segunda-feira, 25 de maio de 2009

O tempo e o amor

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Soneto da Fidelidade
Vinicius de Moraes



O Tempo (1643)


Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito.
São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
Por isso os antigos sábiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho.
De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo.
Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas.
Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?
O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.


PADRE ANTONIO VIEIRA



Todo o Sentimento (1987)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu


CHICO BUARQUE/CRISTOVÃO BASTOS




terça-feira, 19 de maio de 2009

O corpo em flagrante movimento

"Eu acreditaria somente em um Deus que soubesse dançar."
(Nietzche)



O corpo na dança se faz um duplo ser

Unidos braço a braço; perna a perna

Torso e ventre e ventre e torso

Unidos corpo e dança, dança e corpo

Casto coito entre o sonho e a realidade.

Ora um ora outro torna-se visível.

João de Jesus Paes Loureiro.



Cia. Experimental Dança Vida

O grupo é dirigido pela psicóloga, bailarina e coreógrafa, Paula Vital Reis, que contou com a parceria de João Andreazzi e Edson Fernandes na concepção da coreografia dos espetáculos.

www.dancavida.org.br



Onde Acabo, Onde Começo?

Essa coreografia foi especialmente criada por João Andreazzi para o Da
nça Vida.
Inspira-se na conexões dos corpos, busca referências nos relacionamentos intra e interpessoais onde acaba ums er e começa o outro, as fronteiras das coisas animadas e não animadas.
Também são inspira~çoes essenciais: os estados e sensações que brotam da suposição de imagina o que está abaixo da superfície, a força da gravidade, a atração e o contato, formando ilhas, continentes, apmpliando e restringindo as fronteiras dos corpos e o ato de sentir onde as vidas se esbarram.
A interação com vídeo arte e o desenho sonoro ampliam as sensações e as dúvidas fundindo-se com a dramaturgia e a coreografia.




Solto

Coregrafia de Edson Fernandes, busca o desprendimento de valores técnicos pré-estabelecidos em uma narrativa simples, onde os intérpretes constroem seu próprio ambiente.
A intenção do coreógrafo é criar um ponto de encontro para questionar a soltura quase ingênua do universo do palhaço, utilizando esse caminho como pretexto de comunicação e aproximação.

O resultado é uma atmosfera poética e descontraída.




Qual a importância da dança na inclusão social?

Paula Vital - A dança possibilita um estado de transformação para fortalecer o SELF (alma ou essência) do indivíduo, facilitando a sua expressividade e criatividade. Promove o contato com a raiz cultural para fortalecer a raiz pessoal, oferecendo um trabalho que não é experimentado dentro do ensino formal nas escolas públicas. Através da realização de produções culturais criadas a partir das necessidades, potencialidades e habilidades dos participantes sempre integrando a cultura e os valores locais a uma cultura contemporânea e aos valores humanos universais, podemos combater uma dissecação da cultura, da terra, do homem, do seu corpo, de sua capacidade de expressão e, portanto, do seu SELF, que vemos acontecer hoje em várias sociedades urbanas.
Além disso, a dança amplia o universo cultural, promove o desenvolvimento do senso de estética artística, aumenta o referencial proprioceptivo, a estimulação neurofisiológica e a capacidade de abstração e cognição do indivíduo.Estimula sentimentos de solidariedade e o fortalecimento de vínculos através de trabalhos de criação e produção em grupo.Traz alegria, magia, esperança e ludicidade para a vida de nossos participantes, a fim de poderem resgatar a capacidade de sonhar. Enfim, se constitui um espaço de expressão e expansão da beleza humana.


Como funciona o processo de criação das coreografias?

Paula Vital - Busco construir uma linguagem própria da experiência. Esta escolha foi feita para ampliar o repertório de movimento dos participantes e manter a conexão com suas raízes, favorecendo a identidade do jovem com a proposta pois ele participa da criação e se reconhece nela.
A pesquisa se desenvolve no sentido de compreender as interfaces entre os diversos elementos da cultura brasileira, urbana e contemporânea e a partir disto, promover uma integração de técnicas de improvisação, dança contemporânea, danças brasileiras e urbanas. Buscamos desenvolver uma linguagem que conserve as raízes culturais, ancestrais e pessoais e, ao mesmo tempo, tenha um diálogo efetivo com a contemporaneidade.
A essência da linguagem reside na inter-relação dos registros emocionais que emergem da memória afetiva do intérprete durante o trabalho com a sua forma de se movimentar e apreender a técnica em seu corpo. Há uma observação da movimentação característica dos jovens e de como a inserção de novas linguagens técnicas da dança, podem influenciar no cotidiano deles, na sua forma de se expressar.


O que é psicoballet?

Paula Vital - É um método psicoterapêutico interdisciplinar grupal criado pela psicóloga clínica Georgina Fariñas Garcia, em Cuba e que usa essencialmente a técnica do ballet como instrumento para a sua realização. É uma modalidade de terapia artística, mas também é uma terapia do movimento. O trabalho com o Psicoballet segue três linhas que se inter-relacionam e se complementam: assistência e atenção a pessoas com deficiências, prevenção, cura, re-habilitação e reeducação.



terça-feira, 12 de maio de 2009

Mania de Explicação

"Que sentido tem a palavra quando só a temos como referencial do mundo"


Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.

As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.


Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.


Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.


Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.


Pouco é menos da metade.


Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.


Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.


Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.


Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.


Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.


Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.


Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.


Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.


Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.


Renúncia é um não que não queria ser ele.


Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.


Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.


Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.


Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.


Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.


Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.


Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.


Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.


Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.


Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.


Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.


Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.


Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.


Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.


Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.


Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.


Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.


Desatino é um desataque de prudência.


Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.


Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.


Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.


Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.


Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.


Desejo é uma boca com sede.


Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.


Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.


Adriana Falcão



sábado, 9 de maio de 2009

Feito louco pelas ruas...


"Hoje eu vou brincar de ser criança
E nessa dança
Quero encontrar você
Distraída, querida
Perdida em muitos sorrisos

Sem nenhuma razão de ser
Olhando o céu

Chutando lata"


Sem Mandamentos


Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
De rostos serenos, de palavras soltas
Eu quero a rua toda parecendo louca
Com gente gritando e se abraçando ao sol
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
Quero ver os sonhos todos nas janelas
Quero ver vocês andando por aí
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
Eu até desculpo o que você falou
Eu quero ver meu coração no seu sorriso
E no olho da tarde a primeira luz
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
Eu quero um carnaval no engarrafamento
E que dez mil estrelas vão riscando o céu
Buscando a sua casa no amanhecer
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
Rasgar a noite escura como um lampião
Eu vou fazer seresta na sua calçada
Eu vou fazer misérias no seu coração
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
Pra escrever a música sem pretensão
Eu quero que as buzinas toquem flauta-doce
E que triunfe a força da imaginação

Oswaldo Montenegro


sexta-feira, 1 de maio de 2009

É a gente que tem de se levar a sério

Todo dia é de viver
Para ser o que for

E ser tudo

Beto Guedes


O sublime, o gênio, a coragem
Dulce Critelli

Não fazia ideia, quando me contaram, de que me sentiria tão tocada vendo e ouvindo Susan Boyle cantar.
Susan Boyle está muito distante dos padrões atuais de aparência. Escocesa de 47 anos, corpo grande de matrona, cabelo desarranjado, vestido antiquado, um rosto longe de qualquer beleza.

Atrás do sonho de se tornar cantora, inscreve-se num programa de calouros na Inglaterra.

O público e os jurados a observavam com deboche e com a certeza explícita de que ouvirão algo tão desairoso quanto o que viam. Mas, quando ela começa a cantar, sua voz era maravilhosa e evocava em todos uma grande comoção.

Com os aplausos, era possível distinguir uma pergunta: como é possível que o feio seja a origem do belo? Como pode o belo pertencer ao feio?

Não da beleza da voz de Susan, mas da contradição entre sua voz e sua aparência irrompeu o que podemos chamar de sublime.
O sublime irrompe sempre assim, do inesperado. É a maravilha que surpreende tocando a alma. Comovendo.

Mas não pudemos permanecer nessa comoção o tempo suficiente para entendermos o que o sublime nos vinha dizer.

O sistema de imediato se apoderou do acontecimento, assim como, tempos atrás, transformou a liberdade evocada pelo movimento hippie numa "calça velha, azul e desbotada".

Logo após sua apresentação, Susan Boyle foi convidada a gravar um disco, ofereceram-lhe um milhão de dólares para posar para uma revista, cercaram-na de entrevistas, sugeriu-se fazer um filme sobre ela.

Susan deixou de ser a mensageira do sublime para se tornar um produto, objeto de consumo. E nossa experiência do sublime foi suspensa. Voltamos à nossa posição de consumidores de um espetáculo. Mera ficção.


Fazia tempo que minha alma enferrujada não vivia um êxtase.

Não se espantava nem estremecia diante de nada, muito menos diante de algo assim tão aparentado ao sagrado.
Essa passagem também me fez lembrar do que o psicólogo James Hillman diz em seu livro "O Código do Ser". Ele tem uma teoria, a do "fruto do carvalho", na qual sugere que cada um de nós tem uma singularidade, uma espécie de gênio que pede para ser vivido.
Segundo ele, a vida nos faz constantes chamados até que esse gênio possa expressar-se. Mas ele pode ser adiado, evitado, não ouvido.

Susan Boyle não parece ter sido pega de surpresa pelo chamado de seu gênio. Parece tê-lo ouvido com muita clareza. Foi fiel a ele, a despeito dos obstáculos que encontrou.

Susan nos trouxe o sublime, pela corajosa obediência ao chamado do seu gênio.
Grande lição!



Senhora das tempestades
João Pereira Coutinho


TODA A gente fala de Susan Boyle. Susan é escocesa. Tem 47 anos.
Desempregada. Solteira. Nunca foi beijada. Cuidou de mãe moribunda até 2007. Vive com um gato. Frequenta a igreja. E o coro da igreja. O aspecto não é promissor. Simplória. Aldeã.

E com demasiados sonhos na cabeça: quando entrou no palco do programa "Britain's Got Talent", mais um desses shows de TV para revelar talentos musicais anônimos, a audiência riu com seus modos um pouco grosseiros.


Um dos membros do júri, em pose condescendente, começou as hostilidades com um "What's your name, darling?", e "darling", no presente contexto, é de um paternalismo arrepiante. Susan Boyle respondeu: o nome e, depois, o nome que ela gostaria de ser na música.
Elaine Paige. Nem mais. A diva dos musicais londrinos que já trabalhou com toda a gente que é gente. Risos mil.

Então soltaram a música. A audiência e o júri prepararam-se para o pior. E o pior veio, mas não exatamente como eles esperavam.


Susan Boyle cantava. Bem. Demais. A música, "I Dreamed a Dream", tema do musical "Les Misérables", era agora servida por capacidade vocal impressionante.
A interpretação de Susan Boyle conferia à canção uma intensidade que fez desabar o teatro em choros e aplausos.


Não acredito apenas em talento natural.
Mesmo Mozart, um caso sem aparente explicação humana, não seria possível sem a família e o meio musical onde nasceu e cresceu, capaz de fazer florescer o que já era puro gênio no pequeno Wolfgang.

Não se iludam, preguiçosos e indolentes: o talento natural pode ser o primeiro passo. Mas ainda existem todos os outros para dar, em anos infindos de trabalho e solidão pessoal.


Susan Boyle é um caso de talento natural evidente. Mas o que verdadeiramente me impressionou em toda essa história não foram apenas os dotes naturais daquela voz.
Também não foi o gritante abismo entre a forma e o conteúdo -ou, se preferirem, o clichê romântico do patinho feio que se revela um cisne.
O que impressionou foi a escolha da canção e as palavras que a canção encerra, um pormenor que parece ter sido ignorado pela humanidade circundante.


"I Dreamed a Dream", uma das raras canções audíveis de "Les Misérables", não é apenas um tema sobre sonhos desfeitos.

É um tema sobre a "sorte", essa terrível palavra que os gregos conheciam bem mas que a nossa modernidade racionalista eliminou do léxico filosófico.

De acordo com a ideologia reinante, o que somos, o que temos e o que fazemos depende unicamente de nós.
A felicidade humana é uma construção pessoal que exige método e esforço.
O que implica, inversamente, que a infelicidade é o resultado da nossa incapacidade para sermos felizes. Haverá pensamento mais perverso?


Não creio. E, no entanto, ele é repetido, dia após dia, numa sociedade que se sente infeliz por não ser feliz, como se a felicidade não fosse também um produto de contingências várias, que escapam ao controle dos homens.
O produto, no fundo, de oportunidades que vieram ou não vieram; da ação ou da inação de terceiros; e das mil vidas que poderíamos ter tido.


Como no tema musical que Susan Boyle canta com a intensidade própria de quem explica a sua biografia, os nossos sonhos não dependem só da nossa autonomia.

Dependem dos "tigres da noite" ou das "tempestades imprevistas" que tantas vezes os envergonham e despedaçam.


Quando a febre passar e Susan Boyle regressar à aldeia e ao anonimato, a memória que deve ficar não é a de um talento escondido que teve os seus 15 minutos, ou 15 horas, ou 15 dias de fama.

O que deve ficar é a lição grandiosa de uma mulher que, na sua tocante simplicidade, disse a cantar o que provavelmente aprendeu com a vida.
Que o inferno ou o paraíso, longe de serem prêmios exclusivamente humanos, repousam também nas mãos do destino.




I love Susan Coyle
Contardo Calligaris


Quando Susan Boyle anunciou que seu sonho era ser cantora como Elaine Page (a inesquecível Grizabella de "Cats", em Londres, em 1981), o júri e a plateia não esconderam seu desdém.
Aí Susan Boyle começou a cantar.
A performance foi propriamente incrível; por um instante, pensei que Boyle estivesse apenas mexendo os lábios enquanto tocava uma gravação: uma voz forte, limpa, segura e expressiva, fiel às emoções que se alternam ao longo das letras.


Também a música que Susan Boyle escolheu (letras de Alain Boublil) contribuiu para transformar sua performance numa espécie de exemplo moral: fala de um sonho antigo, sonhado quando "a esperança falava alto e a vida valia a pena", na época em que "os sonhos são criados, usados e desperdiçados"; mas há "tempestades" que "transformam nossos sonhos em vergonha", e, no fim, em regra, a vida massacra os sonhos que sonhamos. Então, qual é a moral da performance?

Para Coutinho, a moral é que, na vida, não basta se esforçar: é preciso ter sorte.
Entendo assim: Susan, até aqui, não teve sorte, a gente se comove porque é tarde demais ou porque, enfim, o destino a encontrou em sua aldeia perdida.


Para mim, a moral é outra. Não sei se Susan teve sorte ou não.
Cuidar longamente da mãe doente e cantar com os amigos no karaokê da vila é uma vida que pode valer a pena, talvez mais do que uma vida nas luzes da ribalta.
O que me comoveu tem mais a ver com a coragem e a resistência de seu sonho.


Os entrevistadores da CBS perguntaram a Susan Boyle como ela conseguiu se concentrar e cantar, embora percebesse que o júri e a plateia não a levavam a sério e já estavam antecipando a zombaria.
Ela respondeu, com simplicidade: "É a gente que tem de se levar a sério".