos e fazemos de conta ter: a juventude. Por isso, passamos a tratá-los como iguais, como se ocupassem lugares simétricos aos nossos.

A questão da educação democrática é um capítulo à parte. Passamos a acreditar que os adolescentes devem ser respeitados em seus direitos sem saber ao certo o que são tais direitos e sem também ensiná-los sobre os deveres correlatos. Sim: cada direito -o de ser respeitado, por exemplo- exige um dever -o de respeitar. Mas isso serviu mesmo a mais uma deserção: de nossa autoridade.

Em nome dessa ideia de educação, sentimo-nos sem o direito de ocupar um lugar legítimo para conter, restringir, coibir ou suspender, mesmo que temporariamente, os quereres impulsivos e impositivos deles. Finalmente, vivemos um período em que, voluntariamente e em nome de causas aparentemente nobres, temos abdicado de nossa autonomia. Vivemos em tempos de terceirizar nossas vidas, lembra-se? E é isso que abre espaço para a entrada do Estado. Basta enumerar, como exemplo, quantos decretos proibitivos que envolvem a vida social já foram editados.

Voltemos ao toque de recolher. Muitos pais são favoráveis à medida. Imagino que seja mais fácil, para eles, segurar o filho em casa pela força do Estado do que pela própria autoridade. Mas é bom lembrar que essa medida restringe a liberdade de escolha dos pais de como educar seus filhos.

Em relação aos jovens, diretamente atingidos, a medida é preconceituosa. Afinal, qual a porcentagem de adolescentes nas ruas que comete delitos, envolve-se em confusão ou entra em contato com drogas, por exemplo? E a dos que não fazem nada disso? E a dos que fazem tudo isso dentro de casa? Mais uma vez, optamos por demonizar a juventude e retirá-la de cena.
Cada vez mais, permitimos -e queremos- a intervenção do Estado em nossas vidas. Parece mesmo que buscamos nele um pai que as governe. Quem precisa de pai e de mãe são as crianças e os jovens. Que sejam eles a governar a vida dos filhos, e não o Estado, a polícia etc.



Reflexões sobre a autonomia
ROSELY SAYÃO


Recebo muitas mensagens de pais às voltas com a educação dos filhos, e um fenômeno tem me chamado a atenção: a correspondência de pais cujos filhos fazem cursinho ou estão na faculdade tem crescido bastante. O ditado popular "filho criado, trabalho dobrado" agora parece ter aplicação literal.

São várias as questões com as quais os pais têm dificuldades de lidar: um jovem não quer estudar nem trabalhar, outro já prestou vestibular três vezes e quer fazer mais um ano de cursinho porque não desiste de tal universidade, uma jovem que acredita ter feito uma escolha equivocada de curso e agora quer largar tudo, outro que exige um carro porque não quer usar transporte coletivo etc.

Apesar da diversidade de situações, podemos arriscar uma hipótese abrangente: muitos jovens hesitam em entrar na vida adulta. Essa adolescência estendida tem sido construída com o apoio das instituições mais importantes na formação deles: a família e a escola.

Nunca falamos tanto em autonomia quando tratamos da educação dos mais novos. Pais de crianças com menos de cinco anos já autorizam o filho a passar a noite em casa de conhecidos, permitem que escolha suas roupas, brinquedos e até a escola que frequentará. Um pouco mais tarde, em nome da autonomia, muitas crianças são abandonadas à mercê de seus parcos recursos de autocontrole.Isso quer dizer que damos autonomia às crianças e aos adolescentes quando ainda não têm competência para usá-la.

Aliás, nunca é demais lembrar que o processo de construção da autonomia passa, necessariamente, pela heteronomia, ou seja, por um período de submissão a alguns adultos. Parece que essa autonomia significa sair de cena para que o jovem "protagonize" sua vida. Mas é preciso entender que a passagem da heteronomia à autonomia ocorre a partir da adolescência, jamais na infância, e com a devida tutela dos pais e da escola, que devem acompanhar como o jovem administra a liberdade pela qual terá de se responsabilizar.

Tal atitude faz parceria com outra assumida por muitos pais. Eles fazem de tudo para evitar que os filhos sofram, enfrentem as dificuldades da vida, se frustrem, arquem com as responsabilidades sobre seus atos. Ao mesmo tempo, tentam oferecer-lhes a melhor vida social possível.

Isso faz com que os jovens cheguem ao final da adolescência sem autoconfiança, sem orgulho de seus feitos, com enorme dificuldade para perseverar diante das dificuldades e com medo do futuro. Aí dá para entender sua falta de resistência diante da adversidade, dos obstáculos e das exigências do final da adolescência. A opção que surge, então, é estender esse período, evitar a responsabilidade de ser adulto, viver por sua própria conta e risco.

Os pais que querem ajudar esses jovens precisam sair de cena, ainda que tardiamente, para que eles finalmente tenham oportunidade de realizar o potencial que têm.