segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sonhos sonhos são

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Humberto Gessinger


CREPÚSCULO


Crepúsculo é o mais recente fenômeno entre a garotada. Baseado no best seller homônimo de Stephenie Meyer, o filme reúne elementos que atraem em cheio os espectadores mais jovens: romance e fantasia, além de toques de suspense.

Dirigido por Catherine Hardwicke, Crepúsculo acompanha o romance entre Bella e Edward. Um romance adolescente – já complicado por definição - que ganha toques de dramaticidade por conta dele ser um vampiro.

Tudo ocorre na minúscula e chuvosa cidade de Forks, no Estado norte-americano de Washington, para onde ela se muda para morar com o pai. O tempo sempre nebuloso é terreno perfeito para que os vampiros Cullen, possam viver, incluindo Edward. Quando Bella se muda para lá, a atração entre os protagonistas é inevitável.


Edward é mais ou menos tudo que uma garota sonha (num mundo fantasioso, evidentemente): lindo, protege Bella e ainda tem superpoderes. Tem esse detalhe dele sempre ter de resistir a sugar todo o sangue da amada, mas isso é mero detalhe que Bella tenta superar. Por isso, existe essa tensão entre os dois que nunca passa.

Ao mesmo tempo em que respondem a instintos primitivos relacionados ao amor e ficarem juntos para sempre, Edward tem de superar seus próprios desejos vampirescos e não devorar sua amada. Literalmente. O conflito é transformado em tensão, sofrimento, dor e tudo isso que o amor provoca, mesmo nos seres humanos normais que não brilham como diamantes sob o sol como os vampiros.


ANGELA BRITO


ADORÁVEIS VAMPIROS


O S VAMPIROS estão conosco há séculos, mas eles entraram mesmo na cultura popular jovem no início dos anos 1980, com a onda "dark" e a cena "gótica". Logo, filmes e seriados inventaram o vampiro abstinente ou "vegetariano", que luta contra seus semelhantes e protege os humanos. Com isso, o vampiro deixou de povoar nossos pesadelos e se tornou objeto de sonhos e desejos.

Mas por que especialmente uma adolescente gostaria de amar ou, quem sabe, de ser um vampiro? Para responder, basta ler a maravilhosa saga escrita por Stephenie Meyer, que já conquistou milhões de leitores pelo mundo afora. Os dois primeiros volumes, ""Crepúsculo" e "Lua Nova", já existem em português (ed. Intrínseca); o terceiro ("Eclipse") e o quarto ("Amanhecer") não vão tardar.


Também, na semana passada, estreou no Brasil a versão cinematográfica de "Crepúsculo" (gostei, embora menos do que dos livros).
Enfim, só para lembrar: a saga conta a história de Bella, uma adolescente que se apaixona por Edward, um colega de classe que é diferente dos demais- entre outras coisas, como ela descobre, por ele ser um vampiro.

Claro, os amores entre humanos e vampiros são complicados. Por exemplo, os transportes da paixão podem ser perigosos (em português, ninguém duvidará que, à força de desejar, um dos amantes possa chegar a comer o outro). Isso, sem contar o descompasso pelo qual o vampiro permanecerá jovem para sempre, enquanto o humano envelhecerá. E uma pergunta para a qual não encontrei resposta: será que vampiro e humano podem se reproduzir sexualmente? Qual é o resultado do cruzamento?


Os românticos lerão na saga uma linda história em que o amor ultrapassa diferenças extremas e, por isso mesmo, deve transformar radicalmente os dois amantes. Outros pensarão nas situações em que um amante abnega seu amor e se separa pelo bem do amado ou da amada (se é que esse desprendimento é possível no amor, será que alguém pode aceitar ser abandonado pelo seu próprio bem?
Questão abstrata? Nem tanto: pense nos casos em que um dos dois se descobre portador de uma doença transmissível e potencialmente letal).


Pergunta: Edward tem muito charme, mas por que uma adolescente se apaixonaria por um vampiro e ambicionaria se transformar, ela mesma, em vampiro? Há uma longa lista de razões pelas quais um humano, e sobretudo um adolescente, poderia gostar de ser vampiro, mas a mais óbvia é que os vampiros conseguem crescer, acumular experiência, viver intensamente a eternidade inteira, tudo isso sem ser escravos de um corpo que, além de mortal, é sempre, por assim dizer, excessivo- um pouco asqueroso.


O adolescente, empurrado para a bulimia por seu crescimento desordenado, se fecha na anorexia (ou tenta vomitar o que comeu) porque a perspectiva de ter um dia um corpo adulto lhe inspira repulsa: os corpos adultos são vulgares, com seu cheiro, seus roncos de barriga e de sono, suas bocas abertas mastigando e, na hora do desejo, a vontade de enfiar mãos e órgãos nos suores entre pernas e orifícios, ou mesmo de misturar línguas, salivas e bocas.

Convenhamos: uma mordida no pescoço seria muito mais elegante.
Os lobisomens (que chegam no segundo volume da saga de Meyer e, portanto, estarão no próximo filme) devoram seus alimentos, desmaiam na hora de dormir e estão sempre próximos de perder o controle de si.

O adolescente é um lobisomem que sonha com a compostura dos vampiros, os quais, ao contrário, não comem, não precisam respirar nem dormir, exalam um cheiro e um hálito sublimes porque, gélidos, eles não carburam, não apodrecem, não defecam (aliás, será que urinam?).


Em suma, o vampiro é livre das indignidades dos organismos vivos, ele não precisa daqueles envergonhados "momentos humanos" em que Bella se esconde de Edward para cuidar de seu corpo (carcaça?).
Não sei se Bella se tornará ou não um vampiro (saberemos, imagino, no fim da saga). Mas estou convencido de que muitos (adolescentes e adultos) estão contemplando essa possibilidade.

É que faz bastante tempo que a gente procura um jeito de não ser "apenas" um corpo mortal, vulgar e malcheiroso. Já experimentamos de tudo: desde a fé na existência autônoma da alma até a depilação a laser, o desodorante e o fio dental três vezes por dia. Por que não o vampirismo?


CONTARDO CALLIGARIS



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